A invasão dos “cisnes cinzentos” na economia mundial

Eventos extremos têm vindo a abalar a economia mundial. Basta referir três mais mediáticos.

O primeiro leva três anos. Já custou, numa contabilização provisória, mais de 50 biliões (triliões na designação anglo-saxónica) de euros, mais de 120% do PIB mundial estimado para 2009. É esta  grande recessão que ninguém esperava ser possível neste “século americano” e que, como uma «matrioska», vai revelando novas bombas de destruição massiva (depois do “lixo tóxico” agora é a vez do risco de bancarrotas em série em diversos países desenvolvidos, com destaque para a própria zona euro).

O segundo tem umas semanas – uma nuvem de cinzas provocada por um vulcão islandês com um nome impronunciável (Eyjafjallajökull), que logo foi alcunhado de “disruptivo”, bloqueou a mobilidade aérea de e para o espaço europeu por vários dias.

O terceiro ainda anda nas notícias de abertura dos telejornais e era tido pela BP, a dona da plataforma de petróleo, como improvável, mas está a candidatar-se a ser no Golfo do México um desastre pior do que o provocado pelo “Exxon-Valdez” (em 1989, no Alaska), um dos maiores acidentes de derrame de petróleo.

Os analistas apressadamente os baptizam de “cisnes negros”, a partir do famoso título do livro do ensaísta e especialista financeiro Nassim Taleb, um libanês radicado nos Estados Unidos. A obra terá, aliás, uma segunda edição agora em Maio.

Do mito aos casos reais

“Cisnes negros” davam corpo a um mito usado como metáfora desde Aristóteles. Referia-se ao desconhecido efectivamente desconhecido. Era suposto só haver cisnes brancos nos lagos – até que os europeus descobriram os de cor negra (Cygnus atratus) no século XVII nos pântanos da remota Austrália ocidental.

Como exemplos de imprevisibilidade na geopolítica, Taleb cita o caso da guerra mundial – até surgir a primeira no começo do século XX, este tipo de confrontação global era encarado como altamente improvável, fora do âmbito das expectativas comuns e, por isso, quando ocorreu teve um enorme efeito de surpresa e um impacto extremo. Taleb dá ainda dois outros exemplos: a ascensão do ditador Adolfo Hitler, na Alemanha nos anos 1930, e o ataque terrorista do 11 de Setembro de 2001 em solo americano, na sequência da emergência do integrismo islâmico.

Talvez se possa juntar o caso da implosão da URSS ou o golpe de estado na China poucos meses depois da morte de Mao em 1976 que conduziria, depois, à emergência de Deng Xiaoping e do programa de reformas na China que mais impacto (surpreendentemente!) teve no mundo actual. Ou mais longinquamente, a decisão dos portugueses no século XV em projectar o seu poder através do “Mar incógnito”, o que surgiu como um “cisne negro” para as potências incumbentes no Mediterrâneo e no Índico.

Do negro ao cinza

Mas ainda que haja eventos extremos altamente improváveis, algo verdadeiramente desconhecido até ocorrer, muitos deles não são tão impensáveis assim se pararmos para os analisar, naturalmente depois de nos surpreenderem. É o que nos refere em entrevista (versão integral em inglês disponível aqui) Michael Mauboussin, chefe em estratégia de investimentos na Legg Mason Capital Management e autor de “Think Twice” (“pense duas vezes, antes de se precipitar, não se deixe dominar pelo stresse”, diz-nos com ironia), lançado em final de 2009 (Harvard Business School Press).

Mauboussin, que é também professor de finanças na Columbia Business School, recorda-nos que já Benoit Mandelbrot, o “pai” da ciência dos fractais, e o próprio Taleb, no livro referido, falavam de uma terceira variante – os “cisnes cinzentos”, uma nova metáfora.

Debaixo dos pés sem se sentir

O “cinzento” permite-nos encarar acontecimentos e tendências, que apesar do seu grau de surpresa e dos seus efeitos muito adversos, são “modeláveis” de alguma forma, são expectáveis, permitindo algum grau de actuação eficaz. O pai da gestão, Peter Drucker, falava das tendências e dos movimentos “tectónicos” na sociedade e na economia que estão debaixo dos nossos pés mas que a maioria não vê nem sente.

Michael Mauboussin insiste que os gestores e os empresários, tal como os políticos, podem armar-se de uma postura de pensamento e de uma metodologia que os ajude em duas coisas:

a) “farejar” a probabilidade de eventos extremos aparentemente impensáveis, e actuar por antecipação até certo ponto; ou

b) compreender o seu “comportamento” e saber “navegá-los” quando rebentam.

Há “cisnes cinzentos” cujo perfil está bem identificado, ainda que a maioria dos envolvidos nesses movimentos ache sempre que “desta vez é diferente”. Mauboussin fala das “bolhas” especulativas: “É uma área em que o passado pode ajudar-nos no futuro”.

CINCO “DICAS”

O principal pecado diz-nos o especialista financeiro é o excesso de confiança, sobretudo em períodos que caracteriza como “fases de transição”, ou seja aquelas “em que pequenas perturbações provocam grandes mudanças num sistema”. Como é a que vivemos, acrescenta. Ora há um conjunto de traços psicológicos que são altamente prejudiciais nestes períodos.

Por isso, ele dá cinco “dicas”:

1) evite extrapolar, quando está influenciado seja por uma atitude pessimista ou optimista; refreie a precipitação;

2) evite decisões sobre stresse, tome medidas para o reduzir e pense sempre duas vezes;

3) não fique prisioneiro do ponto de vista “interno” que lhe é mais familiar, não se vicie no que os especialistas chamam de “pensamento de grupo”, opte por olhar para fora, seja contra-intuitivo;

4) tem de aprender a lidar com a contingência; mentalize-se para “atravessar” a surpresa, que sempre surgirá, mas que como tudo “também acabará por passar”, se adoptar uma perspectiva temporal mais larga;

5) tenha em conta que nem todos os eventos extremos são “cisnes negros”; pode entender e lidar com os “cinzentos”.

2 Responses to “A invasão dos “cisnes cinzentos” na economia mundial”

  1. […] comuns de “cisnes” (metáforas para eventos extremos) do autor Nassim Taleb dir-se-ia que foi um “cisne cinzento” – surpreendeu, mas não era tão impensável assim. Este “cisne” já custou, numa […]

  2. […] nestes quadrantes da geografia pode provocar um impacto decisivo no curso da actual crise. “Cisnes cinzentos”, chamam-lhes os […]

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