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	<title>Janela na web &#187; Jorge Nascimento Rodrigues</title>
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	<description>O seu portal de Management em Português desde 1995 editado por Jorge Nascimento Rodrigues</description>
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		<title>Nick Malkoutzis: &#8220;Ninguém sabe que impacto terá a saída da Grécia do euro&#8221;</title>
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		<pubDate>Fri, 11 May 2012 18:08:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Nascimento Rodrigues</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nick Malkoutzis, editor do jornal "Kathimerini", diz que a Grécia não é a Argentina, pelo que trocar o euro pelo dracma não seria solução, e que uma saída da União Europeia deixaria o país muito isolado regional e internacionalmente.
Entrevista por Jorge Nascimento Rodrigues (c) 2012
Versão em inglês disponível em LisWires.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Um dos medos acerca de uma saída da Grécia do euro é que ninguém sabe mesmo que impacto teria. Aquilo com que muita gente está preocupada é com um colapso do sistema bancário. A que acresce o facto de que, tendo de desvalorizar fortemente a nova moeda, o dracma, a hiperinflação surgiria entretanto e as dificuldades em importar produtos básicos, petróleo e medicamentos disparariam&#8221;, diz Nick Malkoutzis, editor da versão em inglês do jornal grego &#8220;Kathimerini&#8221;, um dos mais influentes, em entrevista. A edição diária em inglês é publicada em parceria com o International Herald Tribune. </strong></p>
<p><a href="http://janelanaweb.com/wp/ficheiros/nickgrecia.jpg"><img src="http://janelanaweb.com/wp/ficheiros/nickgrecia.jpg" alt="Kathimerini deputy editor; photo InsideGreece" title="Nick" width="225" height="225" class="alignleft size-full wp-image-1166" /></a></p>
<p><strong>ENTREVISTA por Jorge Nascimento Rodrigues</strong></p>
<p><strong>P: O Memorando de Entendimento (MoU) com a troika tem mesmo de ser mudado, depois da derrota que sofreu nas urnas?</strong></p>
<p>R: Convém distinguir dois aspetos no MoU &#8211; as reformas estruturais e as metas orçamentais. Quanto às primeiras, elas são vitais. Mas há uma área em que tais reformas estruturais podem ser polémicas, na questão da reforma do mercado laboral. A opinião pública grega não ficou convencida que a abolição dos contratos coletivos de trabalho e a baixa do salário mínimo beneficiarão a população ou o país.</p>
<p><strong>P: Isso quer dizer que as metas orçamentais são a parte que atrai a maior discordância mesmo dos sectores moderados do espectro político?</strong></p>
<p>R: Nesse campo, tem de haver uma flexibilização das exigências da troika. A própria realidade mudou: a troika previa que a economia grega se contrairia 4,5% este ano. Ora, muitos economistas preveem que chegue aos 7%. Isto significa que no espaço de apenas quatro anos, a nossa economia caiu quase 25%. Isto é devastador. E torna difícil alcançar quaisquer metas no rendimento que possam reduzir o défice orçamental. Isto tem de ser reexaminado antes que a nossa economia seja completamente destruída. Não há qualquer forma de cumprir o programa se a capacidade da Grécia pagar a sua dívida está afetada pelo aprofundamento da recessão.</p>
<p><strong>P: Se caminhar para novas eleições em meados de junho, há o risco de uma bancarrota na Grécia, já que coincidiria com a revisão regular feita pela troika ao andamento do plano de resgate?</strong></p>
<p>R:  A troika desbloqueou uma parte da tranche de 5,2 mil milhões de euros, mas este dinheiro é apenas para servir a dívida e não para os gastos públicos. Para além disso, a Grécia parece dispor de dinheiro até junho. Se não obtiver a tranche seguinte, arrisca-se a entrar em bancarrota interna, não podendo pagar as reformas nem os vencimentos dos funcionários públicos. O governo também já deve mais de 6 mil milhões de euros a fornecedores e em reembolsos de impostos. A situação é absolutamente crítica.</p>
<p><em><strong>Não é claro que o eleitorado grego queira que a Grécia saia do euro</strong></em></p>
<p><strong>P: O que a troika irá fazer face à crise política grega em curso?<br />
</strong><br />
R: Suspeito que vai esperar para ver os desenvolvimentos. Talvez se disponha a cobrir algum buraco através de um empréstimo-ponte até que se saiba se temos governo que aceite trabalhar com a troika ou se o plano de resgate chega ao fim da linha.</p>
<p><strong>P: Há o risco da Grécia sair do euro?</strong></p>
<p>R: Se um governo anti-memorando for formado, a partir de novas eleições, então essa possibilidade é real. O partido SYRIZA (da esquerda radical, segundo partido mais votado nas eleições de domingo) e os Gregos Independentes (de direita, formado por ex-membros da Nova Democracia, e que consideram que o memorando é uma invasão, e que foram o quarto partido mais votado) já disseram que não aceitam o memorando nos termos em que está e eu duvido que haja mudanças no texto que possam ser aceitáveis para a troika e que satisfaçam aqueles dois partidos, para poderem reclamar vitória junto dos seus eleitorados.</p>
<p><strong>P: Mas o eleitorado grego quer mesmo sair do euro?</strong></p>
<p>R: Não é claro que queira. Julgo que a mensagem para os políticos dada pelas urnas foi esta: &#8220;trabalhem em conjunto para melhorar os termos do plano de resgate e criem um plano para sairmos da crise&#8221;. É possível que se formos para novas eleições o eleitorado dê uma resposta clara a isso &#8211; ou favorece o campo contra o memorando, ou os partidos que ainda acreditam em permanecer no euro a todo o custo.</p>
<p><strong>P: Quais são as consequências de uma saída do euro?</strong></p>
<p>R: Um dos medos acerca de uma saída da Grécia do euro é que ninguém sabe mesmo que impacto teria. Aquilo com que muita gente está preocupada é com um colapso do sistema bancário. A que acresce o facto de que, tendo de desvalorizar fortemente a nova moeda, o dracma, a hiperinflação surgiria entretanto e as dificuldades em importar produtos básicos, petróleo e medicamentos disparariam.</p>
<p><strong>P: Alguns dizem que a saída do euro, e o regresso a moeda própria, favoreceria a competitividade do país, é possível?<br />
</strong><br />
R: Sim, há alguns, como Nouriel Roubini, que minimizam o lado negativo e argumentam que o impacto seria curto e que em breve a Grécia dinamizaria as suas exportações graças a uma desvalorização do dracma, a nova moeda.</p>
<p><strong>P: E não será, assim, que a economia grega responderá, como alvitram alguns textos dos livros de economia?</strong></p>
<p>R: O problema é que a Grécia não é a Argentina. Não tem exportações prontas à espera de encontrar compradores logo que se tornem mais baratas. A nossa base produtiva e agrícola foi dizimada com o euro, e pode tornar-se bem difícil reviver e inclusive há o problema do acesso ao capital.</p>
<p><strong>P: Uma saída do euro significa uma saída da União Europeia (UE), no contexto atual muito crispado?</strong></p>
<p>R: Não é certo que isso aconteça. É mais um assunto jurídico sobre os tratados e certamente que os advogados acabarão por achar uma solução &#8211; sempre o conseguem!</p>
<p><em><strong>A Rússia poderá ser um aliado vital</strong></em></p>
<p><strong>P: Mas que alianças poderia procurar a Grécia fora da UE?</strong></p>
<p>R: O Partido Comunista Grego, que advoga explicitamente a saída do euro e da UE, argumenta que o nosso país pode olhar para os estados árabes procurando novas alianças, mas isto não é convincente. A realidade é que uma saída deixará a Grécia muito isolada, a não ser que as suas relações com a Turquia e os vizinhos dos Balcãs melhorem significativamente.</p>
<p><strong>P: Um dos aspetos na região é o facto de Chipre, um país membro da zona euro, ter sido financeiramente resgatado pela Rússia. Será um modelo de aliança?</strong></p>
<p>R: A Rússia sempre teve uma relação financeira muito forte com Chipre desde os anos 1990. Muitas das firmas russas estão sediadas em Chipre o que significa que Moscovo tem um enorme incentivo em assegurar que a economia cipriota esteja em boa forma. Ora, a Rússia não tem o mesmo tipo de relacionamento com a Grécia.</p>
<p><strong>P: Em virtude da localização estratégica da Grécia, a Rússia poderá ser um aliado?</strong></p>
<p>R: Quando Kostas Karamanlis foi primeiro-ministro (do governo da Nova Democracia), entre 2004 e 2009, tentou cultivar laços com Vladimir Putin e os dois lados acordaram em trabalhar no oleoduto Burgas (na costa búlgara do mar negro)-Alexandroupoli, mas isso falhou. Certamente que há potencial na cooperação entre os dois países, mas tem de ser sempre equilibrado com a posição da União Europeia (UE) em relação aos acordos com a Moscovo. A Grécia importa muito do gás natural da Rússia, mas a UE manifestou reservas, no passado, em relação ao facto de membros seus se tornarem superdependentes do gás russo. Atualmente o nosso país iniciou o processo de exploração de petróleo e gás &#8211; e, nesse aspeto, talvez venha a haver um interesse russo. Já manifestou interesse em comprar a DEPA, a empresa grega de gás. Certamente que, no caso de uma saída da UE, a Rússia poderá tornar-se um aliado vital.</p>
<p><strong>P: Qual o papel do investimento chinês no porto do Pireu?</strong></p>
<p>R: O relacionamento com os chineses é algo que foi construído ao longo dos anos mais recentes. O investimento da COSCO (China Ocean Shipping Group) no Pireu é significativo e espera-se que aumente. Também houve manifestação de interesse de criar uma plataforma logística perto de Atenas. Mas, tal como com os russos, eles não investirão apenas por investir. Precisam de condições adequadas. E isso significa estabilidade económica e política, e também um ambiente amigo do investidor. A Grécia não dispõe dessa situação, por ora, e, se não a criar, o capital russo e chinês irá para outro lado. Veja o caso de Portugal. Os Chineses também já investiram aí, o que significa que as condições no seu país estão maduras.</p>
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		<title>Pergunta de algibeira: sabe quando Portugal atingiu o pico de endividamento (em relação ao PIB)?</title>
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		<pubDate>Mon, 07 May 2012 10:14:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Nascimento Rodrigues</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O pico do peso da dívida pública no PIB ocorreu no ano fiscal de 1892-1893 quando atingiu 124,3%. Reinava D. Carlos I e ocorreu a última bancarrota da história económica portuguesa até à data.
(No quadro da investigação para a obra "Portugal na Bancarrota").]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>No final do século XIX, Portugal atingiu níveis de sobreendividamento jamais registados. O pico em relação ao produto interno bruto (PIB) ocorreria no ano fiscal de 1892-1893 e iria de braço dado com a declaração de bancarrota parcial. Este processo de sobreendividamento durou várias décadas desde que as contas portuguesas ultrapassaram o nível de 90% do PIB considerado crítico pelos estudos dos investigadores norte-americanos Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff.</strong></p>
<p>A primeira vez que a dívida pública do país ultrapassou o limiar dos 90% do PIB foi no ano fiscal de 1870-1871, ainda reinava Luís I, segundo as séries de Nuno Valério, publicadas em &#8220;The Concise Economic History of Portugal&#8221;. O nível de dívida chegou, então, a 96%.</p>
<p>Nos anos fiscais de 1872-1873 e 1874-1875, baixou para menos de 90% do PIB. Mas logo regressou aos valores acima desse limiar em 1875-1876 e a partir do ano fiscal de 1877-1878 ultrapassou a barreira dos 100%, só regressando abaixo dos 90% no ano fiscal de 1908-1909. Ao todo, 33 anos consecutivos de níveis de dívida superiores a 90% do PIB.</p>
<p>Os níveis mais elevados de dívida ocorreram no reinado de Carlos I, que sucedeu a seu pai Luís, por morte deste em 1889. O pico, até à data, do peso da dívida pública no PIB ocorreu no ano fiscal de 1892-1893, atingindo 124,3%. Os anos fiscais de 1891-1892 e 1893-1894 viram a dívida atingir 119% do PIB. Valores que não voltariam a ser verificados, até à data.</p>
<p>Recorde-se que um incumprimento parcial da dívida soberana acabaria por acontecer em junho de 1892. O decreto acabaria em lei em maio de 1893. A crise de dívida acabaria por só ser resolvida em 1902 com um acordo de reestruturação com os credores externos. A dívida foi convertida num novo empréstimo amortizável a 99 anos com títulos rendendo 3%. O &#8220;corte de cabelo&#8221; (hair cut, na designação técnica) global da dívida foi de 38% e a redução do serviço anual foi de 50%. A partir do ano fiscal de 1903-1904, o peso da dívida vai descendo do patamar dos 100%, e a partir do ano fiscal de 1908-1909 cai abaixo dos 90%. No ano fiscal de 1916-1917 situava-se em 66,6%.</p>
<p>Apesar de 33 anos consecutivos de níveis de dívida pública superiores a 90% do PIB durante o século XIX, os dois especialistas norte-americanos em história das dívidas soberanas, Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, não incluíram o caso português no estudo mais recente que publicaram sobre a correlação entre sobreendividamento e quebra no crescimento económico nos países desenvolvidos desde 1800.</p>
<p>Em relação ao período recente de crise da dívida soberana nos &#8220;periféricos&#8221; da zona euro, os dois autores alegam em &#8220;Debt Overhangs: Past and Present&#8221; (NBER Working Paper nº 18015) que ainda não se verificaram para o caso português cinco anos de níveis de dívida pública acima de 90% do PIB. O primeiro ano em que se verifica a ultrapassagem desse limiar foi em 2010, com a dívida a chegar aos 93,3% do PIB. O último número disponível, para 2011, aponta para 107,8%, segundo dados do Eurostat (de 23 de abril de 2012).</p>
<p>Uma investigação de Gerald Epstein e Pierre Habbard, publicada recentemente, intitulada &#8220;Speculation and Sovereign Debt &#8211; an insidious interaction&#8221;, chama a atenção que, para se ter uma visão mais larga dos riscos, é necessário incluir as garantias explícitas e implícitas assumidas pelos governos no atual quadro de crise financeira. No caso português, essas garantias representavam 30% do PIB, em 2010, o que se deverá somar aos 93,3% relativos à dívida pública naquele ano.</p>
<p>Mais detalhes sobre as bancarrotas portuguesas em &#8220;<a href="http://www.centroatl.pt/titulos/desafios/bancarrota/index.html">Portugal na Bancarrota</a>&#8220;.</p>
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		<title>Sobreendividamento provoca redução no crescimento</title>
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		<pubDate>Mon, 07 May 2012 09:44:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Nascimento Rodrigues</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A dívida pública acima de 90% do PIB provoca nos países desenvolvidos um abrandamento na taxa de crescimento a longo prazo, segundo um novo estudo de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff que já haviam chamado a atenção em 2009 para essa correlação.

