2014 em revista: Cisnes negros, cinzentos & 6 surpresas

6 surpresas nos mercados financeiros
Por Jorge Nascimento Rodrigues
© JNR, 2015

Os mercados financeiros assustaram-se pontualmente em alguns períodos do ano.

E sinalizaram 5 problemas:

# o impacto da desativação da política de estímulos monetários norte-americana sobretudo nas economias emergentes,

# as tensões geopolíticas no leste da Europa,

# o “choque” provocado pelo Fundo Monetário Internacional em outubro ao dizer preto no branco que haveria um abrandamento no crescimento mundial e que a situação da zona euro é particularmente preocupante,

# a guerra de preços no mercado petrolífero no segundo semestre,

# e as crises russa e grega na ponta final do ano.

Para Constantin Gurdgiev, professor no Trinity College, em Dublin, podem considerar-se “cisnes negros” dois eventos-chave imprevisíveis no final de 2013 e cuja magnitude do impacto é de assinalar:

# a crise geopolítica entre a Rússia e o Ocidente, cujas pré-condições estavam presentes, mas cuja escalada no primeiro trimestre de 2014 não era previsível;

# a simultaneidade de crises nas grandes economias emergentes, com destaque para a entrada da Rússia em recessão e a crise cambial do rublo no final do ano.

Segundo o economista russo, a queda massiva do preço do petróleo no segundo semestre, prevista por muitos analistas mas sem uma definição temporal de quando ocorreria, pode ser considerada um “cisne cinzento”. Em certo sentido, a descida dos juros da dívida na zona euro para mínimos históricos pode ser, também, considerada um “cisne cinzento”.

O ano que findou acabou por trazer surpresas, boas e más, nos mercados financeiros que seriam difíceis de imaginar no tradicional exercício de previsões no final de 2013.

Surpresas, não só do lado da geopolítica (sobretudo os movimentos estratégicos da Rússia) ou da geoconomia (a guerra de preços no mercado petrolífero e o abrandamento inevitável da economia chinesa com metas políticas de crescimento económico mais baixas), como da política monetária (a admissão formal a partir da reunião de 3 de abril pelo Banco Central Europeu da possibilidade de comprar dívida soberana, o que motivou, então, uma discussão muito “rica”) ou da política interna de alguns países na zona euro, como no caso da crise grega desde novembro.

Escolhi seis surpresas:

#juros da dívida soberana em mínimos históricos na zona euro;

# quatro surtos pontuais de volatilidade em fevereiro, março, outubro e dezembro sinalizando riscos bem presentes;

# a Europa como campeã da derrocada bolsista;

# o regresso da Grécia à zona de risco de bancarrota reentrando num clube restrito em que pontuam a Venezuela, Argentina e Ucrânia;

# a queda anual (em dólares) de quase 50% do preço do barril de petróleo da variedade Brent, de referência internacional;

# e a mudança dos protagonistas do “clube” das economias mais frágeis.

No entanto, na zona euro, verificaram-se três tendências que eram previsíveis para 2014.

A primeira tem a ver com a desinflação – o processo continuado de descida da taxa de inflação de 2% em janeiro de 2013 para valores próximos de 0% em novembro de 2014 e a previsão de uma inflação negativa em dezembro, o que ocorrerá pela primeira vez desde junho de 2009, ano em que a inflação negativa se manteve durante cinco meses.

A segunda reflete o divórcio institucional entre a política de consolidação orçamental prosseguida pelos governos dos países membros e imposta pelo Eurogrupo e Comissão Europeia e a política monetária do Banco Central Europeu (BCE) que recorre a um leque cada vez mais diversificado de estímulos para injetar liquidez numa economia que cresce a níveis medíocres e está prisioneira da baixaflação (lowflation, como lhe chamou o Fundo Monetário Internacional).

E a terceira desenvolveu-se no terreno político europeu, com a subida das forças políticas contrárias às políticas de austeridade e de centralismo de Bruxelas e o aumento do “risco de eventos Vox Populi” como lhe chama a Citi Research.

