Em tempo de crise fure as regras

génios

E aposte nos génios dentro da sua organização,
aconselha Michael Michalko, um especialista em inovação e criatividade

Jorge Nascimento Rodrigues

É em tempos de crise que o modo de pensar convencional mais mossa faz aos negócios.

Sinteticamente, ele traduz-se em «seguir as normas», «reproduzir» o que se aprendeu e viveu, replicar o que resultou. Contudo, isto é tudo o que não é «normal», por mais estranho que isto soe ao leitor.

O que é «normal» no pensamento humano é o contrário. O que é normal é o comportamento dos génios, esses personagens de que tendemos a dar uma risada, encarando-os como gente extravagante, boa para nos divertir, mas totalmente desinteressante para o mundo dos negócios.

Para nosso azar, os génios comportam-se exactamente do modo mais interessante para os negócios. Eles produzem criatividade e inovação - que é o bem mais precioso em tempos de crise. Dizia Masaru Ibuka, o fundador da Sony, que «o sucesso é nunca seguir os outros, mas aprender a inovar, inovar e inovar». Descobrir os «segredos» do mecanismo de pensar dessa gente e cultivá-los dentro da organização, é o desafio que uma nova corrente da gestão nos traz.

A Janela esteve com Michael Michalko, um dos arautos desta «fileira» de consultadoria, que publicou recentemente o sugestivo livro Cracking Creativity: The Secrets of Creative Geniuses (compra do livro), que a World Future Society, a agremiação mundial de futurólogos, está a recomendar.

Um ensino que derrete o ouro

«Todos nascemos como criaturas com um pensamento espontâneo criativo. Infelizmente, grande parte da educação que recebemos destina-se a matar esta galinha de ovos de ouro, a inculcar-nos pontos de vista. Somos ensinados a lidar com os problemas e os fenómenos a partir de atitudes mentais rígidas. Aprendemos a saber o que pensar e não o como pensar. Em suma, tendemos a reproduzir o conhecimento, a repetir as mesmas ideias e paradigmas até que a prática nos demonstre clamorosamente o erro, e aí, por vezes, já é tarde», afirmou Michael Michalko.

O que isto implica é que, nas organizações, tendemos a privilegiar o que está «testado» ou é «economicamente correcto» em detrimento de ideias alternativas. Este modelo do «saber reprodutivo» foi cuidadosamente estudado por um psicólogo inglês, Peter Watson, que Michalko foi buscar para contrapôr a normalidade 'natural' dos génios à anormalidade artificial das gentes convencionais.

«A descoberta mais importante de Watson foi que as pessoas convencionais tendem a processar a mesma informação vezes sem conta até que o erro seja óbvio e lhes provoque dor. Tendem a não procurar, por si, alternativas, mesmo quando o ambiente é livre, não as impedindo de o fazer. Os génios são exactamente o contrário disto. O génio está incessantemente a procurar alternativas e olha as coisas de diferentes maneiras. Pensam, tal como age a Natureza, de um modo produtivo - e não reprodutivo», explica-nos o nosso interlocutor, que encontrou uma mãozinha de Darwin nestas coisas (ver no final).

Criar é trabalho árduo

Michalko pôde testar estas ideias, anteriormente, no seu trabalho - imagine-se! - dentro das Forças Armadas americanas, quando participou em Frankfurt, na Alemanha, em trabalho de «intelligence» na NATO. «No nosso grupo de trabalho andámos à procura e classificámos todos os métodos intensivos de invenção e criatividade. Aplicámos estas técnicas nos «brainstormings» da NATO sobre diversas questões militares e políticas», conta Michalko, que, depois de sair do Exército, passou a usar este «know-how» na consultoria junto do mundo empresarial civil.

A principal lição que ele «vende» é que é indispensável criar um «ambiente» organizacional favorável a esta explosão de alternativas, à possibilidade de furar as regras estabelecidas, de pensar «fora da caixa», como dizem os americanos.

