A loucura das túlipas – o primeiro «crash» europeu

A tulipomania do século XVII em algumas cidades na Holanda ficou na história económica como a primeira grande manifestação da «exuberância irracional» dos especuladores. Uma exuberância tão inacreditável que levou o autor inglês Mike Dash a escrever a sua incrível história.

O irónico é que se transaccionaram, entre Dezembro de 1636 e Fevereiro de 1637, somas inacreditáveis, para a época, em troca de “um direito sobre um bolbo de uma flor num canteiro que nasceria dali a seis meses e que, ainda por cima, era bela porque carregava um vírus, o ‘mosaico’, que lhe diminuía a durabilidade”, espanta-se, ainda hoje, o historiador económico holandês Hendrikus Looijesteijn, actualmente no Instituto Universitário Europeu em Florença.

3 LIÇÕES

. A psicologia da exuberância irracional é uma doença congénita da ganância típica do capitalismo: «os envolvidos sempre acharão que estão a tomar decisões racionais e que, desta vez, as coisas serão diferentes do passado, que os mercados não estoirarão» (Mike Dash)

. A memória histórica das pessoas é limitada. Apenas a geração que viveu a derrocada e a seguinte provavelmente se lembrarão dos efeitos devastadores e assumirão uma postura de menor risco especulativo. «Foi o que aconteceu com os filhos da Grande Depressão» (Mike Dash). Mas já não com os netos e bisnetos.

. A febre das túlipas não é parecida às derrocadas em Bolsa posteriores ou dos sistemas financeiros formais (como o caso que esteve na origem da crise actual). Contudo, “houve alguma parecença com a febre das dot-com dos anos 1990. E o resultado, também, foi parecido: apesar do crash, o novo segmento (a economia da Internet) acabou por singrar” (Hendrikus Looijesteijn).

UMA CONVERSA COM MIKE DASH E HENDRIKUS LOOIJESTEIJN SOBRE A BOLHA DAS TÚLIPAS NA HOLANDA DOS ANOS 1600

Algumas classes de bolbos – com nomes pomposos como ‘almirante’, ‘general’, ‘generalíssimo’, ´vice-rei’ – eram transaccionadas por mais do que o preço de uma mansão luxuosa e mesmo trocados por esses edifícios no pico da loucura por alguns ricaços mais gananciosos, como revela o manuscrito The Tulip Book, que inclui tamanhos e preços daquela época. Um simples bolbo carregado de ‘mosaico’ podia ser transaccionado, no pico da febre, por 20 vezes o salário médio anual de um artesão ou 3 vezes os rendimentos médios de um comerciante abastado!

Para os profissionais da especulação este esquema rendia 350 a 500% em apenas 9 meses, enquanto o negócio das especiarias das Índias, com todos os riscos que comportava, não renderia mais de 400% em 2 anos. Os bolbos não eram encarados como futuras flores de decoração, mas como veículo financeiro para especular. Deixaram de ter qualquer correlação com o seu valor comparativo em relação a outros produtos e serviços (incluindo a própria arte da floricultura).

É claro que o que motivou esta loucura não foi a paixão que alguns cultivadores e coleccionadores da classe alta holandesa nutriam por esta flor exótica que teria vindo para a Europa a partir da Carreira da Índia portuguesa, pelas mãos do governador Lopo Vaz de Sampayo caído em desgraça, que a trouxera do Ceilão (esta versão não está comprovada), ou através da Turquia otomana, onde os sultões eram jardineiros exímios (versão considerada plausível pelos historiadores).

O que atraía os holandeses da média, pequena e micro burguesia urbana transformados em floristas e os camponeses cultivadores era o ‘milagre’ de em sucessivas negociações diárias arrecadarem ganhos, uma renda fácil de obter, que alimentava uma ganância desmedida face à dureza da obtenção de rendimentos em trabalhos de 16 ou mais horas diárias ou de risco na Expansão imperial nas Índias, recorda Looijesteijn.

As promissórias sobre alguns destes bolbos chegaram a vender-se e revender-se 10 vezes num só dia – um sistema de ‘alavancagem’ inacreditável para a época, em que ainda não havia uma tecla de computador para dar uma ordem em menos de um segundo. Baptizaram este negócio muito apropriadamente de “comércio do vento”. Recorde-se que esta especulação milionária decorria num canto das tabernas ou hospedarias, num frenesim, entre bebedeiras de cerveja e prostitutas – era um esquema financeiro informal.

O estoiro começaria, sem pré-aviso, numa ‘terça-feira negra’, a primeira (dia 4) de Fevereiro de 1637 – a quebra de preços foi mais rápida e abrupta do que qualquer outro crash financeiro da história subsequente. A queda de preços entre Fevereiro e Maio de 1637 foi de 95 a 99%, incomparavelmente mais do que no Dow Jones actualmente (mais de 50% em 20 meses) ou na Grande Depressão (quase 90% em quatro anos).

Uma redoma que amorteceu o crash

O que valeu a esta bolha e ao estoiro subsequente é que tudo decorreu quase como que em uma redoma, frisa Mike Dash, que se surpreendeu com o caso quando o estudou para escrever “A Febre das Túlipas”, mais um dos seus livros sobre comportamentos extremos das pessoas, a sua especialidade literária. “Acabou por nunca ser uma mercadoria transaccionada na bolsa de Amesterdão, não tendo contaminado o sistema financeiro formal, a bolha estava muito localizada e não contagiou o resto da economia real ligada à expansão nas Índias”, sublinha o autor de “A Febre das Túlipas”.

Quando o estoiro se deu, as autoridades tomaram, também, uma medida salomónica: “Proibiram os litígios de chegarem a tribunal, considerando que as transacções eram ilegais. Como quase todos deviam a quase todos, a situação ficou equilibrada, ainda que alguns correctores perdessem muito, e tivessem de refazer a vida. O mais problemático aconteceu com os cultivadores dos bolbos que perderam valor em termos contabilísticos e deixaram de ter compradores enlouquecidos, mas curiosamente a Holanda acabaria por desenvolver um nicho na floricultura e tornar-se-ia o pólo internacional desta cultura”, conclui o escritor.

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