Olivier Blanchard (FMI) reafirma o erro do FMI, mas coloca água na fervura

O Fundo Monetário Internacional (FMI) e diversas entidades nacionais e internacionais subestimaram o efeito negativo, recessivo, das políticas de consolidação orçamental, mas esse erro foi maior no início da gestão da crise do que mais recentemente. E o reconhecimento desse erro não implica que o FMI considere as consolidações orçamentais como indesejáveis.

São as principais conclusões do primeiro estudo técnico de 2013 publicado a 3 de janeiro pelos “Working Papers” do FMI e assinado por Olivier Blanchard, conselheiro económico do Fundo, e Daniel Leigh, economista do Departamento de Investigação. Em “Growth Forecast Errors and Fiscal Multipliers“, os dois economistas do FMI voltam ao tema do multiplicador orçamental e dos erros de subestimação cometidos durante a gestão da atual crise.

O estudo é publicado – tal como todos os “Working Papers” – com a ressalva de que não representa as posições oficiais do FMI e de que se trata apenas do ponto de vista dos investigadores envolvidos. Mas, uma vez mais, é o conselheiro económico do Fundo, e diretor do Departamento de Investigação, que reafirma um erro grave de previsão cometido que teve repercussões posteriores no “desapontamento” dos responsáveis políticos pelas quebras maiores do que o previsto no crescimento, no investimento, no consumo e no emprego.
O erro foi maior no início da crise

O tema do multiplicador orçamental nos países desenvolvidos, em período de crise, gerou interesse internacional e grande polémica quando, em outubro passado, o FMI, no seu “World Economic Outlook”, reconhecia, numa caixa técnica assinada por aqueles dois economistas, que o efeito negativo da consolidação orçamental era superior ao estimado no início da crise das dívidas soberanas na zona euro. Ou seja, os multiplicadores orçamentais acabaram por ser substancialmente mais elevados do que eram implicitamente assumidos pela maioria dos responsáveis pelas previsões e projeções, que estavam agarrados aos valores muito mais baixos, típicos do período anterior à crise. Na altura, a diretora-geral do FMI corroborou as conclusões de Blanchard.

Neste novo artigo, Blanchard e Leigh afirmam que o erro foi maior no início da crise do que mais recentemente, pois se aprendeu com a evolução da crise ou os próprios multiplicadores baixaram no período mais recente.

O artigo sublinha ainda que o reconhecimento do erro não significa que as políticas de consolidação orçamental sejam indesejáveis. Adverte, ainda, que as conclusões gerais tiradas não podem servir de argumentação para qualquer política orçamental específica num dado país. Ou seja, que “não têm implicações mecânicas para a condução da política orçamental”. Acrescenta que decidir sobre as políticas de consolidação orçamental requer muito mais do que avaliar a dimensão do multiplicador orçamental. “Os efeitos de curto prazo da política orçamental na atividade económica são, apenas, um dos muitos fatores que têm de ser levados em consideração na determinação do ritmo apropriado da consolidação orçamental para qualquer economia em separado”, conclui o artigo.

O tema tem feito correr muita tinta entre os académicos. O artigo de Olivier Blanchard e Daniel Leigh faz menção a 10 artigos publicados em 2012 em revistas científicas e nos “Working Papers” do Fundo Monetário Internacional e do National Bureau of Economic Research. Alguns nomes mais sonantes como o Nobel Paul Krugman, Barry Eichengreen, professor de Berkeley, ou Christina Romer, ex-presidente do Conselho de Consultores Económicos do Presidente Obama, já “intervieram” no debate. Os vários artigos publicados no ano passado abordam o tema dos efeitos da consolidação orçamental em períodos de recessão ou em situações de desalavancagem forçada e rápida ou de “armadilha de liquidez” (quando as taxas de juro de referência dos bancos centrais estão em níveis próximos de 0%).

O que acontece ao multiplicador em período de crise

O ponto de partida deste mais recente estudo de Olivier Blanchard e David Leigh foi apurar se, no início de 2010, os responsáveis pelas previsões e projeções macroeconómicas em 26 países europeus (23 da União Europeia mais a Islândia, Noruega e Suíça) considerados desenvolvidos haviam subestimado os multiplicadores orçamentais no curto prazo. Ou seja, se os efeitos negativos dos programas de consolidação orçamental então em curso, quer por via dos cortes da despesa pública como por subidas nos impostos, foram muito superiores aos que se previam.

O estudo verificou que sim. Os multiplicadores implícitos usados nos modelos em 2009-2010 e 2010-2011 estavam subestimados. Foi estimado, em média, um multiplicador orçamental de 0,5 que se verificara no período pré-crise, entre 1970 e 2007. Só a OCDE, no seu “Economic Outlook” de dezembro de 2010, sugeria um multiplicador próximo de 1. “Parece seguro para o momento, quando se pensa em consolidação orçamental, assumir multiplicadores mais elevados do que antes da crise”, concluem.

E a subestimação foi “ligeiramente” maior em relação aos efeitos dos cortes de despesa pública. O erro repercutiu-se, também, na previsão para o crescimento do desemprego, para o declínio do consumo privado e para o investimento, e mesmo no caso do comportamento das exportações. Os erros de previsão sobre os efeitos negativos da consolidação orçamental tendem a ser mais elevados nos casos do investimento e da exportação, na análise agora apresentada por Blanchard e Leigh.

Neste estudo, os dois economistas do Fundo Monetário Internacional verificam a robustez das conclusões alterando o grupo de países desenvolvidos analisados e verificaram que a subestimação continua a ocorrer, mesmo quando são eliminados os casos extremos da Grécia e Alemanha, ou os países de Leste da UE, ou todas as economias desenvolvidas que não estão numa situação de “armadilha de liquidez”.

Os autores concluem que, na medida em que as economias recuperem e saiam da “armadilha de liquidez”, os multiplicadores regressarão aos níveis mais baixos típicos do período pré-crise.

(c) JNR, 2013

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