A 1ª Grande Guerra de Algoritmos — o mundo financeiro invísivel, em velocidade abaixo do segundo (uma conversa com o físico Neil Johnson)

Há uma “grande guerra”, diz-nos o cientista norte-americano Neil Johnson. Ela trava-se hoje nos mercados financeiros. Uma guerra invisível entre algoritmos que torna ainda maior o risco sistémico do capitalismo financeiro. O que se designa por “negociação de alta frequência” (high frequency trading, acrónimo HFT, em inglês), com ordens dadas automaticamente em milésimas do segundo, domina hoje mais de 50% da negociação, em valor, nos Estados Unidos e mais de 30% na Europa, segundo a consultora Tabb Group.

ENTREVISTA EM INGLÊS/Interview (English version)

A equipa norte-americana de Neil Johnson, do Departamento de Física da Universidade de Miami, em colaboração com outros cientistas do Centro de Sistemas Complexos da Universidade de Vermont e da empresa Nanex, descobriu como é que esses algoritmos funcionam, como provocam oscilações selvagens, para cima e para baixo, invisíveis nos ecrãs dos traders, que se vão acumulando como fissuras que acabam, num dado momento crítico, por provocar derrocadas colossais, ultra-rápidas, inesperadas, difíceis de prever e evitar pelos humanos. Em suma, estes algoritmos acabam por provocar “cisnes negros”, dizem os cientistas, cujo artigo científico que descreve o estudo foi precisamente intitulado “Financial black swans driven by ultrafast machine ecology“. E com tanto “cisne negro” no lago, esta multidão acaba por provocar convulsões sistémicas.

Sinais anteriores às derrocadas financeiras

Esta descoberta foi, de imediato, relatada pela revista New Scientist na quinta-feira. O grupo estudou nada menos do que 18.520 “cisnes negros” ocorridos entre 2006 e 2011 com uma duração menor a um segundo e meio (1500 milésimas de segundo). Isto significa que ocorreram, em média, quase 12 eventos extremos deste tipo por cada dia de negociação naqueles seis anos. O período, diz-nos Neil Johnson, “permitiu apanhar não só a geração do colapso financeiro global de 2008 como depois a derrocada relâmpago de 6 de maio de 2010″, um fenómeno absolutamente surpreendente, já durante a recuperação bolsista, a partir de março de 2009, do crash de 2008. O evento extremo de maio ficou conhecido pela designação em inglês de “flash-crash” (derrocada instantânea). O número de “cisnes negros” diários disparou uma semana antes da derrocada de 2008 e pouco antes do evento de maio de 2010, mostra o estudo desta equipa de físicos.

As primeiras amostras de surpresas desagradáveis de grande dimensão provenientes da atividade insana da HFT, bem visíveis nas bolsas norte-americanas, ocorreram, de facto, em 2010 no que ficou conhecido como “derrocadas instantâneas”, a primeira a 6 de maio (a mais conhecida) e depois outra a 1 de setembro. A de 6 de maio foi acompanhada em todo o mundo quase em direto durante os trinta minutos que decorreu. Entre as 14h30 e as 15h30 de Nova Iorque, o Dow Jones Industrial Average caiu 600 pontos, a mais colossal queda intradiária jamais registada, para de seguida recuperar meteoricamente. O mistério do evento levou os governos americano e britânico a estudar o assunto como questão de segurança e muitos cientistas, sobretudo os ligados à corrente da teoria da complexidade, a mergulharem nesta “prenda” dada pelos mercados financeiros.

Espírito microbial num mundo de piranhas

O que está por debaixo disto é o que Neil chama de uma nova “ecologia” de agentes, um mundo invisível para o comum dos mortais, fruto da desmaterialização brutal ocorrida no sistema financeiro desde a vaga de financeirização dos anos 1980 e 1990. As empresas que detêm estas ferramentas têm uma vantagem estratégica. E serão 400 num universo de 20.000 firmas que operam hoje nestes mercados, segundo um estudo do Aite Group.

Neil pega na célebre expressão de Keynes sobre a “alma animal” (animal spirits) dos investidores para falar, usando uma imagem, de algo bem mais complexo. Estes novos agentes estão impregnados de uma “alma microbial” – “são mais simples do que os humanos ou mesmo os animais, mas muito, muito mais rápidos”. “São mais parecidos com a vida inicial na Terra”, sublinha-nos. A grande questão é como este mundo digital – que vive numa dimensão de tempo abaixo do segundo – povoado por esta “vida inicial” vai evoluir.

Nem mesmo os grandes mestres de xadrez conseguem ter a rapidez suficiente “para detetar estas situações estratégicas”. “Abaixo de 650 milésimas de segundo, só mesmo máquinas”, diz-nos Neil Johnson, para depois brincar: “É como um lago cheio de piranhas de diferentes tipos com um nível de concorrência muito feroz”. Mas logo acrescenta que não está a fazer um juízo moral: “Não estou a dizer que isto é errado, mas pode ver que este nível de concorrência é feroz – e é isto que exatamente ocorre nos mercados”. Por debaixo dos nossos pés e afetando-nos, sem darmos conta – a não ser quando há as derrocadas bolsistas. Quando já é tarde.

Tropas no terreno

Por isso, a ambição destes cientistas é criar algumas ferramentas de previsão e que possam mitigar o risco. O que defrontamos é “um sistema de máquinas em que vemos o declínio da capacidade humana para influenciar os movimentos de preços em escalas de tempo cada vez mais pequenas”, diz o físico.

Já não se trata mais do sistema “misto” anterior homem-máquina. Para responder à dinâmica deste novo sistema automatizado, é preciso algo similar às ferramentas de que dispõem os engenheiros espaciais ou aeronáuticos: “olhar para o conjunto microscópico de pequenas fissuras e avaliar se a aeronave está em condições de segurança de continuar a voar”. Neil Johnson pensa que os reguladores têm de colocar “tropas no terreno” com essa capacidade. No artigo científico propõem-se três estratégias algorítmicas para tal.

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