Os Rumores do «Crash» Aumentam de Volume
em Fevereiro de 2000

Jorge Nascimento Rodrigues entrou sorrateiramente em dois foruns de debate on line sobre a crise financeira iminente, falou com «traders»
e académicos e deixa ao leitor a tarefa de estar de olho vivo
nas tendências em curso. Mais um tema em debate para o ano 2000.

Versão reduzida publicada no Expresso de 12/02/2000

Forum de debate dos Ciclos Longos (Long Waves) na Universidade do Colorado
Le Metropole Café | Página sobre Kondratyev | Página de Chris Carolan
Página do Prof. Brian Berry
Artigo na Janela na Web sobre os Ciclos de Kondratyev

Nas traseiras do mercado financeiro norte-americano os foruns de debate na Web estão ao rubro.

Académicos estudiosos dos ciclos metem a colherada à mistura com consultores de cara a descoberto (e «site» de oferta de serviços e conselhos bem visível) e com gente do meio que não se deixa identificar em locais «online», como o forum sobre os ciclos longos baseado desde 1996 na Universidade do Colorado (em http://csf.colorado.edu/forums/longwaves/) ou o sofisticado e privado Le Metropole Café (em www.lemetropolecafe.com), um «cibercafé» virtual para investidores, onde se paga uma anuidade para entrar.

O pano de fundo de tanta azáfama literária é saber se estamos a entrar na zona de perigo ou se ainda temos pela frente tempo suficiente para fazer boas jogadas e não entrar em pânico.

A seguir com olho clínico
  • O mercado financeiro americano poderá ainda este ano atingir um ponto de inflexão, segundo uns em Abril, segundo outros no Verão
  • Assistem-se a oscilações muito acentuadas em algumas das «estrelas» do NASDAQ, a começar pela mais valiosa, a Yahoo!
  • A capitalização do mercado está astronomicamente em 200% do PNB nominal dos EUA
  • Os descrentes poderão ultrapassar o número de optimistas no final de 2001 e a onda psicológica alterar-se-á
  • O «boom» longo iniciado em 1982 com a Terceira Vaga e os empreendedores da «nova economia» poderá dirigir-se para uma fase de depressão e de consolidação entre o velho e o novo
  • A única forma de pôr ordem neste «caos» de opiniões é «não se deixar envolver nem na euforia das subidas, nem no desânimo das descidas no dia-a-dia», diz-nos Eric Von Baronov, o nome porque dá um investidor reformado que, quando o contactámos «on line», declarou estar a meio de um restauro de um Porsche. É, por isso, que o estudo dos ciclos - quer sejam os mais longos, chamados de Kondratyev (a que já nos referimos), ou outros de menor duração que tomaram o nome de quem os descobriu empiricamente, como Kuznets ou Juglar - se tornou o prato forte de quem - por mero interesse académico ou porque gere milhões - pretende descortinar tendências de fundo.

    Esta é uma discussão que não motiva a maioria dos economistas puros e duros que classificam esta tentativa de olho clínico como algo pouco «sério», imbuído de algum «determinismo» e que não passaria de um mero artefacto estatístico. Ao que Baronov replica: «Pessoalmente tirei vantagens dos ciclos longos na minha vida de consultoria e investimentos nos últimos 25 anos».

    Uma década de alto risco

    Baronov edita o «site» www.kondratyev.com que se dedica ao estudo e discussão dos ciclos longos de 50-60 anos descobertos por Nikolai Kondratyev, um académico soviético dos anos 20, e é peremptório: «Entrámos num novo ciclo longo de Kondratyev e, por isso, não prevejo qualquer 'crash' significativo nos mercados financeiros nos próximos dez anos». O restaurador de Porsches corrobora a opinião de alguns académicos como Cesare Marchetti, a que a Janela na Web já se referiu. Condescende que poderão ocorrer «correcções», que, na sua opinião, serão «doces e curtas», tal como aconteceu no começo de 1900 e nos anos 50 do século XX.

    Mas este optimismo não é consensual, bem pelo contrário.

    São muitas mais as vozes que se levantam no debate «on line» a dizer que há claramente «o risco do mercado financeiro entrar em baixa ao estilo dos anos 30 e de surgir uma depressão», como nos afirmou Richard Harriman, um dos mais activos participantes no forum do Colorado. Harrimam vai buscar em seu apoio Jack Lessinger que, desde 1986, vem predizendo que no período até 2020 poderá ocorrer uma depressão severa. Numa reavaliação mais recente, tomando em conta a bolha especulativa imobiliária e bolsista do «hi-tech», Lessinger «antecipou» o «crash» para algures nesta década que inaugurámos com o Ano Novo.

    Para Harriman, a bolha está à beira de um ataque de nervos. «O mercado bolsista americano é o mais inflacionado da história do capitalismo. A sua actual capitalização ronda os 200% do PNB nominal. No Japão, em 1989, esse valor era menor, de 130%. Em 1929 não ultrapassava sequer os 80-100%. Antes das crises de 1973 e 1987, o mesmo indicador andava entre 65-70%», argumenta o nosso interlocutor, que, curiosamente, é um especialista de software na vida profissional diurna. A conclusão dele é arrasadora: «O actual mercado bolsista norte-americano é a bolha mais perigosa da nossa história».

