A última revelação do Silicon Valley depois do «crash» do NASDAQ

O «puto» do P2P

«Computação distribuída é uma área tecnológica excitante»

That's the NEXT HOT THING

(Em Março de 2001, a Infrasearch seria adquirida pela Sun Microsystens
e integrada no projecto Juxtapose liderado por Billy Joy)

Jorge Nascimento Rodrigues com Gene Kan visto pelo traço de Paulo Buchinho

(Gene Kan faleceu em Junho de 2002)

Um projecto editorial com a Ideias & Negócios

A «buzzword» ASCENDENTE no Vale do Sílicio Californiano dá pelo nome de «peer to peer» (na mania das abreviaturas: P2P).

É uma plataforma tecnológica que permite as relações directas (da simples troca de ficheiros a transacções) entre «pares» de uma mesma rede SEM NECESSIDADE de passar por um mecanismo CENTRALIZADO.

Em dialecto tecnológico: computação distribuída. Um palavrão com que a maioria dos leitores ainda não se familiarizou. Mas que em 2001 vai estar NA BERRA. Por isso, TOME NOTA.

Entre nós, acabámos de começar a ouvir falar de B2B («business to business», ou seja transações na Web entre empresas através de uma plataforma dirigida por um agregador) e já nos está a bater à porta uma nova tecnologia que vai COLOCAR DO AVESSO esse modelo de negócio digital.

Um dos «putos» do Silicon Valley no meio desta revolução é GENE KAN, recém licenciado da Universidade da Califórnia em Berkeley (na Baía de São Francisco), que com 24 anos criou, há pouco mais de seis meses (Junho 2000), com dois amigos, a InfraSearch, cujos contornos são ainda SECRETOS em muitos aspectos (como o leitor vai ver).

Arquivo de Alquimistas do Digital | Outros Heróis da Web | Site da InfraSearch
Dossier da revista Red Herring sobre a InfraSearch e o P2P

As «dot-com» estão sob o fogo cerrado dos Velhos do Restelo, que sonham regressar aos tempos tranquilos da «velha» Economia ou da fase anterior da Revolução da Informação. A oportunidade para a ladaínha tem sido o «crash» progressivo no NASDAQ. Agora, até «senhores» muito importantes do Vale «tecnológico» mais famoso do mundo vêm dizer que «a nova economia nunca existiu».

Mas a história das rupturas tecnológicas nunca volta para trás. A Web, a Internet e a Economia Digital vieram para ficar. E a próxima vaga na computação começa já a insinuar-se. Baptizaram-na de «computação distribuída» e promete revolucionar o mundo dos negócios e o funcionamento interno das organizações. E, uma vez mais, virá colocar em cheque alguns dos «dinossauros» da informática.

A ideia do P2P («peer to peer») começou a sair da sombra com a fama do Napster – o polémico software de partilha de ficheiros (de música, em MP3) também nascido no Silicon Valley e que é alvo hoje de uma ofensiva legal. Subitamente, os computadores «clientes», de meros utilizadores (consumidores), passaram, também, a fornecedores - a relação passou a ser biunívoca e sem quer que seja a mandar.

A esse mecanismo «pirata» começou a associar-se (apenas em termos de ideia, obviamente) as virtualidades demonstradas por projectos como o Seti@home, Search for Extraterrestrial Intelligence - o célebre programa de procura de vida extra-terrestre que assenta no esforço de computação distribuída mobilizando, em todo o mundo, as unidades centrais de processamento (CPU) de milhares e milhares de computadores ligados àquela rede, usando-as durante o período de inactividade pelos seus utilizadores regulares.

Em suma, podem criar-se motores de pesquisa baseados numa actualização permanente em fontes a que as máquinas de procura tradicionais não chegam e inclusive começar a desenhar modelos de negócio que explorem os pontos fortes deste «par-a-par».

Está a nascer o «Day After» do dilúvio bolsista da Nova Economia. E, uma vez mais, o epicentro está no Vale californiano. InfraSearch é uma das mais recentes «start-ups» do Vale a atrair a atenção dos tecnólogos e dos capitalistas de risco.