]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O mundo desenvolvido substituiu as economias em desenvolvimento e emergentes no sobreendividamento público, com uma dívida pública média acima dos 90% do produto interno bruto (PIB). Os 90% são considerados um limiar crítico que afeta a trajetória de crescimento económico se tais níveis se verificarem pelo menos durante cinco anos, segundo os investigadores norte-americanos Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, autores do livro &#8220;This Time is Different&#8221;. Esta obra alertou, logo em 2009, para o problema cíclico da dívida e das crises de bancarrotas ao longo de um horizonte histórico de oito séculos.  </strong></p>
<p>&#8220;Os riscos de longo prazo de uma dívida pública elevada são reais&#8221;, sublinham, agora, de novo. O problema agrava-se ainda mais, dizem os dois autores, porque uma fatia importante dessa dívida pública é detida por entidades estrangeiras. A zona euro aproxima-se daquele limiar crítico, com um nível de 87,2% em 2011, segundo os últimos dados do Eurostat (23/04/2012).</p>
<p><strong>Abrandamento no crescimento económico<br />
</strong><br />
Num estudo publicado na semana passada pelos dois autores, intitulado &#8220;<a href="http://www.nber.org/papers/w18015">Debt Overhangs: Past and Present</a>&#8221; (NBER Working Paper, nº18015), identificam-se 26 episódios de sobreendividamento público desde 1800 em 22 países desenvolvidos que apontam para duas conclusões dramáticas: o crescimento anual foi em média 1,2% mais baixo do que poderia ser (se não houvesse aquela situação de sobreendividamento) e a duração média de tais episódios foi de 23 anos. No caso português, a situação de sobreendividamento durou 33 anos seguidos, entre 1875 e 1908.</p>
<p>No final desse período médio apontado pelo estudo, o efeito acumulado no PIB foi de cerca de 25% menos do que nos períodos em que não houve sobreendividamento. O que sugere, também, que a relação entre sobreendividamento e crescimento fraco &#8220;não é apenas um fenómeno cíclico&#8221;.</p>
<p>Os dois autores advertem que muitos países enfrentam problemas de sobreendividamento em cinco frentes &#8211; dívida pública, dívida privada (empresas e famílias), dívida externa (tanto pública como privada na mão de entidades estrangeiras) e nos fundos de pensões e de programas de saúde. &#8220;O que sugere que pode ser muito pior do que no passado&#8221;, referem. Sublinham, ainda, que não tomaram em conta, neste estudo, as &#8220;dívidas escondidas&#8221;, sobretudo no sector público.</p>
<p>No entanto, a finalizar, ressalvam que o artigo agora publicado &#8220;não deve ser interpretado como um manifesto para uma desalavancagem rápida da dívida pública num ambiente de crescimento extremamente fraco e de alto nível de desemprego&#8221;.</p>
<p>Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff chamam, ainda, a atenção para o facto de que uma parte da dívida de privados acaba, em períodos de crise, por ser absorvida pelos governos, agravando a dívida pública. O que isto implica em responsabilidades adicionais dos governos, em virtude de garantias diretas e indiretas dadas durante a atual crise financeira, é analisado, recentemente, por Gerald Epstein e Pierre Habbard em &#8220;Speculation and Sovereign Debt &#8211; An Insidious Interaction&#8221;, onde se refere que esse fardo era, em 2010, em média, equivalente a 20 a 30% do PIB nos países da OCDE. Portugal, tal como Espanha e Coreia do Sul, estavam no patamar dos 30% do PIB, mas países como a Irlanda, Luxemburgo, Islândia e China posicionavam-se acima dos 50%. A Irlanda batia mesmo o recorde com 80% do PIB. Se somarmos essas obrigações financeiras adicionais do governo de Dublin à sua dívida pública em 2010, o conjunto atingiu 200% do PIB do país.</p>
<p><strong>Correlação não significa causalidade</strong></p>
<p>Quase em simultâneo com a divulgação do estudo dos dois investigadores norte-americanos, foi publicado na Europa um trabalho académico de Ugo Panizza e Andrea Presbitero onde se contestavam as conclusões de Reinhart e Rogoff.</p>
<p>Os dois investigadores italianos, em &#8220;<a href="http://polis.unipmn.it/pubbl/RePEc/uca/ucapdv/panizza198.pdf">Public debt and Economic Growth: Is there a causal effect</a>&#8221; (MoFIR, working paper, 65, abril 2012), alegam que há que fazer uma distinção entre correlação (que pode ser verificável empiricamente) e causalidade na quebra do crescimento. Panizza e Presbitero alegam que essa quebra pode ser derivada da própria reação das políticas públicas aos níveis de endividamento provocando recessões.</p>
<p>&#8220;Não encontrámos nenhuma evidência que um alto nível de dívida prejudique o futuro crescimento nas economias desenvolvidas. Deste modo, tendo em conta o estado do nosso conhecimento, acreditamos que a ligação entre dívida e crescimento não deve ser usada como argumento de apoio às políticas de consolidação orçamental&#8221;, afirmam, concluindo inclusive que &#8220;as economias desenvolvidas da nossa amostra ainda estão abaixo do limiar específico para cada país a partir do qual a dívida começa a ter um impacto negativo no crescimento&#8221;.</p>
<p><a href="http://janelanaweb.com/novidades/%E2%80%9Cbancarrota-e-possivel-em-paises-ricos%E2%80%9D-carmen-reinhart/">Entrevista a Carmen Reinhart</a> sobre &#8220;This Time is Different&#8221;. </p>
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		<title>Conferência Internacional de Coimbra de abril 2012: Ficar no euro, mudando as regras</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Apr 2012 22:47:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Nascimento Rodrigues</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Economistas europeus discutiram em Coimbra nos dias 18 e 19 de abril o tema "A Zona Euro, de Maastricht a 2020, a crítica de um projeto e de um trajeto". Avançam com um caminho alternativo. Entrevistas aos economistas estrangeiros presentes.


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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Sair do euro? Não. &#8220;Ninguém deve fazer esse favor aos proponentes da austeridade. Estes devem sofrer as consequências da sua estratégia. Permanecendo na zona euro, mantém-se a responsabilidade de alemães, holandeses e finlandeses, se a situação se agravar. Se os periféricos abandonarem o euro sofrerão sozinhos as consequências&#8221;, afirma Peter Wahl, economista alemão, investigador do Weed, um instituto sobre economia mundial, ecologia e desenvolvimento, em Berlim. Wahl, nascido em 1948, é um dos economistas europeus que vai intervir na conferência &#8220;A zona euro, de Maastricht a 2020, a crítica de um projeto e de um trajeto&#8221;, que se realiza na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, na próxima semana. Por coincidência na sala Keynes.</strong></p>
<p>Uma saída do euro por parte de alguns países até poderia ser benéfica se feita &#8220;de um modo ordeiro&#8221;, admite Dominique Plihon, nascido em 1946, professor de economia financeira na Universidade de Paris XIII, e outros dos intervenientes. &#8220;Mas como essa condição não é provavelmente exequível, é preferível prosseguir políticas alternativas dentro da zona euro, baseadas na cooperação&#8221;, acrescenta, dando o mote para um programa alternativo. &#8220;Com uma dívida em euros, não há solução fora do sistema monetário europeu&#8221;, acrescenta, pragmaticamente, Marcello de Cecco, nascido em 1938, professor da Escola Normal de Pisa e da LUISS, uma universidade privada, em Roma, ligada, na sua fundação, à Cofindustria (a federação do patronato italiano). De Cecco seria o mais velho dos intervenientes, não fossem motivos de saúde que o vão reter em Roma.</p>
<p>No entanto, se essa oportunidade não for explorada, &#8220;é muito provável que algumas economias periféricas acabem por ter de sair da moeda única, ainda que o processo de ajustamento possa ser muito intenso&#8221;, admite Alberto Montero Soler, professor de Economia Aplicada da Universidade de Málaga e presidente da Fundação Centro de Estudos Políticos e Sociais. Soler é o benjamim neste grupo, nascido em 1970. Nessas circunstâncias, o italiano De Cecco só vê utilidade se os periféricos &#8220;conseguirem levar a França com eles criando uma zona euro mediterrânica, com uma taxa de câmbio fraca&#8221;. Mas, para a grega Marica Frangakis, nascida em 1950, da direção do Instituto Nicos Poulantzas da Universidade de Atenas, as saídas do euro podem ser inevitáveis: &#8220;Há já uma zona euro a duas velocidades. Se esta situação continua por muito mais tempo, a viabilidade do projeto europeu fica em causa. A saída do euro pode não ser uma solução, mas o resultado final&#8221;.</p>
<p><strong>A culpa é do mercantilismo</strong></p>
<p>Uma das razões endógenas da crise atual da zona euro radica num problema de origem da criação da própria zona monetária &#8211; a sua heterogeneidade. A crise financeira e económica recente sublinhou-a. Hoje é uma constatação feita, recentemente, pelo próprio presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mário Draghi. &#8220;Draghi está certo a 50%. Há problemas estruturais entre os membros da zona euro, e os mais importantes são os desequilíbrios nas balanças correntes. Quer as situações de excedente como as de défice têm de ser reduzidas. E isto significa ajustamentos também na Alemanha, na Áustria, na Holanda e em outros países com excedentes. Os países deficitários, por seu lado, necessitam de impulsos para um crescimento inteligente&#8221;, diz Peter Wahl. &#8220;A atual crise da zona euro não é um problema apenas causado pela dívida dos periféricos. É, sobretudo, um problema dos países do centro, que prosseguiram políticas mercantilistas baseadas na austeridade dos salários&#8221;, afirma, por seu lado, Dominique Plihon.</p>
<p>A questão de que os desequilíbrios não podem ser unilateralmente resolvidos, envolvendo apenas os países deficitários, foi levantada por John Maynard Keynes no início do século XX. Apesar de difícil de &#8220;engolir&#8221; pelos políticos e os eleitorados dos países excedentários, é a única saída &#8220;ordeira&#8221;. &#8220;Não bastam mais transferências orçamentais através dos fundos estruturais. É necessária uma estratégia gémea de transferir uma parte da dívida soberana para o Banco Central Europeu ou o Mecanismo Europeu de Estabilização, além da emissão de euro-obrigações viradas para o crescimento que podem ser emitidas pelo Fundo Europeu de Investimento (FEI). Isto pode ser feito pelo FEI sem qualquer revisão dos Tratados&#8221;, explica o economista britânico Stuart Holland, nascido em 1940, antigo ministro-sombra trabalhista e atualmente professor da Faculdade de Economia de Coimbra. Este fundo foi criado em 1994 como uma parceria público privada que hoje tem como sócio maioritário o Banco Europeu de Investimentos, sendo o seu braço armado para o capital de risco e para o apoio ao financiamento de PME por parte das instituições financeiras europeias.</p>
<p>Holland fala de um &#8220;New Deal&#8221; para a Europa &#8220;transformando excedentes em investimentos, incluindo os excedentes dos bancos centrais das economias emergentes e dos fundos soberanos que pretendam diversificar fora do dólar&#8221;. A solução é a criação de um Tesouro europeu, diz Alberto Montero Soler, que remata: &#8220;A ditadura dos credores, dos rentistas, não é nunca a solução para um problema de dívida generalizada como o que temos. As soluções podem ser específicas, mas todas elas passam por aliviar a carga da dívida para os endividados&#8221;.</p>
<p><strong>A hegemonia alemã</strong></p>
<p>A hegemonia alemã na zona euro é uma das questões que vem à baila por detrás da atual ortodoxia monetária seguida pelo BCE e de ajustamento orçamental inscrito no próprio &#8220;compacto orçamental&#8221; &#8211; a chamada &#8220;regra de ouro&#8221; que se pretende constitucionalizar. Para o alemão Wahl, não há um problema de hegemonia, mas sim uma posição &#8220;das elites alemãs em manter uma posição competitiva à custa dos países com défice&#8221;. Mas para o inglês Holland, o hegemonismo alemão é óbvio: &#8220;Claro que há, e por múltiplas razões pouco reconhecidas, ainda que se devam distinguir os alemães da Alemanha&#8221;.</p>
<p>O italiano De Cecco é, ainda, mais explícito: &#8220;A Alemanha é o hegemonista na Europa, o que quer que aconteça ao compacto orçamental. A situação é diferente desde 1989, desde o colapso da União Soviética e da reunificação alemã. Esses dois acontecimentos tornaram a Alemanha no hegemonista natural na Europa&#8221;. &#8220;Os alemães seguiram um mercantilismo extremo e inteligente, foram capazes de usar a moeda comum, o euro, da forma mais vantajosa&#8221;, acrescenta. Há que tirar-lhes o chapéu.</p>
<p>Mas o hegemonismo gera um paradoxo: &#8220;Quanto mais sucesso tiver a Alemanha na imposição dessas regras, maior a resistência contra elas, minando a própria hegemonia alemã. Nada é nítido num processo complexo como este&#8221;, conclui a grega Marica Frangakis.</p>
<p><strong>Caminho alternativo</strong></p>
<p>. Desvalorização do euro</p>
<p>. Pacote europeu de estímulos à economia</p>
<p>. Novo mandato para o Banco Central Europeu</p>
<p>. Solidariedade interna na zona euro, para além dos fundos estruturais</p>
<p>. Euro-obrigações (eurobonds)</p>
<p>. Orçamento europeu</p>
<p>. Política comum de impostos em relação às empresas e às transações financeiras</p>
<p>. Normas sociais comuns, como um salário mínimo na União Europeia</p>
<p>. Aliviar a carga de dívida dos países periféricos</p>
<p>. Austeridade em relação aos responsáveis pela crise financeira</p>
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		<title>Eric Maskin (Nobel Prize in Economic Sciences 2007): “Austerity must be gradual”</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Apr 2012 09:30:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Nascimento Rodrigues</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“Imposing austerity when economies are in bad shape, does not seem appropriate. The slump will be longer. Austerity must be gradual. So sharply is counterproductive. Budget adjustments must be implemented in the long run, not immediately. You should reduce budgets in good times, not in bad times. Budgets should have been reduced during the good times. But this wasn’t done.” It is the view on fiscal adjustments of Eric Maskin, Nobel Prize in Economic Sciences of 2007, interviewed by Jorge Nascimento Rodrigues in Lisbon. 
