“Fiquei cético em relação aos líderes europeus” (Barry Eichengreen)

Era o académico americano mais entusiasta da moeda única europeia e do projeto de União Europeia, mas confessa que, ultimamente, “ficou muito mais cético e menos fã da atual corte de líderes europeus”.

Manifesta-se favorável à emissão de obrigações europeias e a re-estruturações da dívida soberana dos países que o necessitem. Teme uma recaída na recessão na Europa se a gestão desta crise da dívida for um desastre. Doutorado em Economia e História pela Universidade de Yale é professor na Universidade de Berkeley, do outro lado da Baía de São Francisco, desde 1986.

P: Como é que um “tigre” económico, um caso de sucesso mundial como a Irlanda, se transformou num país em pré-bancarrota?
R: A Irlanda cometeu os mesmos erros do que os Estados Unidos. Deixou que o seu sistema bancário e o mercado imobiliário ficassem totalmente fora de controlo. Quando a bolha estoirou no imobiliário arrastou todo a banca. Depois, o governo em Dublin cometeu outro erro: o de garantir todas as responsabilidades do sistema bancário, acabando por transformar dívidas privadas em dívida pública e ameaçando a sua própria solvência como país.

P: O recente Memorando de Entendimento de Dublin com Bruxelas é um verdadeiro “Tratado de Versalhes” sobre os contribuintes irlandeses e sobre toda a economia irlandesa, como disse recentemente?
R: Proteger os credores dos bancos quando toda a gente na Irlanda sofre profundos cortes, não funciona nem politica nem economicamente. O governo em Dublin foi empurrado para esta posição insustentável por outros países europeus, que estão preocupados com as consequências da re-estruturação da dívida irlandesa nos seus próprios sistemas financeiros.

P: Bruxelas tem as ferramentas para travar a especulação nos mercados da dívida que, agora, pressiona Portugal, Espanha, Itália e Bélgica?
R: Tem, ou, pelo menos, pode desenvolver essas ferramentas rapidamente. Contudo, Bruxelas tem de mostrar que o quer, de verdade. Não só desenvolver essas ferramentas, mas colocá-las em prática.

P: O que é que isso significa?
R: Primeiro, fortalecer os bancos – tem de realizar verdadeiros testes de stresse, recapitalizar os bancos que são fracos mas solventes, e fechar os que além de fracos são insolventes, algo que tem de ser feito com supervisão europeia, para evitar serem os reguladores nacionais a fazê-lo de um modo enviesado. Em segundo lugar, significa, depois, re-estruturar as dívidas dos países que não conseguem pagar, começando pela Grécia e Irlanda. Por fim, significa expandir a Facilidade Europeia de Estabilização Financeira de modo a prover apoio adequado a economias como a Espanha, Itália e Bélgica.

P: A emissão de obrigações europeias (e-bonds) seria uma boa solução?
R: Penso que uma tal iniciativa seria útil para a re-estruturação das dívidas da Grécia e Irlanda. Os investidores poderiam ficar com obrigações que, embora com um valor facial menor do que os títulos que atualmente detém da Grécia e da Irlanda, seriam atrativas, pois a credibilidade de toda a União Europeia estaria por detrás das novas obrigações.

P: Mas essas obrigações não poderiam ser uma forma de premiar países viciados na dívida e aumentar o risco moral para o futuro?
R: Quanto a premiar países viciados, não creio que a Grécia e a Irlanda sejam as únicas responsáveis pelos seus problemas atuais. Os bancos alemães, franceses e ingleses que emprestaram o dinheiro, também, têm a sua quota-parte de culpa. E os governos desses três países que resistem a proceder a re-estruturações da dívida da Grécia e da Irlanda também são responsáveis. Quanto ao risco moral, os limites nessas obrigações – não mais do que 60% do Produto Interno Bruto de cada país – e o reforço do pacto de estabilidade podem lidar com esse perigo.

P: O desmembramento da zona euro em 2011, ou o seu emagrecimento, é um candidato a “cisne negro”?
R: Continuo a achar que um acontecimento desse tipo é muito pouco provável. Mas se ocorrer poderá ser altamente disruptivo e, então, qualifica-se, sem a menor dúvida, para ser um dos “cisnes negros” do ano.

