O mais seguro é investir nos 'gorilas'

Geoffrey Moore, um dos especialistas financeiros do Silicon Valley,
fala com Jorge Nascimento Rodrigues, sobre The Gorilla Game, o livro que está a influênciar os investidores das bolsas de alta tecnologia


«Quando as acções de alta-tecnologia baterem no fundo, invista em força no que eu chamo de 'gorilas'». O que poderá suceder em meados do próximo ano.

Esta é a recomendação número um do principal autor de The Gorilla Game - An Investor's Guide to Picking Winners in Hight Technology (Compra do Livro), o livro editado pela HarperBusiness, que fez furor este ano entre a comunidade de investidores do NASDAQ nos Estados Unidos.

Geoffrey Moore dirige o The Chasm Group, uma empresa de consultoria estratégica para empresas de alta tecnologia, em San Mateo, no Silicon Valley, e é considerado um dos especialistas em empresas de alto crescimento que dominam o coração de novas indústrias baseadas na tecnologia.

Foi a essa minoria de líderes que baptizou de 'gorilas'. Desenvolveu, por isso, toda uma tipologia financeira de 'primatas' nesse livro que vem na sequência de dois outros anteriores, Crossing the Chasm (Compra do Livro) e Inside the Tornado (Compra do Livro), publicados em 1995.

É um dos 'pensadores' do Vale californiano ouvido por muitos decisores e foi nomeado recentemente um dos 100 da élite da revolução digital. A metodologia que é desenvolvida no livro poderá ser interessante para aplicação noutras latitudes no mercado bolsista ligado à nova economia.


Geoffrey Moore No seu livro lançado este ano - The Gorilla Game - fala de um tornado em movimento que tem catapultado para a ribalta o que agora é chamado de 'indústria da rede' aqui no Silicon Valley. Será que isso é duradouro ou é uma bolha passageira que vai estoirar e mandar o Vale para a crise dentro em breve?

GEOFFREY MOORE - Está para durar pelo menos nos próximos dez anos esse tornado! Porquê? Porque o volume de tráfego de dados já ultrapassou, ou está à beira disso, o volume de tráfego de voz, e aquele tráfego cresce exponencialmente. Isto significa que já não é mais logico economicamente introduzir novas redes de voz. Com o tempo, o protocolo IP (o protocolo da Internet) transportará todo o tráfego. Isto significa que o tornado da rede substituirá o mundo da telefonia.

A primeira coisa que nos intriga quando começamos a ler as primeiras linhas do livro é que você, e os seus dois parceiros, o analista Paul Johnson e o investidor Tom Kippola, não se comportam tipicamente como os consultores de investimento bolsista - não nos mandam compor uma carteira diversificada com o que está em ebulição na alta tecnologia. Mandam-nos ter cabeça fria! Mas isso não significa perder bons negócios do momento?

G.M. - Há uma diferença entre nós e outros consultores de investimentos em alta tecnologia. O nosso 'cliente' alvo é um investidor particular que pretende apostar na bolsa para assegurar um pé de meia em valores para a sua família, no futuro. Por isso, a nossa estratégia é muito conservadora, pouca dada a seguir o 'hype', os entusiasmos do momento. A nossa estratégia é deliberadamente hiper-selectiva, o que significa investir com segurança num punhado apenas. Esse punhado é o que chamamos de 'gorilas'.

Inclusive aconselham algo que pode parecer, à primeira vista, um contrasenso - que não vendamos os 'gorilas' quando há possibilidade de fazer bom dinheiro num mercado ao rubro que descobre um dado sector emergente ...

G.M. - A nosso ver é um grande erro liquidar um 'portfolio' de acções em 'gorilas', sobretudo no início da fase que chamamos de 'tornado' no ciclo de vida de adopção de uma tecnologia. A história mostra-nos que o 'gorila' acaba por se valorizar ainda mais nos anos subsequentes à ida ao mercado financeiro. O nosso ponto de vista é que, logo que se desenha um 'gorila' num dado sector, a palavra de ordem deve ser consolidar no ganhador e não diversificar. O risco diminui, nesta situação, concentrando, por mais estranho que isto lhe possa parecer. O objectivo é manter a posição no 'gorila' para o longo prazo. Veja o caso de dois 'gorilas' no nosso 'portfolio' tipo - a Microsoft, de 0,4 por cento da capitalização do NASDAQ em 1986 passou para 12 por cento em meados deste ano, ou a Intel, de 1,5 por cento em 1984 passou para 6,8 por cento agora (segundo os cálculos de Edwin S. Rubenstein na revista Forbes, de 7 de Setembro de 1998).

