A década (2001-2010) de todos os riscos

Recordando os ciclos de Kondratiev para perceber
o que se passa diante dos nossos olhos

Jorge Nascimento Rodrigues

Os acontecimentos não se fotocopiam a si próprios, nem estão "escritos" segundo uma lógica predestinada, mas a história económica "repete" padrões de comportamento ao longo de séculos, particularmente desde o "take off"
da Revolução Industrial no século XVIII.

A história do dia-a-dia faz-se de muitos milhões de decisões em paralelo e os acontecimentos inesperados ("não lineares", como diriam os matemáticos) tendem a suceder-se em períodos específicos de uns ciclos económicos que algumas escolas de economistas apelidam de "longos" (com duração de mais de meio século) e que surgem associados quer a revoluções tecnológicas, quer àquilo que Peter Drucker chamou de períodos de "fractura histórica".

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Gráficos de Mike Alexander de enquadramento histórico deste artigo
Ciclos Kondratiev recentes
Distribuição histórica desde 1300 dos picos de 47 sectores líderes

Tais ciclos longos são hoje conhecidos pelo nome do seu "descobridor", um russo de nome Nikolai Kondratyev que seria assassinado por Estáline em 1938. Ele observara, na sua época, três ciclos longos, começando pelo início da Revolução Industrial, passando depois pela emergência e boom dos caminhos de ferro e da electrificação da indústria e finalmente pelo take off e massificação da indústria automóvel. Ele já não assistiria ao período conturbado de final desse terceiro ciclo longo (com o rebentar da 2ª Grande Guerra Mundial) nem ao ponto de viragem simbólico para um quarto ciclo, que alguns historiadores associam à demonstração do efeito do transístor em 1947 que viria a abrir as portas para um take off posterior de uma nova indústria "estruturante", a da informática.

É útil para os gestores e decisores uma visão histórica de médio e longo prazo, particularmente nos períodos em que a turbulência é a norma e não a excepção. Concentrar-se nos episódios, sem perceber o contexto, é o pior erro estratégico em alturas destas.

Olhando para a "serpente" mais recente destes ciclos, verificamos que, depois de um pico atingido entre meados dos anos 70 e começo dos anos 80 do século XX (crises petrolíferas de 1973 e 1979, criação do primeiro computador pessoal em 1975 que permitiu a massificação da informática, período de estagnaflação dos anos 70), o ciclo longo - que veria a emergência e consolidação da Terceira Vaga, na feliz expressão de Alvin Toffler - entrou numa curva descendente.

Este declínio do ciclo não significa que não tenha havido crescimento económico, continuação de inovações inesperadas (como o "browser" criado por Andreessen ou o Napster) e vagas de empreendedorismo, mesmo períodos de "boom" longo (como aquele que se viveu de 1982 até 2001) e oportunidades de "bolhas" especulativas temporárias (como a da Nova Economia).

O declínio significa sobretudo que o "modelo" de economia dominante chegou ao seu pico e que o mundo está de "passagem" para outra realidade. Peter Drucker intuiu no final dos anos 60 do século XX (no seu livro «A Era da Descontinuidade») o advento de uma "fractura histórica", que, ao longo dos anos 80 e 90, estaria a ser parteira de uma sociedade pós-capitalista, que ele chamou de sociedade do conhecimento.

Em virtude dessa curva descendente em que vivemos há mais de 20 anos, o "benchmarking" histórico mais proveitoso hoje em dia é a comparação com os anos 30 e 40 do século XX, aquando da curva descendente do anterior ciclo longo.

Se esse passado serve de algum aviso, a ponta final destes períodos descendentes é marcada por alguns comportamentos: massificação da nova economia entretanto gerada, corrigidas as doenças infantis iniciais dos modelos de negócio (exemplos: electrificação da indústria no final do século XIX e princípios do séc. XX, "fordismo" na produção industrial nos anos 20 e 30, "webização" da actividade empresarial, que começou agora); concentração de inovações que servirão de catalisadores para a economia futura (exemplos: alumínio em 1827, rádio em 1887, transístor em 1947); rebentar mais doloroso de "bolhas" financeiras; depressões económicas; aproveitamentos oportunistas por movimentos (como, por exemplo, os integristas islamitas hoje em dia), forças (como por exemplo os carteis da droga) e potências fora dos alinhamentos geo-estratégicos "oficiais" (cartadas jogadas pelo Iraque e depois pela Jugoslávia), e risco de guerras com expressão internacional.

As escolas de análise histórica do actual ciclo longo dividem-se entre os "optimistas", que crêem que o ponto de viragem já ocorreu (nomeadamente em 1999 com a descodificação do cromossoma humano "22") e que será possível uma passagem relativamente tranquila (recuperação rápida das bolsas, aterragem suave das economias, retoma do "boom", aceleração da globalização), sem custos humanos, financeiros e económicos elevados, e os "realistas" que acham que o ciclo ainda não bateu no fundo e que a primeira década do século XXI será um período de todos os riscos, em que se misturam situações com custos elevados e com oportunidades emergentes.


MARQUE NA AGENDA...

2001-2002: Vórtice do final do actual ciclo. Os analistas esperam períodos de pânico bolsista com batida no fundo e recuperação demorada. Hipótese de recessão seguida de uma depressão económica (ainda que mais curta do que nos anos 30 do século XX).

2004: Especulação de Arthur Clarke sobre "clonagem" humana reprodutiva bem sucedida com efeito alavanca em toda a área das ciências da vida, podendo tornar-se num catalisador de viragem de ciclo.

2005: O número de endereços electrónicos atingirá 1,2 mil milhões (o dobro dos actuais) e as mensagens trocadas na Net os 36 mil milhões diários (mais do dobro das actuais), segundo um estudo da IDC.

2006: Os suportes digitais ultrapassarão, em definitivo, os analógicos, segundo um estudo da IBM. O contexto digital será dominante na vida e no trabalho do dia-a-dia.

2008: Inversão definitiva da correlação de forças dentro da OPEP a favor dos produtores árabes confrontados também com o declínio histórico das suas produções de ouro negro.


... E TOME NOTA DE ALGUNS RISCOS DE CURTO E MÉDIO PRAZO

- A muito sensível pirâmide dos "derivados" financeiros atinge os 100 biliões de dólares (cerca de 110 biliões de euros).

- O montante dos Fundos financeiros "inquietos" desde os "crashes" de 2000 atinge os 3,6 biliões de dólares (cerca de 4 biliões de euros).

- Antecipação oportunista de planos de "downsizing" pelos grupos empresariais, a coberto do "efeito Bin Laden".

- A "chantagem" do petróleo pode agravar-se.

- Possibilidade de multiplicação de guerras locais e pan-regionais por recursos (petróleo, gás, água, nomeadamente) com riscos de internacionalização.

- Emergência, no curto e médio prazo, de movimentos e forças "oportunistas" tentando desequilibrar os alinhamentos geo-estratégicos (por exemplo, todo o eixo do petróleo e das economias da droga), acobertadas ou não por choques civilizacionais.

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