P: Ficou eurocético?
R: Continuo a ser um grande apoiante do projeto europeu. Mas confesso que fiquei mais cético e menos fã da atual corte de líderes europeus, que – como é que eu posso dizer isto de um modo educado – não lidaram com a atual crise com grande sucesso.

P: Há risco real de uma recaída na recessão na Europa no próximo ano?
R: Se a Europa consegue escapar a uma recaída depende inteiramente de como lida com esta crise do euro.

P: E nos Estados Unidos?
R: Creio que foi muito reduzida essa possibilidade em 2011, agora que foi aprovada a extensão das isenções de impostos da era Bush e o abaixamento dos impostos sobre os salários. Essas medidas fiscais são como um segundo pacote de estímulo orçamental. O problema vai surgir quando tiverem de ser revistas em 2012.

P: Ainda em relação aos Estados Unidos, como sabe a política de “alívio quantitativo” (quantitative easing, no original) prosseguida pela Reserva Federal no plano monetário tem sido muito criticada em todo o mundo. Os críticos, da Europa à Ásia e à América Latina, têm razão ou não?
R: Estão redondamente enganados. Na minha coluna recente no The National Interest, intitulada “O Senhor Bernanke parte para a guerra”, refiro que há um assunto pendente que ficou dos acordos de Bretton Woods – é o seu ponto fraco. Não tem nenhum dispositivo para obrigar a revalorizar a sua moeda um país que mantenha excedentes de exportação crónicos. Keynes propôs esse mecanismo, mas os americanos vetaram. A ironia é que, seis décadas depois, o assunto está a prejudicar a América. Mas aceitar essas críticas seria um erro – a cura seria pior do que a doença. Aumentar as taxas de juro na América e empurrar a economia para a recessão é a última coisa que o mundo precisa.

P: A China e outras economias emergentes correm o risco de verem rebentar bolhas em 2011?
R: Sem dúvida. No caso da China, o governo está a agir rapidamente para controlar o boom de crédito e esvaziar a bolha imobiliária. Só espero que continue a agir rapidamente, dado que acordou tarde para a resolução do problema.

P: Os chineses terão de valorizar a sua moeda?
R: Os responsáveis da China estão cada vez mais preocupados com a inflação. O Banco Central – o Banco Popular da China – tem estado a aumentar as taxas de juro e as exigências em termos de reservas bancárias. Ainda este fim de semana, pela segunda vez em apenas dois meses, o banco central aumentou a taxa de referência nos empréstimos em 25 pontos base para 5,81% ao ano e subiu a taxa de remuneração de depósitos em 25 pontos base para 2,75% ao ano. Creio que o próximo passo em 2011 vai ser valorizar modestamente a moeda, dentro desta linha de arrefecer a inflação. Mas não estou a antever uma valorização abrupta face ao dólar. Talvez mais forte face ao euro – na medida em que o euro enfraqueça face ao dólar.

P: O famoso “privilégio exorbitante” do dólar está em queda, como afirma o título do seu próximo livro a sair agora em janeiro?
R: A situação do euro agravou-se enquanto eu acabava o livro. Mas continuo a achar que a tese do livro está certa: daqui a dez anos, o dólar, o euro e o renminbi desempenharão papéis internacionais importantes. E acho que estaremos melhor sem ter um sistema monetário internacional dominado pelo dólar.

PERFIL
Economista, Historiador e Cientista Político
Barry Eichengreen, de 58 anos de idade, estudou na Universidade da Califórnia em Santa Cruz e na Universidade de Yale e acabou por se doutorar em economia e história nesta última no final dos anos 1970. Ingressou como professor de Economia na Universidade de Harvard, em Boston, e depois mudou-se para a Universidade de Berkeley, na Califórnia, em 1987, onde hoje é professor de Economia e de Ciência Política. Foi assessor do Fundo Monetário Internacional em 1997 e 1998. É presidente da Associação de História Económica americana para o biénio 2010-2011. Este ano publicou Emerging Giants – China and India in the World Economy e na primeira semana de janeiro vai lançar Exorbitant Privilege: The Rise and Fall of the Dollar and the Future of the International Monetary System.

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