«É altura de evitar as bolsas», diz Stephen McClellan

A estratégia financeira para o pequeno e médio investidor, na actual conjuntura bolsista, é “ proteger o seu capital”. Por isso, “não é hora para andar nas bolsas; é altura de estar fora – evite as acções!”, afirmou-nos Stephen McClellan, de 66 anos, quase metade da vida como analista na Wall Street onde chegou a primeiro vice-presidente da Merrill Lynch e vice-presidente da Salomon Brothers.

Conselho frontalmente contrário ao do velho investidor Warren Buffett, hoje na equipa do presidente-eleito Obama. “Buffet, como uma das pessoas mais ricas do mundo, pode dar-se ao luxo de regressar às compras de acções e, se estiver errado, aguenta as perdas muito mais facilmente que qualquer investidor individual. Ele pode assumir riscos que a maioria de nós deve pura e simplesmente evitar. Até talvez possa estar correcto de que há acções que são uma pechincha, mas na situação actual eu recomendo ainda esperar para ver”, responde-nos numa entrevista que publicamos em inglês na janelanaweb.

Porquê? Porque os pequenos e médios aforradores em todo o mundo já perderam mais de 50% das suas carteiras. Não é altura para mais aventuras.

Bolsas ainda não bateram no fundo

Prudência continua a ser a palavra de ordem de McClellan, que publicou, no final do pico bolsista no ano passado, ‘Full of Bull’ (editado pelo Financial Times), o primeiro livro escrito por um «insider» da Wall Street sobre o sistema de práticas e códigos seguido pelos profissionais e instituições daquela rua da baixa de Nova Iorque. O livro provocou surpresa nos leitores, então embalados pela subida bolsista de 2007, e continua ainda hoje a gerar polémica na classe.

Stephen está farto dos alimentadores de «bolhas» e duvida que as bolsas já tenham batido no fundo, apesar do Outubro Negro de 2008, a que todos assistimos (uma quebra no Dow Jones Industrial Average norte-americano de 42% até 27 de Outubro, o ponto mais baixo desde o pico em Outubro do ano passado). “O actual período de baixa será provavelmente mais prolongado e profundo do que os de 1987 e 2002-2002. Eu espero que a queda na Wall Street venha a ser maior do que 50%, talvez na ordem dos 60-65%”, sublinha.

Bastará ter em conta que, normalmente, nos períodos de baixa nas bolsas nos anos 1930 e 1970, o multiplicador PE (os preços das acções divididos pela média anual de ganhos nos últimos 10 anos) se situava abaixo de 10 – ora, apesar da carnificina bolsista de Outubro, ainda está actualmente acima de 16, refere.

McClellan espera que as mudanças já introduzidas na Wall Street – com a alteração do modelo dos bancos de investimento e de muitas instituições financeiras, incluindo as emissoras de cartões de crédito – sirvam para regular o espírito «bull» permanente, corrijam a forma absurda de renumerar os analistas, impeçam o saque legal pela gestão de topo e tragam controlo sobre as práticas «distorcidas»: “os sistemas de «rating» incorrectos, análises favoráveis eivadas de parcialidade, tendência para seguidismo na avaliação das grandes empresas cotadas, etc.”.

Aspectos que o recente comunicado do G 20 reunido em Washington, no passado fim-de-semana, reafirmou.

Nota: Outras versões publicadas na edição em papel do Expresso (Lisboa, Portugal) e no Expresso online

One Response to “«É altura de evitar as bolsas», diz Stephen McClellan”

  1. […] Os anteriores mínimos neste ciclo descendente desde Outubro de 2007 tinham sido observados durante o ‘Outubro Negro’ deste ano, em 10, 24 e 27 de Outubro, e ontem, 19 de Novembro. O «crash» actual leva apenas 13 meses de vida, o que nos leva a temer que maiores quebras ainda estarão para chegar, como muitos analistas têm previsto. […]

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