A ‘Grande Muralha’ do crescimento – ou de como a China pode repetir a implosão da URSS

A escada para um lugar no clube dos grandes da geopolítica não é linear. Há uma ‘grande muralha’ entre os 10 000 e os 15 000 dólares de PIB per capita em paridade de poder de compra (entre 50 e 75% da riqueza média portuguesa) que para ser ultrapassada exige uma drástica melhoria da qualidade institucional (QI) da sociedade e da economia. A QI é baseada numa bateria de seis indicadores usados pela base de dados (Doing Business) do Banco Mundial. A sua importância central para o desenvolvimento económico só começou a ser reconhecida a partir dos estudos do Nobel da Economia Douglas North.

“Nenhum país entrou para o clube dos ricos com uma qualidade institucional baixa” – é essa a conclusão de uma investigação recente sobre a relação do QI com o crescimento do PIB per capita (dados de 2007) junto de 140 países dirigida por Antonio Fatás, um espanhol de 44 anos, professor de economia do INSEAD (Escola de Negócios localizada em Paris e Singapura).

Saltar para o lado de lá desta barreira é um problema qualitativo, não meramente quantitativo – «lei» de ferro que a União Soviética nos anos 1980 provou. O atraso na perestroika do sistema do então chamado «socialismo real» (um capitalismo de Estado com um problema grave de produtividade e de difusão da inovação) levou à implosão daquela superpotência que, em certos indicadores de poder relativo, tinha chegado a estar à frente dos Estados Unidos.

E, mesmo o facto de estar dentro daquela barreira, ou de tê-la ultrapassado não significa que não se possa retroceder – o caso clássico é o da Argentina que se distanciou dos países desenvolvidos num processo de divergência de onde não tem conseguido sair. Quando o processo de divergência se torna endémico, o retrocesso é inevitável, e o caminho inverso na ‘Grande Muralha’ acaba por ser feito.

No estudo que Fatás realizou (e que pode consultar aqui), os BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China), as quatro grandes potências fora do G7, têm níveis de QI ainda negativos, com a Rússia na pior situação, ainda que tenha um PIB per capita que a coloca dentro da ‘Grande Muralha’. O Brasil é o país que se aproxima da linha de água da QI e da ‘Grande Muralha’, com vantagem sobre a China e a Índia. Este último caso é sintomático: “Não se pode saltar a barreira apenas especializando-se num só sector, mesmo que seja de tecnologia avançada. É melhor do que não ter nada, mas não é suficiente”, sublinha Fatás.

O problema dos países na zona da ‘Grande Muralha’ é o das reformas estruturais institucionais – onde há uma geometria variável de problemas a resolver. Nuns casos poderá ser a educação o problema crítico, noutros a falta de transparência e a corrupção, noutros os mecanismos de mercado.

Apesar da China se ter projectado como parceiro no G2, “pode acabar por bater na muralha, da mesma forma que a URSS”, refere Antonio Fatás, no que é corroborado pelo consultor chinês, baseado em Shenzhen, Zhibin Gu: “A questão decisiva na China de hoje é passar para uma economia de mercado baseada num estado de direito, liberta dos constrangimentos de um poder burocrático ilimitado. Sem esta reforma fundamental, o desenvolvimento será minado por uma crise crónica herdeira do velho sistema político e económico” (cujo comentário mais desenvolvido pode ser lido aqui).

O jornal inglês The Guardian publica esta semana um interessante dossiê sobre a China que pode ser lido aqui e o Nobel Paul Krugman escreveu no seu blogue esta opinião que merece ser lida.

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