Modelos de negócio baseados no P2P
  • Partilha universal de ficheiros - aplicação a distribuição de conteúdos protegidos em intranets e extranets
  • Partilha activa de capacidade computacional - redução da necessidade de supercomputadores e de servidores ultra potentes
  • Computação colaborativa - partilha de ficheiros seguros em tempo real em grupos «ad-hoc»
  • Agentes inteligentes - motor de pesquisa cooperativo
  • Computação distribuída - redução para 1/10 ou 1/20 nos custos de computação com aumento simultâneo da produtividade
  • Relacionamento entre utilizadores e grupos de especialistas partilhando interesses comuns – potencialidades para pesquisa eficaz em áreas de conteúdos ou de gestão do conhecimento
  • Segmentos de mercado que poderão usar o P2P
  • Empresas que necessitam de supercomputação sem pretenderem investir em supercomptadores e que estão dispostas a pagar pela alocação de recursos alheios - áreas da biotecnologia, serviços financeiros, motores de pesquisa, ISP (Internet Service Providers) e ASP (Application Service Providers), CAD (desenho assistido por computador)
  • Sindicação de conteúdos - distribuição de media, audio digital, video e multimedia
  • Plataformas de B2B sem agregador central – modelo B2P («business to peer») em «portais de pares» («peer portals»)
  • Três jovens programadores – Gene Kan, Cady Oliver e Yaroslav Faybishenko - de pouco mais de vinte anos estão a arriscar o pêlo num projecto que já é tido como «THE NEXT HOT THING», na linguagem eufórica californiana.

    Os cínicos dirão que será mais um «flop», como o foi a tecnologia «push», outra das estrelas do Vale há dois ou três anos atrás.

    Gene Kan é o cabeça de cartaz de algo com algumas pitadas de secretismo, como o leitor depreenderá. Na Web, entra-se para o mundo da InfraSearch através de um domínio apropriadamente baptizado de «gonesilent» (na Web em www.gonesilent.com).

    Quando lhe surgiu a ideia de criar um motor de pesquisa na Web diferente dos existentes?
    Gene Kan
    «Muitas empresas hoje em dia reclamam-se
    do P2P, mas
    na realidade
    não têm nada
    a acrescentar»

    É algo que muita gente tem tentado nos últimos anos. Mas só, recentemente, a ideia começou a ter pernas para andar de uma forma distribuída.

    Qual é a diferença com o polémico Napster? E com o que por aí se faz em nome do P2P?

    O Napster está centrado na música. E muitas empresas hoje em dia reclamam-se do P2P, quando, na realidade, não têm nada a acrescentar a essa tecnologia. É uma pena, porque o «peer to peer» é um óptimo exemplo de uma área tecnológica excitante – a da computação distribuída.

    A vossa tecnologia de pesquisa vai «rebentar» com os motores existentes (como o Google) ou vai complementá-los? Qual é a diferença entre o vosso modelo de pesquisa e o dos motores da primeira vaga?

    Creio que a pesquisa distribuída é altamente complementar com o que esses motores fazem. Eles são muito bons na procura de conteúdos estáticos - enquanto que a nossa tecnologia é para a pesquisa de conteúdo dinâmico. Cada vez mais, o conteúdo dinâmico é o que manda na Internet. Por isso, creio que vamos oferecer um óptimo «adjunto» para os motores de pesquisa tradicionais.

    Quando começou a testar a ideia não tinha intenção de criar uma empresa e, ao que consta, o Gene nunca pensara em largar o seu emprego de programador na WeGo (uma «software house» de Redwood City, curiosamente na mesma cidade onde fica a sede do Napster). O que é que o levou a dar o passo para o empreendedorismo?

    Eu queria dedicar-me a 100% ao projecto da InfraSearch para prosseguir esta possibilidade. Decidi-me, então, a procurar investimentos e a criar a empresa com Cady e Yaroslav.

    E qual foi o papel de alguns «business angels» e investidores iniciais como Mark Andreessen (o pioneiro do «browser», criador do «Mosaic» em 1993 e da Netscape em 1995) e Graham Spencer, co-fundador do Excite?

    Deram-nos uma ajuda muito importante na forma de pensar a nossa tecnologia na óptica de negócio – de «saltarmos» da programação para o mercado.

    Foi noticiado que começaram com 5 milhões de dólares (mais de um milhão de contos) numa primeira ronda de financiamentos. Quanto é que já arranjaram, ao todo, junto de capitais de risco, como a Angel Investors (que também investiu no Napster)?

    Não divulgamos.

