“A batata quente vai passar para os privados” (Paul De Grauwe)

A atenção tem estado focalizada na dívida soberana, no endividamento externo dos estados. Mas o problema não é assim tão estreito.

“As causas do disparo recente da dívida pública foram as dívidas insustentáveis acumuladas pelos privados antes de o eclodir da crise. Isso continuará a perseguir os governos. E quando os mercados financeiros forçarem os governos a reduzir as suas dívidas públicas, a batata quente da dívida regressará aos pratos do sector privado”, afirma-nos o economista belga Paul De Grauwe, de 63 anos, professor na Universidade Católica de Lovaina e membro do grupo que assessora o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, em assuntos económicos.

De Grauwe tinha chamado à atenção em Maio para este equívoco de política num artigo com um título provocatório – “Combatendo o inimigo errado” – no blogue VOXeu.org onde colabora, uma espécie de think tank digital de proeminentes economistas europeus que fazem opinião em Bruxelas, o centro político da União Europeia.

Em um dos gráficos que publicava, e que actualizou entretanto (disponível na edição impressa do Expresso de 12 de Junho, caderno de Economia), mostrava uma evidência: a partir de 2004, o peso das responsabilidades do sector bancário da zona euro “saltou” do equivalente a 200% do Produto Interno Bruto (PIB) da região para 250% em 2008, convergindo com o nível também muito elevado de dívida das empresas.

O endividamento das empresas começou, no entanto, a declinar em 2007, mas o do sector financeiro só se deu depois do pânico financeiro do final de 2008.

O culpado “libertino”

O endividamento dos governos sobe justamente a partir de 2008, quase mimeticamente com a descida do sector financeiro.

O panorama para 2010 continua a provocar o nervosismo dos grandes investidores no mercado dos derivados da dívida. A dívida pública em relação ao PIB poderá subir, este ano, seis pontos percentuais, na média da zona euro, passando de 78,7% em 2009 para 84,7%, segundo o Der Spiegel. Segundo o mesmo jornal alemão, os cinco piores da zona euro serão, ainda em 2010, e apesar dos planos de austeridade, a Grécia (124,9%), a Itália (118,2%), a Bélgica (99%), Portugal (85,8%) e França (83,6%), que continuarão muito acima do “limite” de 60% imposto pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento.

Os investigadores Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff mostraram recentemente que um nível de dívida pública acima de 90% do PIB acarreta um impacto negativo duradouro sobre o crescimento económico. “Eu não acredito que haja números mágicos. Trata-se de uma média obtida pelos dois investigadores. Mas é claro que o crescimento da dívida pública para níveis como os da zona euro, do Reino Unido e dos EUA é insustentável”, comenta De Grauwe.

Mas este aspecto não deve “ofuscar” o essencial – o endividamento do sector financeiro da zona euro em 2009 era quase o triplo do público no peso no PIB. O economista belga era mesmo muito duro naquele artigo que publicou em Maio: “O culpado é o libertino sector bancário privado que colocou tensão em finanças públicas que eram controláveis”.

De Grauwe diz-nos que “os pacotes de austeridade são suficientes de momento”. Mas deixa um aviso sobre a volatilidade na percepção dos grandes investidores dos mercados financeiros: “Se esses mercados, por qualquer razão estúpida, pensarem de outro modo, [os pacotes] não serão suficientes”.

As reviravoltas são frequentes: “Há umas semanas atrás os mercados financeiros e as agências de rating pressionaram os governos e o euro porque não havia suficiente austeridade. Agora, os mesmos dizem que essa austeridade vai reduzir o crescimento e, então, começaram, de novo, a pressionar no mercado das obrigações e do euro”, conclui Paul De Grauwe.

Entretanto, a cimeira dos 27 membros da União Europeia decidiu ontem (17 de Junho) aprovar a reclamação espanhola para uma revoada de testes de stresse em todo o sistema financeiro europeu. O governo espanhol, face aos rumores galopantes sobre a situação do seu sistema bancário, tomou a decisão unilateral de publicar os resultados dos testes no caso do tecido financeiro do seu país. Em Julho, os 25 principais bancos europeus terão de divulgar testes de stresse. A iniciativa será estendida aos bancos europeus de menor dimensão.

PERFIL
Paul De Grauwe, belga, de 63 anos, nascido na região flamenga, professor de Economia Internacional na Faculdade de Económicas e Economia Aplicada da Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, e um dos economistas mais activos no blogue de assuntos europeus Voxeu.org e do Centro para os Estudos Económicos daquela universidade. É colunista regular do Financial Times. É doutorado em Economia Política pela universidade americana de John Hopkins em Baltimore. Foi senador e parlamentar belga entre 1991 e 2003. É director do CESifo (o conhecido Instituto de Investigação económica, alemão) em Munique. É membro do grupo de assessoria do presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, na área da economia.

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