O embate foi adiado para 2015, ano em que alguns momentos eleitorais cruciais vão ocorrer na Grécia (já a 25 de janeiro), em Itália (eventualmente fevereiro, se o presidente da República Giorgio Napolitano resignar devido à idade, obrigando a uma antecipação das eleições presidenciais, que são indiretas, através de votação no Parlamento, tal como na Grécia), no Reino Unido (maio), em Portugal (outubro) e em Espanha (dezembro) que poderão ter efeitos “sistémicos” em alguns casos. No caso de Espanha, o governo tem margem de manobra legal para poder adiar para 2016 o ato eleitoral.

1. Mínimos históricos nos juros da dívida soberana

A zona euro foi o laboratório de uma descida colossal dos juros da dívida soberana no mercado secundário e nos leilões de dívida, difícil de prever no início do ano, sobretudo para os periféricos do euro então com programas de resgate pela troika.

A descida mais significativa registou-se com os juros das Obrigações do Tesouro português (OT), que, no prazo de referência, a 10 anos, caíram de 6% no fecho de 2013 para um mínimo histórico de 2,69% no final de 2014. Mais de três pontos percentuais de “emagrecimento”.

Reduções significativas de juros, ainda que menores, naquela maturidade, ocorreram com as obrigações espanholas que desceram de 4,14% para 1,6%, com as obrigações italianas de 4,09% para 1,88%, e com as obrigações irlandesas de 3,47% para 1,24%.

Nas economias do centro da zona euro, a descida para mínimos tornou o custo de financiamento da dívida a 10 anos inferior a 1%. No caso das obrigações alemãs (designadas de Bunds) naquela maturidade a descida ao longo do ano foi de 1,94% no fecho de 2013 para 0,54% no fecho de 2014. Os investidores na dívida aceitaram inclusive pagar para deter dívida obrigacionista a 12 meses até 4 anos nas economias do centro, onde os juros no mercado secundário e as taxas de remuneração média nos leilões de dívida desceram para terreno negativo. Ativos como as Bunds são considerados valores de refúgio sempre que surtos de pânico financeiro, mesmo pontuais, se desenvolvem.

O momento de aceleração da descida para mínimos históricos pode ser colocado em abril, quando surgiu a primeira indicação formal de que o tema de um programa de QE tinha motivado uma discussão “rica” na reunião do BCE. A revelação foi feita por Draghi na sequência da reunião do conselho a 3 de abril de 2014. Apesar da tensão geopolítica motivada pela crise da Crimeia em abril, Espanha, Irlanda e Itália fixaram, então, mínimos históricos nas yields da dívida a 10 anos e as yields das OT desceram abaixo de 4%. O IGCP, a agência de gestão da dívida portuguesa, realizou em abril o primeiro leilão de obrigações a 10 anos desde o início do resgate e pagou uma taxa de remuneração média de 3,575%.

O próprio comportamento dos juros da dívida norte-americana a 10 anos surpreendeu. Tendo fechado no ano de 2013 em 3,03%, as previsões no início de 2014 apontavam para uma subida para 3,44%. Na realidade, desceram para 2,17%, níveis que já não se verificavam desde meados de 2013.
O investimento em dívida soberana viveu um bom ano. A rentabilidade anual do conjunto da dívida soberana da zona euro subiu de 12,21% para 13,9%, segundo o índice da Bloomberg (Bloomberg Global Benchmark Sovereign Bond Index). Dívidas de grandes economias desenvolvidas que apresentaram rentabilidade anual negativa em 2013, como Alemanha, França e Estados Unidos, passaram retornos anuais positivos. O caso mais significativo é o da Alemanha: de -2,05% em 2013 para 10,31% em 2014.
As razões para esta conjuntura prendem-se à injeção de liquidez na continuação das políticas de estímulos monetários de alguns dos principais bancos centrais do mundo e à política de comunicação do BCE que deixou no ar explicitamente a possibilidade de usar a “bazuca” da compra de dívida soberana. “Muita da liquidez [injetada pelos principais bancos centrais] encontrou provavelmente o seu caminho no mercado global das obrigações soberanas”, referiu a Schroders londrina numa nota para investidores distribuída a 23 de dezembro. No conjunto, a Reserva Federal, o Banco do Japão e o Banco Popular da China injetaram 1,3 biliões de dólares através do aumento do seu balanço em 2014, refere aquela gestora global de ativos. O BCE, pelo contrário, reduziu o seu balanço de mais de 2,2 biliões de euros no início de 2014 para cerca de 2,04 biliões no final de dezembro e as suas operações de novo tipo decididas em julho (linha de refinanciamento TLTRO até 2018) e setembro (compra de ativos financeiros privados, ABS e covered bonds) não ultrapassaram uma injeção no sistema bancário de 244 mil milhões de euros.

