“O problema principal é o défice externo. A dívida pública é um problema de segunda ordem” (Ricardo Cabral)

Na semana em que os juros da dívida pública portuguesa subiram a novos máximos desde a adesão ao euro (6,51% nas obrigações do Tesouro a 10 anos a 28 de setembro, terça-feira) e de seguida baixaram, ainda que preguiçosamente, depois do anúncio na quinta-feira do pacote de austeridade pelo governo, entrevistámos o economista Ricardo Cabral para o semanário português Expresso. O entrevistado é professor da Universidade da Madeira e um dos intervenientes no think tank europeu Vox.eu.

Apesar de a polémica política e entre os economistas de profissão se centrar hoje em torno do défice público e do ajustamento orçamental até 2013, o economista chama a atenção que o problema estrutural prioritário é o défice externo e o endividamento externo global. A recomposição, com alterações cirúrgicas, da carga fiscal é uma das políticas sugeridas. E tem receio de “medidas que venham a ser tomadas por pressão dos mercados financeiros internacionais”.

ENTREVISTA

P: Os juros da dívida portuguesa subiram terça-feira para novos máximos desde a adesão ao euro, acima dos valores atingidos aquando da crise da zona Euro a 6 de maio. O que é que se agravou, entretanto, nos indicadores fundamentais portugueses para que tivesse ocorrido durante setembro, e antes do pacote anunciado pelo governo esta quinta-feira, essa deterioração extraordinária das condições de crédito internacionais?
R: Na minha opinião, a alta recente das taxas de juro da dívida pública nacional foi determinada por dois tipos de fatores. O primeiro, mais importante, tem causas externas ao país e é de ordem eminentemente técnica. O segundo tipo de fatores tem causas domésticas. Quanto ao primeiro: o sistema financeiro alemão (dou o exemplo da Alemanha, mas ocorre algo similar com outros países credores) sofreu perdas muito elevadas com a crise financeira internacional. Por conseguinte, o governo de Berlim teve de salvar vários bancos alemães, gastando só em empréstimos e aumentos de capital o equivalente a 70% do Produto Interno Bruto português (PIB), de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

P: Isso levou os alemães a mudar de estratégia?
R: A mensagem do governo alemão para o seu sistema financeiro passou a ser de aconselhar prudência e de penalizar os gestores bancários que assumiram riscos ao investir em dívida privada e pública de outros países, dando um sinal claro a essas instituições financeiras para não comprarem essas dívidas. Os gestores, agora, preferem não correr riscos (não colocando em causa, também, os seus salários), mesmo que assim sacrifiquem a rentabilidade das suas instituições.

O impacto de uma mudança estratégica na Alemanha

P: E qual foi a consequência dessa orientação?
R: A consequência prática é que, à falta de alternativas, o sistema financeiro alemão está a redirecionar a poupança das famílias da Alemanha para títulos de dívida pública do próprio país. Com o aumento da procura de dívida pública alemã sobe o preço da dívida pública alemã e diminui a taxa de juro (yield), que se move na razão inversa do preço. A taxa de juros da dívida pública alemã a 10 anos caiu de cerca de 3,6% em junho de 2009 para 2,29%, agora, a 1 de outubro. Ou seja, cerca de 1,3 pontos percentuais do aumento do spread (diferença entre as taxas de juro) entre a dívida pública portuguesa e a dívida pública alemã a 10 anos é causado pela redução da taxa de juro alemã e não pelo aumento dos juros da dívida nacional.

P: Isso provocou uma reviravolta nas nossas yields?
R: Até há bem pouco tempo, as taxas de juro da dívida portuguesa tinham aumentado muito pouco. A taxa de juro das obrigações de Tesouro a 10 anos subiu apenas 0,8 pontos percentuais de 4,5% em Junho de 2009 para 5,3% no leilão realizado a 25 de agosto último. No entanto, desde o final desse mês, que as taxas de juro começaram a subir rapidamente atingindo 6,2% no leilão de 22 de setembro.

P: É esse spread que está a deteriorar a apreciação que é feita sobre a situação portuguesa?
R: Este aumento do spread entre a dívida nacional e a alemã é, de facto, muito problemático. Há várias formas de se calcular a probabilidade de default (de incumprimento da dívida). No entanto, as formas mais utilizadas nos mercados e na literatura académica baseiam-se num spread (diferença entre taxas de juro) entre a obrigação que se está a avaliar e uma obrigação de prazo comparável sem risco de default. Na zona Euro, a obrigação sem risco utilizada como referência no cálculo da probabilidade de incumprimento é a da dívida pública da Alemanha (podem também ser utilizadas taxas de swap, como faz a CMA Datavision, mas estas taxas, em princípio, evoluem de forma similar à da dívida alemã). Isto pode parecer complicado mas não é.

