“Bancarrota é possível em países ricos” (Carmen Reinhart)

Um dos mitos mais arreigados em muitos economistas e decisores é a ideia de que as crises de incumprimento da dívida soberana (default) não atingem os países ricos ou os que, nas últimas décadas, conseguiram “graduar-se” da situação de emergentes para o clube dos desenvolvidos.

“Isso não pode acontecer aqui, dizem. Mas é um erro. Esta crise mais recente de risco de default na zona euro não é um fenómeno novo. Incumprimento em série é um acontecimento surpreendentemente universal, incluindo os países desenvolvidos”, refere em entrevista (versão completa, em inglês, aqui) Carmen Reinhart, 54 anos, especialista americana em história financeira da Universidade de Maryland, e a mulher actualmente mais citada em trabalhos científicos na área da economia.

A especialista, juntamente com o seu colega Kenneth Rogoff deu uma entrevista [a 2 de Julho] ao The New York Times que merece ser lida aqui.

A fase final

Carmen [Castellanos, nome original], de origem cubana, nascida em Havana, saiu com 10 anos da ditadura de Fidel Castro em 1966 com os pais e com apenas três malas de mão, e viria a tornar-se a economista das crises mais em destaque depois de “This time is different” (Princeton University Press, Setembro 2009), um livro publicado com Kenneth Rogoff, que chegou a ser economista-chefe do FMI em até aos 25 anos um mestre internacional de xadrez.

O livrom que já vendeu 100 mil exemplares, referia que, na longa cauda das Grandes Recessões do capitalismo desde a Revolução Industrial, a “fase final” costuma ser – ensina a história financeira – povoada por crises de risco de bancarrota nos países mais endividados, onde a alavancagem bancária e a financeirização das economias mais se entranhou.

Os picos de bancarrotas nos países desenvolvidos da época concentraram-se (ou «clusterizaram-se», segundo a expressão usada por outros historiadores económicos), desde 1800, em dois momentos da história do capitalismo, particularmente europeia, segundo o estudo de Reinhart e Rogoff: 70% dos casos no séc. XIX (sobretudo 1830-1860 e 1880-1890), durante o período de transição geopolítica, de irrupção do novo capital financeiro e de várias crises globais, e 30% nas décadas de 1930 e 1940, na sequência da Grande Depressão e da guerra mundial.

É importante sublinhar que nos referimos, aqui, apenas, aos países desenvolvidos. Se forem incluídos, também, os países em desenvolvimento, a «clusterização» de eventos deste tipo é similar à referida com uma adenda, a década de 1980, abrangendo sobretudo a América Latina, a Ásia e África.

O “tempo de tranquilidade” entre duas crises de default para os países de alto rendimento, em mais de 65% da frequência de distribuição dos episódios, foi de menos de 20 anos. Os piores casos ocorreram com a Hungria (que terminou a sua crise apenas há 40 anos), a Grécia (há 46 anos), a Alemanha e a Áustria (há menos de 60 anos). A distribuição dos episódios mais significativos na Europa apresenta como campeões a Áustria, Grécia e Espanha.

A novela da realidade desde os primeiros episódios com a Islândia (que Reinhart e Rogoff analisam em particular no livro), depois com dois “tigres”, o Dubai e a Irlanda, e mais recentemente com a Grécia e restantes membros do clube designado pejorativamente por PIIGS (em que se encontra Portugal), apenas o confirma. Mas Carmen sublinha que “esta rodada de endividamento não é específica da zona euro”. Ainda que seja verdade que a zona euro detém mais de 44% da dívida externa mundial e a União Europeia mais de 61%. É normal, por isso, que seja a região mais vulnerável em que os holofotes dos grandes investidores institucionais (os que disponibilizam créditos e compram dívida) estão hoje focados.

No conjunto, os 30 países membros da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), considerados os “ricos” do planeta, dominam 79% da dívida externa mundial.

