A Nova Economia que se segue

Por mais paradoxal que possa parecer, depois destes últimos cinco anos intensos de triunfo do virtual, a economia vai regressar, nos próximos vinte,
à matéria bem real. Só o mercado da bioeconomia poderá valer entre 30 a 50 mil milhões de dólares nos próximos cinco anos. Uma primeira investigação sobre a Quarta Vaga com base numa primeira "review" de dois best-sellers
de 2000: «The Coming Biotech Age» e «From Alchemy to IPO: The Business
of Biotechnology»

Jorge Nascimento Rodrigues

Versão reduzida publicada no semanário português Expresso

Livros Recomendados
The Coming Biotech Age | From Alchemy to IPO: The Business of Biotechnology

Links para artigos relacionados na Janela na Web
 A próxima grande convergência | Debate sobre os ciclos de Kondratyev 
Análise do biomercado português pela consultora ECBio

Quadros disponíveis neste artigo
 O tempo histórico das 4 Vagas | O "bolo" dos principais biomercados em 2006 

Terão os "media" de massa "enlouquecido" nestes últimos meses?

O que se passou, então, para que artigos completamente indecifráveis, catalogáveis debaixo de um palavrão científico (genómica) e publicados em revistas científicas totalmente herméticas ao curioso, como a «Nature» (vide a mais recente noticia a 3 de Agosto de 2000 sobre a sequênciação do genoma de Vibrio Cholerae, cólera) e a «Science», tenham passado a fazer "manchete" nos telejornais da TV e da rádio que você ouve enquanto guia?

O que se passou, neste último ano e meio, é que os "media" estão agora mais sensíveis às tendências e o "perfume" de mercados emergentes rapidamente os inebria. A "genómica" vai transformar-se numa "buzzword", numa palavra-chave do discurso da moda no século XXI.

A economia que se segue no calendário histórico da Humanidade pode valer, só pelo lado de um dos seus troncos - a biotecnologia -, entre 30 mil milhões de dólares em 2006, na estimativa mais conservadora, e uns 50 mil milhões em 2003, segundo a projecção mais optimista, dos dois especialistas norte-americanos que ouvimos.

Ainda nem estamos refeitos da loucura da economia da Web e já alguns analistas e investigadores económicos nos estão a "empurrar" para uma outra Nova Economia - aquela que se seguirá ao "virtual". E, por mais paradoxal que possa parecer ao leitor, ela vai ditar o nosso regresso económico em força ao mundo da matéria - da vida e do átomo.

A 3ª Vaga findou

Capa do livro From Alchemy to IPO - The Business of Biotechnology O ciberespaço não vai desaparecer, mas vai ser submergido. "A Revolução do 'bio' dominará por completo a Revolução da Informação que vivemos intensamente estas últimas décadas. É certo que a biorevolução precisa do digital para criar as ferramentas de futuro. Mas - responda-me - o que é que o excitará mais: um écran ultra-fino, ou uns novos joelhos quanto tiver 60 anos?", diz-nos Cynthia Robbins-Roth, uma ex-cientista californiana da Genentech, hoje à frente da consultora BioVentures, e cujo livro recente From Alchemy to IPO - The Business of Biotechnology (compra do livro) obteve um enorme aplauso da crítica americana este ano (2000).

Mais radical, ainda, Richard Oliver, um especialista em estratégia, professor na Escola de Gestão da Universidade de Vanderbilt, no Tenessee (o Estado do célebre uísque), surpreende-nos ao dizer: "Nós estamos no final da Era da Informação e no limiar de embarcar num novo período económico e tecnológico, uma época dominada pelo bio e pelos novos materiais. Tornou-se, agora, moda falar da Era Digital ou da 'Nova Economia' ligada à Informação. Mas à medida que nos aproximamos do novo século apercebemo-nos de que estamos no final, e não no meio, da 3ª Vaga".

Oliver sugere que a Web é precisamente um resultado do amadurecimento dessa revolução anterior, que teria durado entre 1947 - altura em que se descobriu o transístor - e o final dos anos 90, com o começo da sequênciação do genoma humano, que daria origem ao tal novo palavrão - a genómica.