    Apesar da tormenta nos mercados de capitais, têm alguma previsão para o vosso IPO (oferta inicial pública em Bolsa)?

    Não divulgamos.

    Mas certamente que o actual ciclo descendente do Nasdaq afectará a vossa estratégia?

    Afecta toda a gente. Ninguém aqui no Vale está imune ao que está a acontecer nos mercados de capitais.

    E a actual acção judicial em relação ao Napster não vai influir negativamente nos projectos da computação distribuída?

    É claro que as regulamentações muitas vezes têm impacto na criatividade. Mas, neste caso, não creio que as decisões sobre o Napster tenham qualquer influência no andamento da partilha de ficheiros, no uso do MP3 e, particularmente, na criatividade e expressão dos tecnólogos. Seria uma vergonha se isso acontecesse!

    Voltando, agora, ao impacto da computação distribuída no «establishment» actual da Web e da informática. Os fornecedores de software para as plataformas de B2B, como a Ariba e a Commerce One, vão ficar em maus lençóis com a descolagem desta nova tecnologia?

    Não creio. Julgo que, pelo contrário, vai facilitar-lhes a vida.

    E quanto aos fornecedores de soluções empresariais do tipo ERP, que estão a ser atacados de tantos lados?

    Não creio, também, que os afectemos negativamente. O valor da oferta dos ERP continua de pé. Inclusive pode ser potenciado com aplicações de computação distribuída.

    Ao fim e ao cabo, qual é o segmento ideal de clientes para o vosso produto?

    Isso é «top secret»!

    Fala-se da aplicação da vossa tecnologia às plataformas de B2B...

    Não comento.

    Quando é que teremos uma versão comercial do vosso software?

    Em breve.

    Quais são os vossos planos para a Europa?

    Teremos seguramente uma presença no vosso Continente. Estamos, aliás, a discutí-la agora.

    Como é que respondem às críticas dos cépticos de que estas soluções P2P são vulneráveis à pirataria e a problemas como falta de largura de banda nas redes distribuídas?

    Temos essas preocupações, naturalmente. Mas os cenários catastrofistas sobre a nova tecnologia são postos a circular pelos tipos que nada percebem dela.

    Será que poderemos usar a vossa solução dentro de soluções intranet seguras?

    A segurança nas intranets é um mito! De qualquer modo, o que estamos a preparar é tão seguro como o que quer que seja que você use por detrás de uma «firewall».

    E podemos usar a vossa tecnologia para sindicação de conteúdos?

    Essa é uma pergunta interessante. Eu creio que vamos oferecer um benefício muito tangível aos que vivem da sindicação. Passam a ter uma «avenida» para colocarem a sua oferta em tempo real com um ambiente de media muito rico. É um óptimo negócio!

    Nota: Outras «start-ups» nascidas em 1999 e 2000 podem ser referidas nesta área do P2P no Silicon Valley: OpenCola em São Francisco; Kalepa Networks em Palo Alto; Lightshare em Mountain View; e Flycode em São Francisco. InfraSearch está sedeada em Burlingame.

    Um local do movimento a visitar
    PORTAL GNUTELLA.WEGO.COM
    Gene Kan é um dos animadores do portal Gnutella.wego.com que agrupa o movimento de programadores em torno desta nova tecnologia do «P2P». O Napster, neste contexto, é pura «pré-história».
    Em Março de 2000, a Nullsoft – uma subsidiária da American OnLine – lançou publicamente o código de um «clone» do Napster denominado Gnutella, criado por Justin Frankel e Tom Pepper.
    Entretanto, a AOL proíbiu a continuação do projecto de investigação ou mesmo a sua divulgação. Meteu-lhe o carimbo da censura em cima, com receio da vaga legal anti-Napster.
    Mas outros programadores que haviam «descarregado» o programa pegaram, de imediato, no assunto. Bryan Mayland, na Flórida, foi um dos primeiros a criar a sua própria versão do Gnutella, logo dois dias depois.
    Este movimento daria origem a uma rede que lançou em Abril de 2000 um portal na Web em www.gnutella.wego.com, operado por Gene Kan, Spencer Kimball, um adolescente de nome Nathan Moinvaziri e um consultor Ian Hall-Beyer.
    Um protocolo está a ser preparado por uma equipa dirigida por Sebastien Lambla, de 18 anos, que virá a ser designado por gPulp (general purpose location protocol).
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