“O BCE deveria baixar a taxa de juro para 0,5%”, diz Joseph E. Gagnon (ex-FED)

Taxas de juro deverão continuar a manter-se próximas de zero. A incerteza económica aconselha-o, diz-nos Joseph E. Gagnon, ex-director da Reserva Federal Americana (FED).

Porquê? Porque, no seu entender, há um sério risco de recaída na Grande Recessão em curso. A economia mundial pode pregar-nos uma partida e transformar o tão esperado comportamento em “V” (que teria começado já no terceiro trimestre de 2009) num indesejável “W” em 2010.

Ou seja, os 0,6% de queda do PIB mundial em 2009 (segundo estimativas de Outubro passado que estimam um PIB mundial de 57,3 biliões – triliões, na designação anglo-saxónica – em 2009 face a um de 60,9 em 2008) poderão ter uma continuação em 2010.

Temor ao double-dip

Ainda, recentemente, o Nobel Paul Krugman dizia, a abrir o novo ano, que lhe começava a “cheirar” a 1937 – ou seja, ao ano em que a economia americana (e a mundial) também, voltou a cair em recessão (double-dip lhe chamaram os economistas), ainda que, apenas, por um breve período. O ano de 1938 foi mesmo o quarto ano negro no comércio mundial no século XX (12% de quebra, mais do que é estimado para 2009), mas o PIB mundial cairia, apenas, 0.1%.

Por isso, Joseph E. Gagnon, que foi director associado da Divisão de Assuntos Monetários da cúpula da Reserva Federal americana (FED) até Setembro, opõe-se a qualquer estratégia prematura de “saída” (exit, na linguagem técnica da política económica e financeira) nas políticas anticrise.

Pelo contrário, há que continuar com o “alívio monetário”, sublinha o perito do Peterson Institute for International Economics, um think tank sediado em Washington DC, num documento polémico que publicou no fecho do ano de 2009. Em “The World Needs Further Monetary Ease, Not an Early Exit” – um título que fala por si – advoga duas linhas de acção de curto prazo, que reforça na longa entrevista que nos concedeu.

As duas ideias avançadas por Gagnon são polémicas:

1) a manutenção das taxas de juro de refinanciamento o mais próximas de zero possível quer nos Estados Unidos como na Europa; e

2) o uso de outras medidas monetárias de estímulo, através da aquisição massiva de títulos de dívida pública e privada de longo prazo por parte dos quatro principais Bancos Centrais da OCDE (FED, Banco Central Europeu, Banco do Japão e Banco de Inglaterra) num montante de 3400 mil milhões de euros para além do já previsto, uma injecção adicional no sistema financeiro do chamado mundo desenvolvido quase equivalente ao PIB anual da Alemanha, a quarta potência económica do mundo.

Empurrão monetário

Segundo o estudo feito por Gagnon, estas medidas adicionais “implicariam um empurrão no PIB dos países desenvolvidos para um patamar de 3% nos próximos dois anos e a redução da taxa de desemprego entre 1 e 3 pontos percentuais”. A compra maciça de títulos de longo prazo teria um efeito de pressão nas taxas de juro de longo prazo nos países desenvolvidos, podendo emagrecê-las, em média, em 75 pontos base, refere o estudo.

No caso da Zona Euro, o especialista vai mesmo mais longe e advoga que o Banco Central Europeu (BCE) diminua para 0,5% a taxa de refinanciamento que actualmente está em 1%, uma guinada de política monetária, de redução de 50 pontos base, que a nomenclatura do BCE, liderada por J-C. Trichet, estará pouco – ou nada – inclinada a realizar. E acrescenta: “O BCE deveria continuar a estender crédito a doze meses a esta taxa ao sistema bancário”.

Gagnon acrescenta que, se as taxas de crescimento na Europa teimarem em ser medíocres, próximas da estagnação, se o desemprego – e, em particular, o desemprego estrutural – continuar a aumentar e se a liquidez na economia real continuar a escassear, então, “esse contexto será um argumento adicional para as minhas propostas que muitos acham demasiado radicais”.

Abrandar o keynesianismo

Na sua opinião, esta opção por medidas monetárias é preferível à continuação de uma tónica dada a políticas orçamentais adicionais, em virtude dos níveis de alarme de défice público e de dívida pública já atingidos em diversas economias-chave do mundo. Segundo Gagnon, a prioridade a medidas monetárias pode conjugar-se com políticas de consolidação orçamental, não se chocam.

Ele propõe, por isso, politicamente, uma nova distribuição de “tarefas” entre os bancos centrais e os ministros das Finanças. “Os estímulos monetários reduzem o défice público e as políticas orçamentais aumentam-no, como se sabe. A diferença no défice em virtude da opção por uma ou por outra das políticas pode chegar aos 2% do PIB em 2011”, acrescenta.

Limitar a ‘alavancagem’, a doença do sistema financeiro

O ex-director da FED, que fez uma carreira na Reserva Federal desde 1991 e que, também, esteve no Departamento do Tesouro da Administração Clinton nos anos 1990, não teme os malefícios de um clima de “bolha” financeira derivado do “desvio” das injecções financeiras dos bancos centrais para a especulação nas bolas e nos mercados de commodities, e não para a economia real.

“A questão crucial é não permitir a alavancagem. Os governos devem evitar que bancos e outras entidades financeiras emprestem a especuladores. Uma ‘bolha’ que não esteja alavancada poderá rebentar sem grandes efeitos perniciosos. Como aconteceu com o caso da bolha do Nasdaq, por exemplo”, referiu-nos em entrevista. Em suma, uma ‘bolha’ deste tipo não seria um tumor maligno.

ENTREVISTA RÁPIDA

P: O presidente do Banco Central Europeu sugeriu, recentemente, num jornal alemão que a mudança de agulha para uma estratégia de “saída” tem de ser feita já em 2010. A sua opinião é o oposto?

R: O meu principal objectivo é que são necessários, mais estímulos, ainda, nos próximos dois anos.

P: Mas o seu conselho é que a política anticrise deixe de ser excessivamente keynesiana?

R: Quando falo de estímulos, falo tanto de política orçamental como monetária. Mas o meu segundo objectivo é, de facto, que se centrem as opções mais na esfera monetária, do que na orçamental.

P: Mas descarta qualquer estratégia de “saída” (de abandono) das actuais políticas anticrise, mesmo que progressiva e suave?

R: Penso que é cedo demais para abandonar tais políticas. Há ainda um risco de recaída na recessão. Mas ajudará, sem dúvida, se se tomarem já medidas de corte orçamental de longo prazo – como, por exemplo, o aumento gradual da idade de reforma – que “acalmem” os mercados financeiros.

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