P: Em termos simples, qual é a conclusão?
R: Na prática significa o seguinte: se a taxa de juro da dívida pública nacional se mantém, mas a taxa de juro da dívida pública alemã cai, aumenta o spread (diferença) entre as duas. Devido à forma como é calculada, aumenta também automaticamente a probabilidade de default da dívida pública nacional sem que na realidade se tenha alterado nada.

P: O que está a dizer é que uma mudança no comportamento financeiro dos alemães está a ter o impacto de um vendaval aqui na ponta da Europa?
R: Uma parte significativa do aumento da probabilidade de incumprimento da dívida pública portuguesa explica-se, de facto, pelo aumento da procura de dívida pública alemã e não pela diminuição da procura de dívida pública portuguesa. Este aumento da probabilidade de default e do spread, por sua vez, causa um agravamento das condições de financiamento da dívida pública portuguesa, pois sugere aos mercados que o risco de incumprimento da dívida pública portuguesa aumentou.

P: E isso tem um efeito sobre os agora já famosos credit default swaps?
R: É também provável que, em consequência, o preço dos credit default swaps (cds) sobre a dívida nacional aumente. Os cds são uma espécie de seguros de crédito que reembolsam perdas no caso de declaração de default de uma obrigação financeira, que muitas vezes são utilizados para especular contra o valor da dívida. Contudo, várias instituições financeiras compram dívida pública nacional e cds sobre essa dívida. Se o preço dos cds (que é marcado em pontos base) sobe, torna-se menos rentável comprar dívida pública e o respetivo cds, tornando a compra dessa dívida menos atrativa. Ou seja, o aumento do spread entre dívida portuguesa e alemã, devido a um aumento da procura de dívida pública alemã, pode levar a uma diminuição da procura de dívida pública nacional e a um aumento da taxa de juro.

P: Está, por isso, tudo encadeado…
R: Exatamente. Por último, um aumento da taxa de juro para níveis elevados leva os investidores a questionarem a sustentabilidade do endividamento público nacional e portanto a reduzir também a procura por essa dívida pública. Ou seja, embora no passado os juros sobre a dívida pública tenham sido muito mais elevados do que o observado atualmente, alguns investidores consideram que taxas de juro acima de 5% não são sustentáveis e que o governo não terá capacidade de pagar, posteriormente, essa dívida. Portanto, optam por vender essa dívida levando a que a situação se agrave ainda mais. Na minha opinião, é esta a principal explicação para a evolução das taxas de juro sobre a dívida pública nacional que tem vindo a ocorrer nos últimos meses e, em particular, desde 25 de agosto. É, pois, uma situação em que a perceção sobre os factos (a probabilidade de default) determina os próprios factos. Nos mercados, as expectativas têm um papel preponderante, como se sabe.

P: E quanto ao segundo fator que está a incendiar a atual situação?
R: Há também fatores de natureza doméstica que têm dado um contributo desfavorável para a evolução da taxa de juro da dívida pública nacional que são conhecidos. Primeiro, de ordem política: a instabilidade que se observa com uma minoria parlamentar no governo, com a incerteza sobre a aprovação de documentos importantes como o Orçamento de Estado para 2011 poderá influenciar as expectativas dos agentes económicos. Depois, de ordem económica: o andamento desfavorável da despesa pública e do défice público – com a despesa pública primária a crescer e verificando-se aumentos de orçamento significativos em rubricas de despesa importantes de vários ministérios (e.g., defesa nacional e ciência e ensino superior).

P: O que foi distinto do que ocorreu nos outros três países da zona euro que têm estado em foco…
R: De facto, a Irlanda, Grécia e Espanha reduziram a despesa pública e o défice público, o que poderá em parte explicar a contração económica em termos nominais que registaram no primeiro semestre de 2010. Esta evolução contrasta com o crescimento nominal médio anualizado de 2,5% registado por Portugal no mesmo período. É, de facto, muito importante assegurar que a economia do país continue a crescer em termos nominais, pois essa é uma medida da capacidade do país em cumprir com as suas obrigações financeiras face ao exterior.

