Alibaba.com (China)

O crocodilo do Yangtsé

Um ex-professor de inglês de uma província costeira chinesa criou um conglomerado da Web que acabou de ter uma "mãozinha" super-milionária do Yahoo!. Inspirado no Ali Babá das "Mil e uma Noites" persas, Jack Ma, 41 anos, quer transformar o seu grupo nascido no delta do rio mais longo da Ásia no líder do comércio electrónico a Oriente.

Os segredos de Alibaba.com

A China será o maior mercado de Internet do mundo num horizonte próximo, e focalizou-se em servir as PME do maior mercado emergente e de lhes abrir «uma ponte para o mundo». Faz uma aposta complementar na diáspora de língua chinesa, para actuar no que chama de «mercado chinês estendido».

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, com Jack Ma, CEO e Fundador da Alibaba.com, sediada em Hangzhou, China, Dezembro de 2005

Entrevista em inglês Jack Ma em "Generation 21" | Sítio da Alibaba

Um investimento astronómico de 1700 milhões de dólares realizado pela Yahoo! californiana num grupo chinês de comércio electrónico trouxe para a ribalta internacional, na segunda metade deste ano, um conglomerado da Web que dá pelo curioso nome de Alibaba. Há seis anos atrás, inspirado na personagem do lenhador árabe de um dos contos de "As 1001 noites", um ex-professor de inglês da cidade chinesa de Hanghzou - a duas horas a sul de Xangai - juntou 17 colegas à mesa da sala do seu apartamento, convenceu-os a largar um pé-de-meia colectivo de 60 mil dólares e a mudar de vida. Mal sabiam que tinham encontrado um "Abre-te Sésamo" dos tempos modernos.

Ma Yun - Jack Ma, para os ocidentais - tinha alguns argumentos de peso para convencer os amigos. O seu próprio trajecto, desde 1995, colou-o definitivamente à sorte da Internet no mais populoso país do mundo (ver Perfil). Fruto de circunstâncias rocambolescas, Ma foi pioneiro da Web na China, e, entre muitos acasos, foi cicerone numa visita à Grande Muralha de Jerry Yang, o jovem da Universidade de Stanford oriundo de Taiwan que co-fundou o Yahoo!. Desde aí ficaram amigos e descobriram que tinham «culturas de empresa muito similares, com valores semelhantes», disse-nos Jack Ma. Sete anos depois tornaram-se sócios numa das parcerias estratégicas de maior alcance na Ásia.

«Somos como crocodilos do Yangtsé», gosta de ironizar, para se diferenciar das multinacionais norte-americanas do próprio Silicon Valley, que ele considera «tubarões de oceano». Jack acha que o espírito das águas do mais longo rio da Ásia - o Yangtsé é, também, conhecido como Chang Jiang, ou rio longo - levará os empreendedores da região, e em particular o Alibaba a liderar o sector do comércio electrónico na Ásia num horizonte de médio prazo.

Convergência na Web

Bafejado por este mito, Jack conseguiu reunir mais de 100 milhões de dólares entre 1999 e 2004 provenientes de investidores internacionais institucionais, como o Softbank japonês (ainda hoje o segundo maior investidor, com mais de 27% do grupo chinês), a Fidelity Investments e a Venture TDF China, o que lhe permitiu apostar «na convergência na cadeia de valor do comércio electrónico, o que hoje já é copiado por outros em todo o mundo», diz-nos Jack.

Por "convergência", entende o posicionamento em todos os segmentos fundamentais da cadeia de valor daquele negócio - desde plataformas de B2B (comércio virtual entre empresas), uma virada para o import-export e outra para o mercado chinês, até um sistema "online" de pagamento próprio (AliPay) e um portal de leilões do tipo do eBay californiano, que Jack baptizou de Taobao (sugestivamente, "Caça ao Tesouro"). Faltava o segmento do motor de procura, o que adquiriu no acordo com o Yahoo!, tendo relançado o Yahoo.com.cn agora em Novembro. «Tudo sob o mesmo tecto», sublinha Ma.

Jack confessa que os seus «segredos» são simples de descobrir: apostou no facto de que a China será o maior mercado de Internet do mundo num horizonte próximo, e focalizou-se em servir as PME do maior mercado emergente e de lhes abrir «uma ponte para o mundo». Faz uma aposta complementar na diáspora de língua chinesa, para actuar no que chama de «mercado chinês estendido». Foram estes activos estratégicos do grupo chinês que levaram o amigo da América a aceitar uma valorização potencial do Alibaba «exagerada e fruto da 'bolha' chinesa» (como condenaram os analistas mais críticos) que é 170 vezes o "cash flow" líquido do ano passado e a ficar-se por 35% dos direitos de voto. Os investidores têm, também, outro chamariz na mira: a hipótese de ida ao Nasdaq norte-americano «daqui a três a cinco anos», como espera Jack Ma.

PERFIL
Ma Yun - em pinyin, ou mandarim romanizado - é um dos exemplos de quadro chinês da geração sub-50, que teve o seu baptismo universitário e profissional na Primavera das Reformas dos anos 1980 e 1990, depois do enterro da Revolução Cultural. Nascido em 1964 licenciou-se em inglês e comércio internacional num Instituto de Hangzhou, a capital da província de Zhejiang, uma das banhadas pelo Delta do Yangtsé, o mais longo rio da Ásia. A aposta no inglês parece ter sido "faro" estratégico. Ele próprio diz que cresceu a ouvir a rádio "Voz da América" e se levantava cedo para ir servir de guia a turistas estrangeiros na zona do lago ocidental da cidade, Xi Hu, considerado por um poeta da dinastia Song como o mais belo da China.
Ma começou por criar uma empresa de traduções, mas uma ida em 1995 aos Estados Unidos mudou-lhe a vida. Não pelas razões que o leitor poderá imaginar - foi um acaso rocambolesco. Conta o The New York Times - de Agosto passado (31/08/05) - que Jack Ma viajou para as areias de Malibu, em Los Angeles, para cobrar uma dívida de uma empresa chinesa e acabou sequestrado pelo devedor. Só saiu em liberdade na condição de ajudar o bandido "a criar uma empresa da Internet na China". Nunca mais soube nada do sequestrador americano, mas, no regresso, resolveu "olhar para isso da Internet". Pediu emprestado a familiares 2000 dólares e criou a China Pages em 1995 para desenhar páginas web para clientes chineses. Assim se tornou o pioneiro da Internet.
Com o conglomerado Alibaba, Jack dirige hoje 3000 pessoas na China (14 escritórios e mais de 1000 vendedores no terreno), Hong Kong (onde tem a sede internacional do grupo), Suíça e Estados Unidos, e tem acesso a 18 milhões de registados nos vários portais de comércio electrónico do grupo. Já foi considerado como "Jovem Líder Mundial" pelo World Economic Fórum. A televisão central chinesa considerou-o em 2004 um dos "10 líderes empresariais do ano".
Mantém um blogue pessoal, em chinês, em www.mayun.com.
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