Sobre a sequênciação do genoma humano leia na Janela na Web "A próxima grande convergência" baseado no artigo "The Life Science Revolution"
de Ray Goldberg na Harvard Business Review de Março/Abril 2000 e traduzido em português pela revista Executive Digest na edição de Julho 2000

Leia na revista «Nature» a sequênciação do cromossoma 22 revelada este ano na edição de 18 de Maio 2000 - Chapter 2 of the Book of Life

Aceleração do tempo

Resultado desta passagem rápida do capitalismo industrial para a Sociedade da Informação e agora para uma 4ª Vaga, ligada à bioeconomia e à industrialização do mundo das partículas subatómicas, estamos a assistir a uma aceleração do tempo histórico e a um encurtamento das janelas de oportunidade - o capitalismo industrial nasceu e teve o seu apogeu e depois o crepúsculo em mais de 200 anos, enquanto que a Sociedade da Informação (ou a 3ª Vaga, segundo Alvin Toffler) viveu até agora pouco mais de 50 anos, e, para a Nova Era, Rick Oliver fala de "vinte a trinta anos pela frente, metade da Era anterior".

Para quem tenha nascido entre os anos 40 e 60 do século XX, teve a oportunidade de viver intensamente a mudança de três vagas - um facto histórico absolutamente inédito, inimaginável há uns anos atrás por Toffler, o "pai" do "choque" do futuro e criador da expressão "terceira vaga".

E a geração Net (nascida nos anos 90) vai viver intensamente na sua adolescência, juventude e chegada à "idade da razão" uma revolução ainda mais profunda no seu impacto social, económico e ético do que está a ser a do mundo virtual - o domínio da vida e da matéria subatómica pelo Homem.

Apenas há 4 anos atrás se realizou a famosa "clonagem" da ovelhinha escocesa Dolly, e já o futurólogo Arthur C. Clark (o de "2001, Odisseia no Espaço") antevê 2004 como o ano em que se aceitará, pela primeira vez, a "clonagem" de um ser humano.
Provavelmente ainda mais ousada é a tentativa de reconstruir em laboratório as condições materiais que geraram a vida há vários biliões de anos na Terra.

Tempo Económico e Janela de Oportunidade
1ª Vaga (Sociedade Agrária) - 6000 a 7000 anos
2ª Vaga (Capitalismo Industrial) - 239 anos (1708 a 1947; da electricidade ao transístor)
3ª Vaga (Sociedade da Informação) - 53 anos (1947 a 2000; do transístor à Web como plataforma de negócios)
4ª Vaga (Bioeconomia) - 25 a 30 anos (2000 a ?; da descodificação do genoma humano a ?)

Fonte: Richard Oliver, The Coming Biotech Age

Capa do livro The Coming Biotech Age Um cientista químico orgânico da Universidade Técnica de Munique demonstrou em 1998 que pequenas cadeias de proteínas podem formar-se naturalmente mediante certos acontecimentos químicos e cientistas da Califórnia esperam, agora, a luz verde do Comité de Ética da Associação Americana para o Avanço da Ciência para, pura e simplesmente, gerarem uma célula viva a partir de químicos inorgânicos. "Se isso correr bem, imagine que dentro de poucos anos poderemos criar um organismo totalmente sintético!", constata Rick Oliver, cujo livro The Coming Biotech Age (compra do livro) acaba de se transformar em "best-seller" nos Estados Unidos.

O mercado emergente

O que já está a gerar-se é um biomercado apetitoso para novas empresas e para as grandes farmacêuticas e químicas. Cynthia Robbins-Roth avalia-o em 50 mil milhões de dólares já em 2003 e Rick Oliver fala de 32 mil milhões em 2006, com uma preponderência dos produtos terapêuticos que terão uma fatia de mais de ¾ desta Nova Economia.

Os Principais Biomercados em 2006
 Bioterapêuticos 75,6%   24,5 biliões de dólares 
 Biodiagnóstico 12,7%   4,1 biliões de dólares 
 Agrobio 5,2%   1,7 biliões de dólares 
 Especialidades químicas    4,9%   1,6 biliões de dólares 
 Fonte: R. Oliver

Ainda, recentemente, a revista de divulgação científica «Scientific American» (edição de Julho 2000) falava num "Special Report" intitulado "The Human Genome Business" de nomeadamente três "nichos" bem nutridos - a bioinformática que poderá valer 2 mil milhões de dólares em 2005, a "customização" de medicamentos de acordo com as características do paciente (a farmacogenómica, no calão da bioeconomia) que poderá representar um mercado de 800 milhões de dólares, e os portais na Web de bases de dados genómicos, um chorudo negócio em que estão de olho empresas como a mediática Celera Genomics.

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