O limiar dos 5% nos juros da dívida pública

P: A Eurointelligence citava recentemente diversos estudos no sentido de que o limiar das yields dos títulos soberanos a partir do qual a capacidade de pagar é insustentável seria 7-8%. Poderemos falar de um limiar?
R: A sustentabilidade das contas públicas depende de vários factores dos quais destaco a taxa de crescimento económico nominal, o nível de endividamento público, a percentagem de dívida pública que é detida por não residentes e o nível de endividamento externo. Porque a sustentabilidade depende de vários factores, não há um nível único de taxas de juro da dívida pública a partir do qual se possa dizer que a capacidade de pagar é insustentável. Diferentes agentes económicos terão diferentes expectativas sobre o nível de taxas de juro que será insustentável, porque terão diferentes expectativas sobre a evolução dos diferentes fatores.

P: Mas arrisca um número para o caso português?
R: Considerando o endividamento total da economia nacional, noto que a taxa de crescimento nominal da economia portuguesa nos últimos cinco anos foi em média de 2,4% por ano. A posição líquida de investimento internacional, que é uma medida mais lata das obrigações financeiras do país face ao exterior, era muito elevada, de -109% do PIB no final de 2009. Nestas condições, e com a dívida externa ainda a crescer devido ao défice da balança comercial, julgo que taxas de juro de dívida pública de 5% ou mais são insustentáveis para o país, porque resultam em taxas de crescimento do endividamento externo muito superiores à taxa de crescimento nominal da economia.

P: O limiar grego que obrigou ao recurso a Bruxelas e ao FMI poderá servir de sinal?
R: A Grécia pediu a ativação da ajuda da União Europeia e do FMI em abril de 2010, após as taxas de juro para obrigações a 10 anos terem atingido quase 9%. Contudo, na minha opinião, a dívida pública da Grécia continua a ser insustentável a níveis de taxa de juro mesmo substancialmente mais baixos.

P: Tudo indica que, a partir de junho, quando as yields das Obrigações do Tesouro colocadas atingiram os 5% para o caso português, a situação se agravou irreversivelmente. Teremos de recorrer à Facilidade de Estabilização Financeira Europeia (EFSF)? É a solução?
R: A evolução das taxas de juro da dívida pública não é necessariamente irreversível, pois depende de diferentes atores, nomeadamente do Banco Central Europeu (BCE) com as suas operações de compra de dívida nos mercados secundários. A EFSF não resolve o problema, apenas o adia, porventura por mais uns anos. A taxa de juro exigida pelo EFSF para os empréstimos a conceder é de 5% (há quem argumente que a taxa de juro será superior), o que seria insustentável para o país.

Os mercados já não acreditam nas soluções dos líderes políticos

P: E esse recurso ao EFSF poderá acontecer ainda este ano, ou só para o ano?
R: Não sei. Se as taxas de juro continuarem a evoluir como ultimamente, o país poderá ter que ativar a ajuda da EU-FMI ainda antes do final do ano. Não adianta tomar medidas ditas fortes agora. Os mercados já viram o que aconteceu à Irlanda e à Grécia. Já não acreditam nas soluções dos líderes políticos. Por isso, tenho algum receio de medidas que venham a ser tomadas sob a pressão dos mercados.

P: Há risco de falência de Portugal, usando uma linguagem mais popular?
R: A questão é muito pertinente porque finalmente nesta discussão sobre o endividamento externo se começa a questionar se será possível pagar essa dívida. Em países como a Irlanda, esse é um tema que tem sido abordado abertamente. O risco de o país não ser capaz de cumprir as suas obrigações financeiras é real. Não por causa dos níveis de dívida pública atingidos, que são similares aos de países mais avançados, mas, sim, devido ao nível de endividamento externo privado e público. Esse endividamento é tão elevado que os precedentes históricos sugerem que o país não será capaz de pagar essa dívida, como argumentei numa coluna que publiquei na Vox. A dívida pública nacional não era, em 2009, muito mais elevada do que a da Alemanha, por exemplo. No entanto, o facto de cerca de 3/4 dessa dívida pública ser detida por estrangeiros torna um eventual incumprimento muito mais provável.

