2010:o ano da encruzilhada chinesa

A mudança do modelo económico da China, que tem estado assente na exportação para os mercados de consumo do Ocidente (hoje em depressão) e na especulação financeira e imobiliária desenfreada, continua a estar mergulhada na incerteza.

As orientações para 2010, o último ano do actual plano quinquenal, expressas pela nomenklatura chinesa na sua mais alta reunião anual de reflexão económica, que decorreu em Dezembro, continuam a ser ambíguas, a dar uma no cravo e outra na ferradura, a tentar manter o social-financismo dominante a par de um olhar (tornado urgente) para a desagregação da economia e sociedade rurais da China e para “a previsível tensão inflacionista no próximo ano” (no dizer do comunicado final).

Na linguagem típica da comunicação política chinesa, a conferência sublinhou que o governo desenvolverá esforços para reforçar as políticas rurais e aumentar a sociedade de consumo chinesa, o que era reclamado por uma das facções do poder, no sentido de “transformar o padrão económico de desenvolvimento”. Pretende, também, controlar o crédito industrial para os sectores intensivos em consumo de energia, poluidores e com capacidade excessiva de produção. Mas continuará a promover a retoma das suas exportações, nomeadamente procurando novos mercados de destino e a continuação do encaixe de liquidez no comércio internacional.

O que se passar na China será decisivo

Os bancos centrais e os ministérios de finanças do mundo inteiro continuam a digerir a linguagem semi-opaca que saiu desta conferência anual sobre estratégia económica, que tem o nome pomposo de Conferência de Trabalho Central sobre Economia. Criada há mais de dez anos, reúne os responsáveis por políticas governamentais a nível central e provincial, ou seja a elite tecnocrática de toda a China. Esta reunião magna deveria ter ocorrido em finais de Novembro mas acabou por ser adiada para o fim-de-semana passada e para o princípio desta semana.

A atenção a estes eventos em Beijing sobrepõem-se a tudo o resto, explica-nos Hung Ho-fung, um sociólogo chinês de Hong Kong a dar aulas na Universidade de Indiana, numa entrevista (em inglês) que pode ler aqui.

Provavelmente são, hoje, mais decisivos do que o que se passa em Washington ou na Wall Street. “A China é agora a economia mais importante em todo este processo da crise; o que lá se passar será decisivo”, acrescenta o editor da obra colectiva China and the Transformation of Global Capitalism (The Johns Hopkins University Press, Agosto 2009).

Politicamente, é uma situação difícil para a liderança chinesa. “Uma encruzilhada, um dilema”, diz Hung. O modelo económico vigente e a intervenção keynesiana iniciada em 2008 (programados 4 biliões de yuan, trilhões na designação anglo-saxónica, cerca de 400 mil milhões de euros) face à crise mundial permitiram à China acelerar de um crescimento do PIB de 6,1% no primeiro trimestre de 2009 para 7,9% no segundo e 8,9% no terceiro. Até final de 2010, o governo chinês pretende aplicar os 1,2 biliões de yuans restantes do pacote sino-keynesiano, segundo a Reuters.

A liderança chinesa espera fechar 2009 com um crescimento anual de 8% do PIB – o objectivo estratégico de “segurar o oito” (baoba, dizem os chineses), depois de em 2008 ter crescido 9,6%. No final do terceiro trimestre, o crescimento anual acumulado era de 7,7%. Isso conseguiu-se, também, com uma injecção de crédito na economia real que, em finais de Novembro, já ia nos 9,2 biliões (trilhões, na designação anglo-saxónica) de yuans (29% do PIB chinês de 2008, no valor revisto recentemente para 31,4 biliões de yuans), cerca de 940 mil milhões de euros.

A previsão de crescimento para 2010 é de 9,4%, regressando ao patamar de 2008. “Mas muitos destes investimentos promovidos pelo pacote são ineficientes, geram sobrecapacidade e crédito mal parado, problemas futuros no orçamento central e local. Menos de 20% destes estímulos se destinaram à parte social”, sublinha-nos Hung, que prossegue: “Os ‘desvios’ para outros fins foram muitos – parte dos estímulos serviram para especular nas bolsas e no imobiliário, gerando bolhas nestes dois mercados”. Por isso, o professor admite: “Há risco de derrocada da bolha chinesa”.

Inclusive, através dos circuitos internacionais, tais fundos serviram para investir nas bolsas estrangeiras sobreaquecidas (como em Wall Street) ou para buscar dinheiro barato na América (como se sabe a Reserva Federal mantém taxas de juro de referência próximas de 0% em termos nominais) para aplicações especulativas.

A política na sombra

Hung Ho-fung refere, por isso, que há uma questão política na “sombra” de todas estas discussões económicas, por vezes opacas: a luta aguda dentro da classe dominante chinesa entre duas vias, uma profundamente ligada ao modelo export-especulador, que Hung associa a “uma elite urbana costeira que monopoliza o poder e o partido”, e um sector, por muitos apelidado de “populista”, que pretenderia um maior “equilíbrio” entre o mundo rural (ainda é 54% da população, ainda que tendo perdido 148 milhões de habitantes desde 2000) e o urbano (600 milhões e 118 megacidades) e que ganharia peso político com o alargamento das classe médias consumistas.

Muitos analistas sublinham que a flexibilidade do Partido Comunista Chinês seria uma espécie de seguro de vida da transformação “equilibrada” chinesa. Nicholas Bequelin, investigador do Human Rights Watch na Ásia, escreve mesmo, na Far Eastern Economic Review de Dezembro de 2009, que “é o partido que pode ser descrito como o primeiro partido comunista mais darwinista da história, uma organização que vê a constante adaptação darwiniana como a chave da sobrevivência política”. Mas, acha que este comportamento “flexível” (palavra que, aliás, surge no comunicado final da conferência) começa “a revelar os seus limites”.

One Response to �:o ano da encruzilhada chinesa”

  1. […] mostra-nos que pode ter um papel preponderante na correcção desta situação, pois sabemos que os índices de crescimento chineses assentam em pés de barro que poderão não suster a pressão a que estão sujeitos. Mas será que justifica o tipo de preço […]

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