A primeira revisão de previsões pelo FMI sobre 2013: mais pessimismo, apesar do “otimismo no ar”

O Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu ligeiramente em baixa a sua previsão de crescimento mundial para 2013 e 2014, na atualização feita esta semana.

O crescimento mundial deverá situar-se em 3,5% em 2013 e 4,1% em 2014, uma correção em baixa de 0,1 pontos percentuais em relação às previsões apresentadas em outubro passado no “World Economic Forum” (WEO). A retoma será “mais gradual” do que se previa. “O otimismo está no ar, mas é preciso ser cauteloso. Evitámos os precipícios, mas temos pela frente altas montanhas”, disse Olivier Blanchard, o conselheiro económico do Fundo que comentou esta atualização de previsões.

É, sem dúvida, uma correção ligeira. Mas deriva da revisão das previsões nos dois grandes espaços económicos em que o fundo costuma “dividir” o mundo – os países avançados, onde a previsão desce de um crescimento de 1,6% para 1,4% em 2013 e de 2,3% para 2,2% em 2014, e os países em desenvolvimento e mercados emergentes em que a previsão de crescimento desce de 5,6% para 5,5% em 2013.

A maior correção em baixa ocorre nos novos países industrializados da Ásia (os famosos NICS, onde a previsão desce de 3,6% para 3,2% em 2013 e de 4,1% para 3,9% em 2014) e a revisão em baixa mais importante em termos de grandes economias do mundo diz respeito a um dos BRIC, o Brasil (desce de 3,9% para 3,5% em 2013 e de 4,2% para 4% em 2014).

Fantasma da recessão afastado

Contudo, muitas destas revisões de previsão são em países e regiões com crescimento económico, onde se destaca a Ásia em desenvolvimento com uma taxa de crescimento de 7,1% em 2013 e 7,5 em 2014. A China deverá manter o seu crescimento acima de 8% este ano e no próximo, ao contrário de 2012 onde a estimativa aponta para um crescimento de 7,8%.

O efeito de revisão das previsões no crescimento da economia mundial repercute-se mais fortemente no comércio internacional. Em vez de aumentar 4,5% em 2013 deverá ficar-se por 3,8% e em vez de subir para 5,8% em 2014 deverá situar-se em 5,5%.

Depois de um abrandamento em 2012, com uma estimativa de crescimento mundial de 3,2%, contra 3,9% verificados em 2011, a trajetória da taxa volta a ser ascendente: 3,5% em 2013 e 4,1% em 2014. O fantasma de uma recessão mundial, nestas previsões, continua afastado.

Zona euro é região crítica

Os problemas críticos surgem onde a economia estagna ou entra em recessão.

A zona euro vai ser a região-problema em 2013, onde o “regresso à retoma está adiado”. O Fundo Monetário Internacional (FMI) alterou a sua previsão de outubro do ano passado sobre a região europeia da moeda única – de uma quase estagnação de 0,2%, revelando uma inversão na trajetória recessiva, para uma continuação da recessão, ainda que ligeira de 0,2%. Trata-se, contudo, de uma recessão inferior à estimada para 2012, que deverá situar-se numa contração de 0,4%. Ou seja, a recessão regrediu, mas permanece. Itália e Espanha são as duas grandes economias da zona euro que permanecerão em recessão. Só regressarão a crescimentos inferiores a 1% em 2014.

Apenas em 2014, o FMI espera que a zona euro regresse ao crescimento, de 1%, ligeiramente inferior à previsão de outubro.

Em outubro, aquando da divulgação do “World Economic Outlook”, a análise de evolução da economia mundial feita pelo Fundo apontava para três problemas centrais com nomes conhecidos: zona euro (crise das dívidas soberanas, desequilíbrios internos acentuados, simultaneidade de planos de ajustamento orçamental), Estados Unidos (efeitos do “precipício fiscal” e do agravamento das divisões políticas sobre o endividamento federal) e Japão (regresso a uma situação de deflação).

Agora, a zona euro é identificada como colocando o principal risco com “a incerteza sobre a resolução final da crise” das dívidas soberanas, apesar de “progressos recentes”, e com a ameaça de “uma estagnação prolongada se o momento reformista não for mantido”. Uma das necessidades referidas para evitar o agravar da situação é que “os esforços de ajustamento na periferia sejam sustentáveis e apoiados pelo centro”. O FMI identifica a manutenção do problema da “transmissão” para a economia real do “contágio positivo” nos mercados da dívida de que tem falado o presidente do Banco Central Europeu (BCE). O jornal alemão “Frankfurter Allgemeine Zeitung” sublinhou hoje que Olivier Blanchard reconheceu que as linhas de liquidez LTRO (Long Term Repo Operations) a 3 anos (duas operações, uma em dezembro de 2011 e outra em fevereiro de 2012) do BCE para os bancos do sistema euro (60% para bancos italianos e espanhóis) e o próprio programa OMT de influencia no mercado secundário da dívida soberana ainda “não tiveram qualquer efeito nas condições de financiamento da economia”.

