«Bad bank» não obrigado!

“É preferível criar novos bancos que possam aguentar-se nas suas próprias pernas do que um banco repositório de lixo”, diz-nos Jeremy Bulow, professor de Economia da Graduate School of Business da Universidade de Stanford, na Califórnia. Ele cunhou, com o professor inglês Paul Klemperer, o termo de bridge banks, “bancos-ponte”, em oposição ao bad bank, “banco ruim”, ultimamente em foco.

A ideia é transferir para esses novos ‘bancos-ponte’ os activos saudáveis e algumas responsabilidades, deixando nos velhos bancos o “lixo” financeiro, a participação no novo banco e o recurso a um regime de insolvência, possibilitando a sua reorganização ou liquidação futura, sem perturbações sérias no mercado financeiro.

Criar bancos-ponte

O ‘banco-ponte’ envolveria o banco doente (e os seus accionistas), as categorias de credores seniores (que assim seriam compensadas, sem que necessariamente fiquem “imunizadas de sofrer perdas”, frisa Bulow) e um investimento temporário do Estado em função da subsidiação que decida fazer de algumas classes de credores dos bancos doentes, por exemplo dos depositantes a quem os governos têm garantido os depósitos na íntegra.

O professor de Economia refere que em Inglaterra o Special Resolution Regime “permite algo similar, mas ainda não foi usado”. Logo que as bolsas reanimem e o público e novos investidores institucionais surjam a adquirir acções destes novos bancos-ponte, o Estado reaveria o que investiu, minimizando o risco dos contribuintes, bem como os credores.

Em virtude do epicentro desta recessão se ter situado numa crise bancária aguda, estabilizar a situação neste sector é crucial. Recorde-se que uma das estratégias sugeridas nos Estados Unidos pelo anterior secretário do Tesouro Hank Paulson e recentemente equacionada na Alemanha é a da criação de um “banco ruim” (bad bank, na linguagem técnica).

Nesta instituição tipo caixote de lixo seriam armazenados todos os activos ‘tóxicos’ derivados do uso de veículos financeiros especulativos durante a década da «bolha», aliviando os balanços dos bancos existentes que, devido a esta carga negativa contabilística, se tornaram, em muitos casos, verdadeiros zombies (mortos-vivos), que só têm sobrevivido graças a injecções sistemáticas de dinheiro dos contribuintes.

A Alemanha prevê “armazenar” 200 mil milhões de euros de “lixo tóxico” financeiro nesse novo regime, se a proposta do governo da chanceler Merkel for aprovada no Parlamento antes de férias.

Evitar a captura do Estado por credores poderosos

Bulow contesta esta estratégia de externalizar o “lixo” financeiro, pois é “cara, ineficiente e arriscada”. Misturar dinheiro dos contribuintes com “lixo” financeiro é deixar que a «boa moeda» seja devorada pela «má moeda», parafraseando, com alguma adaptação, a famosa Lei de Gresham.

Em primeiro lugar, tem sido contestada a capacidade de uma eficiente e transparente avaliação do “lixo tóxico” financeiro. Em segundo lugar, a actual «engrenagem», movida pelo medo dos governos ao «risco sistémico» de deixar falir os zombies, permite a algumas classes poderosas de credores dos bancos em dificuldades exercer “um poder real de negociação”, na verdade capturando o Estado, e atrair para um poço sem fundo o dinheiro dos contribuintes, sem que o crédito à economia real seja restabelecido, como se tem observado.

Jeremy Bulow foi um dos estudantes de doutoramento do Massachusetts Institute of Technology (MIT) que em 1976 e 1977 fez parte da missão daquela escola americana a Portugal a convite do então governador do Banco Portugal, José Silva Lopes. No primeiro grupo veio Paul Krugman, hoje Nobel de Economia, juntamente com o jovem Luís Miguel Beleza, e no segundo viria Bulow com outro jovem português, Abel Mateus.

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