Duelo em Madrid sobre o que incendeia o preço do barril

Enquanto o cartel petrolífero acusa os ‘especuladores’ de serem responsáveis por 60% do actual preço do barril de crude, a Agência Internacional de Energia divulgou um relatório sobre os problemas de abastecimento do mercado nos próximos cinco anos. Tornam-se transparentes duas linhas políticas de abordagem do tema do choque petrolífero.

Madrid foi, desde 29 de Junho, palco de um confronto sobre as causas da alta do preço do barril de petróleo. Informação e contra-informação inundaram os «media» que fizeram a cobertura do 19º Congresso Mundial do Petróleo (World Petroleum Congress) que decorreu na capital espanhola até 3 de Julho.

O duelo politizou-se claramente – de um lado, os exportadores organizados (o cartel da OPEP), e do outro os principais países consumidores e importadores líquidos da OCDE (chamados países industrializados) e as suas multinacionais petrolíferas, cuja projecção de poder de outros tempos desapareceu.

A OPEP (Organização dos Países Exportadores do Petróleo) acusa os investidores «não comerciais» (os grandes investidores financeiros no mercado de contratos conhecido como COT-Commitment of Traders) de serem responsáveis, com as suas jogadas de compra e venda de «barris de papel», por 60% do actual aumento do preço. E afirma que os restantes 40% do aumento são derivados do prémio de risco derivado da geopolítica.

O presidente do cartel, o argelino Chakib Jelil, acusou directamente a Agência Internacional de Energia (AIE) – o regulador energético dos países industrializados da OCDE – de estar a “fazer política” ao ter divulgado no Congresso um relatório em que alerta para problemas graves de abastecimento de crude nos próximos cinco anos, perspectiva negativa que estaria, desde já, a influenciar o mercado à vista e o mercado de futuros do crude, incendiando ainda mais os preços. Como se sabe, a OPEP tem contradito a ideia de que a oferta não consegue ou não conseguirá no futuro responder ao disparo da procura (sobretudo dos BRIC e do próprio Médio Oriente) e de que há, no horizonte, um cenário possível de “pico de produção”.

A AIE tocou directamente na ferida da OPEP – a capacidade disponível dos produtores do cartel emagrecerá até 2013, diminuindo dramaticamente a margem de manobra para atalhar a problemas contingentes, por exemplo, os derivados da insegurança geopolítica ou do apetite desmedido das economias sobreaquecidas nos países emergentes.

O mito da especulação

Opinião contrária à da OPEP (e do próprio presidente da Galp em entrevista ao Expresso na edição de 28 de Junho), foi manifestada pelos presidentes de duas das mais importantes petrolíferas europeias, a BP e a Shell.

Tony Hayward, da BP, referiu, literalmente, que é “um mito” falar da especulação como causa da alta dos preços, e que o problema está nos “fundamentais” do mercado. Por seu lado, Jeroen Van Der Veer, da Shell, interveio no mesmo sentido, alegando que é difícil “provar” que são os especuladores os responsáveis. Der Veer sublinhou, também, que o problema está nos “fundamentais”: “O petróleo fácil é muito limitado. Muito do novo petróleo será difícil”, referiu em Madrid.

A AIE opinou no mesmo sentido: “É muito comum o expediente político de encontrar um bode expiatório para altos preços, do que dedicar-se a uma análise séria ou confrontar-se com decisões difíceis”. A Agência adiantou que “há pouca evidência de que os grandes fluxos de investimento nos mercados de futuros sejam a causa do desequilíbrio no mercado e que estejam, por isso, a contribuir para preços mais altos”. E recordou a história dos mercados de «commodities»: “Movimentos de preços explosivos são sintoma de uma guerra cerrada entre procura e oferta”.

O impacto real

Os movimentos financeiros dos grandes investidores no mercado de contratos (COT) desta «commodity» têm, naturalmente, impacto na evolução do preço no mercado à vista («spot») e no mercado de futuros, mas tem sido muito limitado – durante este ano, por exemplo, nos dias em que teve maior impacto, não representou mais de 4 a 9% do preço final, segundo o estudo realizado por Pedro de Almeida, professor da Universidade da Beira Interior e especialista da ASPO Portugal.

No dia mais ‘quente’ da última semana de Junho, o peso da especulação não ultrapassou os 12 dólares no preço final do barril de crude WTI norte-americano.

As grandes oscilações nas posições financeiras só têm impacto em prazos curtos, influenciando o preço, para cima ou para baixo, apenas pontualmente. Observando um período semestral ou anual, verifica-se que a curva de subida do preço do barril de petróleo é sustentada, e não afectada significativamente pelas oscilações das posições financeiras nos «barris de papel».

E ironia do processo – esse impacto beneficia quem vende, de facto, os barris físicos , ou seja exactamente aqueles que ‘culpam’ os especuladores. Os investidores ganham nas negociações de «barris de papel», nas compras e vendas de contratos, e influenciam, por essa via, o preço do barril de crude todos os dias (influenciando-o para cima ou para baixo), mas nada retiram da venda dos barris físicos.

Trata-se, no fundo, de um impacto similar a outros factores contingenciais, como a geopolítica (turbulência nos países produtores, risco de guerras no Golfo e de bloqueio de rotas de «commodities» como os rumores, agora, alegam) ou as catástrofes e acidentes.

As verdadeiras bombas

Mais substancial é o impacto de todo o tipo de notícias que criem constrangimentos duradouros presentes ou futuros sobre a oferta no quadro de uma situação mundial de grande disparo do consumo de petróleo por um grupo de «glutões» (dos famosos BRIC ao próprio Médio Oriente). O mercado do crude é um mercado excepcionalmente “sensível” a qualquer desequílibrio.

Por exemplo, uma informação estratégica de que a capacidade disponível da OPEP vai continuar a restringir-se (como revelou a Agência Internacional de Energia esta semana em Madrid) ou que as exportações do Médio Oriente, do México e da América Central e do Sul declinaram em 2007 em relação ao ano anterior na ordem dos 762 mil barris diários (segundo dados da BP), são verdadeiras «bombas» junto dos compradores de barris reais e dos investidores em «barris de papel».

Inquietação idêntica geram notícias como a dada, em Madrid, em primeira mão, pelo presidente da petrolífera mexicana, Pemex, que afirmou que o seu país corre o risco de ver a produção de crude reduzir-se em 40% no horizonte de 2015.

One Response to “Duelo em Madrid sobre o que incendeia o preço do barril”

  1. […] “O petróleo fácil é muito limitado. Muito do novo petróleo será difícil”. Duelo em Madrid sobre o que incendeia o preço do barril ≈ A lot of journalism seems to be ego driven. Some journalists report on what they want to cover, […]

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