(c) Janelanaweb.com /LisWires, 2012]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Hasty budgetary adjustments can prolong depression and increase the risk of a double-dip recession in Europe, the region most affected by sovereign debt crises.</strong> </p>
<p><strong>A CONVERSATION WITH NOBEL ERIC MASKIN by Jorge Nascimento Rodrigues</strong><br />
(Adapted from an Interview for Expresso weekly newspaper in Portugal)<br />
<em>Translation: (c) JPO/LisWires, 2012</em></p>
<p><img src="http://fot.hct.ac.ae/files/2011/04/emaskin.jpg" alt="Eric Maskin, Nobel Prize Economics 2007" /></p>
<p>“I understand the argument that no country can live above its means. But imposing austerity when economies are in bad shape, does not seem appropriate, and it is not what economic theory advises. The slump will be longer. Austerity must be gradual. So sharply is counterproductive,” points Eric Maskin, Prize in Economic Sciences in memory of Alfred Nobel, who came to Lisbon to receive the honorary degree of Doctor (honoris causa) from Universidade Técnica de Lisboa, at the Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG).</p>
<p>“Budget adjustments must be implemented in the long run, not immediately. This increases the risk of a double-dip recession in some countries,” continues this mathematician by passion since high school who became involved with the economy almost accidentally. “I do not think, however, it is likely at this point that the world economy returns to recession. At individual countries, yes. For the world Economy it could happen if Europe blows-up”, stresses Maskin, which is very critical of the pathways taken in recent decades. “Economic theory says that the proper manner is to try to reduce budgets in good times, not when they are bad. Budgets should have been reduced during the good times. But this wasn’t done,” he continues criticizing the blindness during the “bubble” times fueled by Alan Greenspan, then Federal Reserve Chairman, and by trends in Economics saying that financial markets would spontaneously self-regulate. “I think it was a failure to recognize that financial markets are not self-regulated. I criticized Greenspan on his idea of self-regulation. What we saw was the high leverage ratio of the financial system,” recalls Maskin. These leverage ratios of many financial institutions reached extraordinary levels that led to a major financial crisis. That was a failure of government regulation. A “big mistake” at that period, in the words of Eric Maskin. “That can’t be fixed, nowadays, with hasty austerity.”</p>
<p><strong>Maskin on Eurozone flaws</strong><br />
<strong>“the biggest engineering flaw in the Eurozone is the monetary and fiscal integration. The Eurozone did centralized monetary policy, but did nothing to centralize the fiscal policy.”</strong></p>
<p>Even in the case of Europe, Maskin thinks the main problem is not the welfare state. “I think the biggest engineering flaw in the euro zone is not the welfare state, but the monetary and fiscal integration. The euro zone have centralized monetary policy, but did nothing to centralize the fiscal policy. So today, first, we must do the fiscal integration. That includes to make decisions on the welfare state. Obviously, it doesn’t make sense to have seventeen different welfare policies on the ground.”</p>
<p><strong>Accidental Economist</strong></p>
<p>Despite this incursion on macroeconomic policy, Eric Maskin is from microeconomics. When he was awarded the Nobel Prize, he regretted that he hadn’t learned more macroeconomics and economic history. His passion, however, has always been to combine the purity and beauty of mathematics with complex problems involving social choices. His guide and role model was Kenneth Arrow, the creator of the social choice theory, who would win the Nobel Prize in Economics in 1972. He owns him the “accident” of opting for Economics as a way of life. “I took his class on Informational Economics almost by accident. I remember it very clearly. Probably, I could have done some other else.”</p>
<p>During his Ph.D. studies, in late 1970s, he gets to know the then rising trend of “mechanism design theory.” In this area, he would eventually became known by his original contributions, and definitively associated to a theoretical word: “monotonicity” (known as Maskin monotonicity). He believes that “luck” knock on his door in all these chances of his student and Ph.D. studies. “I was exceptionally lucky to have discovered Economics in the first place, to have entered the field at a time when mechanism design was just beginning to bloom, and, most crucially, to have had a succession of remarkable teachers, students, colleagues, and friends in the profession,” he wrote in his Autobiography for the Nobel Prize.</p>
<p>Although difficult for ordinary people to enter these areas, “the mechanism design theory” (in face of certain social goals, procedures and institutions are drawn up to allow to reach them in an optimal mode, and compatible incentives are set up), and game theory to which it is associated, has real public policy applications, for example, in privatizations (where maximizing the revenue isn’t always the most important reason), competition, regulation and control of pollution. And even in the electoral area (where multiple choices could mean wasted votes).</p>
<p>Maskin is particularly critical of everything that favors rent-seeking by economic agents, due to monopolistic or oligopolistic power in the market, “collusion” between agents, regulators and policy makers and the capture of rents by economic agents, benefiting from public policies, even when claimed on behalf of innovation or the support of “strategic” sectors. “Economics teaches us that having too much power concentrated is not good because you have rent-seeking, and you get collusion. My rule is to stimulate competition. You have to have other competitors in the arena. I think it is difficult for governments to play favorites. Governments do not do a good job picking sectors. You can only admit exceptions in times of emergency, in very special circumstances,” he stresses.</p>
<p>To Eric Maskin, the Austrian economist Friedrich Hayek was right on the superiority of the market over planning (and its smoother derivatives) and the English economist John Maynard Keynes on the virtues of economic policy in times of recession and depression.</p>
<p>This year he is teaching “Game Theory and Economic Applications” at Harvard and plans to lecture on social choice theory later this year.</p>
<p><strong>PROFILE | Eric Maskin</strong></p>
<p>He was awarded the Sveriges Riskbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel in 2007 for his contribution to mechanism design theory, along with Leonid Hurwicz (at that time aged 90) and Roger Myerson (a colleague as student).<br />
He developed a passion for math in high school and got his doctorate in applied mathematics at Harvard University. Accidentally attended a class on “information economics” by Kenneth Arrow, who would eventually become his Ph.D. supervisor and his guide and role model. He then met with the mechanism design theory, created by the Russian Leonid Hurwicz, who became a friend.<br />
He did research and taught at the University of Cambridge, UK, at the Massachusetts Institute of Technology, at Harvard University, at the Institute for Advanced Study, in Princeton University, and after the Nobel Prize, he returned to Harvard.<br />
What impressed him the most on the day he knew of the Nobel Prize award was the call from Kenneth Arrow, who told him that he was triply satisfied. The Nobel was awarded to two of his students (Eric Maskin and Roger Myerson) and to an old friend (Leonid Hurwicz, who would die one year after).</p>
<p><strong>Maskin on famous theoretical “battles”</strong><br />
<strong>“In the battle between “Austrians” (Hayek and Von Mises) and “Hungarians” (Oscar Lange and Abba Lerner), in the 1930s and 1940s, in regard to private goods, the first won, with no doubt.”</strong></p>
<p><strong>“But ultimately, Keynes won with regard to the response to recessions and depressions. This was even admitted by Hayek, who didn’t like the policy advocated by Keynes, but admitted its need in certain circumstances.” </strong></p>
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		<title>Dossiê BRICS:  Da Cimeira em Nova Deli à relação de forças no FMI e Banco Mundial</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Apr 2012 09:31:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Nascimento Rodrigues</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Realizou-se dia 29 de março de 2012 na capital da Índia a 4ª cimeira das cinco principais potências emergentes. Economistas dos cinco países envolvidos comentam as expetativas em torno do encontro e depois o seu balanço. Um plano de ação foi aprovado pela primeira vez. Não é, ainda, o momento de macrodecisão do grupo, mas para lá se caminha.


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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>PARTE I: DISCUSSÂO PRÉVIA à CIMEIRA DE NOVA DELHI. Com o tema oficial &#8220;Parceria dos BRICS para a Estabilidade Global, Segurança e Prosperidade&#8221; reúnem-se hoje em Nova Deli os líderes dos cinco países &#8211; Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul &#8211; que dão nome ao acrónimo. Passará esta quarta cimeira do grupo da habitual retórica geopolítica a atos cirúrgicos que pressionem efetivamente o G7 (clube dos sete países desenvolvidos) é a grande interrogação que atravessa as declarações dos economistas e consultores ouvidos pelo Expresso, oriundos dos cinco países envolvidos.</strong></p>
<p>Da agenda constam diversos temas em torno da situação geopolítica e económica global. No plano geopolítico, os analistas e economistas ouvidos salientaram a situação do Médio Oriente (Irão e Síria) e a questão dos lugares permanentes com direito de veto no Conselho de Segurança (onde Brasil, Índia e África do Sul não estão) das Nações Unidas. E, entre os temas económicos, a estratégia comum face à crise da zona euro, a possibilidade de criação de um banco de desenvolvimento, o lançamento de uma aliança entre as bolsas dos cinco países, o estabelecimento de crédito denominado nas divisas de cada um para as transações comerciais entre os cinco, eliminando o dólar, a cooperação na segurança marítima, e a eventual análise da sucessão na presidência do Banco Mundial em junho.</p>
<p>O presidente chinês Hu Jintao levou uma comitiva de 150 membros e a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, foi acompanhada de seis ministros e dois governadores (de Sergipe e da Paraíba).</p>
<p>Para apimentar o ambiente, o The Times of India noticiava a poucas horas de abertura da cimeira que a Índia ultrapassará a China em 2050, depois desta última ultrapassar os Estados Unidos em 2020, segundo o &#8220;Relatório sobre a Riqueza&#8221; da Knight Frank e do Citi Private Bank.</p>
<p>Na primeira quinzena reuniu-se, em Nova Deli, uma pré-cimeira, onde académicos e especialistas de think tanks dos cinco países discutiram e desenvolveram ideias que serão integradas na declaração final dos líderes.</p>
<p><strong>Retórica ou, finalmente, ação?</strong></p>
<p>&#8220;A realização de mais esta cimeira representa uma clara posição política como grupo que mostra que o poder mundial está a mudar e rapidamente, e, sem dúvida, que a grande cobertura mediática vai tornar isto claro para muita gente&#8221;, sublinha-nos Soumodip Sarkar, natural de Jamshedpur &#8211; conhecida como a &#8220;cidade do aço&#8221; da Índia &#8211; e professor do Departamento de Gestão da Universidade de Évora.</p>
<p>Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais a Escola de História e Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, considera que a agenda deste quarto encontro aponta claramente que &#8220;os BRICS estão a institucionalizar, lentamente, os seus laços&#8221;. Stuenkel participou em Nova Deli nas reuniões preparatórias desta cimeira e vê nos temas que vão ser abordados a procura de criação de plataformas de colaboração mais sólidas. É francamente otimista: &#8220;Para além da ideia de um Banco de Desenvolvimento, a iniciativa de um mercado bolsista comum, a eliminação de barreiras ao investimento e a cooperação na segurança marítima, apontam para um plano de regulamentação comum que permita o desenvolvimento do comércio entre os BRICS. Também serão dados passos no sentido do reforço dos laços ao nível da sociedade civil, que são fracos, bem como nas relações entre institutos de investigação e organizações não governamentais, para troca de boas práticas sobre assuntos como a desigualdade, poluição, redução da pobreza, saúde e educação&#8221;.</p>
<p>No entanto, as diferenças entre os cinco são sempre uma pedra no sapato. &#8220;Mais discursos do que decisões&#8221;, teme Ricardo Amorim, consultor brasileiro em São Paulo, que participa no programa semanal &#8220;Manhattan Connection&#8221; transmitido no Brasil pelo canal GloboNews, da Globo. &#8220;Eles tornaram-se cada vez mais poderosos e importantes na economia global, mas há grandes diferenças de interesses entre eles, que tornam difícil que atuem como um bloco coordenado&#8221;, refere Amorim. &#8220;A cimeira vai certamente produzir uma forte retórica em torno da cooperação geopolítica e da coordenação de políticas, mas, para além disto, é pouco provável que as iniciativas anunciadas venham a ter um real impacto no terreno&#8221;, duvida o economista russo Constantin Gurdgiev, professor no Trinity College, em Dublin, na Irlanda. O consultor indiano Ashutosh Sheshabalaya, vai mesmo mais longe &#8211; a janela de oportunidade de afirmação dos BRICS pode fechar-se. &#8220;Não espero nada de extraordinário desta cimeira. As diferenças entre os BRICS são mais profundas do que muita gente julga. Se a crise financeira &#8216;ocidental&#8217; desaparecer, também os BRICS vão por água abaixo&#8221;, diz, sem rendilhados, o autor de &#8220;Made in India&#8221;.</p>
<p><strong>O que cada um quer</strong></p>
<p>A China é, sem dúvida, a potência mais forte neste grupo. É a segunda economia do mundo e a sua capacidade de soft power à escala mundial, apesar da repressão interna e de posições controversas no Conselho de Segurança da ONU, é indiscutível. Os objetivos económicos são os mais transparentes: &#8220;Espero que os BRICS consigam mais consenso na cooperação multilateral e no âmbito da governação económica global, sobretudo alargando a cooperação económica e financeira em terrenos como os swaps de divisas, a abertura dos mercados de capitais e a redução das restrições ao comércio e ao investimento&#8221;, sublinha-nos Xu Hongcai, professor de Finanças em Pequim e diretor no China Center for International Economic Exchanges, um dos mais importantes think tanks chineses.</p>
<p>Soumodip Sarkar admite que um dos propósitos do anfitrião, a Índia, possa ser &#8220;o relaxamento de tensões, sobretudo com a China e a obtenção do apoio desta para que a Índia possa assegurar um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU&#8221;.</p>
<p>O Brasil poderá querer, também, arrefecer as tensões com a China em torno do problema da ainda fraca valorização da moeda chinesa e da &#8220;invasão&#8221; dos produtos manufaturados chineses, sublinha-nos Peter Draper, investigador do South African Institute of International Affairs (SAIIA) e professor na Wits Business School em Joanesburgo. Brasília tem falado contra a &#8220;guerra de divisas&#8221; e os destinatários não são só as políticas de &#8220;alívio quantitativo&#8221; da Reserva Federal norte-americana ou de liquidez do Banco Central Europeu. O falhanço da Ronda de Doha, promovida pela Organização Mundial do Comércio (OMC), prejudica as exportações agrícolas brasileiras, pelo que a procura de apoio político para relançar o tema poderá ser um dos temas da agenda de Dilma Rousseff. A convergência de agenda na OMC entre o Brasil, Índia e a África do Sul, que se têm reunido no âmbito de um grupo que se denomina IBAS (acrónimo para os três países do &#8216;Sul&#8217;), poderá ser um dos resultados desta cimeira, procurando apoio da China e da Rússia.</p>
<p>A Rússia tem curiosamente um pé em cada lado. É membro do G8 (um alargamento a Moscovo pelo grupo dos 7 países desenvolvidos) e fundador dos BRICS, o que torna ambígua a sua estratégia, além de diversos problemas económicos advindos das diferentes especializações dos cinco. O economista russo Constantin Gurdgiev salienta, por exemplo, o problema com o desenvolvimento do comércio baseado nas divisas de cada um: &#8220;Para a Rússia, e também para o Brasil, o comércio em commodities continuará referenciado ao dólar e conseguir realizar transações em volume significativas com base em outras divisas implica grandes riscos nos câmbios para estas duas economias&#8221;.</p>
<p>Coletivamente, como grupo, se concretizarem algumas das medidas em discussão, &#8220;estarão a por em cheque as instituições saídas de Bretton Woods&#8221;, sublinha o sul-africano Peter Draper. Até onde vai, em termos práticos, este objetivo é uma incógnita. Desde a probabilidade de criação no terreno de entidades &#8220;paralelas&#8221;, como a ideia avançada pela Índia de Banco de Desenvolvimento (que abordaremos mais adiante), ou, apenas, como arma de pressão política para obrigar o G7 &#8211; em particular os EUA e a União Europeia &#8211; a ceder posições e a alterar a correlação de forças nessas instituições internacionais, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial (cuja presidência fica vaga em junho) ou a estrutura do Conselho de Segurança das Nações Unidas. &#8220;Continuamos com organizações mundiais cuja estrutura data do fim da 2ª Guerra Mundial. Os ganhadores dessa guerra, apesar de declarações piedosas sobre a necessidade de reformas, não estão dispostos a largar ou partilhar, por exemplo, o poder de veto, e nas instituições financeiras os EUA e a Europa continuam a ter, de longe, a maioria dos votos. A situação só se resolve se esses dois &#8216;blocos&#8217; se dispuserem a realizar as alterações necessárias nos direitos de voto. Devo confessar que não estou otimista&#8221;, diz-nos, por seu lado, Thomas Wheeler, um diplomata sul-africano reformado, também investigador do SAIIA.</p>
<p><strong>Banco de Desenvolvimento, sim ou não?</strong></p>
<p>Tem sido o ponto da agenda mais badalado. Foi iniciativa da Índia, sublinha Ashutosh Sheshabalaya, que refere &#8220;pequenos projetos piloto, como o do Haiti, lançado em conjunto pela Índia, Brasil e África do Sul, abriram espaço para esta ideia, que se torna apelativa se for apoiada pelas enormes reservas de divisas da China&#8221;. Mas Peter Draper sublinha que a China quererá a presidência e que estará a movimentar-se no sentido do renminbi (a moeda chinesa) ser a principal divisa.</p>
