Notas de um pateta do Lugar da Estrada: As narrativas sobre o “template” Gaspar e as “birras” do “miúdo” Portas

As duas cartas da semana passada justificando os pedidos de demissão dos dois ex-ministros de Estado ficarão na antologia doméstica da gestão da crise da dívida soberana portuguesa.

As narrativas – para usar a expressão ressuscitada pelo ex-primeiro ministro regressado de Paris – sobre as duas missivas que ouvimos quer à esquerda como à direita, por vezes, provocam riso, se não mesmo uma gargalhada – que provavelmente é partilhada, dentro de portas, pelos dois visados.

À esquerda mal se disfarça a surpresa e o “sentimento” oscila como as yields em dia de volatilidade – entre a abertura da garrafa de champanhe em virtude da “vitória da rua” e a desorientação que só reproduz uma espécie de cassete eleitoral.

Nos comentadores e analistas à direita mais mediáticos, ligados ao PSD, pinta-se o cenário de “birras” e desvaloriza-se a manobra de Paulo Portas bem como a demissão de um Vítor Gaspar de que muitos já pediam a cabeça (ou o escalpe?) há meses. No CDS, mais dissimulado (é o termo), fala-se menos, e deixa-se correr a narrativa dominante.

O achincalhamento dos dois e a ironia sobre as peripécias de teatro de sarjeta da semana passada podem servir a narrativa, mas não vão ao âmago da questão.

Divertem, com alguma vontade de vómito, mas não são o essencial. São espuma.

Ora nem Gaspar é um mero template com traduções em português hablado despacio até ao irritante, nem a manobra de Portas foi uma birra.

Porque o “template” se aguentou até agora?

Gaspar verbalizou, logo em Outubro de 2012, ao que parece, o sentido das coisas. É tudo menos um template mergulhado em números e gráficos, falando arrastado e com aquele ar de má cópia de Mr. Bean.

Percebeu que a receita era um fiasco – e disse-o ao primeiro-ministro, pedindo que queria largar o barco.

Um francês de nome Blanchard, que leva o “pin” de super-economista do FMI, deu um soco no austerismo por aquela altura, ao dizer que a sua base técnica era uma mentira – os multiplicadores orçamentais tinham efeitos negativos superiores aos estimados, a credibilidade dos cenários e das projeções da troika era zero.

A fatura paga pelas vítimas do experimento era uma tragédia. (Madame Lagarde ainda agora continua a fazer render a nota técnica de Blanchard para justificar em momento oportuno se necessário mandar às urtigas a Comissão Europeia e a senhora Merkel. As ratazanas estúpidas que fiquem até ao fim no barco, diz a francesa).

Mesmo depois desse soco técnico, Gaspar deixou-se andar porque Mario Draghi lhe dera uma prenda – a ele e aos outros periféricos – inventando o tal programa OMT, “comunicado”, mas que ninguém, na verdade, sabe o que é e que condicionalidades de acesso e posteriores tem e terá. Uma manobra ilusionista que resultou tanto mais que Bernanke dava dinheiro quente com o seu QE para o mercado dos “soberanos” europeus.

A prenda de Draghi somou-se à reestruturação parcial de dívida na Grécia logo no início de 2012. As yields refletiram o “sentimento” dos investidores na dívida, agora convencidos que a zona periférica do euro não ia sair em cascata e que as dívidas não iriam ser redenominadas.

Desceram evidentemente – no caso grego de mais de 31% em maio de 2012 para perto de um mínimo de 8% durante maio de 2013, um verdadeiro “milagre” dos deuses do Olimpo; no caso português de mais de 17% em final de janeiro de 2012 para um mínimo de perto de 5% durante maio de 2013, o verdadeiro “milagre” de Fátima. Estas prendas permitiram ao IGCP “regressar” aos mercados obrigacionistas e ao marketing político falar do restabelecimento” da “confiança externa”.

Mas Gaspar não é um idiota em macro ao contrário de muitos dos seus fãs. Sabe perfeitamente que esta situação era de risco, sujeita a variáveis com um alto grau de incerteza –a capacidade política de Draghi em manter estes truques, a gestão da caminhada para as eleições de setembro na Alemanha por Merkel, e a política monetária americana.

