A coligação de “conspiradores” que gerou esta Grande Recessão

Uma conversa com Ross Levine, professor da Universidade de Brown.©JNR, 2010

Há ainda a ideia generalizada de que esta Grande Recessão emergiu por “acidente”.

Teria brotado de uns “episódios” ou “incidentes” provocados por um veículo financeiro desconhecido do comum dos mortais que dava pelo estranho nome de subprime entre os íntimos.

Essa inovação financeira estava ligada à bolha especulativa do imobiliário e foi um dos truques de alavancagem financeira mais bem sucedidos dos últimos tempos – enquanto a música tocou e os financeiros conseguiram dançar, como confessava Chuck Prince, o CEO do Citicorp, numa conferência telefónica em Agosto de 2007 com Timothy Geithner (hoje secretário do Tesouro na Administração Obama), então presidente do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque, e Donald Kohn, vice-presidente da Reserva Federal (FED).

Como o problema tinha a ver com uns “incidentes” localizados “cuja cauda de distribuição do risco tinha sido subestimada”, na altura, como agora refere Alan Greenspan, o presidente da Reserva Federal americana (FED) entre 1987 e 2006, os dois bodes expiatórios seriam hoje fáceis de identificar: os novos veículos financeiros e os especuladores peritos em alavancagem.

O resto do sistema teria sido apanhado de surpresa pelo fósforo desta crise financeira – os banqueiros centrais, os reguladores, as agências de notação (rating) e os governantes.

Visão cor-de-rosa

No máximo estes actores teriam estado desatentos, teriam sido em alguns casos ingénuos, eventualmente padeciam de problemas teóricos (ou ideológicos) que os levavam a subestimar os sinais do terreno. E pobres “vítimas” de mais uma bolha que resolveu estoirar sem pedir licença, todos tiveram de responder a algo de que seriam alheios. Os governantes e as autoridades monetárias intervieram para evitar o risco sistémico e as agências de rating rapidamente corrigiram 93% das notações.

Mas esta visão cor-de-rosa tem a firme discordância de Ross Levine, do departamento de Economia da Universidade de Brown, em Providence, e director do Centro Internacional de Economia e Finanças daquela universidade norte-americana.

Num artigo publicado recentemente pelo National Bureau of Economic Analysis norte-americano, o economista faz, a posteriori, uma “autópsia do sistema financeiro dos Estados Unidos”, em que nos revela três traves mestras desse tecido ao longo de várias décadas: a) “uma ideologia” (menos regulamentação é sempre melhor do que mais); b) “uma lógica de incentivos” por que todas as componentes alinharam; e c) “uma coligação de interesses”.

Ora, diz-nos Levine em entrevista, esses que se dizem, agora, surpreendidos, são, também “culpados”. O professor de Brown identifica todo um ecossistema em que as “políticas” foram determinantes “em incentivar o desenvolvimento de actividades que geraram fabulosos lucros de curto prazo e que dramaticamente aumentaram a fragilidade do sistema a longo prazo”.

Os actores do processo

Levine estudou cinco linhas de políticas e medidas, no caso americano, que foram surgindo desde 1975:
a) as políticas da Securities and Exchange Commission (SEC) em relação às agências de rating, levando-as a ganhar um papel central, quando no final dos anos 1970 estavam praticamente moribundas; b) as políticas da FED permitindo aos bancos reduzir os seus “colchões” financeiros (reservas) através do uso dos credit default swaps (seguros contra risco de incumprimento, agora tão famosos com a crise da dívida soberana);
c) as políticas, quer da SEC como da FED, em relação aos “derivados” over-the-counter (OTC);
d) as políticas da SEC em relação à supervisão consolidada dos grandes bancos de investimento; e, finalmente,
e) as políticas governamentais em relação a duas entidades financiadoras de hipotecas imobiliárias, a Fannie Mae e a Freddie Mac, que, no caso americano, são entidades “patrocinadas pelo governo”.

Foram opções políticas tomadas, particularmente assumidas a partir de 1996: “todo o sistema de regulação financeira desempenhou um papel chave nesta crise”, sublinha-nos Levine. A que se juntou uma prática de “governança corporativa” (corporate governance, no original anglo-saxónico) nas instituições financeiras que “quebrou persistentemente o sistema de regulação” e que tripudiou os próprios interesses dos accionistas dessas entidades.

Expondo este ecossistema, Ross Levine é mesmo muito cru na conclusão que tira: “Os decisores políticos e os reguladores, de braço dado com os co-conspiradores do sector privado, ajudaram a criar esta crise”.
Jorge Nascimento Rodrigues

ENTREVISTA RÁPIDA

P: A principal razão para as grandes crises é, ao fim e ao cabo, política? Então, não advém da ganância financista dos investidores e dos “acidentes” que provoca?
R: Não digo que as crises nunca reflictam acidentes. O que faço nesta minha análise é mostrar muitos exemplos em que os decisores políticos criaram e mantiveram más políticas que contribuíram para o eclodir da crise.

P: No fundo, a responsabilidade é de um vasto ecossistema que se formou?
R: Há vários factores e actores, como eu aponto. Nos últimos dez a quinze anos nas grandes economias, a lógica dos incentivos ao longo de todas estas componentes do sistema financeiro foi profundamente distorcida, com os resultados dramáticos que se conhecem.

P: Porque é que as agências de rating continuam a ter tanto poder mesmo depois do fiasco de 93% das suas notações se terem revelado uma fraude com a eclosão desta Grande Recessão?
R: Como sublinho no meu estudo, as autoridades de regulação tornaram essas agências elementos centrais. Depois as instituições privadas secundaram. A meu ver, as entidades reguladoras protegeram a posição monopolística sobretudo de duas das agências-chave de notação. E protegeram-nas de serem responsabilizadas legalmente pelas suas notações.

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