<p>O professor sul-africano Daniel Bradlow, da Faculdade de Direito da Universidade de Pretória, é um entusiasta: &#8220;É uma iniciativa com grande potencial. Poderá tornar-se mais do que uma fonte de financiamento para projetos infraestruturais e de desenvolvimento, ampliando a cooperação Sul-Sul e desafiando as abordagens tradicionais ao desenvolvimento, tornando-se uma fonte de pensamento criativo e inovador. Além disso, sugere que os BRICS poderão começar a criar centros alternativos de governação económica aos existentes controlados pelo G7, o que encoraja a uma reforma mais rápida e profunda das instituições atuais&#8221;.</p>
<p>O aspeto de pressão geopolítica é sublinhado por dois outros especialistas. &#8220;Apesar de um dos argumentos importantes para a criação do Banco de Desenvolvimento ser financiar grandes projetos de infraestrutura, sem estar à mercê do financiamento das organizações multilaterais, como o FMI &#8211; onde os BRICS têm ainda fraco poder de voto -, penso que é incontornável pois é outra forma de mostrarem que o poder está a mudar dos países OCDE para os emergentes&#8221;, sublinha o indiano Soumodip Sarkar. O brasileiro Ricardo Amorim vê na iniciativa uma arma geopolítica de pressão: &#8220;É um passo inevitável no caso dos países ricos não permitirem aos BRICS ter uma palavra mais forte no FMI ou no Banco Mundial (BM). Se os BRICS não tiverem mais poder nestas instituições, acabarão por criar as suas próprias, tornando o FMI e o BM irrelevantes&#8221;.</p>
<p>Oliver Stuenkel, por seu lado, acha que poderá ser um instrumento &#8220;potencialmente muito útil para reforçar os laços económicos entre os BRICS&#8221;, pois relações entre o Brasil e a Índia, por exemplo, são ainda fracas.</p>
<p>Mas poderá ficar-se, para já, pela criação de uma equipa de estudo do problema, segundo diplomatas brasileiros afirmaram aos media do país. O presidente do Banco Mundial (BM), o norte-americano Robert Zoellick, tentou &#8220;desdramatizar&#8221; o assunto na quarta-feira considerando a ideia &#8220;um complemento&#8221; à atividade do BM, mas advertiu que criar um banco &#8220;é um empreendimento complicado&#8221;. Sarkar não partilha das advertências de Zoellick: &#8220;Do ponto de vista prático, é claro que é fundamental que o novo banco obtenha boas notações de crédito, e eu penso que o conseguirá&#8221;.</p>
<p>Opinião diametralmente oposta é defendida pelo economista russo Gurdgiev. &#8220;Do meu ponto de vista, o tempo para um banco Sul-Sul ainda não chegou. Simplesmente por haver excedentes para aplicar não é razão para criar um banco, sobretudo porque o Brasil e a Índia continuam a ter défices da balança corrente e o excedente da Rússia está a minguar&#8221;, afirma, para ainda ser mais contundente: &#8220;Em virtude dos enormes níveis de corrupção nas estruturas de decisão dos países dos BRICS é difícil imaginar que este novo corpo internacional escape a esses problemas. Alcançar uma eficiência no investimento e gestão, que não esteja politizada, é difícil. Os governos dos BRICS permanecem excessivamente politizados e tendem a promover agendas regionalistas e autocentradas. Além do mais, os BRICS não têm nem experiência, nem inovação estratégica a oferecer como alternativa viável ao Banco Mundial&#8221;.</p>
<p><strong>Presidência do Banco Mundial</strong></p>
<p>Com o lugar a vagar em junho, era a oportunidade de ouro para um gesto firme dos BRICS, sublinha Peter Draper, apoiando um candidato único. O Banco Mundial entrevistará os candidatos entre 9 e 11 de abril. Os países em desenvolvimento apresentaram já dois candidatos, um da Colômbia (que curiosamente não é apoiado pelo governo do seu país) e uma africana, a ministra das Finanças nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala. Mas, até à data, não houve declaração de apoio a um candidato comum, tal como já havia acontecido aquando da substituição do director-geral do Fundo Monetário Internacional, sublinha-nos Oliver Stuenkel.</p>
<p>&#8220;É absolutamente indefensável que o presidente do Banco Mundial seja sempre um norte-americano e que o diretor-geral do FMI seja um europeu. Mas, realisticamente, as coisas não mudarão, enquanto as economias emergentes e os países em desenvolvimento não atuarem a uma só voz&#8221;, refere o sul-africano Daniel Bradlow, que advoga o apoio à candidatura africana, além do mais protagonizada por uma mulher.</p>
<p>Mas a realidade é outra. &#8220;Não acho que os BRICS consigam ter um candidato comum. As fricções, por exemplo, entre a Índia e a China são fortes&#8221;, diz Ashutosh Sheshabalaya. Mais diplomaticamente Xu Hongai sublinha: &#8220;É uma boa oportunidade pra mudar as regras do jogo e escolher alguém dos BRICS. Mas, a proposta teria certamente a oposição dos Estados Unidos&#8221;.</p>
<p><strong>Envolvimento na crise da zona euro</strong></p>
<p>A crise da dívida nos países &#8220;periféricos&#8221; da zona euro desde 2010 e a evolução da economia europeia para a recaída na recessão em 2012 abriram uma oportunidade para a &#8220;intervenção&#8221; dos BRICS neste continente. Mas o tipo de envolvimento tem sido ambíguo.</p>
<p>A tese oficial é a intervenção indireta através do Fundo Monetário Internacional (FMI). Com uma contrapartida, refere o brasileiro Ricardo Amorim: &#8220;os países ricos terão de dar mais poder de decisão aos emergentes no FMI&#8221;. O professor sul-africano Bradlow é mesmo mais taxativo: &#8220;A Europa deve estar disposta a conceder votos e voz na gestão destas instituições internacionais&#8221;.</p>
<p>O professor indiano Soumodip Sarkar sublinha que não lhe parece que &#8220;a questão da crise europeia seja uma prioridade&#8221; na agenda dos BRICS, servindo mais &#8220;para a China, e até certo ponto para a Índia e o Brasil, a usarem como oportunidade para maior presença no continente através de aquisições&#8221;. Para Xu Hongcai, &#8220;o apoio dos BRICS deve ligar-se a cooperação económica bilateral&#8221;, e, nesse campo, deve haver uma contrapartida: &#8220;Os países desenvolvidos devem ter uma política mais aberta de exportação de produtos de alta tecnologia e de transferência de alta tecnologia para os BRICS no sentido de permitir um desenvolvimento &#8216;verde&#8217; e da economia de baixo carbono&#8221;.</p>
<p>Mas o economista russo Gurdgiev fala a contracorrente: &#8220;Os BRICS devem focalizar-se nas suas próprias economias e ficar de fora de qualquer envolvimento ativo na crise europeia. Devem resistir a todo o custo a qualquer envolvimento direto. Sobretudo devem concentrar-se em investir em empresas privadas europeias e manter-se completamente afastados de aumentar o seu envolvimento em dívida pública da zona euro&#8221;. Em termos concretos, acha que &#8220;para além de atribuírem alguns fundos ao FMI para não ficarem atrás dos empréstimos que o Banco Central Europeu irá fazer aquela instituição, duvido que os BRICS pretendam colocar fundos consideráveis no Mecanismo Europeu de Estabilidade&#8221;.</p>
<p><strong>BRICS &#8211; NÚMEROS &#038; FACTOS</strong></p>
<p># BRICS é um acrónimo para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O acrónimo inicial BRIC foi criado por Jim O&#8217;Neill, da Goldman Sachs, em 2001, e não incluía a África do Sul, que integrou o grupo na terceira cimeira na China, em Sanya, em abril do ano passado.</p>
<p># Em termos globais, os BRICS estendem-se por 26% dos continentes e albergam 42% da população mundial, com a China e a Índia como os dois países mais populosos do mundo. Dominam também 40% do PIB mundial. Deverão ultrapassar o poder económico do G7 em 2035, segundo as previsões de Jim O&#8217;Neill. Na última década foram o principal motor do crescimento económico, responsáveis por 50% do aumento anual do PIB mundial. Este ano, estima-se que representarão 56% desse crescimento. O G7 (grupo dos 7 países ricos) não deverá ser responsável por mais de 9,5%.</p>
<p>#O comércio entre os BRICS é ainda fraco, representando 230 mil milhões de dólares, pouco mais de 1% do comércio internacional de exportações. No entanto está a crescer anualmente 28%. As cimeiras têm apontado no sentido de facilitar os fluxos comerciais. Os bancos centrais dos BRICS assinaram acordos de swap de divisas e fortaleceram a sua cooperação, que se estendeu também aos seus bancos de desenvolvimento. O uso das próprias divisas nas transações pretende diminuir o risco cambial e baixar os custos de transação. No entanto, o facto de os BRICS deterem grandes montantes de reservas em dólares e de alguns serem detentores de enorme exposição aos título do Tesouro norte-americanos limita a margem de manobra de dispensar o dólar. &#8220;A desestabilização frontal do sistema baseado no dólar não é do interesse de ninguém, inclusive dos BRICS&#8221;, afirma o consultor indiano Ashutosh Sheshabalaya.</p>
<p># A primeira cimeira realizaou-se em Ekaterinburgo, na Rússia, em 2009, seguida de Brasília, no Brasil, em 2010, Sanya, na China, em 2011, e agora Nova Deli.</p>
<p># Os cinco países dominam 35% das reservas em divisas mundiais.</p>
<p># Rússia (desde 1945 através da União Soviética) e China (desde 1971) são membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Brasil, Índia e África do Sul têm sido eleitos por mandatos de dois anos para os 10 membros não permanentes. No mandato de 2011-2012 estão presentes África do Sul e Índia (o mandato em que está, também, representado Portugal) e no mandato de 2010-2011 esteve o Brasil.</p>
<p># Há um mosaico de especializações internacionais: A Índia é cada vez mais um exportador de serviços e de investimento, incluindo para os seus parceiros dos BRICS, e até de executivos de topo (o presidente do Citigroup, Vikram Pandit, o provável próximo CEO do Deutsche Bank, Anshu Jain, e o provável sucessor de Warren Buffett à frente da Hathaway, Ajit Jain); o Brasil é um exportador de bens agrícolas, tal como a África do Sul, ainda que esta em menor grau; a Rússia, o Brasil e a África do Sul são exportadores de uma diversidade de commodities; a China é cada vez mais o principal fornecedor de produtos manufacturados e o principal cliente de commodities.</p>
<p><strong>PARTE II &#8211; BALANÇO DA CIMEIRA. &#8220;Foi notável a hostilidade visível nos media ocidentais, prévia a esta cimeira. Quase todas as opiniões e comentadores sublinharam que os BRICS não têm futuro e que estariam longe de encontrar um denominador comum&#8221;, refere-nos Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais na Escola de História e Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. Stuenkel participou nas reuniões prévias preparatórias da cimeira de Nova Deli, que se realizou na semana anterior ao encontro, e veio otimista sobre a dinâmica criada, ao fim de três anos depois da primeira cimeira na Rússia.</strong></p>
<p>Apesar do coro de críticas a ocidente, ficou clara a determinação dos BRICS, diz o economista indiano Soumodip Sarkar, professor na Universidade de Évora, que sublinha: &#8220;A cimeira teve um impacto nos media globais onde os BRICS mostraram ao mundo que o poder mudou. Devemos esperar, também, que estes países se tornem mais determinados nos assuntos internacionais&#8221;.</p>
<p><strong>Um plano de ação</strong></p>
<p>Uma das novidades aprovadas, agora, foi o &#8220;Plano de Ação de Deli&#8221;, com 17 pontos, que aponta, como refere o professor da FGV, para &#8220;um reforço dos laços a todos os níveis entre os cinco países&#8221;. As reuniões multilaterais a nível ministerial e de especialistas passam a ser regulares em diversas áreas e as consultas entre diplomatas nas missões permanentes dos BRICS em Nova Iorque, Viena e Genebra, cidades onde estão sediadas importantes organizações internacionais, serão acionadas sempre que necessário. A este nível, o Plano de Ação prevê o reforço das relações nas questões de energia e académicas.</p>
<p>Mas é na área das relações comerciais e financeiras que esta cimeira deu um passo em frente, consideram os especialistas ouvidos pelo Expresso. &#8220;Os líderes dos BRICS reconheceram em profundidade o significado de dar passos pragmáticos para promover a cooperação bilateral no comércio, no investimento e na área financeira&#8221;, sublinha o economista chinês Xu Hongcai, professor de Finanças em Pequim e diretor no China Center for International Economic Exchanges, um dos mais importantes think tanks chineses. Ele destaca os mecanismos que vão ser montados entre bancos centrais, entre bancos ligados ao comércio externo e ao desenvolvimento, e entre as bolsas respetivas. O ponto 18 do comunicado final de Deli refere a conclusão de um acordo de extensão das facilidades de crédito em divisas dos cinco através de um mecanismo de cooperação bancária e outro acordo para um mecanismo de confirmação de cartas de crédito entre os bancos de comércio externo e de desenvolvimento dos cinco países. Por outro lado, o ponto 47 refere o estabelecimento de uma aliança entre as bolsas dos BRICS, uma iniciativa conjunta das bolsas de valores respetivas.</p>
<p><strong>Principais vítimas: Zona euro e Japão</strong></p>
<p>&#8220;As decisões 18 e 47 do comunicado são os resultados mais significativos e têm um potencial claro de reorientar os fluxos financeiros e comerciais mundiais para as relações Sul-Sul, ou, pelo menos, entre os BRICS. As implicações destas decisões vão, para além, do simples comércio bilateral. Se tiverem sucesso, no longo prazo, reduzirão os fluxos de capital para vários países desenvolvidos, sobretudo regiões com fraco crescimento e com crédito deteriorado, nomeadamente na zona euro e Japão&#8221;, afirma, por seu lado, o economista russo Constantin Gurdgiev, professor no Trinity College, em Dublin. Gurdgiev vai mesmo mais longe no impacto geoeconómico desta decisão dos BRICS: &#8220;Orientar mais comércio para as relações entre os BRICS e reter os excedentes comerciais nas divisas deles vai implicar uma maior marginalização da Europa e do Japão&#8221;.</p>
<p>A proposta da Índia de criação de um Banco de Desenvolvimento ficou de ser estudada. Para Soumodip Sarkar, essa será a medida de maior impacto, muito mais do que as relacionadas com o comércio, atrás referidas, sobre as quais o professor de Évora duvida quanto à sua intensidade real na prática. Oliver Stuenkel garante &#8220;que o Banco surgirá no próximo ano durante a cimeira dos BRICS na África do Sul&#8221;. Em contraste, Constantin Gurdgiev acha pouco provável que esse banco venha a conhecer a luz do sol. Por razões geopolíticas: &#8220;É claro para mim que, atualmente, o Brasil, e em menor grau a Rússia e a Índia, não vêm grande possibilidade de concretização de um tal tipo de banco financiado diretamente pelos BRICS. Uma instituição desse tipo seria, naturalmente, dominada pelos excedentes da balança corrente da China, criando uma situação em que decisões politizadas poderão favorecer a estratégia de captura global de cadeias de fornecimento de commodities pela China&#8221;, frisa o economista russo.</p>
<p><strong>A questão das quotas no FMI</strong></p>
<p>Outra dimensão importante da cimeira situa-se no plano da política internacional. Apesar de uma insistência nas questões de governação das instituições internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, a cimeira não decidiu apoiar um candidato comum à presidência deste último, tal como já acontecera com o caso do FMI. Sobre o FMI, Xu Hongcai é crítico do &#8220;ritmo de ajustamento das quotas&#8221;. Entretanto, a diretora-geral do FMI respondeu, esta semana, às críticas afirmando ao Knowledge Wharton/Paris Tech Review, que o processo de reforma das quotas, que estará precisamente &#8220;a meio&#8221; caminho, levará a uma deslocação de 6% para as economias emergentes e em desenvolvimento. &#8220;Os BRIC estarão claramente entre os recipientes destas quotas adicionais, e em virtude dessa reforma todos eles estarão entre os 10 principais países desta instituição em termos de quotas&#8221;, frisou Christine Lagarde.</p>
<p>No campo do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a pressão é clara. &#8220;Os BRICS desejam reformar as Nações Unidas. A China e a Rússia apoiam que o Brasil, Índia e África do Sul desempenhem um papel maior na ONU&#8221;, refere Xu Hongcai.</p>
<p>Um dos pontos que foi sublinhado respeita às relações entre a China e a Índia. &#8220;Os problemas bilaterais entre os dois países são encarados como a maior vulnerabilidade no conceito dos BRICS. Mas é surpreendente como ambas se relacionaram bem&#8221;, diz Stuenkel. Soumodip Sarkar sublinha, por seu lado, &#8220;o que se passou nos bastidores em particular entre a China e a Índia e entre o Brasil e a Índia&#8221;. O professor de Évora salienta que as tensões entre os dois vizinhos asiáticos &#8220;arrefeceram, e isso pode ser uma medida de crescente confiança que poderá levar a mais investimento da China na Índia&#8221;. Entre o Brasil e a Índia assinou-se um acordo que permitirá a investigadores brasileiros investigar nas universidades indianas.</p>
<p>A posição sobre a situação na Síria parece refletir a postura da Rússia na guerra civil em curso e quanto ao Irão os BRICS afirmaram, em conjunto, que não se pode permitir que a situação evolua para um conflito, sublinha, a concluir, Oliver Stuenkel.</p>
<p><strong>PARTE III: Eleição do presidente do Banco Mundial (Semana de 16-19 de abril). Moscovo deu a mão a Washington DC e Pequim vê virtualidades na nomeação de um descendente asiático. Provavelmente será a última que o &#8220;Ocidente&#8221; conseguirá ganhar. Daqui a cinco anos, as economias emergentes esperam ter alterado a correlação de forças.<br />
</strong></p>
<p>Jim Young Kim, o norte-americano de ascendência sul-coreana, indicado pelo presidente Barack Obama, foi escolhido presidente do Banco Mundial para os próximos cinco anos pelos 25 membros da direção deste organismo internacional. Mas não foi por unanimidade. &#8220;É a primeira vez na história do Banco Mundial que uma indicação dos Estados Unidos é contestada. Isto mostra claramente a perda de hegemonia da superpotência&#8221;, afirma ao Expresso André Roberto Martin, um professor de geografia política da Universidade de São Paulo.</p>
<p>Kim substitui outro norte-americano, Robert Zoellick, dentro da &#8220;tradição&#8221; de que cabe aos Estados Unidos dominar o banco e a um europeu liderar o Fundo Monetário Internacional (FMI). Esta &#8220;regra&#8221; informal que vigora há sete décadas ainda não foi, desta vez, quebrada, apesar das fortes movimentações dos africanos para impor o seu candidato, a ministra das Finanças nigeriana, Ngozi Okonjo-Iweala. Daniel Bradlow, da Universidade de Pretória, sublinha-nos a importância da unidade africana nesta questão, incentivada pela África do Sul (hoje em dia membro do &#8220;clube&#8221; que dá pelo acrónimo de BRICS &#8211; acrónimo para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A ministra africana chegou a recolher o apoio de 39 quadros do Banco Mundial, de centenas de académicos, e até de jornais &#8220;ocidentais&#8221; influentes, como o &#8220;Financial Times&#8221; e o &#8220;The Economist&#8221;. Entre as quatro grandes economias emergentes, o Brasil deu um passo político claro ao declarar o apoio à ministra nigeriana e ao romper com os EUA nesta matéria. &#8220;No entanto, percebeu-se logo que dificilmente a aposta sairia vitoriosa ao enfrentar o candidato apoiado pelos americanos&#8221;, confessa André Martin.</p>