P: A economia real, e particularmente o setor exportador, está a ajudar a alterar essa situação crónica? Dará confiança aos credores de que o país consegue sair da ameaça de estagnação ou de um crescimento medíocre?
R: Este ano as exportações têm crescido a taxas mais elevadas que as importações e Portugal tem registado algum crescimento económico. Contudo, a evolução observada é manifestamente insuficiente. Devido aos juros que o país paga sobre a sua dívida externa líquida, o défice da balança de rendimentos foi de 4,8% do PIB em 2009, um montante superior ao que foi gasto com as importações de petróleo e combustíveis. De facto, as necessidades líquidas de financiamento da economia, de que resultam obrigações financeiras face ao exterior, foram muito elevadas (10,8% do PIB no 1º semestre de 2010), pouco diferindo da evolução registada em anos recentes. Embora sujeito a flutuações, o endividamento externo líquido tende a crescer em linha com as necessidades líquidas de financiamento. Realisticamente, é muito pouco provável que um governo seja de que partido for, possa reduzir o crescimento do endividamento privado e público externo e dessa forma evitar a re-estruturação da dívida externa.

Um corte de 7% do PIB no défice da balança comercial

P: O que deveria fazer, então, um governo que quisesse enfrentar esse problema estrutural?
R: Pode fazer o seguinte: (i) procurar assegurar que uma parte significativa da dívida pública nacional passe a ser detida por residentes; (ii) no que respeita à dívida do setor privado e bancário em especial não assumir mais obrigações financeiras e até procurar diminui-las; (iii) procurar reduzir as importações alterando a composição da carga fiscal e eliminando isenções fiscais de certas importações, de forma a reduzir o défice comercial e assim reduzir o crescimento do endividamento externo.

P: Tem esse esforço de correção quantificado?
R: Um corte de, pelo menos, 7% do PIB no défice da balança comercial é provavelmente necessário para estabilizar o endividamento externo. E teria ainda de preparar-se para a contingência da crise de dívida externa, de forma a minimizar o seu impacto na atividade económica. Por exemplo, atualizando a legislação atual tendo em conta as melhores práticas dos países desenvolvidos (nomeadamente EUA). Entre outras medidas, será necessário melhorar a legislação sobre falências de indivíduos e empresas, processos de re-estruturação de empresas, processos de resolução bancária, e rever a legislação sobre a senioridade (prioridade) de diversos tipos de dívida e de depósitos bancários.

Alterar a composição da carga fiscal

P: Mas como se procede a um corte dessa envergadura?
R: Défices externos desta ordem de grandeza são tipicamente corrigidos por desvalorização cambial que atua sobre a procura e sobre a oferta, pelo menos no curto prazo. Do lado da procura, altera os preços relativos, aumentando o preço das importações em relação aos preços da produção doméstica. Do lado da oferta, baixa os custos unitários de produção de setores sujeitos à concorrência internacional e reduz os rendimentos e o poder de compra dos setores de produção domésticos que estão protegidos da concorrência internacional. Mas, como o nosso país está na zona Euro, não pode utilizar, como se sabe, a política cambial para corrigir os desequilíbrios externos. Pode, no entanto, utilizar a política fiscal para procurar replicar os efeitos de uma desvalorização cambial. Isto faz-se alterando a composição da carga fiscal, preferencialmente sem aumentar o seu peso em percentagem do PIB.

P: Em termos mais concretos?
R: Do lado da procura, poderiam ser aumentados os impostos sobre bens e serviços importados, tendo no entanto em atenção as regras da União Europeia sobre a não discriminação da concorrência. Concretamente, afiguram-se necessários aumentos substanciais dos impostos sobre petróleo e produtos derivados e sobre veículos automóveis. Estas são categorias de bens que têm um peso importante no total das importações do país. Podem ainda ser eliminadas algumas isenções fiscais sobre estes produtos que constituem verdadeiros subsídios às importações. Por exemplo, estimo que a eliminação da isenção fiscal implícita que existe sobre a utilização de veículos automóveis de empresas iria resultar numa redução do défice comercial de 0,4% do PIB. Ao mesmo tempo que se aumentam os impostos sobre as importações, é recomendável reduzir impostos sobre o rendimento e o consumo de forma a minimizar o efeito dos aumentos de impostos sobre a procura final e reforçar a alteração de preços relativos das importações.