Então, mas por esse andar, eu nunca me livro deles, e posso ser apanhado desprevenido subitamente na curva da tal inovação descontínua que hoje afecta os mercados de alta tecnologia, de que fala no seu livro?

G.M. - Você só deve vender o 'gorila' quando uma nova categoria, baseada numa nova tecnologia, num novo paradigma, ameaça seriamente desalojá-lo. É evidente que nada dura para sempre, e mesmo os 'gorilas' poderão ser desalojados. Mas isso sucede, quase sempre, de fora do mercado onde ele está - por isso deve estar atento ao que se passa fora, à tal inovação descontínua. Os sinais de fora funcionam como o seu alerta, mas isso ainda lhe dará algum tempo para se desfazer das acções, caso necessário. Por isso nunca se precipite, nem corra atrás de rumores.

Mas isso não pode ser um risco, o risco de perdermos o pé em algo novo?

G.M. -- A regra básica do nosso conservadorismo é que você só deve comprar uma nova categoria quando o mercado demonstrar que ela está a entrar num estado de hiper-crescimento. Quando demonstrar, dizemos nós - o que significa que você não deve seguir projecções de mercados de «boom» potencial. Investir em 'conceitos', em mercados possíveis do futuro, é mais adequado para capitalistas de risco. Também não nos dirigimos a entusiastas da alta tecnologia ou a consumidores visionários. O sinal para nós é quando os pragmáticos entram em cena e estabelecem as condições de um nicho de mercado. Mas nem todos os nichos se transformam em mercado de massa. Por isso é preciso gerar-se uma situação de tornado, de hiper-crescimento, de segmento de mercado de massa, e aí é que vemos quem são os gorilas.

OS PRIMATAS DA ALTA TECNOLOGIA
  • Gorila - é o principal actor de um tornado tecnológico. O gorila é o líder de uma dada cadeia de valor numa indústria emergente. A vantagem competitiva dele está no facto de arrastar consigo todo um segmento de mercado. Ele controla uma dada arquitectura aberta em que os custos de migração para outro fornecedor nuclear são altissimos. Só é ameaçado quando há uma mudança de paradigma na indústria. Exemplos dados são os da Microsoft, da Intel, da Cisco e da SAP nas suas áreas. Os gorilas são o núcleo duro do investimento aconselhado.
  • Chimpazé - tenta sempre passar a gorila, mas não o consegue muitas vezes. Em geral aposta numa arquitectura alternativa à do gorila, mas o mercado de massa torce o nariz a essa segunda opção. Tem duas saídas: batalhar até ao fim e virar o mercado a seu favor (o que raramente acontece como o demonstra o caso do sistema operativo OS/2 da IBM), ou recuar para um ou mais nichos de mercado onde lidera como se fosse um gorila local, e esperar pacientemente por um novo tornado tecnológico para entrar nele antes do gorila desatento. É o caso da Sun Microsystems e da sua batalha de longo prazo por um novo paradigma na computação. Só entrará na nossa estratégia de investimento quando há dados claros que são candidatos reais a novos gorilas em novos tornados.
  • Macaco - é mesmo macaco de imitação. Cola-se à sombra do gorila e oferece produtos compatíveis com a arquitectura aberta liderada pelo gorila. Por exemplo, o caso da Advanced Micro Devices em relação à Intel ou da Amdahl em relação à IBM no segmento dos «mainframes». O problema é que há sempre uma multidão de macacos prontos para substituir o irmão. Os macacos são atractivos em termos de investimentos do momento, de oportunidades de curto prazo. Estão, por isso, fora do portfolio aconselhado.
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    A ARISTOCRACIA DOS MERCADOS SEM GORILAS
  • Rei - trata-se de um líder de mercado, com uma posição folgada em relação ao segundo, mas cuja posição nunca está segura, pois a migração para outro fornecedor é fácil. É o caso da Compaq em relação à Hewlett Packard e à IBM no mercado dos PC. Pode apostar-se em termos de investimento com alguns cuidados.
  • Príncipe - alguém que desafia a situação num dado mercado em que não há gorila e o rei não está seguro. É o caso da Dell Computers no mercado dos PC, que emergiu nos últimos anos, graças a uma estratégia inovadora usando a Web. O que o investidor deve fazer é estar atento e pode apostar nele com cuidado.
  • Servo - vai aos trocos, não ultrapassa o 1 por cento de um dado mercado. Os servos vivem de oportunidades, mas colectivamente podem desempenhar um papel importante num dado tornado explorando o segmento mais baixo do mercado, a que os outros não vão. Actuam em geral nos segmentos de «commodities». Estão fora dos nosso planos de investimento.

