Nick Malkoutzis: “Ninguém sabe que impacto terá a saída da Grécia do euro”

Um dos medos acerca de uma saída da Grécia do euro é que ninguém sabe mesmo que impacto teria. Aquilo com que muita gente está preocupada é com um colapso do sistema bancário. A que acresce o facto de que, tendo de desvalorizar fortemente a nova moeda, o dracma, a hiperinflação surgiria entretanto e as dificuldades em importar produtos básicos, petróleo e medicamentos disparariam”, diz Nick Malkoutzis, editor da versão em inglês do jornal grego “Kathimerini”, um dos mais influentes, em entrevista. A edição diária em inglês é publicada em parceria com o International Herald Tribune.

Kathimerini deputy editor; photo InsideGreece

ENTREVISTA por Jorge Nascimento Rodrigues

P: O Memorando de Entendimento (MoU) com a troika tem mesmo de ser mudado, depois da derrota que sofreu nas urnas?

R: Convém distinguir dois aspetos no MoU – as reformas estruturais e as metas orçamentais. Quanto às primeiras, elas são vitais. Mas há uma área em que tais reformas estruturais podem ser polémicas, na questão da reforma do mercado laboral. A opinião pública grega não ficou convencida que a abolição dos contratos coletivos de trabalho e a baixa do salário mínimo beneficiarão a população ou o país.

P: Isso quer dizer que as metas orçamentais são a parte que atrai a maior discordância mesmo dos sectores moderados do espectro político?

R: Nesse campo, tem de haver uma flexibilização das exigências da troika. A própria realidade mudou: a troika previa que a economia grega se contrairia 4,5% este ano. Ora, muitos economistas preveem que chegue aos 7%. Isto significa que no espaço de apenas quatro anos, a nossa economia caiu quase 25%. Isto é devastador. E torna difícil alcançar quaisquer metas no rendimento que possam reduzir o défice orçamental. Isto tem de ser reexaminado antes que a nossa economia seja completamente destruída. Não há qualquer forma de cumprir o programa se a capacidade da Grécia pagar a sua dívida está afetada pelo aprofundamento da recessão.

P: Se caminhar para novas eleições em meados de junho, há o risco de uma bancarrota na Grécia, já que coincidiria com a revisão regular feita pela troika ao andamento do plano de resgate?

R: A troika desbloqueou uma parte da tranche de 5,2 mil milhões de euros, mas este dinheiro é apenas para servir a dívida e não para os gastos públicos. Para além disso, a Grécia parece dispor de dinheiro até junho. Se não obtiver a tranche seguinte, arrisca-se a entrar em bancarrota interna, não podendo pagar as reformas nem os vencimentos dos funcionários públicos. O governo também já deve mais de 6 mil milhões de euros a fornecedores e em reembolsos de impostos. A situação é absolutamente crítica.

Não é claro que o eleitorado grego queira que a Grécia saia do euro

P: O que a troika irá fazer face à crise política grega em curso?

R: Suspeito que vai esperar para ver os desenvolvimentos. Talvez se disponha a cobrir algum buraco através de um empréstimo-ponte até que se saiba se temos governo que aceite trabalhar com a troika ou se o plano de resgate chega ao fim da linha.

P: Há o risco da Grécia sair do euro?

R: Se um governo anti-memorando for formado, a partir de novas eleições, então essa possibilidade é real. O partido SYRIZA (da esquerda radical, segundo partido mais votado nas eleições de domingo) e os Gregos Independentes (de direita, formado por ex-membros da Nova Democracia, e que consideram que o memorando é uma invasão, e que foram o quarto partido mais votado) já disseram que não aceitam o memorando nos termos em que está e eu duvido que haja mudanças no texto que possam ser aceitáveis para a troika e que satisfaçam aqueles dois partidos, para poderem reclamar vitória junto dos seus eleitorados.

P: Mas o eleitorado grego quer mesmo sair do euro?

R: Não é claro que queira. Julgo que a mensagem para os políticos dada pelas urnas foi esta: “trabalhem em conjunto para melhorar os termos do plano de resgate e criem um plano para sairmos da crise”. É possível que se formos para novas eleições o eleitorado dê uma resposta clara a isso – ou favorece o campo contra o memorando, ou os partidos que ainda acreditam em permanecer no euro a todo o custo.

