A saga americana do shutdown ao adiamento do default — III (de 13 a 18 outubro)

Acto I — 13 de outubro — Lagarde dixit. “Os líderes mundiais vieram a Washington para falar da retoma mundial e descobriram que o tema era o teto da dívida [federal norte-americana]”, disse Christine Lagarde, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) e anfitriã da assembleia anual da organização, que terminou no domingo em Washington DC.

Lagarde foi entrevistada pelo programa “Meet the Press” da NBC News, onde expressou a surpresa desagradável sentida pelos participantes de todo o mundo: “O tema transformou completamente a reunião nos últimos dias”.

O tema número um nos Estados Unidos da América é, agora, o risco do teto da dívida federal não ser aumentado em virtude das divisões no Congresso norte-americano e da pressão da ala Tea Party do Partido Republicano. As manobras extraordinárias de financiamento a que a Administração federal pode recorrer esgotam-se na próxima quinta-feira, dia 17 de outubro, segundo o secretário do Tesouro norte-americano Jacob Lew.

A diretora-geral do FMI concluiu sobre o “estrago” que o tema fez na assembleia anual do Fundo e na sua previsão de uma retoma frágil, mas contudo retoma, à escala mundial, com o desabafo: “A falta de certeza”, ou seja, a incerteza, ameaça a economia global.

A “incerteza” é um daqueles “estados de espírito” dos investidores mundiais que atrapalham todos os cenários. Daí que o FMI, por prudência, tenha desenhado um cenário distinto do cenário base, a que deu o nome de “cenário descendente plausível”. Um dos países mais sensíveis a este cenário alternativo é Portugal, bem como outros resgatados na zona euro.

Shutdown pela terceira semana

Entretanto, a Administração federal está em shutdown (encerramento) de alguns serviços desde 1 de outubro. O recorde deste tipo de encerramento foi no tempo da Administração Clinton, em final de 1995 e início de 1996, e durou 28 dias, mas não se estava, então, em ressaca de grande crise financeira, como agora.

Segundo a Consultants Macroeconomic Advisors, uma suspensão de duas semanas poderá “cortar” 0,3 pontos percentuais no PIB norte-americano. Para a consultora IHS, o impacto diário mínimo será de 300 milhões de dólares. Por seu lado, a agência de notação Moody’s fala de uma perda de 55 mil milhões de dólares, se o encerramento durar 3 a 4 semanas.

Acto II — 15 de outubro — Entra em cena a Fitch — A menos de dois dias do limite anunciado pelo secretário do Tesouro norte-americano para a capacidade de endividamento federal e com uma situação de shutdown (encerramento) de alguns serviços federais já na terceira semana, a agência de notação de crédito Fitch Ratings colocou a qualificação da dívida norte-americana, que é ainda de triplo A, em “observação negativa”. Esta “observação negativa” poderá levar ao corte da notação.

“As prolongadas negociações sobre o aumento do teto da dívida ameaçam socavar a confiança no dólar norte-americano como moeda de reserva mundial por excelência, lançando dúvidas sobre a confiança no crédito dos Estados Unidos. Essa confiança é a razão-chave para que os EUA possam ter um nível de dívida pública substancialmente mais alta do que os outros países com notação de triplo A”, explicava a agência.

A crise política no Congresso norte-americano levou ao arrastar de uma situação em que a maior economia do mundo, que goza da situação de exceção de deter a moeda de reserva mundial e o sistema financeiro mais desenvolvido, corre o risco de uma bancarrota temporária e seletiva e de não ter um orçamento aprovado para o novo ano fiscal (que se iniciou a 1 de outubro).

A Fitch, tal como a Moody’s, manteve a notação máxima de triplo A aos Estados Unidos mesmo depois da crise de agosto de 2011, quando ocorreu uma situação similar em torno do aumento do teto da dívida federal de então. Na altura, apenas a Standard & Poor’s tomou a decisão de retirar a notação máxima. Os custos do confronto sobre o aumento do teto da dívida em agosto de 2011 custaram aos contribuintes 1,3 mil milhões de dólares no ano fiscal de 2011e um acumulado de 18,9 mil milhões de dólares numa década.

Segundo o Bipartisan Policy Center, alguns dos mais importantes compromissos do estado federal até final do mês são os seguintes: três grandes volumes de refinanciamento da dívida a 17 de outubro (120 mil milhões de dólares), a 24 (93 mil milhões) e a 31 (89 mil milhões); pagamentos de subsídios da Segurança Social no montante de 12 mil milhões de dólares a 23 de outubro; salários a 28 de outubro com uma folha de 3 mil milhões de dólares; e pagamentos de juros da dívida num total de 6 mil milhões a 31 de outubro. Grosso modo, uma vez e meia o PIB português.

A data de 17 de outubro – próxima quinta-feira – é o dia em que o secretário do Tesouro Jacob Lew prevê que o governo federal terá esgotado todas as medidas extraordinárias para se poder financiar e só terá 30 mil milhões de dólares em caixa para fazer pagamentos.
Dívida de muito curto prazo “agita-se”

As yields dos bilhetes do Tesouro (BT) norte-americano de muito curto prazo voltaram a disparar no mercado secundário. Os aumentos em relação aos valores de fecho de ontem (14 de outubro) nos prazos a um, três e seis meses situaram-se entre 46% e 73,5%.

O anterior disparo deste género foi precisamente na terça-feira da semana passada, a 8 de outubro.