2. Quatro surtos pontuais de volatilidade

Os sustos nos mercados financeiros não tiveram a dimensão do que aconteceu em outubro de 2008 ou episodicamente em 2010 e 2011. Estiveram longe desses níveis, de pânico financeiro extremo em outubro de 2008, ou de pânico elevado em maio de 2010 e setembro de 2011. Mas revelaram um 2014 com algum pânico financeiro pontual.

A volatilidade medida pelos índices VIX revela em 2014 quatro surtos pontuais de subida. O máximo foi atingido em outubro, depois do “choque” provocado pelas previsões do FMI apontando para risco de estagdeflação (estagnação com deflação) na zona euro, continuação de problemas no Japão e em algumas economias emergentes e inevitável “aterragem suave” do crescimento chinês.

Tomando em consideração a evolução do VIX relacionado com o índice bolsista Eurostoxx 50 (das 50 principais cotadas da zona euro), a volatilidade terminou 2013 registando 18 euros e fechou 2014 em 26,19 euros. Uma variação de 52%.

Ao longo do ano a volatilidade do Eurostoxx 50 teve quatro surtos pontuais.

A 2 de fevereiro, com os efeitos nas economias emergentes do “choque” do processo de diminuição do montante mensal de estímulos monetários por parte da Reserva Federal norte-americana (processo que foi designado de tapering). O VIX atingiu então um máximo de 24 euros. A 13 de março novo surto até aos 24 euros, com o impacto da crise da Crimeia.

Subidas mais significativas viriam a ocorrer em outubro e em dezembro. O máximo do ano em 36 euros registou-se a 15 de outubro, no auge do “choque” provocado pelas previsões de outono do FMI. Novo surto em dezembro com o VIX a atingir 32 euros a 16 desse mês, no auge da crise cambial do rublo. Mesmo esses picos não chegaram ao máximo de 38 em maio de 2012.

Em outubro de 2008 o VIX do Eurostoxx 50 chegou a atingir valores acima de 80 euros e em maio de 2010 e setembro de 2011 valores acima de 50 euros.

Ao longo de 2014, a evolução dos índices VIX ligados ao S&P 500 de Wall Street e ao Nikkei japonês foi similar à europeia.

3. Europa do Atlântico aos Urais campeã na derrocada bolsista

As bolsas mundiais conseguiram fechar o ano de 2014 em terreno positivo, com um crescimento da capitalização de 2,1%, segundo o índice MSCI WI.

Mas a situação, em termos geográficos, foi desigual, com o índice “regional” para a Europa a revelar-se o mais negativo. O índice MSCI Europa caiu 9,6%, de longe a queda “regional” mais brutal se comparada com a quebra de 1,6% do índice MSCI para o conjunto da Ásia.

Na Europa, os piores índices incluíram o RTSI da Bolsa de Moscovo (uma quebra colossal de 45,19% revelando a dimensão da crise russa), o ASE da Bolsa de Atenas (uma queda de 29,5%, refletindo em grande medida a crise política interna, apesar da economia grega ir fechar com um défice orçamental de 1,4% do PIB e um excedente orçamental primário), o PSI 20 da Bolsa de Lisboa (queda de cerca de 27%, devido à derrocada do BES e seus efeitos colaterais), o CSE da bolsa de Chipre (quebra de 17%) e o ATX da Bolsa de Viena de Áustria (mais de 15%, uma bolsa muito sensível ao que se passa na Rússia). Estas cinco quedas bolsistas foram as maiores à escala mundial.