P: E do lado da oferta?
R: Nesse campo, é necessário reduzir os custos fiscais de empresas de setores sujeitos a concorrência internacional e aumentar os impostos sobre empresas que não estão sujeitas a essa concorrência, de maneira a transferir rendimentos e recursos de setores protegidos para setores que enfrentam a concorrência global. O objetivo é reduzir os custos unitários de empresas que podem exportar ou produzir bens e serviços que substituem importações, aumentando a sua competitividade internacional. Empresas sujeitas à concorrência internacional estão tipicamente em mercados concorrenciais onde as margens de lucro são mais baixas. Assim, no concreto, nesses casos, poder-se-ia pensar na redução de taxas de contribuição para a segurança social e na redução das taxas do IVA. Empresas em setores protegidos tendem a ter margens de lucro mais elevadas. Assim, para replicar o efeito de uma desvalorização cambial nos rendimentos e no poder de compra de empresas em setores protegidos da concorrência internacional, poderia ser aumentada a taxa do IRC e implementada uma substancial redução das deduções fiscais no IRC. Novamente, o objetivo seria alterar a composição da carga fiscal, não o seu nível absoluto.

P: A questão da exportação é um tema recorrente na discussão sobre a saída desta crise da dívida. Será que a dimensão do problema é bem entendida?
R: Entre 1977 e 2009, o défice comercial foi, em média, equivalente a 8,1% do PIB. Este facto ilustra a dificuldade que o país enfrentará para reduzir o défice comercial de forma substancial. O padrão das exportações portuguesas melhorou substancialmente na última década. O país tem vindo a realizar investimentos, nomeadamente nas energias renováveis e nas infraestruturas de transporte, que a prazo deverão ter repercussões positivas na balança comercial. Mas, no curto prazo, o endividamento externo e o elevado défice comercial constituem uma ameaça grave sobre a economia do país. Na realidade, ou se reduz o défice comercial ou o país será forçado a fazê-lo, de forma mais dura e com consequências mais negativas para a economia, quando deixar de conseguir financiar de todo a sua dívida externa.

P: O que está dizer é que grande parte do debate que existe hoje em torno da questão do défice público e do gasto público não vai direto ao essencial?
R: Exatamente. Um dos problemas fundamentais de Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia é o endividamento externo (os bancos irlandeses estão extremamente endividados face ao exterior). Portugal tem ainda o problema do seu défice da balança comercial (partilhado com alguns destes países, excetuando a Irlanda que tem excedente comercial e em crescimento; no final de Julho atingiu €4,2 mil milhões). O défice da balança de rendimentos portuguesa é consequência direta do endividamento externo. O défice público é um problema de segunda ordem e é, em parte, um sintoma desses problemas fundamentais da economia portuguesa.

P: O princípio de alterar cirurgicamente a composição da carga fiscal é tecnicamente fácil de explicar, mas é politicamente viável?
R: Concordo que me parece difícil obter apoio político para alterar a composição da carga fiscal. Em qualquer sociedade existem diferentes grupos que naturalmente procuram defender os seus interesses. Contudo, os grupos de interesse associados a setores protegidos da economia nacional irão perder muito do seu património se nada se fizer.

P: A política fiscal discriminatória em relação ao setor importador não poderá criar uma bola de neve protecionista dentro e fora da Europa, como se parece desenhar na cena internacional com as atuais manipulações de divisas, a que alguns já chamam de pré-guerra comercial?
R: Sim, é preocupante o que está a acontecer na zona Euro e no mundo. Mas a bola de neve já começou a rolar há algum tempo. Por exemplo, a China manipula a sua divisa, apesar de excedentes comerciais crescentes que estão a desestabilizar a economia mundial. A Inglaterra e os Estados Unidos encorajaram a substancial desvalorização das respetivas divisas em resposta a esta crise financeira internacional. Como foi notado por Paul de Grauwe no Financial Times, em 4 de maio de 2006, na zona Euro, no início da década, a Alemanha implementou uma política de moderação salarial muito forte, em parte suportada através do substancial corte do subsídio de desemprego e de alterações na legislação laboral, que diminuíram o poder negocial do fator trabalho. Isto permitiu ganhos de competitividade da indústria alemã e reduziu a procura interna alemã resultando em maiores desequilíbrios externos dentro da zona Euro. Estes são exemplos de políticas designadas em inglês por beggar-thy-neighbour, em que os problemas domésticos são exportados para fora.