  • Mas como é que um ignorante, como eu, do mercado bolsista reconhece um 'gorila'?

    G.M. - Bom, você não precisa de ser um especialista de bolsa. Mas - uma coisa é certa - terá de seguir o «hi-tech» e isso requer tempo e trabalho. Começa a perceber quem é o 'gorila' quando alguém se destaca dos outros numa dada corrida. O 'gorila' é aquele que ganha ascendência numa dada cadeia de valor. A vantagem competitiva dele está em usar a própria cadeia de valor que domina como arma na concorrência, e não só a sua própria oferta de serviços ou produtos isoladamente. A própria cadeia de valor quando sente a ameça reage em colectivo e protege o 'gorila' mesmo sem este pedir. O 'gorila' não só tem poder sobre os restantes parceiros, como absorve o próprio poder da cadeia de valor. Esse é o poder central que estava por detrás do slogan 'IBM compatível', e hoje do 'Intel inside', ou da Microsoft, ou ainda da Cisco Systems no emergente sector da indústria da rede.

    Como sabe, ultimamente tem-se falado imenso do comércio electrónico. Há quem não acredite nele pura e simplesmente como a próxima 'grande coisa', e há outros que embandeiram em arco. Acha que esse comércio ainda continua muito verde em termos de mercado, ainda é um espaço para clientes individuais militantes, e não uma atracção para os tais pragmáticos? Ou melhor, que segmentos estão a morrer no teste de mercado e que outros poderão passar à fase seguinte de penetração no mercado?

    G.M. - A meu ver, as micro-transações na Web estão a morrer no que eu chamo de 'abismo', nesse período de hiato entre o mercado prematuro alimentado por consumidores visionários e a fase de penetração no mercado. Pelo contrário, os tais 'portais' na Web - como o Yahoo! e a America Online (AOL), considerados os dois primeiros do «ranking» -, hoje em moda, suportados por publicidade, conseguiram saltar por cima desse fosso. Também se estão a safar bem as funções de suporte ao comércio electrónico, como o apoio pós-vendas e o marketing pré-vendas.

    Acha que o processo anti-trust contra a Microsoft, um dos três 'gorilas' séniores do «hi-tech» que destaca, poderá mudar esse estatuto? Será que o 'gorila' mais célebre está mesmo ameaçado na secretaria, já que tem sido dificil batê-lo no mercado?

    G.M. - Essa é uma questão que todos estamos aqui - nos Estados Unidos - a seguir com imensa atenção. O meu vatícinio, contudo, é que o mundo dos negócios americano está com mais medo da intervenção do governo, do que da Microsoft. Portanto, ou há um 'levantamento' popular por parte dos consumidores contra a empresa de Bill Gates - o que ainda não se verifica -, ou, então, a Microsoft conseguirá passar o obstáculo.

    Mas tudo ficará como dantes?

    G.M. - Penso que não. E aí é que poderão estar algumas novidades. No entretanto, empresas da indústria dos PC, como a Dell Computers e a Compaq estão a aproveitar este momento para arrancar concessões da Microsoft, alterando assim um bocadito a correlação de forças, a balança do poder. Por exemplo, a Dell já está a colocar o seu próprio «browser», tal como o da Microsoft (o Internet Explorer), nos seus computadores pessoais, de modo que os compradores da Dell acedem à Internet e à Web através da página da Dell e não da da Microsoft. Isto parece-me que poderá ser um sinal de um movimento com significado na balança do poder na Internet.

    Será que a crise em desenvolvimento à escala global irá afectar o NASDAQ - onde está cotada a maioria dos 'gorilas' e dos outros 'primatas' do «hi-tech», que muita gente considera um mercado financeiro hiper-inflaccionado?