<p><em><strong>A última vez?</strong></em></p>
<p>Alguns analistas admitem que seja a última vez que Washington DC consegue a proeza. &#8220;Kim e Lagarde são provavelmente os últimos a ser impostos pelos EUA e pela Europa. Daqui a quatro a cinco anos quando os seus sucessores forem escolhidos, estaremos a viver num mundo bem diferente. A candidatura de Ngozi Okonjo-Iweala dá-nos uma primeira ideia de como a seleção futura [nestes cargos] será feita&#8221;, diz-nos Oliver Stuenkel, professor da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, que tem participado, por parte do Brasil, nas reuniões preparatórias das cimeiras dos BRICS.</p>
<p>Kim, que veio com a família da Coreia do Sul para os EUA com apenas cinco anos, é um médico de 52 anos pioneiro no tratamento da SIDA e da tuberculose nos países pobres e foi uma escolha de Obama que surpreendeu. O economista russo Constantin Gurdgiev, professor em Dublin, acha que foi &#8220;uma decisão muito inteligente de Obama&#8221;. Kim é desde 2009 presidente do Dartmouth College, no New Hampshire. A organização global contra a pobreza Oxfam considera-o &#8220;um herói do desenvolvimento&#8221;, ainda que deplore a forma de escolha ainda vigor no Banco Mundial, que acaba por retirar mérito aos candidatos em favor da correlação de forças geopolítica. Xu Hongcai, diretor do mais importante think tank chinês, considera que &#8220;são boas notícias&#8221;. Este professor na Universidade de Pequim diz ao Expresso que é positivo o fato de Kim &#8220;não ser um político, ter conhecimento e experiência de gestão, e inclusive ser de ascendência asiática&#8221;. &#8220;Algo mudou. Estou inclinado a pensar que é um novo começo histórico&#8221;, conclui.</p>
<p><strong>Rússia roeu a corda</strong></p>
<p>O grupo dos BRICS acabou por não ter uma posição comum sobre os candidatos ao cargo na sua última cimeira no princípio deste mês. A Rússia acabou por tomar uma decisão unilateral de apoio ao candidato de Obama sem pré-aviso oficial aos restantes membros do &#8220;clube&#8221;, deploraram diplomatas indianos, e contra a vontade expressa do Brasil que pretendia uma posição coordenada. &#8220;A Rússia não tem a certeza em que campo está&#8221;, ironiza Stuenkel. E Michael Pettis, um americano professor em Pequim, diz-nos que &#8220;os países em desenvolvimento têm objetivos e interesses muito diferentes&#8221; e que é &#8220;um erro achar que [os BRIC] queiram o mesmo para o sistema de governação mundial&#8221;. Pelo que não se admirou com o que voltou a acontecer agora.</p>
<p>A mesma cena aconteceu aquando da escolha para a liderança do FMI, depois da saída, inesperada, de Strauss-Kahn. Os BRICS não conseguiram apoiar o candidato mexicano Agustín Carstens, então, em virtude da relutância do Brasil. Constantin Gurdgiev considera que os BRICS &#8211; e particularmente a China e a Rússia &#8211; vão concentrar-se na alteração por &#8220;dentro&#8221; da correlação de forças, alavancando a reforma do sistema de quotas e de votação.</p>
<p>Por outro lado, os BRICS começam a ter uma agenda distinta no que toca ao financiamento do desenvolvimento mundial. &#8220;Eles estão a procurar construir um banco alternativo ao Banco Mundial e livrar-se do domínio da moeda norte-americana nas transações internacionais, o que significa, pelo volume de reservas que dispõem, que o Banco Mundial e o FMI já não são tão cruciais como outrora para alavancar o desenvolvimento&#8221;, conclui André Martin.</p>
<p><strong>PARTE IV: O desfasamento do FMI e do Banco Mundial. Economistas dos países emergentes, da Europa e Estados Unidos falam do abismo entre a realidade e a relação de forças no FMI e no Banco Mundial e discutem a tática de “mudar por dentro” estas organizações. A Europa é o bloco mais em cheque.<br />
</strong></p>
<p>A economia mundial sofreu uma mudança colossal nos últimos 20 anos. O peso das principais economias avançadas no produto interno bruto (PIB) mundial diminui expressivamente de 63% para 45%. </p>
<p>Este afundamento da importância económica da então denominada “tríade” – Estados Unidos, Europa e Japão – foi compensado pela ascensão fulgurante das quatro novas potências emergentes, batizadas por Jim O’Neill, da Goldman Sachs, com o acrónimo BRIC (para Brasil, Rússia, Índia e China), que saltaram de 15% para cerca de 27% do PIB mundial, e pelo disparo do crescimento em grande parte do antigo Terceiro Mundo. A própria expressão “Terceiro Mundo” lamçada há quase 60 anos por Alfred Sauvy no jornal francês L&#8217;Observateur (edição de 14 agosto de 1952) caiu em desuso.</p>
<p>No plano geopolítico, a transformação foi, também, radical. Avaliando o peso geopolítico, com base em oito indicadores (que vão muito além do peso no PIB, que assinalámos acima), o momento de viragem ocorreu no final da década de 1990. </p>
<p>O estudo de dois investigadores portugueses, Fernando Fonseca e Fernando Gonçalves, para o período entre 1994 e 2003 revela que o G7 (as sete economias mais avançadas do mundo) perdeu 31 pontos no seu peso geopolítico e os BRIC ganharam 36 pontos. Nessa década, a China subiu ao segundo lugar no mapa geopolítico ocupando o lugar da antiga União Soviética que implodira. O grupo que mais perdeu peso geopolítico foi a União Europeia.</p>
<p>Uma outra mudança surpreendente é o papel exportador de capital de alguns dos gigantes emergentes, com destaque para a China que é, atualmente, o segundo maior exportador de capital do mundo e o maior credor da dívida norte-americana. Segundo o &#8220;Global Financial Stability Report&#8221; do FMI, entre os 13 maiores exportadores de capital em 2011 (últimos dados disponíveis divulgados em abril de 2012) dois são BRICS (China, com 12,5% do total mundial de capital exportado; e Rússia, com 6,3%), outros dois são “tigres” do Pacífico (Singapura e Taiwan) e quatro são exportadores de petróleo do Médio Oriente (Arábia Saudita, Kuwait, Irão e Qatar). No conjunto detêm 44,8% da exportação mundial de capitais. Nessa lista, a Alemanha alcançou o primeiro lugar em 2011, com 12,8%, ultrapassando a China por uma unha negra, e o Japão é o quarto (com 7,5%) tendo sido ultrapassado pela Arábia Saudita. Em relação a 2010, é de notar que houve uma redução muito significativa do peso relativo na exportação de capitais por parte da China (desceu de 20,1% para 12,5%) e do Japão (desceu de 12,9% para 7,5%).</p>
<p>A China dispõe, também, das maiores reservas cambiais do mundo, com 3305 mil milhões de dólares, muito à frente do Japão que é o número dois, com 1288 mil milhões. No conjunto, os BRICS dispõem de 4500 mil milhões de dólares de reservas cambiais, quase 5 vezes mais do que as de todo o sistema da zona euro.</p>
<p>No entanto, esta contabilidade trivial não teve tradução, ainda, nas duas organizações financeiras mundiais saídas dos acordos de Bretton Woods em 1944, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM). </p>
<p><em><strong>Instituições “excessivamente ocidentalizadas”</strong></em></p>
<p>Os BRICS detêm menos de 12% dos direitos de voto no FMI e os EUA e a Europa continuam a ter o “privilégio exorbitante” de repartir as chefias das duas instituições. As propostas em cima da mesa, para a 14ª revisão de quotas na instituição que se iniciou em 2010, descem ligeiramente o peso no FMI da Europa (de 31,92% para 30,3%) e dos EUA (de 17,69% para 17,40%) e aumentam a percentagem dos BRICS nas quotas de 11,52% para 15,24%. O desajustamento permanecerá.</p>
<p>“O panorama geopolítico está em mudança. O FMI e o BM estão ainda atrasados para reconhecer a nova realidade e se ajustarem em termos de liderança e de regras”, resume Mark Thoma, professor na Universidade do Oregon, e autor de um dos blogues de referência norte-americanos, Economist’s View. E o ritmo de mudança que se verifica dentro dessas duas instituições é frustrante: “não satisfaz as expectativas dos países em crescimento”, afirma Hugo Dixon, editor do Reuters Breakingviews, em Londres. As duas instituições são “excessivamente ocidentalizadas” e “a sua forma de decidir está ainda controlada de um modo neocolonialista pelos EUA e por uma vagarosa Europa”, acentua-nos Shaun Rein, outro norte-americano que criou em Xangai a China Market Research nos anos 1990 e que é autor do livro “The End of Cheap China”. Por seu lado, Jayati Ghosh, professora de Economia na Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Deli, e fundadora da Fundação de Investigação Económica, é mesmo mais radical: “Essas duas instituições têm três défices: de relevância, de credibilidade e de confiança. Sem dúvida que a atual distribuição de quotas e de votos não faz sentido. Mas, para mim, a ideologia dessas duas organizações é o problema real”.</p>
<p><em><strong>O problema chama-se Europa</strong></em></p>
<p>O dedo é particularmente apontado à Europa. “O excessivo poder da Europa é claramente o problema. A zona euro, por exemplo, deveria ter um só lugar conjunto na direção e deveria haver um realinhamento de votos”, sublinha Danny Bradlow, professor da Universidade de Pretória, na África do Sul. A que acresce uma dimensão bem atual: “A Europa é hoje o principal utilizador do dinheiro do FMI, o poder que retém não é sustentável”, chama a atenção Hugo Dixon. Na realidade, quase 2/3 dos compromissos assumidos pelo FMI no âmbito de programas de financiamento estão nos três países da zona euro com planos de resgate. São 65,6 mil milhões de euros dos 123,8 mil milhões que a instituição tem atualmente aplicados no mundo.</p>
<p>Muitos analistas acusam inclusive de ser a zona euro em apuros o destinatário da iniciativa de Christine Lagarde de pegar na sua malinha de mão chique para recolher financiamento para uma “almofada” de intervenção. Conseguiu 430 mil milhões de dólares (cerca de 325 mil milhões de euros), graças a uma larga fatia de 200 mil milhões de dólares por parte da própria zona euro e a uma contribuição generosa do Japão com um montante de 60 mil milhões. Os BRIC são citados em pé de página no comunicado sobre a recolha de fundos juntamente com “outros” com um contributo pouco superior ao japonês. </p>
<p>Os críticos apontam o dedo ao FMI de estar a ignorar a “Primavera Árabe” e nomeadamente o Egito, cuja probabilidade de bancarrota tem subido, a ponto de ser um dos dez candidatos no mundo a um evento desse tipo. Fora da Europa, escandaliza que o programa para a Grécia seja 23 vezes superior à própria contribuição de Atenas para o Fundo.</p>
<p>Shaun Rein é mesmo mais cáustico: “A inabilidade da Europa em resolver os seus próprios problemas internos prova que não pode querer ensinar o resto do mundo. São precisas outras visões para ajudar a resolver os problemas atuais”. E Oliver Stuenkel, professor na Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo, adverte os europeus: “Quanto mais tempo a Europa se recusar, mais perderá o próprio goodwill de que ainda dispõe entre as potências emergentes”.</p>
<p><em><strong>Mudar por dentro</strong></em></p>
<p>A “tática” a seguir dentro destas organizações provoca divergências entre os economistas ouvidos. Shaun Rein afirma que essa é a forma de agir da China. “Ter a China e a Índia com mais poder dentro do atual sistema, em vez de querer criar um outro sistema paralelo, é o mais aconselhável para a segurança mundial”, acrescenta Rein. Oliver Stuenkel, que tem participado, pelo Brasil, nas reuniões preparatórias das cimeiras dos BRICS, considera tal tática “crescentemente eficaz”. </p>
<p>Mark Thoma, por seu lado, resume assim a tática: “Eu julgo que a mudança por dentro é necessária e possível, mas tem de ser dirigida pela pressão de fora. Esta última é a força motivadora fundamental”. O professor francês Dominique Plihon, um dos líderes dos manifesto europeu dos “Economistas Aterrados”, vai no mesmo sentido: “Duas estratégias devem ser complementares – a reforma por dentro, por um lado, e a criação de novas instituições regionais, por outro, como está em curso na América Latina e na Ásia”. </p>
<p>A pressão por fora não é apenas de discursos e resoluções das cimeiras dos BRICS. “A própria proposta sobre um Banco dos BRICS ou as medidas alternativas no campo da política monetária – ainda que não totalmente separadas do FMI – sugerem que, a dado momento, se possam ter de equacionar estruturas alternativas”, afirma Bradlow. Curiosamente, Dirk Elsner, consultor alemão da INNOVECS e autor do blogue de economia Blik Log, não acredita nessa mudança por dentro: “Essa estratégia cimenta a estrutura de poder”.</p>
<p>Um das linhas de “mudança por dentro” diz respeito à mudança do cabaz de divisas que suporta a unidade de conta do FMI, os direitos de saque especiais (DSE, SDR no acrónimo em inglês). Esse cabaz atualmente alberga o dólar, o euro, o iene e a libra. Stuenkel considera a inclusão da divisa chinesa, o yuan (ou renminbi), no cabaz como “um passo fundamental”. Mas Dirk Elsner acha o mecanismo dos DSE “demasiado opaco” para se transformar num sistema fiável. E a indiana Jayati Ghosh vai mais longe, acha que “uma solução tecnocrática não vai funcionar”. E explica: “Uma solução como o ‘bancor’ – uma divisa mundial &#8211; proposta por Keynes nos anos 1940 ou usar os DSE como divisa global falhará se não for apoiada pelos países. A divisa internacional é um problema de poder internacional, não é um problema técnico”. </p>
<p><em><strong>O calcanhar de Aquiles dos BRICS</strong></em></p>
<p>Para os entrevistados, a europeia Christine Lagarde e o norte-americano Jim Yong Kim são os últimos a ser eleitos pelo método tradicional de partilha do posto mais elevado entre a Europa e os EUA. De qualquer modo, pela primeira vez, houve o que alguns designam por “eleição competitiva” no FMI. </p>
<p>O candidato apoiado pelos EUA foi eleito, mas contra uma oponente, Ngozi Okonjo-Iweala, a ministra das Finanças da Nigéria, apoiada por África em bloco e expressamente pelo Brasil. “As futuras eleições [daqui a quatro e a cinco anos no FMI e no Banco Mundial] terão de seguir este padrão”, garante Bradlow. Por ora, nomeadamente os BRICS, dividiram-se, com alguns a apostar ainda no cavalo americano, como o fez expressamente a Rússia. </p>
<p>Aliás, sublinha Dominique Plihon, o entendimento entre os BRICS é ainda muito limitado. Esse parece ser o seu calcanhar de Aquiles. Uma das linhas de fratura, sublinhou esta semana Robert D. Kaplan, jornalista da revista norte-americana “Atlantic Monthly”, é a nova rivalidade geopolítica entre a China e a Índia que se alimenta das possibilidades trazidas pela alta tecnologia. </p>
<p>E Michael Pettis, professor na Guanghua School of Management da Universidade de Pequim e autor do blogue de referência “China Financial Markets”, refere-nos: “É um erro assumir que os quatro BRIC querem o mesmo em termos de sistema global de governação. Há interesses de base diferentes: o Brasil e a Rússia querem preços altos das commodities, a China e a Índia querem-nos baratos. O Brasil anda em guerra contra o que chama de ‘guerras de divisas’, a China nem quer ouvir falar disso”.</p>
<p><em><strong>O fim do “Consenso de Washington”?</strong></em></p>
<p>Estará a verificar-se alguma mudança na orientação destas instituições, foi a pergunta final que colocámos aos entrevistados. </p>
<p>Mark Thoma acha que o FMI e o BM têm aprendido com os erros. Os erros cometidos pelo FMI face às crises sucessivas dos anos 1990 na Europa de Leste, na América Latina e na Ásia quase lhe ditaram uma sentença de morte. O volume anual de empréstimos do FMI caiu brutalmente de cerca de 97 mil milhões de dólares em 2003 para 9,5 mil milhões em 2007. </p>
<p>Muitas das vítimas dessas crises globais acabaram por levantar a cabeça, não em virtude dos programas do FMI, mas graças ao disparo nos preços das commodities que permitiu aos países em desenvolvimento exportadores acumular reservas em divisas, que, em 2008, atingiram o triplo das da “tríade” reunidas. Muitos países do “Sul”, como o Brasil, Argentina, Uruguai, Indonésia e Filipinas reembolsaram antecipadamente o FMI e esvaziaram o seu papel. O Fundo foi, ironicamente, salvo do gongue final pela crise das dívidas soberanas na zona euro a partir de 2009, regressando a um patamar anual acima de 120 mil milhões de dólares de fundos aplicados. O G20 na cimeira de Londres em abril de 2009 deu-lhe a mão.</p>
<p>Mas esta ressurreição está a ter um preço: o “Consenso de Washington”, que muitos designam por “cartilha neoliberal”, está a ser arquivado discretamente. Um estudo realizado por Susanne Lutz e Matthias Kranke, da Universidade de Berlim, mostra que as intervenções do Fundo na Letónia, Hungria e Roménia já impuseram condições mais “leves”. As contradições entre a equipa do FMI e os especialistas da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu encheram o anedotário recente dos programas de resgate da Grécia, Irlanda e Portugal. Os guardiões do “Consenso” têm estado em Bruxelas e Frankfurt, mais do que em Washington DC, o que surpreendeu os sindicalistas e a esquerda nos países intervencionados habituados a gritar a plenos pulmões “Fora daqui FMI”.</p>
<p>Aliás, Christine Lagarde, na reunião da Primavera realizada há duas semanas, já tentou criar uma nova etiqueta para a estratégia do FMI: o “Momento de Washington”. Jayati Ghosh, no entanto, não acredita apenas em palavras: “Mesmo quando aceitam os erros nos artigos científicos e na investigação dos seus quadros, ou nos discursos, depois, raramente, isso é refletido no terreno”. Já quanto ao Banco Mundial, Shaun Rein é de opinião “que não tem aprendido nada com os erros, continua a ser excessivamente politizado”. Veremos se o novo presidente Jim Yong Kim muda a situação. Xu Hongcai, diretor do mais importante grupo de reflexão chinês, diz-nos que “está inclinado a pensar que é um novo começo histórico”.</p>
<p><em>Fonte da Parte IIV: artigos de João Silvestre e Jorge Nascimento Rodrigues publicados na edição impressa do Expresso de 28 de abril de 2012.</em></p>
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		<title>HFT domina bolsas e entra nas commodities &#8212; a saga dos &#8220;algos&#8221;</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Mar 2012 08:42:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Nascimento Rodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ardina na Crise]]></category>
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		<description><![CDATA[A matemática, os computadores e os génios dos "algos" (diminutivo de algoritmos) estão a condenar à extinção os corretores de suspensórios e os investidores tradicionais. E aumentaram o risco sistémico nos mercados financeiros.

