Reino Unido: A febre da Incubação
Surgem novos protagonistas no financiamento e apoio às 'start ups'. O modelo das incubadoras das mais diversas proveniências dispara na Grã-Bretanha
Mais uma reportagem do Ardina na Web sobre a Europa que Mexe
Jorge Nascimento Rodrigues em Londres com o patrocínio da Pricewaterhouse Coopers
Versão reduzida publicada no Expresso de 8/04/2000
Quando o NASDAQ nos Estados Unidos dá os primeiros sinais de uma «implosão» - eminente, segundo alguns pessimistas -, o Reino Unido, e em particular a sua capital, vive uma explosão na criação de «incubadoras» para jovens empresas e o Mercado Alternativo de Investimento (AIM-Alternative Investment Market dependente do London Stock Exchange, a Bolsa londrina) ligado às 'start ups' da nova economia está ao rubro - não só pelo dinheiro em movimento, como por algumas «broncas» - com casos como o da Lastminute.com.
Há seis meses atrás não tinham ainda entrado, no vocabulário inglês dos negócios, os termos incubação, incubadoras e fundos de incubação. O termo era utilizado nalguns meios académicos reflectindo uma realidade integralmente subsidiada pela Comunidade Europeia e mais típica da Europa Continental.
A moda das «webubators» (incubadoras de negócios Web) em pleno auge nos Estados Unidos só agora começa a chegar ao lado de cá do Atlântico.De um momento para o outro na Grâ-Bretanha, as incubadoras de novo tipo já somam quase meia centena, com destaque para as margens do Tamisa, onde nomes como IdeasHub, New Media Spark PLC, EVentures (ligada ao Softbank), nanoUniverse e New Media Knowledge aparecem linha sim-linha não nas noticias da nova economia nos jornais. Uma delas incubou inclusive uma empresa co-fundada por um jovem português em Londres - o caso da Deymo.
A palavra, desde há anos, mais repetida era a de «venture capital» (capital de risco), um segmento de financiamento que hoje representa 0,6% do PNB britânico, ainda atrás do peso nos Estados Unidos (onde atinge 1%), mas muito à frente do que se passa no resto da Europa. Nomes como a 3i, a Apax ou a Cambridge Research & Innovation surgiam na frente do financiamento do movimento de 'start ups' e ganharam expressão internacional.
Novos protagonistas
Subitamente, novos protagonistas aparecem em cena. Em 1994, o Reuters Group PLC iniciou um movimento estratégico de atenção às 'start ups'. A multinacional britânica descobriu no «campus» de Stanford a Yahoo! ainda nos seus primeiros meses de vida e investiu certeiramente. Resolveu, então, criar o The Greenhouse Venture Capital Fund, com escritórios em Londres e em Palo Alto, no coração do Silicon Valley.
O seu pioneirismo pegou na Europa - provocou a moda dos grupos económicos estabelecidos, particularmente os ligados às tecnologias ou à informação para empresas, começarem a afectar orçamentos e recursos às 'start ups' da nova economia. Casos como a T-Ventures, da Deutsche Telekom, a Nokia Ventures ou o SAP Venture Fund, são apenas exemplos mais conhecidos no nosso continente.
A influência dos ventos americanos fez surgirem, mais recentemente, as incubadoras e os fundos de incubação virados para a nova economia. É um segmento emergente de um novo negócio de financiamento, que procurou posicionar-se de um modo diferente do capital de risco. As incubadoras actuam na fase inicial, fazem o «trabalho duro» dos primeiros seis a doze meses de vida, e jogam em todos os tabuleiros - fazem ponte para dinheiro próprio ou alheiro, cedem espaço físico ou virtual, apoiam a gestão, a internacionalização e no campo tecnológico. Fazem-no com base em recursos internos ou através de alianças e parcerias. Têm por regra participar no capital das incubadas e, nalguns casos, constroem verdadeiras redes conglomeradas de participações.