Uma verdadeira onda

Carmen Reinhart sublinha que se assistiu a uma “mudança real”. “Assistimos, de facto, a um crescimento do nível de dívida externa mas economias avançadas. Particularmente, no período de 2003 a 2009, a alavancagem através da dívida externa pura e simplesmente levantou voo. O mesmo sucedeu nas economias emergentes da Europa, onde assistimos a uma verdadeira onda. Pelo contrário, no caso dos países emergentes, no seu conjunto, a vulnerabilidade diminuiu”, refere-nos a especialista.

Reinhart sublinha, ainda, que a dinâmica da dívida externa por parte dos privados combinada com a dívida externa pública se tornou “numa situação explosiva”. No caso português, por exemplo, em finais de 2009, mais de 60% da dívida externa foi gerada por privados, particularmente pelo sistema bancário.

Entrevista rápida a Carmen Reinhart

P: Porque razão insiste em falar de acontecimentos que para a geração actual são coisa de um passado distante?
R: Bom, o último episódio na Grécia terminou em 1964. “Apenas” há 46 anos. Como também não tivemos grandes recessões nos últimos 70 anos nos países desenvolvidos não me surpreende que as pessoas tenham esquecido tudo isso.
P: As pessoas julgam sempre que “desta vez” é diferente?
R: Declarar a vitória sobre a vulnerabilidade às crises de bancarrota – ou outras – é um erro recorrente. Vimos como o período da “grande moderação” foi curto.
P: É chocante o facto de que Portugal esteja hoje nesta situação de risco de quase bancarrota quando foi o país que maior mudança positiva entre 1979 e 2008 obteve na sua notação por parte dos investidores institucionais. Porquê?
R: O esquecimento de todo o tema dos ciclos de dívida externa coloca claramente em risco a “graduação” de estatuto que se deu com Portugal. Essa “graduação” é um processo longo e tem sido historicamente caracterizado por retrocessos, mesmo depois de várias décadas. Lembre-se que o último programa do FMI numa economia periférica do que é hoje a zona euro foi em Portugal em 1984.
P: Os programas do FMI não são justamente uma muralha contra a recaída?
R: Têm sido importantes para a tal graduação de estatuto. Mas, como sabe, há inúmeros exemplos de bancarrotas mesmo depois de programas do FMI. Exemplos em países de médio rendimento incluem a Argentina mais recentemente e a Turquia nos anos 1980.

FACTOS HISTÓRICOS
Episódios de default na Europa desde 1800
(Países de alto e médio rendimento per capita na época)

Alemanha (Prússia, Hessen, Schleswig-Holstein, Vestefália): 4 (1807, 1812-1814, 1850, 1932-1953)
Áustria: 7 (1802-1815, 1816, 1868-1870, 1914-1915, 1932-1933, 1938, 1940-1952)
Espanha: 5 (1809, 1820, 1831-1834, 1837-1867, 1877-1882)
França: 1 (1812)
Grécia: 5 (1826-1840, 1843-1859, 1860-1878, 1894-1897, 1932-1964)
Holanda: 1 (1940-1946)
Itália: 1 (1940-1946)
Polónia: 3 (1936-1937, 1940-1952, 1981-1994)
Portugal: 4 (1828, 1837-1841, 1850-1856, 1892-1901)
Suécia: 1 (1811-1812)

Fonte: This time is different Chartbook: Country Histories on debt, default and financial crises, NBER, Março 2010.

2 Responses to ““Bancarrota é possível em países ricos” (Carmen Reinhart)”

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Paulo Querido, Rede TubarãoEsquilo, Ricardo Saraiva, Carlos Vargas, JNRodrigues and others. JNRodrigues said: Link para a Carmen (Reinhart): http://bit.ly/crh8KU […]

  2. […] investigadores Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff mostraram recentemente que um nível de dívida pública acima de 90% do PIB […]

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