P: Quais são as consequências de uma saída do euro?

R: Um dos medos acerca de uma saída da Grécia do euro é que ninguém sabe mesmo que impacto teria. Aquilo com que muita gente está preocupada é com um colapso do sistema bancário. A que acresce o facto de que, tendo de desvalorizar fortemente a nova moeda, o dracma, a hiperinflação surgiria entretanto e as dificuldades em importar produtos básicos, petróleo e medicamentos disparariam.

P: Alguns dizem que a saída do euro, e o regresso a moeda própria, favoreceria a competitividade do país, é possível?

R: Sim, há alguns, como Nouriel Roubini, que minimizam o lado negativo e argumentam que o impacto seria curto e que em breve a Grécia dinamizaria as suas exportações graças a uma desvalorização do dracma, a nova moeda.

P: E não será, assim, que a economia grega responderá, como alvitram alguns textos dos livros de economia?

R: O problema é que a Grécia não é a Argentina. Não tem exportações prontas à espera de encontrar compradores logo que se tornem mais baratas. A nossa base produtiva e agrícola foi dizimada com o euro, e pode tornar-se bem difícil reviver e inclusive há o problema do acesso ao capital.

P: Uma saída do euro significa uma saída da União Europeia (UE), no contexto atual muito crispado?

R: Não é certo que isso aconteça. É mais um assunto jurídico sobre os tratados e certamente que os advogados acabarão por achar uma solução – sempre o conseguem!

A Rússia poderá ser um aliado vital

P: Mas que alianças poderia procurar a Grécia fora da UE?

R: O Partido Comunista Grego, que advoga explicitamente a saída do euro e da UE, argumenta que o nosso país pode olhar para os estados árabes procurando novas alianças, mas isto não é convincente. A realidade é que uma saída deixará a Grécia muito isolada, a não ser que as suas relações com a Turquia e os vizinhos dos Balcãs melhorem significativamente.

P: Um dos aspetos na região é o facto de Chipre, um país membro da zona euro, ter sido financeiramente resgatado pela Rússia. Será um modelo de aliança?

R: A Rússia sempre teve uma relação financeira muito forte com Chipre desde os anos 1990. Muitas das firmas russas estão sediadas em Chipre o que significa que Moscovo tem um enorme incentivo em assegurar que a economia cipriota esteja em boa forma. Ora, a Rússia não tem o mesmo tipo de relacionamento com a Grécia.

P: Em virtude da localização estratégica da Grécia, a Rússia poderá ser um aliado?

R: Quando Kostas Karamanlis foi primeiro-ministro (do governo da Nova Democracia), entre 2004 e 2009, tentou cultivar laços com Vladimir Putin e os dois lados acordaram em trabalhar no oleoduto Burgas (na costa búlgara do mar negro)-Alexandroupoli, mas isso falhou. Certamente que há potencial na cooperação entre os dois países, mas tem de ser sempre equilibrado com a posição da União Europeia (UE) em relação aos acordos com a Moscovo. A Grécia importa muito do gás natural da Rússia, mas a UE manifestou reservas, no passado, em relação ao facto de membros seus se tornarem superdependentes do gás russo. Atualmente o nosso país iniciou o processo de exploração de petróleo e gás – e, nesse aspeto, talvez venha a haver um interesse russo. Já manifestou interesse em comprar a DEPA, a empresa grega de gás. Certamente que, no caso de uma saída da UE, a Rússia poderá tornar-se um aliado vital.

P: Qual o papel do investimento chinês no porto do Pireu?

R: O relacionamento com os chineses é algo que foi construído ao longo dos anos mais recentes. O investimento da COSCO (China Ocean Shipping Group) no Pireu é significativo e espera-se que aumente. Também houve manifestação de interesse de criar uma plataforma logística perto de Atenas. Mas, tal como com os russos, eles não investirão apenas por investir. Precisam de condições adequadas. E isso significa estabilidade económica e política, e também um ambiente amigo do investidor. A Grécia não dispõe dessa situação, por ora, e, se não a criar, o capital russo e chinês irá para outro lado. Veja o caso de Portugal. Os Chineses também já investiram aí, o que significa que as condições no seu país estão maduras.

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