EUA e Japão podem evitar o pior

Os EUA deverão escapar a um abrandamento económico maior se politicamente “a prioridade for evitar uma consolidação orçamental excessiva no curto prazo, aumentar o teto da dívida prontamente, e acordar num plano credível de consolidação orçamental de médio prazo e de reformas fiscais e de benefícios sociais”. O FMI pressupõe que as fraturas políticas no Congresso não agravarão a situação, nomeadamente no primeiro semestre, período em que se poderá arrastar o debate sobre o “precipício orçamental” (sobretudo 1º trimestre) e acerca do aumento do teto da dívida federal (que se poderá arrastar até ao verão).

No Japão, o novo governo de Shinzo Abe deverá enfrentar a deflação, com o país a optar por uma maior ênfase numa política monetária mais flexível e em estímulos no lado orçamental. Contudo, “o pacote de estímulos acarreta riscos importantes”, no entender do FMI, podendo induzir uma retoma temporária e um agravamento do problema da dívida pública (o mais elevado do mundo em percentagem do PIB).

Estes exercícios do FMI são previsões, não adivinhação do futuro. Pressupõem implicitamente que aspetos de ordem geopolítica ou política não terão efeitos maiores, como, por exemplo, a crise no Médio Oriente (ampliada com o problema do Irão), a crescente tensão entre a China e vizinhos, como o Japão, as eleições legislativas de Itália já em fevereiro, ou a crescente tensão entre o governo central em Madrid e a estratégia “soberanista” da Catulunha, ou mesmo eventuais efeitos antecipados da declaração do Reino Unido em avançar com um referendo sobre a permanência na União Europeia entre 2015 e 2017. A previsão do FMI baseia-se, também, na assunção de que os preços das commodities baixarão.

FACTOS DA SEMANA ASSOCIADOS

# EUA: crise do teto da dívida adiada até maio

A Câmara dos Representantes do Congresso norte-americano aprovou por maioria a resolução Republicana que permite ao governo continuar a endividar-se até 18 de maio. Entretanto em Março reacende-se o “precipício fiscal”.

Os Republicanos aprovaram na Câmara de Representantes do Congresso norte-americano por 285 votos contra 144 a lei ironicamente intitulada “No Budget, no Pay Act”, que permite ao sucessor de Tim Geithner na secretaria do Tesouro do segundo governo de Obama continuar a endividar-se até 18 de maio.

A lei suspende temporariamente a imposição do teto da dívida, o que é uma originalidade nesta matéria. A imposição do teto será restaurada depois dessa data. A votação voltou a fraturar internamente as duas bancadas – manifestaram-se 33 votos Republicanos contra e 86 votos Democratas a favor.

O teto da dívida de 16,4 biliões de dólares já foi ultrapassado no final do ano passado. O Tesouro americano fica autorizado a continuar a endividar-se durante o período de suspensão para cumprir pagamentos que têm de ser feitos, evitando algum default seletivo.

O Tesouro conseguirá adotar algumas medidas extraordinárias para ampliar o limite de 18 de maio por mais uns dois meses, até ao verão, dando mais alguma margem de manobra para a negociação entre Republicanos e Democratas.

O senador Harry Reid, da maioria Democrata do Senado, já afirmou que esta lei também será aprovada pelos senadores. O Presidente Obama também não vetará esta lei quando chegar à Casa Branca

A lei dá a oportunidade aos legisladores para até 15 de abril se chegar a uma resolução sobre o orçamento para 2014 na Câmara e no Senado. Se o não fizerem, terão os ordenados congelados até o conseguir, daí a razão do título da lei, medida controversa que é também original.

No entanto, os Republicanos recuaram da imposição de associar à autorização de aumento do teto da dívida a discussão do plano de cortes estruturais da despesa federal e, no imediato, mudaram o foco da sua atenção do teto da dívida (e do fantasma de um default seletivo e da repetição do verão de 2011 que levou ao corte da notação de triplo A da dívida americana por parte da Standard & Poor’s) para a nova fase da discussão do “precipício orçamental” (fiscal cliff). A batalha vai deslocar-se em fevereiro e março para esse campo. Os dias críticos serão 1 de março, quando 1 bilião de dólares de cortes na defesa e em outras áreas será automático, e 27 de março, quando o financiamento federal expira totalmente.

Calendário a reter

Março: 1 e 27, no âmbito da nova fase do “precipício orçamental”

Abril: 15, data final para resolução orçamental

Maio: 18, limite da suspensão temporária de imposição do teto da dívida

# Japão a caminho de cinco anos de deflação

As autoridades japonesas divulgaram esta semana que a quebra de preços em 2012 foi de 0,1% em vez de uma estagnação de preços. As estimativas para janeiro apontam na região de Tóquio para uma deflação de 0,5%.

O Japão está a caminho do quinto ano consecutivo de deflação (quebra do índice de preços). As autoridades divulgaram hoje que em 2012 a deflação foi de 0,1% em vez da previsão anterior – e do próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) – de que o índice de preços estagnaria ou aumentaria em 0,042%. Na região de Tóquio, há já previsões de que o índice de preços vá cair 0,5% em janeiro, prolongando o momento de deflação.

Deste modo, esta economia asiática já entrou no quarto ano consecutivo de deflação desde 2009. Os valores da deflação foram de 1,344% em 2009, 0,719% em 2010, 0,287% em 2011 e 0,1% em 2012. Tudo valores negativos do índice de preços.

O FMI prevê que a deflação em 2013 seja de 0,172%. No mundo desenvolvido, a Grécia é o outro país com previsão de deflação para 2013, de 1,068%.

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