Em termos regionais, a melhor performance registou-se no índice MSCI para as Américas, com os índices de Wall Street, os mais importantes à escala mundial, a subirem 11,39% para o S&P 500 e 7,52% para o Dow Jones. Estes dois índices do New York Stock Exchange na baixa de Manhattan registaram máximos históricos em dezembro. O índice S&P 500 subiu mais de 200% desde o pico da anterior bolha financeira a 9 de outubro de 2007.

As cinco subidas mais elevadas em termos de capitalização bolsista registaram-se na América do Sul e na Ásia para os índices MERVAL da Bolsa de Buenos Aires (que valorizou 59%), CSI 300 da Bolsa de Xangai (52%), IBC da Bolsa de Caracas (41%), EGX 30 da Bolsa egípcia (cerca de 33%) e NIFTY da Bolsa de Mumbai (cerca de 31%). O caso da bolsa indiana é o mais marcante desde 2000 entre os oito principais índices bolsistas mundiais, com uma subida da valorização do índice BSE Sensex superior a 400%, segundo o estudo de Dough Short. Nesse horizonte, a segunda maior valorização registou-se para o índice compósito de Xangai (cerca de 125%) e a terceira para o S&P 500 de Wall Street (43,5%).

4. Derrocada do preço do petróleo no segundo semestre

O preço do barril de crude de Brent, a variedade negociada em Londres e que serve atualmente de referência internacional, fechou o ano em 57,57 dólares, uma descida de 46% em relação ao fecho de 2013. Segundo a Schroders é a segunda maior derrocada anual desde 1900. A maior ocorreu em 2008. Duas outras derrocadas importantes, mas inferiores à de 2014, registaram-se em 1986 e 1914.

A evolução do preço do petróleo Brent desenhou em 2014 uma Torre Eiffel, tal como já o fizera em 2008. Fechou o ano de 2013 cotando-se em 106,89 dólares para subir até 115,71 dólares em junho, e depois descer 51%.

As quedas referidas são em dólares. Se forem avaliadas no contravalor em euros, o preço do Brent desceu de 80,63 euros no final de 2013 para 47,57 euros no final de 2014, uma redução de 41%. A queda desde o pico de 114,71 euros em junho foi ainda mais brutal do que em dólares, 59%. É preciso ter em conta que o dólar valorizou 12% face ao euro. O euro caiu 5% em 2014 face a um cabaz de divisas de 20 principais parceiros.

A principal razão desta queda do preço do barril desde junho advém principalmente do excesso da oferta do ouro negro nos mercados e, em segundo plano, do recuo da procura. Olivier Blanchard, o economista-chefe do FMI, estima que o excesso de oferta influencie o declínio do preço em 60%, enquanto a procura terá pesado entre 20 a 35%.

O excesso de oferta mantém-se, sobretudo, em virtude do disparo da produção norte-americana que terá atingido, em 2014, uma média anual de 8,6 milhões de barris diários (alimentada pela chamada revolução do petróleo de xisto betuminoso) e da recusa do cartel da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), liderado pela Arábia Saudita, em cortar na sua quota de produção de 30 mil milhões de barris diários (que, aliás, continua acima 250 mil barris por dia) até 5 de junho de 2015. A Rússia atingiu em 2014 uma produção média anual de 10,58 milhões de barris diários.

A guerra de preços mantida pela OPEP visa pressionar a redução do investimento na produção petrolífera que exija preços médios do barril mais elevados e, a médio prazo, eliminar a produção excedentária “ineficiente”, e fazer regressar os preços a uma curva ascendente.