Os empreendedores com mais sucesso da actual vaga entraram nesta febre. Uma das mais conhecidas «incubadoras» londrinas é a criada pelos irmãos Hammond no ano passado e tem por nome de baptismo IdeasHub. Os Hammond reclaman que ganharam experiência com as suas próprias 'start ups', como a Mytaxi.com, que foi vendida à Affinity Internet no ano passado. Com liquidez e 'know-how' no assunto querem ser mais do que 'business angels' individuais. Criaram um negócio empresarial e estão a ser modelo para outros jovens empreendedores bem sucedidos.
Mais recentemente chegou ao movimento um novo actor - as consultoras. Elas pertencem a uma das instituições inglesas mais distintas que entrou na febre do «e-business», algo inimaginável há poucos anos atrás e certamente ainda não totalmente «engolido» por muitos «partners» destas entidades. A Pricewaterhouse Coopers anunciou publicamente a partir da sua sede junto ao Tamisa o lançamento de uma incubadora que já tem várias 'start ups' na calha - como o casa da Cataloga, de que falamos em caixa - e a Ernst & Young referiu a criação do Futurewealthuk (na Web em construção em www.futurewealthuk.com).
Veja aqui a história da primeira incubação feita pela PWC em Londres No meio desta azáfama anda não só o «perfume» do ouro da Web, mas também a mais singela preocupação em pôr um travão à fuga de quadros que está a afectar as empresas e grupos estabelecidos.
Um caso de empreendedorismo português em Londres A Deymo.com criada por Donato Cordeiro e incubada durante 10 meses pela New Media Knowledge Se é um editor de conteúdos na Web, já se deu conta, certamente, das complicações e atrasos em torno das actualizações - tem de recorrer ao webmaster do seu «site» ou então à empresa que mantém a sua presença na Internet. Uma equipa liderada por um português resolveu-lhe, este ano, o problema. Em menos de meia hora, uma ferramenta segura permite-lhe editar os conteúdos que quiser onde estiver. Basta que, para tal, saiba usar um «browser», sem qualquer necessidade de instalar software adicional.
Denominada «Awake 2000» foi lançada em Janeiro deste ano e alcançou rapidamente o estrelato no Milia em França com as suas hipóteses de multiplicação de «sites» em várias línguas e diversos softwares em preparação, como o de gestão de conteúdos em animações em «Flash» (agora na moda) e a adequação a aparelhos portáteis («palmtops» nomeadamente).
A história que está por detrás desta ferramenta conduz-nos a um português em Londres - Donato Cordeiro, hoje com 24 anos, que não terminou o curso de engenharia de sistemas na Universidade do Algarve para ir para a capital britânica. «Senti que para fazer algo que tivesse relevância global seria muito difícil em Portugal», explica-nos. O que o levou a desembarcar em Inglaterra foi a língua e o facto de «ser o país com maior potencial na Europa». Na Universidade de Westminster acabou os estudos em computação e aí conheceu o seu parceiro de aventura no mundo das «dot.com», Jay Shah, com o qual viria a criar a Deymo Ltd (na Web em www.deymo.com) há precisamente um ano.
No trajecto entre o voluntarismo dos dois amigos num cubículo e os 14 jovens que a Deymo tem hoje e a perspectiva de facturar mais de 350 mil contos em 2000, esteve uma das várias incubadoras londrinas, que os ajudou a «chocar» a empresa durante 10 meses. «O papel da New Media Knowledge foi imprescindível. Sem a incubadora não teríamos tido acesso a contactos e meios técnicos fundamentais, além de espaço», sublinha o nosso interlocutor que mobilizou para a aventura Ana Silva, uma portuguesa de mãe japonesa, que conheceu em Westminster, e Luis Arsénio, outro algarvio.
A Deymo já está num escritório novo mesmo em frente do estádio de Wembley e espera entrar no mercado de capitais entre dois a três anos.
|
|
|
|
|