Mark Blyth: «Draghi não é um keynesiano, é um realista»

Marc Blyth é um académico escocês radicado nos Estados Unidos que lançou no ano passado um livro polémico sugestivamente intitulado “Austeridade – A história de uma ideia perigosa”. Publicou, agora, com Eric Lonergan, um gestor de um hedge fund londrino, um artigo na revista “Foreign Affairs” onde diz aos bancos centrais que devem “imprimir menos mas transferir mais”.

O professor da Universidade de Brown diz que é preferível aplicar a liquidez dos bancos centrais de um modo similar aos Fundos Soberanos de Riqueza e distribuir diretamente aos contribuintes uma parte dos ganhos, do que andar a injetar dinheiro barato no sistema bancário que, na maioria dos casos, está a alimentar “bolhas” especulativas nos mercados financeiros num período em que a retoma económica continua fraca e o risco de uma prolongada baixa inflação ameaça.

Na semana em que Mario Draghi anunciou mais um pacote de medidas que incendiou o mercado da dívida soberana, Blyth comenta o súbito “keynesianismo” do patrão do Banco Central Europeu (BCE) e as “clarificações” que fez a propósito das suas palavras para banqueiros centrais ouvirem no simpósio de Jackson Hole a 22 de agosto, nos Estados Unidos.

Anterior entrevista com Blyth aquando da sua deslocação a Lisboa em janeiro de 2014.

Entrevista por Jorge Nascimento Rodrigues
(c) JNR 2014

O pacotão de medidas anunciadas esta quinta-feira pelo BCE com dinheiro mais barato para os bancos e incluindo o plano de injetar mais 600 mil milhões de euros em dois programas de compras de ativos do sector privado não financeiro vai resultar?

Novamente é querer forçar as pessoas a pedir emprestado quando elas não o pretendem.

Mas o BCE não está mesmo preocupado com o risco de deflação e a estagnação económica na zona euro?

Claro que sim. O banco central está a falhar a sua meta mês a mês. Ainda que fosse só por razões de credibilidade do banco, o assunto teria de ser tratado. Mas mais importante do que isso, a deflação retira às empresas a motivação para investir e aos bancos a razão para emprestar. É muito mais fácil “sentarem-se” em cima de obrigações soberanas. Num tal mundo, a política monetária torna-se completamente ineficaz. Draghi quer claramente evitar esse destino.

Os programas anunciados em junho e agora em setembro deverão injetar 1 bilião de euros. Isso vai impulsionar a procura agregada que Draghi considerou a missão principal nos tempos “anormais” que correm?

Não. Mas a meu ver é preferível à alternativa, a de comprar mais dívida soberana. Os juros da dívida soberana estão ainda mais comprimidos do que antes da crise financeira e, mesmo assim, as economias mais afetadas continuam em recessão. Draghi está a atuar apenas pelo lado da oferta. Se as pessoas não quiserem endividar-se – como já referi – os efeitos serão limitados.

Mesmo com a preocupação explícita de serem operações direcionadas, condicionadas para que o dinheiro chegue à economia real?

Num contexto de procura agregada deprimida, mesmo a compra de ABS [acrónimo para asset-backed securities, instrumentos de dívida titularizados vinculados a empréstimos], mais a revisão da qualidade dos ativos dos bancos da zona euro, mais as operações de refinanciamento direcionadas [conhecidas pelo acrónimo TLTRO] que começam já daqui a duas semanas, terão um efeito de longo prazo limitado. Como Keynes disse uma vez, é como querer empurrar um bocado de corda, ou como eu costumo dizer querer curar problemas orçamentais com remédios monetários.

O discurso de Draghi em Jackson Hole não foi uma crítica à austeridade na política orçamental da zona euro, quando ele afirmou que, desde 2010, os govermos estiveram menos disponíveis e foram menos eficazes no combate à crise do que em outras economias desenvolvidas?

Um dos aspetos mais estranhos desta crise desde 2008 é que se repudiou a política orçamental e se impôs uma inflação baixa como a única meta de políticas. E isso tem um custo. Os bancos centrais foram designados como as instituições para “gerir” a economia. O problema é que se esteve a pedir aos bancos centrais para reparar problemas orçamentais – desemprego, falta de procura, rendimentos decrescentes – com ferramentas monetárias. E isso não resulta.

Então, o que pretendeu dizer Draghi?

Ele não está a rejeitar a austeridade. Ele está a pedir aos governos para reconhecerem que há certos problemas que um banco central não resolve e que agora os políticos têm de agarrar o desafio em vez de delegarem tudo nele.

Com o “impulso à procura agregada”, o presidente do BCE está a revelar uma veia keynesiana, é o novo Keynes de Frankfurt?

Bom, os orientadores da tese de doutoramento de Draghi em 1977 no Massachusetts Institute of Technology (MIT) foram Franco Modigliani e Robert Sollow…

Esses dois Prémios Nobel, que orientavam esses doutoramentos nos anos 1970 a 1990 no MIT, eram alcunhados de “keynesianos ecléticos”. Por lá passou a doutorar-se, além de Draghi, Ben Bernanke, que viria a ser um homem chave nesta crise financeira e presidente da Reserva Federal norte-americana…

Bom, isso deve ter tido algum efeito em Draghi. Mas, mais importante do que essas eventuais influências, ele tem vindo a construir a capacidade de atuação do BCE degrau a degrau durante esta sua presidência desde final de 2011. E, agora, ele está a atingir os limites do que pode fazer. Por isso diz aos governos que é a vez deles. Isso não faz dele, necessariamente, um keynesiano. É, apenas, realista.

Curiosamente Draghi não usou esta quinta-feira (4 de setembro) na conferência de imprensa a expressão “procura agregada” que utilizara no seu discurso em Jackson Hole e procedeu a uma clarificação política considerando que, primeiro, devem avançar as reformas estruturais e, depois, a discussão sobre a flexibilidade orçamental. Está a tentar tornar a sua proposta “aceitável” para a Alemanha?

Sim. Mas ele jamais o admitirá.

Em resposta a uma pergunta de um jornalista, o presidente do BCE recusou-se a considerar a sua defesa da convergência entre as políticas monetária, orçamental e de reformas estruturais como a proposta de um contrato político entre os principais protagonistas, como Alemanha, França, Itália e Comissão Europeia. O que estamos a assistir é ou não uma negociação na praça pública?

Não sei se poderei responder-lhe. Os bancos centrais não fazem política – lembre-se disso. (Risos)

A proposta alternativa de “impulsionar a procura agregada”, que faz este mês na revista “Foreign Affairs”, consistindo em transferir diretamente para os contribuintes os ganhos de aplicações da liquidez dos bancos centrais numa lógica similar aos fundos soberanos de riqueza é exequível?

A nossa proposta vai para além do sistema financeiro. Num período de dois anos, a nossa proposta provocaria um impulso real no rendimento da maioria dos europeus mais afetados pela crise e poderia fazer sair as economias mais afetadas da deflação, e isso aconteceria de um modo mais barato e mais rápido em comparação com as alternativas, sejam as atuais dos bancos centrais sejam propostas de um imposto de riqueza global [como defendeu o economista francês Thomas Piketty].

Qual é o obstáculo?

O único problema é a falsa memória alemã invocando a hiperinflação dos anos 1920, alegando que foi gerada por despesa pública. Não foi, como se sabe. Foi causada pela política deliberada do governo alemão em liquidar as reparações devidas a França [depois do final da 1ª Guerra Mundial], e, aliás, funcionou. Por isso, alternativas ao que está a ser feito nunca serão tentadas. O futuro da Europa é, por isso, uma recessão de uma década.

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