Comparando com o início de outubro, a subida das yields nos BT é muito expressiva: 200% no prazo a um mês; 260% a três meses; e 230% a seis meses.

Os valores das yields nestes prazos estão muito próximos de 0%. A variação entre 1 de outubro – início do novo ano fiscal e dia do começo do shutdown – e hoje foi a seguinte (em valores de fecho da sessão): 0,127% para 0,38%% a um mês; 0,030% para 0,107% a três meses; e 0,040% para 0,132% a seis meses.

Acto III — 17 de outubro — Suspiro e adiamento — Os Estados Unidos livraram-se de entrar hoje na zona vermelha de um risco de bancarrota durante o resto do mês de outubro. O mundo respirou de alívio no último minuto, tal como na crise de agosto de 2011. Mas a confrontação política no Congresso norte-americano poderá renascer no início do próximo ano.

A autorização de endividamento, suspendendo o teto da dívida, durará até 7 de fevereiro e o financiamento do estado federal só está assegurado até 15 de janeiro. Entretanto, republicanos e democratas terão de se entender, até 13 de dezembro, num plano para a próxima década sobre o enquadramento orçamental.

O Presidente Obama assinou 30 minutos depois da meia-noite (hora de Washington DC) de 16 de outubro a lei que permite reabrir os serviços federais, que encerraram durante 16 dias, e aumentar o teto de endividamento federal, que já havia sido ultrapassado em maio.

Obama tirou uma dor de cabeça ao seu secretário de Tesouro, Jacob Lew, que havia dito que, a partir de hoje, só tinha 30 mil milhões de dólares em caixa, e que se esgotavam as medidas extraordinárias para continuar a gerir o gasto público já aprovado e honrar compromissos de dívida.

Mas o compromisso aponta para uma perspetiva de regresso da incerteza no primeiro trimestre do próximo ano. A incerteza no mercado financeiro torna-se recorrente, dizem os analistas.

Custo do shutdown entre 12 a 24 mil milhões de dólares

Depois de um acordo entre republicanos e democratas no Senado norte-americano, o caminho ficou aberto para o fim do shutdown (encerramento) iniciado a 1 de outubro e para o risco de bancarrota seletiva que já levara a Ficth a colocar a notação de triplo A da dívida norte-americana sob “observação negativa”. A agência de notação chinesa Dagong decidiu cortar o rating dos EUA de A para A- (seis níveis abaixo do triplo A) com perspetiva negativa.

Só o encerramento deve ter custado ao longo de 16 dias 0,3 pontos percentuais do PIB do 4.º trimestre, cerca de 12 mil milhões de dólares (equivalente a 9 mil milhões de euros), segundo a Macroeconomic Advisers, ou o dobro, segundo a Standard & Poor’s. O risco de bancarrota levou as yields dos bilhetes do Tesouro de muito curto prazo – a um, três e seis meses – a subirem mais de 200% no mercado secundário entre 1 e 15 de outubro.

A notícia do compromisso foi bem acolhida pelos analistas e pelos investidores dos mercados financeiros, tanto mais que o “Livro Bege”, publicado ontem pela Reserva Federal (banco central norte-americano), apontava para um dado preocupante: 1/3 dos EUA registou crescimento mais fraco em setembro e no início de outubro.

A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional foi das primeiras a reagir, aliviada. Mas Christine Lagarde sublinhou na sua declaração: “Será essencial reduzir a incerteza que envolve o comportamento da política orçamental [norte-americana] aumentando o teto da dívida de um modo mais duradouro. Continuamos a encorajar os EUA a aprovar um orçamento para 2014 e a substituir um sequestro [cortes automáticos de financiamento de despesa pública em várias áreas em vigor desde março] com medidas faseadas graduais que não prejudiquem a retoma, e a adotarem um plano orçamental equilibrado e abrangente no médio prazo”.

O alívio estendeu-se a Pequim e Tóquio, cujos países são os principais detentores de dívida norte-americana e, também, aos baqueiros de Londres e Paris, os mais expostos na Europa aos títulos do Tesouro norte-americano, segundo o Banco de Pagamentos Internacionais.
Republicanos dividem-se

O acordo obtido no Senado, fruto do empenho de senadoras dos dois lados das bancadas, passou por 81 votos a favor contra 18. O plano do Senado passou depois na Câmara de Representantes por 285 votos a favor contra 144, o que significou que 87 deputados republicanos votaram a favor do compromisso. Obama obteve uma vitória política, mas a janela pode terminar em meados de fevereiro. Alguns analistas vaticinam o regresso do filme da crise política no primeiro trimestre do próximo ano.

O shutdwon durou 16 dias, menos do que os 28 registados durante a Administração Clinton no final de 1995 e no início de 1996. O diretor do Office of Budget and Management já deu ordem para que os funcionários públicos federais, que estiveram com licença sem vencimento forçada, regressem hoje aos seus postos.

O compromisso no Senado e a passagem da lei na Câmara de Representantes provocaram logo alguma correção em baixa nas yields dos bilhetes do Tesouro no mercado secundário, que fecharam a sessão de 16 de outubro com uma quebra de 60% no prazo a um mês, de 27% a três meses e de apenas 7% a seis meses. A descida foi mais significativa no prazo a um mês e mais moderada nos outros dois casos, o que levanta a questão de saber se, sobretudo nos prazos a três e seis meses, o nível das yields não subiu para um patamar mais elevado de onde não regressará para o nível anterior à crise política no Congresso.

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