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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A negociação eletrónica de alta frequência nos mercados financeiros, conhecida pelo seu acrónimo em inglês HFT (high-frequency trading), já chegou aos mercados de <em>commodities</em>, alerta um relatório da United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD), da autoria de Nicolas Maystre, que vai ser publicado em breve em Genebra.</strong></p>
<p>O estudo refere que, desde o pico da crise financeira de 2008, que os mercados de futuros das <em>commodities</em> descolaram cada vez mais dos factores fundamentais ligados às leis da procura e da oferta das matérias-primas e que o que é comummente designado por especulação tem um papel cada vez maior. No entanto, a financeirização dos mercados de matérias-primas deriva cada vez menos da ação dos protagonistas tradicionais do investimento especulativo. Estamos a assistir à entrada progressiva dos &#8220;algos&#8221;, diminutivo de algoritmos, nas negociações diárias nestes mercados.</p>
<p>O relatório da UNCTAD examinou em detalhe os contratos para a variedade do crude WTI norte-americana no NYMEX, bem como do açúcar, do trigo, do milho, do gado vivo e de rebentos de soja, e os movimentos de preço ao milésimo do segundo, conhecidos por ticks entre 1996 e 2011. O peso dos &#8220;algos&#8221; afirma-se e isso vai significar, sublinha o relatório, que estes mercados vão estar cada vez mais sensíveis a efeitos desestabilizadores externos. O seu risco sistémico aumentou e, por isso, bolhas e derrocadas poderão ser mais regulares.</p>
<p><strong>Parece ficção científica</strong></p>
<p>Os mercados financeiros estão, na realidade, a ser dominados pela ficção científica. Não por seres verdes vindos de outras galáxias através de algum portal do tempo, mas pelos &#8220;algos&#8221;. Estes &#8220;algos&#8221;, estudando dados e estatísticas, dão ordens de compra e venda aos mercados em milésimas de segundo &#8211; sim, leu bem, em frações pequeníssimas do segundo. Provocam oscilações violentas mesmo antes do olhar humano mais sagaz &#8211; o de um mestre de xadrez &#8211; as conseguir identificar. E fazem dinheiro nessa arbitragem invisível ao olhar humano.</p>
<p>A matemática substitui, em ritmo acelerado, os corretores gesticulando, em momentos de euforia ou de pânico, apanhados pelos fotógrafos, dando azo à sua &#8220;alma animal&#8221;, como alcunhava Keynes. Um dia destes tais cenas humanizadas dos booms e das derrocadas financeiras só mesmo em películas da memória do cinema.</p>
<p>Os crânios da matemática e da computação assaltaram estas profissões e estão fora dos olhares dos cidadãos em 400 firmas num universo de 20.000 que trabalham nos mercados bolsistas, segundo dados do AITE Group. Esta revolução deu-se em virtude do salto na digitalização da última década.</p>
<p>A desmaterialização dos processos no sector financeiro permitiu esta substituição progressiva dos corretores de carne e osso pelos corretores automáticos invisíveis. O pontapé de saída foi dado pela autorização de funcionamento de plataformas de negociação eletrónica por parte da Securities and Exchange Comission (SEC) norte-americana em 1998. &#8220;Primeiro, os mercados tornaram-se eletrónicos e automáticos. Depois, os participantes nos mercados automatizaram as suas estratégias de negociação. A HFT acabou por ter um crescimento significativo desde meados da primeira década do século XXI&#8221;, refere-nos o especialista Albert J. Menkveld, da Escola de Finanças Duisenberg, em Amesterdão.</p>
<p>O que defrontamos hoje é &#8220;um sistema de máquinas em que vemos o declínio da capacidade humana para influenciar os movimentos de preços em escalas de tempo cada vez mais pequenas. Já não se trata mais de um sistema misto homem-máquina como nos anos 1990 com o corretor de suspensórios olhando os ecrãs de computador&#8221;, diz-nos o físico norte-americano Neil Johnson, do Departamento de Física da Universidade de Miami, que recentemente fez uma demonstração científica de como funcionam estes &#8220;algos&#8221;.</p>
<p><a href="http://janelanaweb.com/novidades/a-1%C2%AA-grande-guerra-de-algoritmos-o-mundo-financeiro-invisivel-em-velocidade-abaixo-do-segundo-uma-conversa-com-o-fisico-neill-johnson/" title="Neil Johson sobre a guerra de algoritmos">ENTREVISTA COM NEIL JOHNSON</a> </p>
<p><strong>Cresceu treze vezes</strong></p>
<p>Segundo a consultora TABB Group, a HFT domina hoje mais de 70% da negociação, em volume, nos mercados bolsistas dos Estados Unidos, o país onde esta inovação nos processos financeiros nasceu e cresceu mais rapidamente. Em 2003, representaria apenas 5% em volume de ordens, em 2005 cerca de 21% e em 2009 não ultrapassava, ainda, os 25%, segundo um estudo do AITE Group de há dois anos atrás. Em menos de dez anos cresceu treze vezes.</p>
<p>E se a crise financeira poderia deitar um balde de água fria sobre esta atividade, foi justamente o contrário que sucedeu, diz o britânico Paul Wilmott, um doutorado de Oxford em matemática, especialista em derivados e risco, um dos expoentes das finanças quantitativas: &#8220;Decididamente, a HFT está a crescer a olhos vistos, e agora fora dos Estados Unidos&#8221;. O holandês Menkveld, por seu lado, considera que a HFT beneficiou o crescimento do Chi-X Europe (hoje BATS Chi-X Europe), atualmente a maior em volume e a mais rápida plataforma multilateral no mercado europeu de ações.</p>
<p>Para Gerald Epstein e Pierre Habbard, em <a href="http://www.ituc-csi.org/IMG/pdf/epstein-habbard-ituc-eng_long.pdf">&#8220;Speculation and Sovereign Debt &#8211; an insidious interaction&#8221;</a>, o HFT foi uma das respostas da especulação financeira à crise, uma das suas &#8220;adptações&#8221; às novas circunstâncias, a par do crescimento do <em>crary trade</em>, da negociação dos <em>Exchange Trade Funds</em> e da negociação a descoberto.</p>
<p>Na Europa, a evolução é brutal nos últimos quatro anos: os corretores dominavam 67% das ordens em 2008 e este ano estima-se que o seu papel desça para 42%. &#8220;A marcha da automatização contínua e a negociação na base de algoritmos vai dominar a Europa. Subiu de 21% em 2008 para 37% em 2011, e estima-se que chegue aos 39% este ano. Se lhe somarmos as redes cruzadas, essa percentagem subirá para 45%&#8221;, diz-nos Rebecca Healey, analista sénior da TABB em Londres. Ainda segundo dados desta consultora, a taxa anual composta de retorno de um investimento realizado através do HFT será de 17% entre 2008 e 2012 contra uma taxa negativa de 11% para as ordens dadas pelos corretores de carne e osso. Mas a vaga do HFT já não se fica pelas bolsas de valores. Ela salpica transversalmente outras &#8220;classes&#8221; de ativos, como as mercadorias (a que nos referimos acima), as divisas, os títulos e os derivados, refere Menkveld. No mercado dos câmbios, as firmas de HFT localizam-se em Chicago, Nova Iorque e Londres. Segundo Gerald Epstein e Pierre Habbard, o HFT dominava 25% das transações mundiais do mercado de câmbios <em>spot</em> em 2010.</p>
<p>Estas ferramentas criaram um fosso dentro dos agentes deste mercado financeiro. &#8220;Os grandes ganhadores são os fundos de alto risco [hedge funds], como Renaissance Technologies ou o Citadel Group, que colocaram os seus computadores a trinta metros dos computadores que executam operações. Muita arraia-miúda nunca será capaz de o fazer nem mesmo de aprender. Não conseguirão investir em doutorados em ciência acabadinhos de sair das escolas que desenvolvem estes algoritmos&#8221;, sublinha-nos o consultor financeiro e tecnológico Peter Cohan, em Boston.</p>
<p><strong>As primeiras &#8220;derrocadas instantâneas&#8221;</strong></p>
<p>As primeiras amostras de surpresas desagradáveis provenientes da volatilidade insana da HFT, bem visíveis nas bolsas norte-americanas, ocorreram, pela primeira vez, em 2010 no que ficou conhecido como &#8220;derrocadas instantâneas&#8221; (flash crash). A primeira deu-se a 6 de maio (a mais conhecida) e terá havido outra a 1 de setembro, que não foi investigada oficialmente.</p>
<p>A derrocada de 6 de maio foi acompanhada, com estupefação, em todo o mundo quase em direto durante os trinta minutos que decorreu. O índice norte-americano Dow Jones Industrial Average caiu 998,5 pontos, a mais colossal queda intradiária jamais registada, levando à evaporação de quase um bilião de dólares de capitalização, para de seguida recuperar meteoricamente, com a segunda maior subida de 1010,14 pontos. Também nos futuros ocorreu o mesmo padrão: o índice do E-mini S&#038;P 500 (uma plataforma eletrónica de futuros no Chicago Mercantile Exchange) colapsou 5% em quinze minutos.</p>
<p>Por sorte, o evento ocorreu a meio da tarde nos Estados Unidos. Se a derrocada tivesse acontecido no fecho, sem recuperação possível, teria desencadeado um cenário de pesadelo que contagiaria a reabertura dos mercados na Ásia e depois na Europa no dia seguinte. O mistério do evento levou os governos americano e britânico a estudar o assunto como questão de segurança e muitos cientistas, sobretudo os ligados à corrente da teoria da complexidade, a mergulharem nesta &#8220;prenda&#8221; dada pelos mercados financeiros. A SEC não considerou que a culpa fosse da HFT. Estas ferramentas apenas &#8220;exacerbaram&#8221; a derrocada, concluiu. A explicação principal, segundo o regulador, derivou de &#8220;fatores conjunturais&#8221;.</p>
<p>Entretanto, já se registaram três eventos deste tipo fora do sector bolsista. A 17 de março de 2011, ocorreu uma mini-derrocada instantânea no mercado cambial do iene e a 31 de março do mesmo ano no mercado de negociação de fundos de investimento no Nasdaq e no NYSE/Euronext. A 8 de junho do mesmo ano, deu-se um fenómeno similar no mercado do gás natural nos EUA, que foi atribuído a um &#8220;algoritmo malicioso&#8221;.</p>
<p><strong>Risco sistémico aumentou</strong></p>
<p>O risco sistémico que esta dimensão invisível da negociação trouxe é hoje reconhecido. A hipótese de instabilidade congénita do sistema financeiro moderno apresentada pelo economista Hyman Minsky desde os anos 1970 é hoje maior: &#8220;O ponto de vista de Minsky é demasiado económico e demasiado longo no tempo. Hoje há carradas de razões para a instabilidade provocada pelos algoritmos. A volatilidade disparou&#8221;, ironiza Paul Wilmott. O holandês Menkveld acrescenta: &#8220;A hipótese de Minsky pertence à macroeconomia. Estas derrocadas instantâneas pertencem à microestrutura. Os mercados intermediados por computadores podem ser ainda mais vulneráveis aos choques&#8221;. &#8220;Como a HFT é a ultima interação de um jogo de negociação em que todos os jogadores podem beneficiar se a dívida sobe, como agora estamos a viver um período de queda da dívida, torna-se um jogo ainda pior do que a soma nula e a dado passo colapsará&#8221;, prevê o australiano Steve Keen, autor de &#8220;Debunking Economics&#8221; (Desmascarando a Economia).</p>
<p>O problema preocupa, por isso, governos e no Reino Unido, por exemplo, o departamento de Ciência do governo de Sua Majestade mandou estudar o problema a uma equipa dirigida por Dave Cliff, da Universidade de Bristol. O estudo, recentemente publicado, concluiu: &#8220;O comportamento de conjunto deste sistema pode ser difícil ou impossível de predizer. Os mercados financeiros globais são hoje um sistema complexo adaptativo. Grandes falhas podem hoje ocorrer a uma velocidade super-humana, como aconteceu com a derrocada instantânea de 6 de maio de 2010. Eventos deste tipo podem tornar-se correntes no futuro&#8221;.</p>
<p>As vozes contra os &#8220;algos&#8221; têm, por isso, subido de tom. Na Europa, a Deutsche Bourse e a Borsa italiana estão a planear penalizar as firmas que usam a HFT. &#8220;Todos os fluxos de ordens, e não só a HFT, têm o potencial de ser entendidos como tóxicos &#8211; depende do tipo de ordem que é dada e das condições de mercado na altura. Contudo, se as firmas que usam a HFT forem obrigadas a sair do mercado, as eficiências que geraram poderão desaparecer e os mercados europeus correm o risco de ficarem substancialmente menos competitivos&#8221;, adverte Rebecca Healey.</p>
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		<title>Breve História das Bancarrotas na Grécia desde a Guerra da Independência</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Feb 2012 11:39:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Nascimento Rodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ardina na Crise]]></category>
		<category><![CDATA[História Económica]]></category>

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		<description><![CDATA[Em 190 anos, a história da Grécia moderna, desde o início da guerra de libertação contra o domínio turco-otomano em 1821, esteve em turbulência, envolvida em guerras e sofrendo ocupações ou ditadura em mais de 130 anos e viveu períodos de bancarrota durante 50 anos.