P: Mas o sistema não está interligado? Essas estratégias não poderão ser como o boomerang?
R: O sistema está interligado, de facto. Neste momento, o grupo de países conhecidos pejorativamente como PIGS está a ser demonizado. O argumento é que, porque não souberam gerir os seus destinos, devem agora “expiar” os seus erros através de política orçamental muito restritiva. Pois bem, as medidas restritivas adotadas em Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha – apesar dos efeitos negativos já sobejamente conhecidos – irão afetar também grupos de interesse em toda a zona Euro em particular, e na União Europeia em geral (e.g., exportadores de automóveis). Pode ser que isso leve as lideranças desses países e da Comissão Europeia a refletir sobre outra forma de resolver os desequilíbrios atuais.

Sistema bancário não se pode endividar mais lá fora

P: Então que políticas podem ser seguidas no concreto para diminuir o endividamento externo privado português, nomeadamente o bancário?
R: De facto, o endividamento externo privado é sobretudo da banca e de algumas grandes empresas nacionais. O primeiro passo é conseguir que o sistema bancário deixe de se endividar mais, como ocorre atualmente. Em uma segunda fase poder-se-ia então pensar em diminuir o seu endividamento externo. Como antes referi, as necessidades líquidas de financiamento da economia (que incluem o défice comercial e o défice da balança de rendimentos assim como os ligeiros excedentes da balança de transferências e da balança de capital) têm estado a crescer a taxas de cerca de 10% do PIB ao ano. Essas necessidades líquidas de financiamento são satisfeitas essencialmente por bancos, estado e grandes empresas, ao contraírem empréstimos no estrangeiro.

P: Qual é, então, o problema?
R: O problema principal da banca nacional é que tem de ir obter financiamento adicional ao estrangeiro para satisfazer as necessidades líquidas de financiamento da economia nacional. Portanto, o corte do défice da balança comercial em 7% do PIB é fundamental para estabilizar o endividamento externo do sistema bancário em percentagem do PIB. Se se conseguir reduzir o défice comercial em 7% do PIB, as necessidades líquidas de financiamento da economia deveriam em princípio baixar para cerca de 3% do PIB, o que é aproximadamente consistente com a taxa de crescimento nominal da economia observada em anos recentes. Assim, a redução do défice comercial com a decorrente redução das necessidades líquidas de financiamento da economia é fundamental para assegurar a estabilidade do sistema financeiro nacional.

P: Mas essa redução do vício do endividamento externo não vai apertar ainda mais o crédito à economia real, particularmente ao tecido de PME?
R: O sistema financeiro nacional tem estado, de fato, a reduzir e dificultar o crédito às empresas nacionais, sobretudo às PME. Isso é o equivalente ao proverbial “dar um tiro no pé”. Sem crédito, as empresas vão à falência, aumentando o crédito mal parado. Ao invés disso, para o sistema bancário como um todo e para o país, seria fundamental que a análise de crédito a conceder se passasse a basear no tipo de crédito e só em segundo grau na avaliação da solidez financeira do cliente. O sistema bancário conhece bem o tecido empresarial português e poderia solicitar informação sobre o destino do crédito concedido. Especificamente, o sistema bancário poderia reduzir, ponderadamente, de forma a acautelar importações prioritárias, o plafond de crédito destinado a importações em 10%-15% e aumentar substancialmente a taxa de juro para crédito a importações; poderia ainda aumentar muito significativamente o crédito às exportações e reduzir a respetiva taxa de juro bem como a de empresas que produzem bens e serviços que substituem importações.

P: Que mais podem fazer os bancos para reduzirem as suas necessidades de financiamento no exterior?
R: Através da alteração do portefólio de ativos bancários, substituindo ativos financeiros no exterior por dívida pública nacional, o que contribuiria para a redução das necessidades de financiamento da economia, porque os juros elevados que o estado paga sobre a sua dívida passariam a ser recebidos por residentes no país e depositados no sistema bancário nacional.

P: Finalmente, o que achou das medidas tomadas esta semana pelo governo?
R: Compreendo-as, dado que o governo estava a ser pressionado pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu, pelo Ecofin e pelos mercados. Era, pois, necessário mostrar um esforço de consolidação orçamental adicional. No entanto, a experiência histórica sugere que várias dessas medidas têm tido consequências muito negativas nas economias reais dos países onde foram aplicadas.

One Response to ““O problema principal é o défice externo. A dívida pública é um problema de segunda ordem” (Ricardo Cabral)”

  1. […] e construtiva das que têm sido discutidas publicamente na Alemanha”. Este economista já se havia pronunciado, em entrevistas anteriores, no sentido de que Portugal está sobre-endividado ao exterior e que a re-estruturação de dívida […]

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