Os primeiros livros digitais

Finalmente em cima de uma pilha de livros. Será que Gutenberg ficou chateado?

Duas jovens empresas norte-americanas do Silicon Valley anunciam para este final de ano os primeiros livros digitais. Parecem-se com os livros em papel, querem permitir-lhe sensações tácteis parecidas e dar ao leitor algo mais - a possibilidade de ter uma biblioteca e um banco de dados ambulante, pesando pouco mais de um quilo.

Jorge Nascimento Rodrigues
Colaboração de Pedro Pessoa de Amorim

O célebre cartaz de humor lançado pelos 'media' tradicionais ridicularizando um info-maníaco sentado na sanita carregando o computador e o teclado ficará reduzido a cinzas em breve.

Os primeiros rumores correram este verão nas revistas da especialidade e no San Jose Mercury News (o diário do Silicon Valley), mas agora está confirmado.

O ebook da Softbook com capa de couro

A Softbook Press, de Menlo Park - com o apoio de grandes editoras (Random House, HarperCollins, Simon & Shuster e Fodor's) que vão 'encher' a oferta de conteúdos digitais para comprar - vai lançar este mês o 'Softbook', que pesará pouco mais de um quilo e custará cerca de 300 dólares mais uma avença mensal por dois anos entre 10 a 20 dólares para a aquisição de livros ou outros conteúdos que poderá armazenar até 100 mil páginas de texto ou imagens.

O aparelho já vem com um 'modem' de 33,6 kps incorporado que lhe permitirá ligar a uma linha telefónica e entrar em contacto com a rede da Softbook, escolhendo e descarregando livros e outros documentos a partir de uma biblioteca virtual. Permite-lhe inclusive criar o seu próprio 'Centro de Informação', com documentos seus ou da sua empresa, dentro dessa biblioteca central. Um código de encriptação não lhe permitirá, contudo, piratear os conteúdos enviando-os a amigos, por exemplo, em anexo nas mensagens de correio electrónico.

Simulação quase perfeita

A simulação do livro é quase perfeita, só que terá de evitar atirá-lo para o chão, apesar de vir revestido com uma capa em couro. O écran é a preto e branco e táctil, com 9,5 polegadas. Está pensado para lhe permitir ler página à página em écran sem se chatear e desejar logo imprimir em folhas A4. Com o dedo pode escolher o livro ou documento que quer ler, pressionando na imagem.

As manias típicas do papel também estão acauteladas - pode tomar notas ou sublinhar (com uma caneta digital apropriada), e fazer marcações. E permite-lhe operações que num livro em papel jamais Gutenberg pensou, como, por exemplo, associar automaticamente outros documentos e hiperligações e mudar a fonte do texto para ler como preferir. O 'Softbook' foi criado por Jim Sachs, um dos 'designers' do «rato» do Macintosh.

O Rocket Book da NuvoMedia

Pouco tempo depois, será a vez da Nuvo Media, de Palo Alto, que com investimentos da Barnes & Noble e da Bertelsmann Ventures (que comprou a Random House), irá apresentar o 'Rocket Book', provavelmente em Outubro aquando de um Workshop sobre o Livro Electrónico, promovido pelo National Institute of Standards and Technology dos Estados Unidos.

Será mais caro (na ordem dos 500 dólares) e, em vez de ter uma ligação fechada a uma biblioteca central, funciona apenas como canal de distribuição. O leitor acede, através do seu computador pessoal à Internet, aos 'sítios' de editoras, livrarias virtuais ou outros fornecedores de conteúdos, e descarrega o que desejar comprar. Depois passará do seu PC para o livro digital.

O ebook da Everybook terá duas páginas lado a lado e será a cores

Um terceiro fornecedor já entrou no jogo, a Everybook, da Pensilvânia, que pretende diferenciar-se, oferecendo um livro digital que abre a meio com duas páginas e que terá cor. Será, no entanto, substancialmente mais caro (entre 750 a 1500 dólares) e só se espera o produto para o próximo ano.

Os segmentos de clientes

Os homens do marketing destas empresas já definiram os seus alvos prioritários. Professores, estudantes, consultores, formadores e certos grupos de profissionais (como advogados, por exemplo) são dos segmentos mais apetecidos. Por outro lado, todos os quadros com grande 'nomadismo', que viajam bastante e não pretendem andar carregados com pilhas de livros, são outros dos potenciais primeiros clientes.

Em termos de fornecedores, para além dos que já se meteram por dentro da corrida, como as casas editoras, pensa-se que as instituições oficiais e universitárias, os próprios 'media' e outros fornecedores de conteúdos estarão interessados nesta nova interface com o leitor.

O livro electrónico não é de agora. Há já bastante tempo que a Sony e a Knight Ridder tinham tentado lançar aparelhos do género (funcionando com disquetes ou cassetes), mas... antes dos avanços tecnológicos trazidos pelos pequenos computadores pessoais ('laptops' e 'notebooks') e pelos «assistentes pessoais digitais». E, naturalmente, antes da Internet e da Web.

Também no Media Lab, criado por Nicholas Negroponte no Massachusetts Institute of Technology, de Boston, se vinha desenvolvendo no MicroMedia Lab (um dos seus departamentos) uma linha de investigação muito vasta, abarcando novos tipos de tinta digital, papel electrónico e reversível, impressoras reversíveis e livros electrónicos, dirigida por Joseph Jacobson. Na altura, realizámos uma reportagem que pode ser consultada aqui.

A abordagem da Media Lab é, contudo, diferente. Jacobson pretende criar um livro com páginas, só que se tratará de um papel diferente, electrónico, que imite no tacto o papel real. Ele consegue-o embebendo o papel em moléculas de tinta que têm incorporadas partículas electrónicas, o que permite a reprogramação.

Alguns 'tubarões', como a Xerox, a Disney e a Microsoft, estão atentos ao novo nicho de negócio, e fala-se de terem cartas na manga. Outros, como a IBM em conjunto com a Ingram, estão a pensar noutra saída - deixar o leitor navegar na Web no seu computador, escolher um livro e depois permitir-lhe imprimir em papel de um modo rápido e barato, satisfazendo o velho hábito.


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