Os efeitos desta descida do preço do crude são assimétricos, como sublinha Blanchard num estudo recente publicado em coautoria com Rabah Arezki e que será desenvolvido no “World Economic Outlook” do FMI a publicar este mês. Em termos gerais, ganham os importadores líquidos do ouro negro e os sectores económicos mais intensivos em energia. Perdem os exportadores líquidos de petróleo e os sectores económicos mais prejudicados pela desinflação e deflação (que, por via importada, a queda do preço do petróleo está a provocar, sobretudo na zona euro). Mas, mesmo dentro de cada bloco, há diferenças importantes. Os exportadores mais afetados encontram-se entre os mais dependentes do ouro negro em termos de receitas de exportação para o equilíbrio da balança externa e de receitas para o orçamento de Estado e com menos almofadas financeiras.

5. A mudança de caras no “clube” dos mais frágeis

O ano de 2013 terminou com os analistas a falarem de cinco “mais frágeis” incluindo África do Sul, Argentina, Brasil, Indonésia e Turquia, com moedas a afundarem e bolsas a caírem.

No final de 2014, as caras mudaram, com exceção da Argentina (que sofreu dois eventos de crédito em virtude da disputa em Nova Iorque com os fundos abutre). Selecionámos quatro caras marcantes: Argentina, Grécia, Rússia e Venezuela.

O campeão da desvalorização no mercado oficial foi o rublo russo (56% face ao euro e 72% face ao dólar). No mercado paralelo, o bolívar venezuelano afundou 170% face ao dólar. O índice RTSI da Bolsa russa caiu 45% e o índice ASE de Atenas quebrou quase 30%, sendo as maiores quedas à escala mundial. O clube dos países com um risco mais elevado de incumprimento abrangeu a Venezuela (fechou com o custo dos credit default swaps – acrónimo CDS – segurando contra o risco de bancarrota em 3155 pontos base), Argentina (2974), Ucrânia (2001) e Grécia (1281,12). O custo dos CDS na Rússia subiu para 463 pontos base, mas está ainda distante do clube.

São quatro países que vão continuar sob os holofotes. A Argentina poderá finalmente dar passos para resolver o contencioso com os fundos abutre depois de ter expirado no final do ano a chamada cláusula RUFO. A derrocada contínua do preço do petróleo afeta particularmente a Rússia e Venezuela. A Grécia encontra-se mergulhada numa crise política cujo desfecho será conhecido no primeiro trimestre de 2015.

6. O regresso da Grécia ao risco de bancarrota

Com uma dívida pública que representa 175,5% do PIB, a mais elevada da zona euro e das mais elevadas do mundo, e com um 6º exame do andamento do segundo programa de resgate por concluir desde agosto, a Grécia esteve no centro das atenções na zona euro na ponta final de 2014.

Os juros da dívida grega a 10 anos fecharam 2013 em 8,57% e um ano depois subiram para 9,6%, ao contrário do que se sucedeu no resto dos periféricos, onde se registou uma descida para mínimos históricos. Depois de uma trajetória em que os juros chegaram a descer para 5,48% em agosto no mercado secundário, a situação alterou-se radicalmente.

O custo de segurar a dívida grega subiu de 675,05 pontos base para 1281,12 pontos em 12 meses. A rentabilidade anual da dívida obrigacionista grega caiu a pique de 47,72% no final de 2013 para 0,14% no final de 2014. A probabilidade de entrada em bancarrota disparou de 34% no final de 2013 para 67,5%.

A partir de meados de outubro ficou claro que o FMI e as entidades europeias voltavam costas à hipótese de uma “saída limpa” da Grécia – à semelhança do que ocorrera com a Irlanda e Portugal – do segundo resgate no final do ano, no que respeita à intervenção europeia (a do FMI só termina em 2016). O objetivo de marketing político do governo de Atenas ficava esvaziado. Em dezembro, o Eurogrupo estende até final de fevereiro de 2015 o programa de resgate e a conclusão do exame pela troika. O governo conservador-socialista chefiado por Antonis Samaras opta pela jogada política de antecipação das eleições presidenciais de fevereiro de 2015 para dezembro de 2014, jogada que perdeu nas três voltas de votações no Parlamento grego, que acaba por ser dissolvido. Foram convocadas eleições legislativas antecipadas para 25 de janeiro.

