«Não há solução sem a China»

A reunião do G20 a 2 de Abril em Londres vai ser palco de duras lutas. Indhira Santos, nascida na República Dominicana, investigadora residente do think tank Brussels European and Global Economic Laboratory, conhecido pelo acrónimo Bruegel (que é, também, o nome do grande pintor flamengo renascentista do sec. XVI), exprime quatro expectativas que recolhem o consenso de muitos analistas:

– face à dimensão da crise internacional, o G20 é o local ideal, reflectindo o ‘sentir’ de mais de 80% do PIB mundial;

– qualquer resolução que não envolva activamente a China estará condenada ao fracasso;

– é o momento certo para as organizações multilaterais filhas de Bretton Woods, e particularmente o Fundo Monetário Internacional, aumentarem o seu peso político e tornarem-se mais representativas das realidades actuais;

– é necessário um fórum complementar para a área dos temas da regulação financeira, em que todos os centros financeiros relevantes estejam presentes, incluindo a Suíça e Singapura.

No campo da adequação do FMI às novas realidades, Indhira Santos, num artigo assinado com Jean Pisani-Ferry, publicado na revista Finance & Development deste mês publicada pelo Fundo, refere uma conclusão crua, que vai gerar polémica e resistência: “Em termos práticos, a mudança vai exigir a redução do número de lugares europeus e a renúncia do poder de veto dos Estados Unidos”. A par do debate sobre a continuação do papel do dólar como divisa mundial – que tem estado ao rubro, inclusive tendo levado o secretário do Tesouro norte-americano a dar o dito por não dito num curto espaço de tempo -, a dança das cadeiras vai implicar duras batalhas.

O G20 que reuniu pela primeira vez em 1999 é formado pelos seguintes países: os que pertencem ao G7 (Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão, Reino Unido), mais a União Europeia, a Rússia (que participou no que se designou por G8) e mais onze emergentes (África do Sul, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, China, Coreia do Sul, Índia, Indonésia, México e Turquia).

P: Acha que o G20 vai substituir politicamente o G7 daqui para o futuro?

R: Os dois fóruns têm vantagens comparativas em temas distintos. Um papel mais forte para um deles não significa largar o outro. Mas, claramente, face à dimensão da crise económica internacional, o G20 é o fórum certo. E mais: qualquer iniciativa para reanimar a economia mundial ou resolver os desequilíbrios globais que não inclua, por exemplo, a China de corpo inteiro, estará condenada ao fracasso.

P: A gravidade da situação não exigiria um núcleo duro de grandes potências mais pequeno que o G20, ainda que diferente, na sua composição política, do G7?

R: Qualquer discussão sobre a arquitectura financeira global sem uma adequada representação do mundo emergente acabará prisioneira dos mesmos problemas do modelo actual. Contudo, é importante reconhecer que enquanto o G20 é o grupo ideal para definir prioridades para a ordem económica global e para incentivar a cooperação, é menos capacitado para outros tópicos como a regulação financeira.

P: Mas que tipo de fórum para esse tipo de tema mais específico?

R: Diria que nem o G20 nem o velho G7 ou G8 serve para isso. É necessário um fórum onde estejam todos os centros financeiros fundamentais – incluindo a Suíça e Singapura – para além dos ‘clientes’ importantes.

P: Pelo que o tema da regulação financeira, em particular dos veículos financeiros ou dos offshore, não deveria ser a estrela do encontro?

R: Ainda que seja difícil aos políticos evitar a discussão de alguns dos assuntos de regulação e financeiros que menciona, não creio que deva ser aí a procura de valor acrescentado deste G20. A agenda deve ir para além desses temas – pois, como referi, discuti-los sem importantes protagonistas à mesa e com complexidades técnicas, é muito limitado.

P: Aliás, a regulação parecia ser a tónica da reunião de emergência do G20 de Washington…

R: O principal foco nessa altura referido no comunicado final dizia respeito ao falhanço da regulação e da supervisão e os remédios considerados deveriam ser de ordem regulatória.

R: Então o que deveria ser central?

R: Temas ligados ao comércio internacional e à integração das políticas económicas e financeiras deveriam estar na frente. A par claramente do reforço das instituições financeiras internacionais, como o Fundo Monetário Internacional – claramente uma prioridade. Aliás, aumentar os recursos do FMI é um passo na direcção certa para construir a confiança numa segurança multilateral. Também a necessidade de uma acção orçamental globalmente coordenada deveria ser discutida seriamente. A coordenação dos estímulos orçamentais é fundamental, contudo não perdendo de vista o regresso a um controlo orçamental no futuro, sobretudo num quadro em que se espera que a dívida pública nos países avançados vá disparar. Devem, também, ser evitadas políticas cambiais que gerem instabilidade externa. O G20 deve pedir ao FMI que monitorize isso em tempo real e que reporte imediatamente as transgressões.

P: A vaga de globalização vai recuar, ou o G20 pode fazer algo contra essa possibilidade?

R: Já não há dúvida que a crise está a afectar os factores que estavam por detrás de uma globalização rápida nos últimos anos – propriedade privada, companhias globais integradas, cadeia de fornecimentos global e mercados abertos. Espera-se que o comércio internacional caia 2,8% em 2009 e que os fluxos líquidos de capitais privados para as economias emergentes deverão baixar para 82% do nível atingido em 2007. No artigo que publiquei com Jean Pisani-Ferry referimos que esta crise trava, por agora, a expansão rápida da globalização, e que é a primeira crise desta vaga. Na memória de muita gente não há uma crise deste tipo. O que fica claro é que a contracção do comércio internacional é não só um canal de transmissão como um factor de aceleração dessa contracção. A economia global manifesta falta de resiliência, apesar da integração regional e da emergência de novas potências económicas.

P: Isso quer dizer que o proteccionismo vai regressar em força?

R: O pêndulo pode de facto guinar agora para a direcção oposta. Apesar do empenhamento do G20 em que não se iria recorrer a medidas proteccionistas, têm-se criado barreiras alfandegárias e outras às importações, lançado subsídios à exportação e outras medidas discriminatórias para o comércio internacional. Ainda que eu ache que o regresso a um proteccionismo do tipo do que houve nos anos 1930 seja pouco provável, os líderes mundiais devem ter essa experiência bem em mente. Pelo que é necessário colocar na agenda preservar a integração comercial e económica.

P: E que medidas podem ser tomadas?

R: O G20 deverá acordar num código de conduta que estabeleça que tipo de medidas de apoio e de emergência são aceitáveis ou não em tempo de crise, ou seja em que medida afectam directa ou indirectamente o comércio internacional. A Organização Mundial do Comércio e a OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico) deverão encarregar-se dessa tarefa de monitorização.

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