A arma secreta da eficiência energética

Se o ritmo de crescimento do consumo de petróleo ocorrido na primeira década do pós-2ª Guerra Mundial (1950-1960) se tivesse mantido, o que hoje usamos em 22 dias seria devorado num só dia!

Um verdadeiro apocalipse geoeconómico: as reservas provadas do Golfo Pérsico seriam engolidas em menos de um ano! Se o abrandamento do crescimento não tivesse ocorrido poderíamos imaginar a guerra devastadora pela captação deste recurso estratégico.

O ‘milagre’ de isto não ter acontecido, diz o cientista David LePoire, da Divisão de Environmental Assessment do Argonne National Laboratory norte-americano, deveu-se à eficiência energética, a verdadeira arma secreta que a economia usou para amaciar o vício pelo crude.

O ritmo do crescimento do consumo de barris diários de petróleo diminui de 150% entre 1950 e 1960 para 50% entre 1971 e 2000. Entre 2000 e 2008 o crescimento foi, apenas, de 16%. Segundo os cenários recentes do ‘International Energy Outlook’ da agência americana de Informação sobre Energia (EIA), o aumento dos combustíveis líquidos situar-se-á nos 15% entre 2005 e 2015 e nos 9% entre 2015 e 2030. A excepção nesta desaceleração são os transportes que a agência americana prevê que aumentem o seu consumo de combustíveis líquidos em 50% entre 2005 e 2030.

– Consultar o International Energy Outlook 2008

Mais do que a opção pelo gás natural ou o aumento da produção de energia nuclear – as duas fontes de energia que nos anos 1970 se esperava que rapidamente começassem a «substituir» o crude no final do século XX – foi a eficiência energética dos consumidores finais – da indústria, dos serviços e dos cidadãos – que provocou a revolução.

David LePoire construi um modelo de representação das diversas curvas de fontes de energia (madeira, carvão, petróleo, gás natural e nuclear) desde 1850 em que é visível, a partir de 1990, esse novo «passageiro» não previsto pelos futuristas dos anos 1970 e 1980. Sem dúvida que “os choques petrolíferos de 1973 e 1979 contribuíram para esta reviravolta”, diz-nos LePoire, e é expectável que agora continue o mesmo incentivo face ao terceiro choque em curso. Outro elemento de «convencimento» foi a legislação ambientalista.

– Artigo de David Le Poire sobre as curvas de energia: “A ‘Perfect Storm’ of Social and Technological Transitions?

As duas regiões que mais contribuíram para esta alteração de fundo foram a Europa e os países da OCDE da Ásia (com o Japão à cabeça).

A modernização tecnológica dos equipamentos de produção (por muitos apelidada de ‘terceira revolução industrial’), dos instrumentos de trabalho nos escritórios, e dos electrodomésticos, bem como gestos triviais como substituir as lâmpadas tradicionais, não deixar os computadores ou televisores em «stand by» ou conduzir a velocidades médias inferiores a 100 km por hora são os protagonistas desta história económica. Tudo isto apesar da emergência dos dois novos gigantes da Ásia desde 1990 (China e Índia).

As ovelhas negras

Apesar de muito se falar do duo asiático – a «Chindia» – como o mau da fita no aumento do consumo energético, as ovelhas negras da ineficiência na intensidade de uso de energia primária são os reis actuais da produção de «commodities» energéticas (petróleo e gás): a Rússia e os países da Comunidade de Estados Independentes a ela associados e o Médio Oriente .

– ver gráfico (quanto maior a intensidade energética menor a eficiência; a Europa é a região de menor intensidade energética, igual à unidade neste gráfico; Nota: neste gráfico, a intensidade energética primária é calculada com base em paridades de poder de compra e não em taxas de câmbio, que costumam dar uma visão distorcida, mais negativa, da China e da Índia).

No entanto, o aumento de eficiência energética mundial abrandou ligeiramente depois de 2000. Entre 1990 e 2000 havia registado uma taxa anual de crescimento de 1,8%, passando nos últimos oito anos a 1,4%, segundo o último relatório do World Energy Council (‘Energy Efficiency Policies around the World: Review and Evaluation’). O corte teve a ver com a China, que abrandou para 1% ao ano.

– Consultar Relatório do World Energy Council, de Janeiro de 2008.

Nota final: David LePoire investiga, actualmente, o que poderá manter o papel da eficiência energética. Uma das propostas em cima da mesa é um programa intensivo de aplicação das nano tecnologias à área da energia, como foi sugerido por Richard Smalley, Prémio Nobel de Química de 1996

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