“Espanha não será resgatada” — diz Rafael Pampillón (Instituto de Empresa)

“Espanha não vai ser resgatada”, como aconteceu à Grécia, Irlanda e Portugal, diz ao Expresso perentoriamente Rafael Pampillón Olmedo, um galego de Pontevedra, que é professor de Ambiente macroeconómico e análise de países em Madrid no Instituto de Empresa (IE), a principal escola de negócios em Espanha. Inclusive acha que isso será bom para os equilíbrios europeus. “A França fazia de contrapeso à Alemanha. Deixou de o ser com a desclassificação do triplo A. Se Mariano Rajoy [o atual presidente do governo espanhol] conseguir fazer as reformas em Espanha, então enviará uma mensagem clara para a Europa”, refere-nos em entrevista, depois de uma conferência proferida na Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola em Lisboa.

O académico é otimista: “As mudanças de governo são sempre boas para se poder fazer reformas. Mas têm de ser feitas quanto antes. Não se pode perder tempo. O novo governo deverá tomar as medidas mesmo que perca as eleições regionais na Andaluzia que se realizarão proximamente”, diz Pampillón, que foi reitor da Faculdade de economia da Universidade da Extremadura e professor de Políticas Económicas na Universidade de Barcelona. Fala de agir rapidamente em quatro campos: reforma do sistema bancário, onde há um problema sério de ativos tóxicos ligados à bolha do imobiliário; impostos; orçamento do estado, eliminando os gastos sumptuários e atuando “cirurgicamente”; e reforma do mercado laboral, ameaçado pelo fantasma de mais de 5 milhões de desempregados, com quase 50% da população jovem no desemprego.

Mas aponta quatro estratégias “em simultâneo, na investigação & desenvolvimento, nas patentes, na exportação e no reajustamento orçamental”. Pampillón, um doutorado em Economia e Gestão pela Universidade de Barcelona, é muito sensível ao tema da tecnologia e do conhecimento. Em 1991 publicou “O défice tecnológico espanhol”.

Exportação e mudar “modelo económico”

Acredita que as reformas se farão no tempo certo. Calcula 6 meses para que se resolva a recapitalização bancária, um ano para que as novas políticas económicas comecem a fazer efeito, e dois anos e meio para resolver o problema do imobiliário. Em termos de crescimento, acha que a melhor saída para Espanha é a exportação. “O país é o 12º em produto interno bruto, no mundo, mas está em 16º lugar nas exportações. Há aqui uma diferença que é uma oportunidade. A exportação é a história de Espanha. Só isso salvará a Espanha da crise. O próprio ministro dos Negócios Estrangeiros deu indicações às embaixadas que têm de passar a ser delegações comerciais também, como fazem os americanos”.

Mas o essencial está noutro aspeto. “Há que mudar, diz Pampillón, o modelo económico. O crescimento da economia e do emprego baseou-se no imobiliário, nos serviços e no turismo desde 1995 e até ao rebentar da crise. Fizeram-se algumas coisas certas no momento certo, como as privatizações, que permitiram a essas empresas projetar-se internacionalmente. Mas o modelo estava minado”, refere-nos. Espanha vai, aliás, entrar em recessão este ano – as previsões apontam para uma queda de 1,7%. O que é preocupante para Portugal que tem no vizinho ibérico o seu principal cliente. Pampillón responde: “Há que procurar outros mercados, o que é válido tanto para Espanha como para Portugal”. Acrescenta que acha que em Portugal há um problema interno de concorrência: “É preciso dar mais poder aos reguladores”.

O ambiente mundial é de “grande incerteza”, diz-nos o professor. “A conjuntura macroeconómica está repleta de revisões em baixa das previsões anteriores, e como todos sabemos, em geral, a realidade acaba por ser pior do que as revisões”, comenta, com um riso. Nas variáveis de incerteza junta a evolução da crise da dívida europeia, e em que medida possa agravar as perspetivas de estagnação ou recessão global da zona euro, a mudança de modelo na China, do mercantilismo para o consumo, e o próprio preço do petróleo, que admite que não variará muito em torno dos 100 dólares por barril, se fatores geopolíticos não surgirem.
Esperança nos Estados Unidos

O professor do IE divide a economia mundial em três “velocidades” – os países sem crise de dívida; os Estados Unidos no meio; e a zona euro, onde está o centro do problema atual, com crise de dívida e crescimento estagnado ou mesmo recessão.

A condição especial norte-americana advém de Pampillón ter “esperança” que a situação norte-americana vai evoluir positivamente. “Os últimos dados do desemprego de janeiro são encorajadores. Desceram de 8,5% para 8,3% – são umas décimas, mas podem apontar uma inversão da tendência”, sublinha, apesar dos dados não oficiais apontarem para uma taxa de desemprego em torno dos 11,5% da população ativa e de um desemprego de longa duração de 40% entre os americanos à procura de emprego. Pensa que vai haver uma mudança política nas próximas eleições presidenciais de novembro, que irão ser ganhas pelo Partido Republicano, “seja qual for o candidato”.

Nessa divisão do globo em três velocidades, a perca do peso europeu, parece-lhe evidente. “A Alemanha há três anos era a primeira potência exportadora. Desceu para o terceiro lugar, depois da China e dos Estados Unidos”. Em 2015, refere, 53% da economia mundial será alimentada pelos países emergentes. “É uma enorme mudança”, exclama.

As quatro velocidades da Europa

Acresce que a Europa tem hoje “quatro velocidades”, alega Pampillón: “Os países solventes, que financiam, e que são 38,5% da economia europeia; os resgatados que são apenas 6%; os contagiados que representam 27%; e os vulneráveis que pesam 30%”. “A resolução desta situação depende inteiramente dos alemães”, diz, para acrescentar que “lamentavelmente tem faltado liderança e capacidade de decisão” em todo o processo que tem decorrido sobre a crise da dívida.

Admite que, se o problema grego não se resolver, pois implica “dilemas complicados”, “é preferível que entre em incumprimento – o euro não vai desaparecer por causa disso”. Acha inclusive que os gregos poderão continuar a usar o euro, “mas sem voto na zona euro”. No entanto, sublinha que o processo grego poderá ter um efeito dominó. Para o problema da crise da dívida na zona euro, diz que a solução é “seguir adiante com a unificação”.

Além disso há um imbróglio bancário: “o sistema financeiro europeu tem um problema de solvência”. Para o professor do IE, há quatro possibilidades para resolver o problema financeiro: ou criar um banco de lixo tóxico (bad bank); ou financiar a recapitalização por via dos estados com capital público; ou a absorção dos envidados pelos bancos “bons”; ou a liquidação dos bancos insolventes. “Sou por esta última opção”, afirma, acrescentando que o Banco Central Europeu deve baixar a taxa de juro de referência ao longo deste ano do atual valor em 1% até 0,5% e prosseguir com a linha de liquidez a 3 anos (LTRO) para os bancos da zona euro. “Com um atraso de seis meses, é provável que o crédito comece a chegar à economia”, espera Rafael Pampillón.

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