E não se julge que este «mecanismo» genial (próprio dos génios) é coisa fácil, que resulta de um 'clique' à sombra da bananeira, como os vendedores de «gestão rápida» tendem a iludir-nos. Diz Michalko: «É trabalho árduo do mais duro. Ser produtivo, quer dizer isso mesmo. Quando se é um criativo falha-se mais do que se acerta. É dessa quantidade de esforço que surge a qualidade. Thomas Edison, um dos inventores de sempre, dizia que o génio é 1 por cento de inspiração mais 99 por cento de transpiração. Ele falava com conhecimento de causa - teve de fazer mais de 9000 experiências para acertar com a lâmpadazinha».

O que significa que uma cultura de criatividade não é indissociável de uma cultura de falhanço como método de aprendizagem. O mesmo Edison costumava responder, quando lhe apontavam a tonelada de falhanços e o tempo «perdido», que «não tinha falhado nada, apenas tinha descoberto uns milhares de coisas que não funcionam», o que nos pode provocar o riso...sem deixar de ser uma regra essêncial da empresa inovadora.

A ajuda da Internet

Segundo Michael Michalko, as mais recentes inovações em torno da Internet e das intranets possibilitarão, ainda mais, este ambiente de geração de alternativas e de pensamento não-convencional dentro das organizações.

«As possibilidades para uma diversidade electrónica são infindáveis. Com a tecnologia recente de intranet, uma empresa pode facilmente juntar equipas de gente muita diversa, com diferentes talentos, especialidades, posturas na vida, localização geográfica, de dentro e de fora da organização, e transformar essa mistura em criatividade», advoga Michalko. «Se ficcionarmos, a equipa de génios do Star Trek, dirigida pelo capitão Kirk, com o lógico Spock, o cocabichinhos Scotty e o emocional McCoy, continua a fascinar-me», conclui o nosso interlocutor. O autor publicou anteriormente Thinkertoys - A Handbook of Business Creativity (compra do livro) e ThinkPak - A Brainstorming Card Deck (compra do livro), tudo livros-ferramenta sobre o método.

A Mãozinha de Darwin

Charles Darwin está condenado a ser um produto de exportação. As mais diferentes disciplinas do conhecimento, volta e meia, vão buscá-lo ao baú do século XIX para aplicar as suas ideias sobre a origem e evolução das espécies e o comportamento da Natureza a outros domínios e problemas mais humanos.

Por vezes, essa «importação» não é a mais dignificante social e politicamente e cheira a vigarice intelectual, mas no caso da aplicação ao «mecanismo» de funcionamento dos génios feita por Michael Michalko vale a pena o leitor deitar o olho aos segredos que ele desvenda e «roubá-los» para uso próprio.

«Fico sempre impressionado com A Origem das Espécies por Meio da Selecção Natural escrita por Darwin em 1859 e tenho dado toda a atenção às tentativas para importar as suas ideias sobre a criatividade da Natureza para a criatividade humana e o modo de funcionar dos génios», diz-nos o autor de Cracking Creativity: The Secrets of Creative Geniuses (compra do livro), que se especializou nesta área da gestão.

Essa relação estranha entre a selecção natural e o comportamento dos génios foi sobretudo desenvolvida nos anos 60, deste século, com os trabalhos do psicológo Donald Campbell, que Michalko repescou trinta anos depois.

«A Natureza cria as espécies através do «método» cego de tentativa e erro. Na Natureza, 95 por cento das novas espécies falham e morrem num curto período de tempo, 5 por cento sobrevivem e desenvolvem-se. A Natureza é assim extremamente produtiva. Ela cria muitas possibilidades e alternativas e depois deixa à selecção natural decidir as que sobreviverão», cita Michalko, para depois saltar para os génios: «O comportamento dos génios é análogo. Ele provoca também uma diversidade incrível e imprevisível de alternativas e conjecturas. Desta variedade, o intelecto humano retém as melhores para posterior desenvolvimento e comunicação. A questão essêncial que daqui se infere é que, se se quiser «clonar» a forma de pensar dos génios é indispensável criar métodos e ferramentas de gestão que produzam essa agitação e a melhor forma é provocá-la ao acaso. Isso exige o corte com a forma tradicional de pensar e do conhecimento que é reprodutiva e não produtiva».

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