    O que está em disputa é saber se a década até 2010 vai ser uma passeata triunfal da nova economia, como reclamam Harry Dent (com uma verdadeira biblioteca de livros sobre o grande boom em frente) e o futurólogo Peter Schwartz (na revista «Wired»), a que nos referimos noutro artigo, ou se esse novo paraíso estará adiado por mais dez anos.

    Brian Berry«Julgo que o actual ciclo de crescimento começado nos anos 80 deverá cessar nesta década que termina em 2010. A nova vaga de fundo só acontecerá depois», diz-nos Brian Joe Lobley Berry, um professor da Universidade do Texas em Dallas e director da Academia Nacional de Ciências norte-americana, considerado hoje a principal referência em matéria de ciclos longos.

    Berry publicou em 1991 um livro de referência - Long-Wave Rhythms in Economic Development and Political Behavior (compra do livro) - e tem para publicação na revista Technological Forecasting and Social Change um artigo sugestivamente intitulado «Um 'pacemaker' para os Ciclos Longos».

    A verificar-se esta previsão, isso significa que o «boom longo» que acompanhou o despertar da «Terceira Vaga» desde 1982 estará a caminhar para o seu fim, o que acarretará um período depressivo antes do ponto de viragem para novo crescimento.

    Estas «concavidades» são períodos altamente inflamáveis em termos de mercados financeiros. Berry acrescenta que «uma das leis de chumbo é que as correcções e 'crashes' ocorrem com uma frequência de 18-19 anos», o que - partindo da data do último, em 1987 - nos daria ainda alguns anos para respirar.

    A corrente dos «iminentes»

    Contudo, nem todos estão assim tão «calmos» a ver o 'crash' à distância. Peter Eliades, editor do «Stockmarket Cycles», vem chamando a atenção para a «possibilidade de um ponto de viragem bolsista até Abril» e George Ure antevia mesmo um ponto de inflexão, esta semana (de 7 a 11 de Fevereiro de 2000), a partir do qual o mercado financeiro pode «canibalizar-se».

    A nova quebra recente no Dow Jones Industrial e as oscilações no NASDAQ dão que pensar a estes analistas. O comportamento da própria empresa «estrela» deste último mercado, a Yahoo!, seria revelador - uma subida fulgurante entre Novembro do ano passado e Janeiro deste ano, de 213 dólares por acção para mais de 500, e uma queda em Fevereiro de 2000 para a faixa dos 350 dólares.

    A DANÇA DA YAHOO! NO NASDAQ
    30/11/1999 - 212,75 dólares por acção
    04/01/2000 - 500,13 dólares
    08/02/2000 - 373,13 dólares
    09/02/2000 - 363,31 dólares
    10/02/2000 - 365 dólares
    11/02/2000 - 342,69 dólares
    14/02/2000 - 165,75 (ajustado)
    15/02/2000 - 170 dólares
    16/02/2000 - 161,56 dólares
    18/02/2000 - 156,13 dólares
    25/02/2000 - 165,19 dólares
    06/03/2000 - 171,56 dólares

    Uma coisa é certa: analisando os gráficos criados por Robert Prechter sobre a amplitude do mercado bolsista (um indicador a partir do saldo entre avanços e recuos sobre o movimento global) entre 1926 e 1998, verifica-se que a pujança dos anos 50 e 60 do século XX ainda não foi atingida, apesar da euforia do NASDAQ neste final de século. Provavelmente, isso só se verificará daqui a uma ou duas décadas.

    Os comportamentos bolsistas recentes estão a alimentar uma corrente de analistas que prevêem a «iminência» da «correcção». Um dos «insiders», que gere um fundo familiar e que não autoriza que seja identificado por nada deste mundo, comentou- nos o clima actual no terreno do «trading» desta forma: «Não me lembro de uma situação que tão rapidamente tenha mudado do 'doce' para o 'amargo'. Há um certo sabor já a relógio da morte. Estamos a assistir ao começo do declínio e todos sentimos que nada há a fazer. Os ponteiros do relógio são imparáveis». E o conselho não se faz esperar: «O que há que saber fazer é sair a tempo!».

    A questão é puramente psicológica, adverte, por seu lado, Christopher Carolan, um antigo «trader» de São Francisco que viveu na pele o 'crash' de 1987. Ele «descobriu» um ciclo de crença e dúvida e montou um negócio de consultadoria financeira acessível a partir da própria Web (em www.calendarresearch.com). «Muitas acções ainda estão em alta, particularmente entre as 100 mais do NASDAQ, porque as pessoas ainda 'acreditam'. O segredo é perceber quando é que o número dos descrentes ultrapassa o dos crentes», diz-nos Carolan, que adianta o final de 2001 como o momento dessa inflexão psicológica. «A partir daí a 'correcção' estará na ordem do dia», remata.

    Segundo ele, teríamos ainda mais de um ano para respirar. Ao leitor compete estar atento.

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