BREVE HISTÓRIA por Jorge Nascimento Rodrigues.
Fonte principal: State Insolvency and Foreign Bondholders - Selected Case Histories of Governmental Foreign Bond Defaults and Debt Readjustments, por William H. Wynne, Yale Univ Press, 1951. Uma investigação realizada por Wynne entre 1931 e 1935.


]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Em 190 anos, a história da Grécia moderna, desde o início da guerra de libertação contra o domínio turco-otomano em 1821, esteve em turbulência, envolvida em guerras e sofrendo ocupações ou ditadura em mais de 130 anos e viveu períodos de bancarrota durante 50 anos.<br />
</strong></p>
<p>O tema do incumprimento não é novo na história da Grécia moderna. Segundo o estudo de dois académicos norte-americanos, Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, publicado no livro &#8220;This Time is Different&#8221; (Princeton UNiversity Press, 2009), a Grécia, desde a sua independência do império turco-otomano, entrou em bancarrota quatro vezes, em 1843, 1860, 1893 e 1932 (quando abandonou, também, o padrão ouro).</p>
<p>Recorde-se que a Grécia esteve sob domínio turco-otomano desde 1453 &#8211; aquando da conquista de Constantinopla e da queda do então designado Império Bizantino &#8211; até 1829. Entrou em bancarrota em 1826 antes inclusive da independência, ainda durante a guerra de libertação do domínio turco, em virtude de ter entrado em incumprimento no pagamento dos empréstimos britânicos aos revoltosos em 1824 e 1825.</p>
<p>Durante a Grande Depressão, entre 1929 e 1932, a Grécia foi o quinto país do mundo com maior quebra de exportações, superior a 70%. Em 1991-1995 teve problemas graves que requereram injeções significativas de fundos públicos.</p>
<p><strong>Mergulhada em guerras e sujeita a ocupações</strong></p>
<p>Além de um longo domínio turco de quase 400 anos, a Grécia viveu, desde 1821 mergulhada em guerras (de libertação até 1829, duas guerras greco-turcas, duas Guerras dos Balcãs, a 1ª e a 2ª Guerras Mundiais, e a guerra civil de 1946 a 1949), ocupações por potências estrangeiras (protetorado pela <em>troika</em> de potências europeias Grã-Bretalha, França e Rússia no séc. XIX; ocupação nazi entre 1941 e 1944) e uma ditadura militar (1967-1974).</p>
<p>O primeiro rei da Grécia moderna, um alemão da Baviera, foi imposto em 1833 pelos britânicos e o segundo rei, um holandês, em 1863 imposto pela referida troika de potências. A Grécia atravessou, também, três repúblicas, entre 1829-1832, de 1924 a 1935, e de julho de 1974 em diante, depois do derrube da ditadura dos coronéis da Junta Militar. A Grécia não entrou na órbita soviética, na sequência da guerra civil de 1946-1949, por causa de um rascunho de papel com a divisão das zonas de influência na Europa rabiscado numa conversa secreta em Moscovo, no outono de 1944, entre Estáline e Churchill. A Grécia ficaria do lado de cá do que mais tarde viria a ser a &#8220;cortina de ferro&#8221;.</p>
<p>A Grécia viveu 50,6 anos em incumprimento ou em renegociação da dívida soberana a partir da independência em 1829 até à crise financeira mundial de 2008. Quase 30% do tempo em <em>default</em>. É o quarto país do mundo com maior tempo numa situação desse tipo, depois de Honduras (64 anos), Angola (mesmo quando colónia portuguesa, somando 59,4 anos), Equador (58,2 anos) e República Centro-Africana (53,2 anos). Por comparação, Portugal viveu em <em>defaut</em> ou reestruturação da dívida soberana, entre 1800 e 2008, apenas 10,6 anos, ainda que tendo 6 episódios (1828, 1837, 1840, 1845, 1850-1852, 1891-92) e uma repudiação da dívida do &#8220;empréstimo Dom Miguel&#8221; em 1834. No mesmo período, a Espanha registou 8 episódios. Desde 1500, o campeão é a Espanha com 14 eventos, seguida da França com 9, depois Portugal com 8 (dois antes do século XIX, em 1560 e 1605) e Grécia com 5.</p>
<p>Muitos historiadores da Grécia moderna sublinham que, a este contexto longo de humilhação, ocupação, saque e guerras, se juntou o desenvolvimento de um sistema clientelar que se enraizou profundamente na sociedade grega depois da independência.</p>
<p><strong>Episódios de incumprimento</strong></p>
<p><em><strong>Primeira bancarrota em 1826</strong></em></p>
<p>O começo do endividamento da Grécia moderna ocorreu com o financiamento da guerra de libertação a partir de 1821. O London Philhellenic Committee apoiaria a contração pelos revoltosos gregos de dois empréstimos em Londres em 1824 e 1825, ao todo 2,8 milhões de libras. Na realidade, desse montante apenas chegaria aos revoltosos 40%; o restante ficaria pelas comissões, pelos juros à cabeça de dois anos e pelo financiamento de um fundo de amortização. Com a guerra ainda a decorrer, os gregos tiveram de entrar em incumprimento logo em 1826. Esta dívida inicial ficou conhecida como a &#8220;dívida da independência&#8221;. Na realidade, a independência seria declarada em 1829, depois da batalha na baía de Navarino em 1827, onde a armada de uma <em>troika</em> de potências europeias (Grã Bretanha, França e Rússia) derrotou os turcos e egípcios em poucas horas.</p>
<p><strong><em>A segunda bancarrota em 1843</em></strong></p>
<p>Já com a <em>troika</em> de potências a exercer um real protetorado, os gregos contraíram em 1833 um terceiro empréstimo de 60 milhões de francos, agora junto do banco dos Rothschild em Paris. Do primeiro bloco de 40 milhões de francos, chegariam, na realidade, a Atenas, apenas, 24,3 milhões &#8211; o resto ficou pelo meio. Com este empréstimo veio um rei, um príncipe originário da Baviera de obediência ao império austro-húngara, imposto pela <em>troika</em>. A prioridade dos rendimentos do estado grego seria pagar aos credores e os representantes da <em>troika</em> de potências em Atenas vigiariam o cumprimento da regra. Atenas tentou pagar, parou em 1836, recomeçou a pagar em 1840, e teve de suspender, em situação de bancarrota, em 1843. Foi o primeiro <em>default</em> já depois da independência.</p>
<p><em><strong>A terceira bancarrota em 1860</strong></em></p>
<p>Entretanto houve uma revolução constitucionalista. Os britânicos começaram a avisar Atenas em 1845 e 1846 que queriam os pagamentos do empréstimo. Em 1854, os franceses e britânicos não estiveram com meias medidas e bloquearam o porto do Pireu, perto de Atenas. Começou a primeira ocupação franco-britânica até 1857. A <em>troika</em> impôs, depois, um pagamento anual de 900 mil francos pela terceira dívida. Mas em 1860, Atenas foi incapaz de cumprir. Ocorreu a segunda bancarrota depois da independência. A Grécia teve de aceitar hipotecar 1/3 dos rendimentos da alfândega do porto da ilha de Siros, a mais de 100 quilómetros de Atenas. Em 1862 ocorre mais uma revolução e o rei oriundo da Baviera é substituído por um príncipe dinamarquês, por imposição da <em>troika</em>, e é assinado um tratado em 1864.</p>
<p>Uma renegociação ao longo de 11 anos. Em 1867 há uma primeira renegociação da &#8220;divida da independência&#8221; (os tais 2,8 milhões de libras, de que só chegariam, recorde-se, a Atenas pouco mais de 40%) e o &#8220;corte de cabelo&#8221; (<em>hair cut</em>) no valor aceite pelos credores reduz a dívida a 1 milhão de libras (próximo do valor que efetivamente chegara aos gregos) em novos títulos com um cupão de 5%. Ambas as partes recusam o negócio e um acordo só vem a lume em 1878, onze anos depois, implicando uma troca de títulos com um valor facial de 1,2 milhões de libras e uma garantia da alfândega da ilha de Corfu, no mar Jónico, para o pagamento de 75 mil libras por ano, a depositar numa conta no Banco Nacional da Grécia, sob pena de prisão se os depósitos não fossem feitos.</p>
<p>Chegados a 1871, a dívida oriunda do terceiro empréstimo somava nominalmente 92 milhões de francos, e, em 1878, a dívida proveniente dos dois primeiros empréstimos subia a 10 milhões de libras, segundo dados do estudo feito por William H. Winne em 1951 (&#8220;State Insolvency and Foreign Bondholders&#8221;, BeardBooks). Em suma, os 2,8 milhões de libras emprestados por Londres e os 40 milhões de francos contraídos em Paris engordaram substancialmente. Para os gregos os valores entrados em dinheiro haviam sido pouco mais de 1,2 milhões de libras, nos empréstimos iniciais, e só há registo de 24,3 milhões de francos relativos ao terceiro empréstimo. Entretanto, o Tesouro grego financiou-se internamente e, por volta, de 1877, a arrecadação somava 81 milhões de dracmas, pagando juros entre 6% e 8%.</p>
<p>O regresso aos mercados financeiros. Em 1879, Atenas regressa aos mercados financeiros internacionais. Até 1893 conseguiria arrecadar em Paris, Londres e Berlim 332,6 milhões de francos e 8,6 milhões de libras (o que, grosso modo, equivaleria a mais de 200 milhões de francos). Grande parte dos milhões da dívida contraída consumiu-se prioritariamente em despesas de guerra e apenas 25% foram aplicados nos famosos &#8220;melhoramentos materiais&#8221; da época, os investimentos nas novas infraestruturas, nomeadamente nas linhas de caminho de ferro. Nem mesmo, o empréstimo de 2,4 milhões de libras, contraído em 1890 em Londres e Berlim, e específico para a linha de comboio entre o Pireu e Larissa foi aplicado para os seus fins.</p>
<p>O filme desta ida aos mercados europeus de financiamento resume-se num parágrafo. Em 1879, os banqueiros franceses emprestam 60 milhões de francos a 6%. Dois anos depois, mais 120 milhões de francos, de novo, em Paris. Em 1884, são emitidos mais 100 milhões de francos de dívida soberana, agora num sindicato de bancos franceses e gregos. Em 1887, mais 135 milhões de francos, agora por um sindicato bancário liderado pelo Le Comptoir d&#8217;Escompte de Paris, com um cupão de 4%, abaixo dos anteriores.</p>
<p>Se as garantias aos empréstimos anteriores eram dadas pelas alfândegas, agora avançavam as receitas dos monopólios estatais &#8211; o petróleo, os fósforos, as cartas de jogar, a mortalha para os cigarros e o minério esmeril. Em 1889, o Tesouro grego vira-se, de novo, para Londres e entra na praça de Berlim. Seguem-se duas emissões: uma através da casa financeira londrina Hambro &#038; Son num montante de 1,2 milhões de libras, e outra através da casa de Gibbs em Londres, da casa de Bleichroder em Berlim e do Banco de Constantinopla, num montante de 5 milhões de libras. A que acresce o empréstimo em 1890 para a linha de caminho-de-ferro e vários empréstimos em 1892 num total de 37,6 milhões de francos.</p>
<p><em><strong>A quarta bancarrota em 1893</strong></em></p>
<p>Em 1892, um delegado francês, a convite do governo de Atenas, estuda as contas gregas e conclui que a bancarrota era inevitável, ainda que o relatório não tivesse sido tornado público. E assim aconteceu no ano seguinte. De facto, em dezembro de 1893, o governo grego decide suspender os pagamentos ao fundo de amortização e reduzir em 70% o juro de dívida externa que vencesse a partir de janeiro de 1894. Os países dos credores protestaram. A negociação da situação duraria até 1898. Pelo meio há a guerra greco-turca, que acaba com os gregos a ter de pagar uma indemnização aos vizinhos de 4 milhões de libras turcas. Um grupo de potências europeias &#8220;mediadoras&#8221; do conflito, algumas delas ligadas aos credores da dívida grega, aproveita a ocasião e impõe, a par de um novo empréstimo de 6 milhões de libras, uma Comissão Internacional para controlar a coleta e pagamento do serviço da dívida externa. Aquilo que os gregos durante anos resistiram, acabaram por ceder em 1898, com o Parlamento a aprovar o controlo. A Comissão recomenda o adiamento das grandes obras públicas e aconselha o Ministério da Guerra a limitar os gastos ao &#8220;mínimo estritamente indispensável&#8221;. O apuramento da dívida pública externa apontava, então, para cerca de 552 milhões de francos em dívida consolidada e 31,4 milhões de francos em dívida flutuante.</p>
<p><em><strong>A quinta bancarrota em 1932</strong></em></p>
<p>O serviço da dívida manter-se-á até 1932, mesmo durante a 1ª Guerra Mundial, e passando por uma nova guerra greco-turca e duas Guerras nos Balcãs. Foi a Grande Depressão que empurrou a Grécia, de novo, para a bancarrota. Uma análise às contas gregas pela Comissão Financeira da Liga das Nações verificava em março de 1932 que as reservas em divisas estrangeiras do Banco da Grécia estavam a caminho da exaustão. Face a esta iminência, a Grécia abandona o padrão ouro em abril e a moeda grega, o dracma, depreciou-se em 50% de imediato. O governo grego recorre à Liga das Nações para um empréstimo, mas não há entendimento. Atenas decide suspender todos os pagamentos de juros. É o <em>default </em>unilateral. A partir daí arrastam-se negociações ao longo de oito anos, com diversos ziguezagues, até janeiro de 1940, quando se consegue um acordo. Atenas cumpre até abril de 1941, quando ocorre a invasão alemã que duraria até outubro de 1944. Os nazis na fuga deixaram o país praticamente destruído. O dracma sofreu cinco desvalorizações brutais entre 1945 e 1949. A guerra civil inicia-se em 1946 e durou até 1949.</p>
<p><em>PS: A Grécia voltou aos holofotes internacionais em matéria de crise da dívida soberana em final de 2009. Entre 1979 e 2008 a evolução da notação de crédito da Grécia foi muito positiva e inclusive, tal como no caso de Portugal, era um país candidato a uma &#8220;graduação&#8221;, ou seja, a uma saída definitiva da zona de tradição prolongada de risco de default.</em></p>
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		<title>A 1ª Grande Guerra de Algoritmos &#8212; o mundo financeiro invísivel, em velocidade abaixo do segundo (uma conversa com o físico Neil Johnson)</title>
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		<pubDate>Sun, 12 Feb 2012 10:11:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Nascimento Rodrigues</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A revista New Scientist divulgou esta semana os resultados de uma investigação que mostra como funciona, invisivelmente, a "negociação de alta frequência" nos mercados financeiros. Ouvimos para o semanário português Expresso (edição inline) o líder da equipa, o físico Neil Johnson, da Universidade de Miami.
