Multinacional petrolífera reconhece ‘pico’ do petróleo

É a primeira vez que um presidente de uma multinacional petrolífera fala claro sobre a situação do mercado do crude e àcerca da sua tendência estrutural para a alta. Afirma-o em discurso directo e não através de relatórios de cenários a que só os especialistas têm acesso.

Por estas razões, as declarações que comentamos, de seguida, têm importância geoeconómica relevante.

“Os preços do crude manter-se-ão altos nos próximos anos, devido, em grande medida, a um ajustamento entre a oferta e a procura”, disse, na terça-feira (10 de Junho), em Nova Iorque, José Sérgio Gabrielli, presidente e administrador delegado da Petrobras.

Gabrielli acrescentou, ainda, preto no branco, que do lado da oferta, “os grandes produtores têm algumas restrições”, nomeadamente a Rússia e o Médio Oriente, os actuais principais produtores mundiais. Essas restrições explicam a ausência de margem de manobra dos grandes exportadores para responder afirmativamente aos “pedidos” políticos de aumento da oferta por parte dos principais consumidores, como aconteceu na última semana de Maio e nesta primeira semana de Junho.

Em relação à euforia em torno da sinalização de novas jazidas na zona «offshore» de Santos, no Brasil, Gabrielli reiterou a necessidade de moderação do optimismo bolsista (que se repercutiu em Portugal também) e oficial que se seguiu a esses anúncios em Abril. Frisou que o potencial exacto ainda se desconhece.

Estas afirmações de Gabrielli vêm, também, na sequência de novos dados recentemente divulgados sobre o xadrez da oferta mundial.

Os negociadores de crude tomaram consciência de mais dois factos relevantes que estão a pressionar em baixa a produção e a deixar nervosos os negociadores de crude nos mercados de futuros.

O primeiro facto, revelado, pelo The Oild Drum, diz respeito à Europa: a oferta oriunda do Mar do Norte (Noruega, Reino Unido e Dinamarca) está, no conjunto, a baixar significativamente, desde um pico de produção no ano 2000, em virtude do facto do Reino Unido ter passado de exportador para importador líquido desde 2006, o que já não acontecia desde os anos 1970. Também, a oferta de crude por parte da Noruega tem declinado desde um pico de produção em 2001, o que provocou um decréscimo nas exportações.

O segundo facto prende-se com as más notícias que vêm do México. Espera-se a confirmação de que este país produtor e exportador estará a caminho de inverter a situação passando, também, a importador líquido em 2015 – o que já não está assim tão longe. As exportações têm vindo desde 2005 a declinar. Como explica o especialista português da ASPO, Luis de Sousa: “O que tudo indica irá ocorrer é uma queda abrupta do maior campo petrolífero do país, Cantarel, que por volta de 2010 já estará a produzir quase zero. A partir daí, o México deverá manter alguma margem de exportação até 2015, mas muito inferior à actual. Na realidade as grandes receitas mexicanas a partir do petróleo desvanecer-se-ão com Cantarel”. O que podemos antever, no mínimo, é um problema político grave nas ‘traseiras’ dos Estados Unidos.

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