    G.M. - Eu penso que a crise em desenvolvimento irá afectar tudo e todos. Penso sinceramente que está para ficar um período prolongado de dificuldades, pois o mundo está apenas a tratar de todos os excessos dos últimos anos nos mercados financeiros. Mas penso que a Internet é um mercado novo, genuíno, e os líderes dele aguentar-se-ão nas suas posições de poder económico.

    E será que esse período de dificuldades que se avizinha, o levará a mudar as suas recomendações de apostar no lote de 'gorilas' que refere no livro?

    G.M. - Não mudaria uma linha às recomendações que fizemos no livro. Provavelmente juntaríamos à lista de 'gorilas' o caso da SAP, numa área menos Internet. Contudo, o nosso fio condutor é este: o investimento nos 'gorilas' é de longo prazo. Isso significa que as hierarquias de poder não se alteram com os altos e baixos do mercado financeiro. O poder na cadeia de valor é a determinante última do desempenho relativo nos mercados financeiros.

    Acha que o problema informático do ano 2000 lançará ainda mais achas para a fogueira de uma recessão?

    G.M. - Dentro da indústria das tecnologias da informação, o esforço em torno do 'bug' do ano 2000 está a desviar dinheiro das aplicações de software empresarial - como as da SAP, da Baan, da Oracle e da PeopleSoft - para trabalho de remendos, o que está a dar dinheiro a alguma gente por algum tempo. Fora desta indústria, parece-me que o efeito poderá ser o contrário: as empresas em face da crise, não darão grande prioridade ao 'bug', e este, em retaliação, causará ainda maiores estragos do que se tivesse sido atacado.

    Poderá recomendar a um europeu um 'portfolio' de 'gorilas' para este período de crise que se avizinha?

    G.M. - A minha conjectura é que, lá para meados do próximo ano, as acções do «hi-tech» baterão o fundo e que, portanto, toda a gente com massa deverá investir fortemente nessa altura para aproveitar as bagatelas. Os 'gorilas' tradicionais serão a minha primeira escolha - sejam a SAP, a Cisco, a Microsoft, a Intel, ou mesmo a Oracle e a IBM. Contudo, tenha em conta que o horizonte de investimento que aconselho nesta minha estratégia de investimento é de 20 anos. Não há qualquer modo de predizer a essa distância, nem mesmo para as flutuações de médio prazo. Portanto, na minha óptica, edificar o seu próprio 'portfolio' de 'gorilas' no mercado financeiro com a ideia de fazer dinheiro a curto prazo não é uma boa opção. Criar esse 'portfolio' é uma forma de criar capital.

    DEZ REGRAS PARA INVESTIR COM SEGURANÇA
    1 - Se o segmento de mercado em que quer apostar é o das aplicações de software, começe por comprar em empresas que estejam na fase de penetração de mercado ocupando nichos emergentes. Boas hipóteses são (em 1998) as da área da gestão da cadeia de fornecimentos.
    2 - Se o segmento tem a ver com tecnologias potenciadoras de hardware e de software, aposte só depois da fase de tornado ter começado. Actualmente (1998) podem citar-se os sectores dos «browsers» (luta célebre pela posição de gorila entre a Netscape e a Microsoft), do software para «servers» da Web, e do software de segurança.
    3 - Componha um leque de apostas com todos os candidatos a gorilas, em regra dois, por vezes três e nunca mais de quatro por cada área.
    4 - O núcleo central do seu investimento são os gorilas afirmados. E esses investimentos são para durar. São de longo prazo. Venda só quando é claro que estão a ser seriamente ameaçados por algo novo, que os vai substituir irremediavelmente. Os três casos típicos são a Microsoft, a Cisco e a Intel.
    5 - Aposte e conserve alguns 'chimpazés' que demonstrem hipóteses de boa expansão de mercado.
    6 - Aposte e conserve alguns 'reis' e 'príncipes' também, e venda-os logo que seja visível uma desaceleração do seu hiper-crescimento.
    7 - Logo que se torne claro que uma candidata nunca conseguirá chegar a gorila, venda as acções. O que pode ser o caso da Netscape. Esteja por isso atento.
    8 - O dinheiro que faça nas vendas de não-gorilas deve ser reconcentrado em gorilas ou candidatos, e não disperso.
    9 - Numa guerra de gorilas, não se desfaça de nenhum deles antes de haver sinais claros do que vai ser o resultado da contenda. Não alinhe em predições. Aqui deve responder ao que o mercado indicar.
    10 - Muitas das parangonas dos «media» são fogo de vista. Ignore-as.


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