Jorge Nascimento Rodrigues (c) 2012

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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Há uma &#8220;grande guerra&#8221;, diz-nos o cientista norte-americano Neil Johnson. Ela trava-se hoje nos mercados financeiros. Uma guerra invisível entre algoritmos que torna ainda maior o risco sistémico do capitalismo financeiro. O que se designa por &#8220;negociação de alta frequência&#8221; (<em>high frequency trading</em>, acrónimo HFT, em inglês), com ordens dadas automaticamente em milésimas do segundo, domina hoje mais de 50% da negociação, em valor, nos Estados Unidos e mais de 30% na Europa, segundo a consultora Tabb Group.</strong></p>
<p><a href="http://janelanaweb.com/trends/a-great-war-of-algorithms-is-already-under-way-scientist-neil-johnson/">ENTREVISTA EM INGLÊS/Interview</a> (English version)</p>
<p>A equipa norte-americana de Neil Johnson, do Departamento de Física da Universidade de Miami, em colaboração com outros cientistas do Centro de Sistemas Complexos da Universidade de Vermont e da empresa Nanex, descobriu como é que esses algoritmos funcionam, como provocam oscilações selvagens, para cima e para baixo, invisíveis nos ecrãs dos <em>traders</em>, que se vão acumulando como fissuras que acabam, num dado momento crítico, por provocar derrocadas colossais, ultra-rápidas, inesperadas, difíceis de prever e evitar pelos humanos. Em suma, estes algoritmos acabam por provocar &#8220;cisnes negros&#8221;, dizem os cientistas, cujo artigo científico que descreve o estudo foi precisamente intitulado &#8220;<a href="http://aps.arxiv.org/ftp/arxiv/papers/1202/1202.1448.pdf">Financial black swans driven by ultrafast machine ecology</a>&#8220;. E com tanto &#8220;cisne negro&#8221; no lago, esta multidão acaba por provocar convulsões sistémicas.</p>
<p><strong>Sinais anteriores às derrocadas financeiras</strong></p>
<p>Esta descoberta foi, de imediato, relatada pela revista <strong>New Scientist</strong> na quinta-feira. O grupo estudou nada menos do que 18.520 &#8220;cisnes negros&#8221; ocorridos entre 2006 e 2011 com uma duração menor a um segundo e meio (1500 milésimas de segundo). Isto significa que ocorreram, em média, quase 12 eventos extremos deste tipo por cada dia de negociação naqueles seis anos. O período, diz-nos <strong>Neil Johnson</strong>, &#8220;permitiu apanhar não só a geração do colapso financeiro global de 2008 como depois a derrocada relâmpago de 6 de maio de 2010&#8243;, um fenómeno absolutamente surpreendente, já durante a recuperação bolsista, a partir de março de 2009, do <em>crash</em> de 2008. O evento extremo de maio ficou conhecido pela designação em inglês de &#8220;<em>flash-crash</em>&#8221; (derrocada instantânea). O número de &#8220;cisnes negros&#8221; diários disparou uma semana antes da derrocada de 2008 e pouco antes do evento de maio de 2010, mostra o estudo desta equipa de físicos.</p>
<p>As primeiras amostras de surpresas desagradáveis de grande dimensão provenientes da atividade insana da HFT, bem visíveis nas bolsas norte-americanas, ocorreram, de facto, em 2010 no que ficou conhecido como &#8220;derrocadas instantâneas&#8221;, a primeira a 6 de maio (a mais conhecida) e depois outra a 1 de setembro. A de 6 de maio foi acompanhada em todo o mundo quase em direto durante os trinta minutos que decorreu. Entre as 14h30 e as 15h30 de Nova Iorque, o Dow Jones Industrial Average caiu 600 pontos, a mais colossal queda intradiária jamais registada, para de seguida recuperar meteoricamente. O mistério do evento levou os governos americano e britânico a estudar o assunto como questão de segurança e muitos cientistas, sobretudo os ligados à corrente da teoria da complexidade, a mergulharem nesta &#8220;prenda&#8221; dada pelos mercados financeiros.</p>
<p><strong>Espírito microbial num mundo de piranhas</strong></p>
<p>O que está por debaixo disto é o que Neil chama de uma nova &#8220;ecologia&#8221; de agentes, um mundo invisível para o comum dos mortais, fruto da desmaterialização brutal ocorrida no sistema financeiro desde a vaga de financeirização dos anos 1980 e 1990.  As empresas que detêm estas ferramentas têm uma vantagem estratégica. E serão 400 num universo de 20.000 firmas que operam hoje nestes mercados, segundo um estudo do Aite Group.</p>
<p>Neil pega na célebre expressão de Keynes sobre a &#8220;alma animal&#8221;  (<em>animal spirits</em>) dos investidores para falar, usando uma imagem, de algo bem mais complexo. Estes novos agentes estão impregnados de uma &#8220;alma microbial&#8221; &#8211; &#8220;são mais simples do que os humanos ou mesmo os animais, mas muito, muito mais rápidos&#8221;. &#8220;São mais parecidos com a vida inicial na Terra&#8221;, sublinha-nos. A grande questão é como este mundo digital &#8211; que vive numa dimensão de tempo abaixo do segundo &#8211; povoado por esta &#8220;vida inicial&#8221; vai evoluir.</p>
<p>Nem mesmo os grandes mestres de xadrez conseguem ter a rapidez suficiente &#8220;para detetar estas situações estratégicas&#8221;. &#8220;Abaixo de 650 milésimas de segundo, só mesmo máquinas&#8221;, diz-nos Neil Johnson, para depois brincar: &#8220;É como um lago cheio de piranhas de diferentes tipos com um nível de concorrência muito feroz&#8221;. Mas logo acrescenta que não está a fazer um juízo moral: &#8220;Não estou a dizer que isto é errado, mas pode ver que este nível de concorrência é feroz &#8211; e é isto que exatamente ocorre nos mercados&#8221;. Por debaixo dos nossos pés e afetando-nos, sem darmos conta &#8211; a não ser quando há as derrocadas bolsistas. Quando já é tarde.</p>
<p><strong>Tropas no terreno</strong></p>
<p>Por isso, a ambição destes cientistas é criar algumas ferramentas de previsão e que possam mitigar o risco. O que defrontamos é &#8220;um sistema de máquinas em que vemos o declínio da capacidade humana para influenciar os movimentos de preços em escalas de tempo cada vez mais pequenas&#8221;, diz o físico.</p>
<p>Já não se trata mais do sistema &#8220;misto&#8221; anterior homem-máquina. Para responder à dinâmica deste novo sistema automatizado, é preciso algo similar às ferramentas de que dispõem os engenheiros espaciais ou aeronáuticos: &#8220;olhar para o conjunto microscópico de pequenas fissuras e avaliar se a aeronave está em condições de segurança de continuar a voar&#8221;. Neil Johnson pensa que os reguladores têm de colocar &#8220;tropas no terreno&#8221; com essa capacidade. No artigo científico propõem-se três estratégias algorítmicas para tal.</p>
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		<title>&#8220;A great war of algorithms is already under way&#8221; &#8211; scientist Neil Johnson</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Feb 2012 23:46:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Nascimento Rodrigues</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Topic: High frequency trading and the future of financial systems. A conversation with physicist Neil Johnson, professor at the University of Miami, about the HFT reality. 
INTERVIEW by Jorge Nascimento Rodrigues © 2012 ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>We saw a transition in the financial ecosystem from the Keynesian &#8220;animal spirits&#8221; of desk traders and investors to &#8220;microbe spirits&#8221; by computer algorithms simpler than animals or humans &#8212; but just much, much, much faster. To understand these new phenomena we need a complexity approach. Econophysicists and financial gurus in complexity are no more in the fringe.</strong> </p>
<div id="attachment_1116" class="wp-caption alignleft" style="width: 236px"><a href="http://janelanaweb.com/wp/ficheiros/NeilJohnson.jpg"><img src="http://janelanaweb.com/wp/ficheiros/NeilJohnson-226x300.jpg" alt="" title="NeilJohnson" width="226" height="300" class="size-medium wp-image-1116" /></a><p class="wp-caption-text">Neil Johnson</p></div>
<p><em>A conversation with physicist Neil Johnson, professor at the University of Miami, about the HFT reality.</em></p>
<p><strong>HIGLIGHTS </strong></p>
<p>«In fact a global war between competing computer algorithms and near speed-of-light fast access to markets, is where things are heading. What our work suggests is that since this war is already under way, and because from our paper it seems to correlate very well with observable crashes in the markets over timescales such as months, then any government watchdog/regulator charged with controlling their financial system also ought to have its own &#8216;troops on the ground&#8217;.» </p>
<p>«So it is like having a big lake full of different types of piranhas. Not that this is wrong, but you can see that this level of competition would be very ferocious &#8212; which is what happens in the markets.» </p>
<p><strong>FOREWORD </strong></p>
<p>Science and Finance got breaking news this week. The magazine New Scientist featured Thursday the research of a group of American physicists about the dynamics of high frequency trading (HFT) and the complex ultra fast machine ecology behind these new financial agents and the most recent financialization wave. The results of the research by Neill Johnson, Guannan Zhao, Jung Meng, Amith Ravindar, Spencer Carran from the University of Miami, Eric Hunsader from Nanex and Brian Tivnan from the Complex Systems Center of the University of Vermont were published online on February 8th. The title of the paper: &#8220;<a href="http://aps.arxiv.org/abs/1202.1448">Financial Black swans driven by ultra fast machine ecology</a>&#8220;. </p>
<p>The group of physicists analyzed a set of 18,520 ultra fast black swan events &#8220;hidden&#8221; in stock-price wild oscillations between 2006 and 2011. They find that the emergent behaviour of these movements is part of a new all-machine system, the kingdom of algorithms that command systemic fluctuations that at a certain point of accumulation provokes big bangs, big abrupt changes. Systemic risk in the financial system went up. But the physicists say they can help providing tools to predict and mitigate that risk and the new context of this wave of dematerialization where we saw a decreasing ability of humans to influence price movements at smaller timescales.</p>
<p>HFT turned famous since the flash-crashes of 2010 &#8211; the most famous happened May 6th; another one probably on the 1st of September. HFT has taken place at least since 1999, after the SEC authorized electronic exchanges in the previous year. After the recent financial crisis, HFT even got fatter. In the US account for 73% of all equity orders volume; in Europe accounts for 40% and in Asia only 5%. By value, HFT makes 56% of equity trades in the US and 38% in Europe, based on estimations by consultancy Tabb Group.</p>
<p><em>INTERVIEW by Jorge Nascimento Rodrigues © 2012 </em></p>
<p><strong>Q: Why did you choose specifically the year 2006 as the starting point for your research? Would there be this kind of &#8216;flash&#8217; fluctuations before 2006? Or just because data availability?</strong><br />
A: Up to a few years ago, the technology wasn&#8217;t fast enough for significant amounts of high frequency computer trading. Today, it is estimated that it makes up the majority of all trades in US, and a rapidly growing fraction in Europe. So 2006 seemed a good place to start. The data at the millisecond scale became more accurate in recent years &#8212; and also by starting in 2006, we managed to capture both the start of the global financial collapse in Sept 2008, and also the May 6th Flash Crash in 2010.</p>
<p><strong>Q: Can we say that the Keynesian [human] &#8220;animal spirits&#8221; is nowadays embedded in these famous algorithms? </strong><br />
A: Yes, but with a twist: In the end, the computer trading algorithms have to be relatively simple since they need to execute fast and use little prior information &#8212; hence our ecology model, which reproduces the empirical transition we see in the data, would say that we are actually seeing something more like early Life on Earth with simple microbes being analogous to the computers. So the equivalent of &#8220;microbe spirits&#8221; might be closer to the truth since the computer algorithms are simpler than animals or humans &#8212; they are just much, much faster. The big question then is: How will Life evolve in this new (sub-second) world? </p>
<p><strong>Q: The paper suggests that the cumulative number of wild oscillations of flash crashes and/or spikes behave as if following a logistic S-shaped curve. Could it be that a big crash results when the S-shaped curve reaches the turning point? Can we &#8220;import&#8221; for this field the process dynamics from materials fatigue after an accumulation of tiny fractures? </strong><br />
A: It could be. We are looking into these questions of exactly what combination of these fractures, and when, seems to arise at the start of the big system-wide collapse. My hunch is that we can import ideas related to the critical arrangement of fractures, etc. There is an awful lot known about fracturing &#8212; and while the market obviously isn&#8217;t a piece of metal, the concept of distance and material strength can also be mimicked (distance, for example, is how separated two stocks are in terms of market sectors).</p>
<p><strong>Q: Because you mention that we assist to a kind of clusterization of those milliseconds (ms) wild oscillations, is it possible to get signals or patterns that will allert for a big bang event? </strong><br />
A: I think that the pattern in the fractures might well tell us something. At the very least, this should be explored in a rigorous scientific way, which is what we are trying to do. Where we want to head to is the analogy of a trained aircraft engineer, who can pretty much look at the microscopic arrangement of small fractures in an aircraft and judge whether it is safe to continue flying that plane or not. To have this for markets would be an incredibly important step toward understanding, and managing, risk &#8212; not just for the system of companies, but for everyone with an interest in the markets (which as we have seen, is all of us because markets end up affecting all of us). </p>
<p><strong>Q: From the previous question, another angle: Do you think that it is possible to develop a software to instantaneously react (before any human reaction) to an impending collapse, putting in action one (or some) of the three interventions that you suggest in your paper? That could mean a &#8220;great war&#8221; of algorithms in the future?</strong><br />
A: Yes, absolutely. In fact, a global war between competing computer algorithms and near speed-of-light fast access to markets, is where things are heading. What our work suggests is that since this war is already under way, and because from our paper it seems to correlate very well with observable crashes in the markets over timescales such as months, then any government watchdog/regulator charged with controlling their financial system also ought to have its own &#8216;troops on the ground&#8217;. The predator-prey analogy is a good one I think &#8212; except that most computer trading algorithms are actually more like predator. So it is like having a big lake full of different types of piranhas. Not that this is wrong, but you can see that this level of competition would be very ferocious &#8212; which is what happens in the markets. I stress that I do not think it is necessarily bad &#8212; after all, traders are just trying to make profits for their companies and hence shareholders, or increase the size of our pensions &#8212; but it is important to recognize that this is the way it seems in terms of analogies. </p>
<p><strong>Q: You refer that large groups rapidly detect imminent danger. Can you explain?</strong><br />
A: There is a long-term historic question in animal studies, which is what evolutionary advantage does a large group have. And one of these is the fact that there are more pairs of eyes looking at what is happening &#8212; so even if every member is selfish, they can go with the crowd in terms of responding to danger which they do not necessarily see themselves. In the markets, the fact that human traders are competitive has an indirect benefit in the same way that with so many humans looking at the changes, the chances are that someone will notice and react quickly and the other humans will simply follow. Hence, the onset of the transition for crashes starts at about 650ms, which is the ballpark value for the fastest that a trained human can detect a strategic situation (e.g. chess grandmaster). Below 650ms, it is just machines. </p>
<p><strong>PROFILE</strong></p>
<p>Neil Johnson<br />
Department of Physics<br />
University of Miami</p>
<p>His research looks at the physics of collective behavior and emergent properties in real-world systems which are &#8216;complex&#8217;: from the physical, biological, medical domains through to social and even financial domains. He heads an inter-disciplinary research group in Complexity in the University.</p>
<p>Website:<a href="http://www.physics.miami.edu/~njohnson/"> http://www.physics.miami.edu/~njohnson/</a></p>
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