ARTIGO RELACIONADO

Dívida portuguesa foi a mais rentável em 2014

As Obrigações do Tesouro português a 10 anos registaram no mercado secundário a maior descida entre os periféricos do euro. “Emagreceram” mais de três pontos percentuais fixando um mínimo histórico de 2,69%. Mas o rating de crédito continua em “lixo financeiro” e o nível de dívida acima de 130% do PIB.
A dívida obrigacionista portuguesa – em todos os prazos – registou uma rentabilidade nas últimas 52 semanas de 22,07%, a mais alta em toda a zona euro, segundo o índice da Bloomberg para a dívida soberana (Bloomberg Global Benchmark Sovereign Bond Index). No final de 2013, o retorno foi de 9,62%, um dos mais baixos na zona euro.

O líder do clube era, então, a dívida obrigacionista grega com uma rentabilidade anual em 2013 de 47,72%, que foi destronado em 2014, escapando por pouco a um retorno negativo, fechando em 0,14%.
A rentabilidade média nas últimas 52 semanas de toda a dívida obrigacionista da zona euro foi de 13,27%, quase cinco vezes a registada no final de 2013, o que significa que 2014 foi um bom ano para os investidores nas dívidas dos membros da zona euro, com uma exceção. A da Grécia a partir de outubro, quando se tornou claro que o Fundo Monetário Internacional e o Eurogrupo vetavam uma “saída limpa” do segundo programa de resgate no final do ano, que era a meta política central do governo em Atenas.

Acima da rentabilidade anual média da dívida global da zona euro ficaram os retornos para a dívida portuguesa (22,07%), espanhola (16,66%), eslovena (16,63%), italiana (15,48%) e irlandesa (13,9%).

# Bom ano para o investimento em dívida soberana europeia

No G5 de economias desenvolvidas (Canadá, EUA, Japão, Reino Unido e Zona Euro), a rentabilidade do conjunto da dívida soberana da zona euro nas últimas 52 semanas foi a segunda mais elevada (13,27%), depois da britânica (14,67%), a alguma distância da canadiana (7,53%), da norte-americana (6,19%) e da japonesa (4,34%).

O investimento em dívida soberana viveu um bom ano. “Muita da liquidez [injetada pelos principais bancos centrais] encontrou provavelmente o seu caminho no mercado global das obrigações soberanas”, referiu a Schroders londrina numa nota para investidores distribuída a 23 de dezembro.
No conjunto, a Reserva Federal, o Banco do Japão e o Banco Popular da China injetaram 1,3 biliões de dólares através do aumento do seu balanço em 2014. O Banco Central Europeu (BCE), pelo contrário, emagreceu o seu balanço, caindo de mais de 2,2 biliões de euros no início do ano para 2,04 biliões no final de dezembro.

# Rating português mantem-se em “lixo financeiro”

A par da liderança portuguesa na rentabilidade, as yields das Obrigações do Tesouro português no prazo de referência, a 10 anos, foram as que mais desceram no mercado secundário da dívida em toda a zona euro. “Emagreceram” mais de três pontos percentuais, descendo de 6,04%, no final de 2013, para um mínimo histórico de 2,69%, um nível jamais registado desde 1820.

Em segundo lugar nas descidas, situaram-se as yields das obrigações espanholas naquela maturidade de referência que “emagreceram” 2,5 pontos percentuais.

