Portugal à procura do seu lugar
na nova bioeconomiaUma análise da consultora ECBio para a Janela na Web e semanário Expresso
O terreno da biotecnologia nacional evidência uma preponderância de uma orientação científico-tecnológica em detrimento de uma orientação comercial de mercado - aliás como em outras áreas. «Portugal denota um desequilíbrio entre a capacidade de investigação e a capacidade empresarial. A principal barreira ao desenvolvimento da bioeconomia no nosso país é uma 'falha' no processo que permitiria passar de uma ideia ao mercado», referem-nos Hélder Cruz e Pedro Cruz, dois biotecnólogos fundadores da ECBio, uma empresa de consultadoria que pretende actuar «como intérprete entre os dois lados» e «interlocutor entre as empresas ou empreendedores e os investidores».
Para esta empresa sediada no Taguspark, o parque de ciência e tecnologia localizado em Oeiras, «é fulcral desenvolver um espírito empreendedor e competências empresariais e de gestão no seio das instituições de I&D existentes e entre os jovens cientistas». Havendo alguma massa crítica, no nosso país, em termos de instituições científicas e académicas com actividades de investigação em biotecnologia e um número já significativo de mestres e doutorados, impõe-se «um programa de sensibilização e formação desta comunidade» com vista a estimular a criação de "spin-offs" empresariais de base biotecnológica ou de projectos com a indústria farmacêutica.
«O tecido bioempresarial está relativamente virgem e oportunidades não faltam», refere Hélder Cruz. Há duas opções possíveis em termos de posicionamento estratégico: ou "transpor" para Portugal - ou para a Europa, pensando o nosso país como plataforma de entrada - produtos ou modelos de negócio que tenham provado no estrangeiro, ou criar produtos e serviços incorporando "know how" oriundo de instituições portuguesas de investigação ou de cientistas nacionais.
Oportunidades em Portugal Transposição de produtos ou modelos de negócioProdutos naturais Fármacos genéricos Cuidados de saúde Co-promoção de produtos Gestão integrada de resíduos Alimentos funcionais Criação de produtos e serviçosNovos produtos farmacêuticos derivados de tecnologias emergentes (terapia génica; anticorpos monoclonais) Novos métodos de diagnóstico e monitorização médica I&D por contrato Proteómica (proteínas) e farmacogenómica ('customização' de medicamentos) Testes toxicológicos, farmacológicos, clínicos e pré-clínicos Novas tecnologias para tratamento de efluentes e análise de poluentes Serviços de análise de poluentes Diagnóstico e monitorização ambiental Novos aditivos alimentares Novas estirpes e técnicas de cultivo Novos testes para controlo de qualidade alimentar Análise e testes específicos para o sector agro Três áreas de negócio
Segundo a investigação realizada pela ECBio há três áreas fundamentais onde múltiplos nichos de negócio podem ser potenciados (ver quadro) por "spin-offs" e "start-ups" lideradas por bio-empreendedores. No sector farmacêutico e das aplicações medico-terapêuticas, há que destacar o mercado dos produtos naturais, os cuidados de saúde (como diagnóstico, vacinas, monitorização e terapia) e as parcerias na I&D com a indústria farmacêutica estabelecida. «A criação de novos produtos para esta área é, também, bastante atractiva, especialmente no que se refere à utilização de novas tecnologias como as baseadas em células animais. No entanto, tal requer um investimento elevado e mais ao alcance das empresas farmacêuticas», acrescenta Pedro Cruz.
O sector agro-alimentar e agro-florestal é, também, fonte de múltiplas oportunidades, de acordo com o estudo da ECBio - desde a actuação a nível de matérias primas (como novas técnicas de micropropagação para vinha e floresta e biopesticidas), como dos processos de produção (novos microrganismos para a indústria de produtos lácteos e a caracterização de enzimas para a indústria dos queijos), como dos próprios produtos (incorporação de aditivos para a saúde humana e nutrifármacos) e serviços (controlo de qualidade, identificação de agentes patogénicos e detecção de ADN em alimentos geneticamente modificados).
Finalmente, no sector ambiental são identificadas oportunidades no tratamento de efluentes industriais (remoção de pesticidas, de solventes orgânicos, de macronutrientes e de metais pesados), na bioremediação dos solos (remoção de contaminantes) e na valorização dos resíduos (compostagem e produção de energia a partir de metanos e óleos).
Para além da ECBio, existem no Taguspark e na sua zona limítrofe as seguintes entidades ligadas à biotecnologia: Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica, localizado na Quinta do Marquês, Biotecnol (já aqui referida na Janela na Web), uma "start-up" ligada à genómica funcional, STAB, actuando no ambiente, e a própria Associação Portuguesa de Bioindústrias (APBIO), prefigurando um embrião de "cluster" nesta área de futuro.
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