Ora a política monetária americana avisou que muda – a partir de maio começava a ser claro e em junho Bernanke desfez os rumores. O dinheiro quente que tem inundado os leilões soberanos na Europa e o investimento especulativo nas economias emergentes corre o risco de secar.

Para Gaspar, aqui à beira Atlântico plantado, isso significava uma enorme, e enormíssima incerteza – se as palavras de Draghi serão suficientes para anular o efeito da decisão de Bernanke, o que deixa o famoso plano de novas emissões obrigacionistas pelo IGCP em zona vermelha. Sabe-se lá se 5% como indicador no mercado secundário da dívida regressa atempadamente (uma palavra chave). Sabe-se lá se a economia mundial vai abrandar mais do que se estima (o FMI aparentemente vai divulgar em breve mais uma revisão em baixa da suas estimativas e projeções), dando um soco nas exportações, sabe-se lá que mais.

O que é que puxou o gatilho para a escrita da carta de Gaspar?

A cuspidela no supermercado, uns perdigotos refletindo o profundo ódio que largas camadas da população, particularmente na classe média, têm ao ministro que ficará como o arquiteto da sua miséria e proletarização?

O fiasco dos mais de 10% no primeiro trimestre?

A oposição dentro do conselho de ministros que atempadamente lhe tolheu as pernas?

A fadiga social e empresarial?

Ou terá sido Bernanke?

Gaspar estava a prazo desde outubro como um precário, e a mulher deve-lhe ter dito «É agora!», e assim foi.

Portas sem birras

A narrativa sobre Portas, o miúdo birrento e mal-educado, é outra da silly season.

O líder do CDS não birrou, fez uma manobra política, arriscada sem dúvida. Que dependia da revelação real da fraqueza do seu parceiro de coligação e que, ainda, depende da reação do Presidente da República, seja ela qual for.

Quem não arrisca não petisca e para as bases eleitorais do CDS e para os seus lóbis, o que importa não são as performances teatrais de sarjeta, mas os resultados.

São os resultados, estúpido!

E os resultados são, até agora, claros.

Portas usou uma ADM para alterar a correlação de forças face a um parceiro estratégica e animicamente enfraquecido.

Os ministros rebeldes contra a austeridade “excessiva” e mais manhosos no modo de agir eram independentes e não do PSD. Perceberam, há muito como Gaspar percebera, que a receita austerista e “liberal” portuguesa foi e será um epifenómeno que não passará de uma nota de rodapé nas suas alegadas virtudes.

As vozes do PSD – ex-cavaquistas – com mais soundbites televisivos e na escrita ainda não criaram uma vaga de fundo contra o pseudo-liberalismo. Achincalham-no, desmascaram-no, gozam-no, tratam-no como um bando de néscios, mas ainda não provocaram um abalo nos lóbis.

Era, portanto, o momento certo para Portas. O espantalho do “segundo resgate” e da “lição dos mercados” ajudou-o como a vaga de calor.

Coelho capitulou e os pseudo-liberais do PSD caíram na ratoeira – a partir de agora é claríssimo como água que são reféns do partido mais pequeno.

Portas é vice – uma espécie de “meio” primeiro-ministro – e controlará as áreas chave diretamente com os seus peões ou como “coordenador” e contará com a neutralidade ativa, ou mesmo proatividade, dos independentes.

As bases eleitorais “cristãs” abriram a garrafa de champanhe ou beberam um vinho do lavrador. O seu “menino” deu o golpe, irrevogavelmente.

Foram todos, depois em procissão, aos Jerónimos oscular a mão de um cardeal. A bênção, senhor patriarca! A bença.

Todos os vencedores da “birra” querem que este último balão de oxigénio os coloque bem na fotografia de próximas eleições com os meses que terão pela frente para distribuir algum trickle down, dentro das margens que permitirem as eleições na Alemanha em setembro, o ilusionismo de Draghi e o veredicto “interino” das eleições autárquicas em Portugal.

O Presidente está também no centro da armadilha. Vamos ver que diz e que faz. O resto dos seus dias estará marcado pelo trade off da sua decisão.

O mundo lá fora, esse, é uma chatice. E vai continuar a sê-lo.

One Response to “Notas de um pateta do Lugar da Estrada: As narrativas sobre o “template” Gaspar e as “birras” do “miúdo” Portas”

  1. [...] Continua… [...]

Leave a Reply

You can use these XHTML tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <blockquote cite=""> <code> <em> <strong>