Apesar da descida das yields da dívida soberana portuguesa no mercado secundário para mínimos históricos, da realização de quatro leilões de dívida a 5 e a 10 anos, colocando mais de 3,9 mil milhões de euros, com taxas de remuneração média ponderada progressivamente mais baixas e de uma “saída limpa” do programa de resgate, as três principais agências internacionais de notação não deram o passo de retirar a dívida portuguesa do rating especulativo (vulgo “lixo financeiro”).
O limiar para o investimento ser considerado não especulativo é de BBB- ou Baa3. As notações sobre a dívida portuguesa são de BB segundo a Standard & Poor’s (S&P), BB+ segundo a Fitch e Ba1 segundo a Moody’s. A dívida portuguesa foi desgraduada para o nível especulativo em 5 de julho de 2011 pela Moody’s, em 24 de novembro do mesmo ano pela Fitch e em 13 de janeiro de 2012 pela S&P.

Os estudos empíricos mostram que, quando um país é desgraduado para terreno de dívida especulativa, a saída dessa situação pode estender-se por um período longo. Ou seja, o ciclo de notação é profundamente assimétrico, com cortes de rating muito mais rápidos e de maior amplitude, do que o que ocorre nas subidas.

O IGCP, na qualidade de entidade responsável pela emissão e gestão da dívida pública portuguesa, liderado primeiro por João Moreira Rato e depois por Cristina Casalinho, recebeu o prémio de emitente soberano do ano atribuído pela revista “International Financing Review”.

O movimento de descida para mínimos históricos nas yields da dívida soberana foi global na zona euro, com exceção da Grécia que, devido ao evoluir da crise política grega desde outubro, fechou 2014 com yields mais elevadas do que no final de 2013, muito acima do limiar crítico de 7% na dívida a 10 anos.

# Mínimos abaixo de 1% e juros negativos na zona euro

Em virtude do impacto junto dos investidores financeiros da estratégia de comunicação do BCE (acenando com a tomada de mais e mais medidas de estímulos monetários que se revelarem necessárias para combater a desinflação e o risco de deflação na zona euro), um conjunto de periféricos fixou em 2014 mínimos históricos nas yields entre 1 e 2% para as obrigações a 10 anos, como foram os casos da Espanha, Irlanda, Itália e Letónia.

Por outro lado, entre as economias do centro da zona euro, seis países fixaram mínimos históricos abaixo de 1% no prazo a 10 anos: Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia, França e Holanda. No caso das Bunds, as obrigações alemãs, no prazo de referência, as yields desceram de quase 2% no final de 2013 para 0,54% a 31 de dezembro de 2014. A dívida obrigacionista alemã, que registara uma rentabilidade anual negativa em 2013, fechou o ano de 2014 com um retorno de 10,3%.

As economias do centro conseguiram inclusive financiar a dívida de curto e médio prazo pagando yields negativas aos investidores que pretendem ter essas obrigações em carteira. Ou seja, na realidade, os investidores pagam para ter esses valores que consideram tradicionalmente refúgio ou ativos seguros. Nos casos da Alemanha e Áustria na dívida a 12 meses e a dois, três e quatro anos. Nos casos da Bélgica e da França, nos prazos a 12 meses e a dois e três anos. No caso da Finlândia a dois e a três anos e no caso da Holanda a dois anos.

O prémio de risco da dívida portuguesa em relação à dívida alemã desceu quase 2 pontos percentuais, de 410 pontos base no final de 2013 para 215 no final de 2014. O custo de segurar a dívida portuguesa contra o risco de bancarrota desceu de 351,70 pontos base no final de 2013 para 202,27 pontos base no final de 2014. No final de 2013, Portugal saiu do “clube da bancarrota” (dos 10 países com a probabilidade de incumprimento mais elevada), onde não voltou mais.

A dívida pública líquida (sem contar os depósitos das administrações centrais) na ótica de Maastricht subiu de 201,3 mil milhões de euros no final de 2013 para 207 mil milhões no final de novembro de 2014, o último dado disponível, segundo o Banco de Portugal.

Em termos de peso no PIB, a dívida pública bruta, na ótica de Maastricht, subiu de 126% no final de 2013 para 131,6% no final de setembro de 2014, o último rácio trimestral disponível. A manter-se um nível acima de 130% do PIB para o final de 2014 será um novo máximo histórico, depois de 126% em 2013 e de 124% no ano fiscal de 1892/93.

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