A solução é a eutanásia da economia fictícia

A solução para a crise actual só poder ser a “eutanásia” da economia fictícia que se apoderou da economia global, afirma-nos Michael Hudson, de 70 anos, professor na Universidade do Missouri, onde dirige o Instituto para o Estudo das Tendências Económicas de Longo-Prazo.Hudson concedeu uma entrevista que publicamos em inglês integralmente.

As medicinas que andam a ser aplicadas nos Estados Unidos e na Europa apenas alimentam o ‘monstro’. A própria mentalidade popular continua a acreditar na mesma ficção de riqueza, diz-nos o historiador económico, autor de livros como o ‘Superimperialismo’ (1972) e ‘A fractura global’ (1977).

Hudson, um economista da contracorrente, foi ao baú da história económica buscar a célebre expressão de John Maynard Keynes sobre a necessidade da “eutanásia dos que vivem de rendas” (do «rentier», a expressão francesa que fez escola para este protagonista financeiro), uma operação política que o célebre economista inglês via como “gradual” na época em que escreveu a sua obra-prima, a ‘Teoria Geral do Emprego, Juros e Moeda’ (1936). Por rendas, os economistas entendem não a noção comum de renda ligada ao arrendamento de bens duráveis, imobiliários ou de capital fixo, mas as margens ganhas derivadas de poder monopolista de mercado, de outras formas de benefício político alterando a concorrência ou de operações financeiras sem qualquer ligação à economia real.

Matemática de plástico e risco

Ao contrário de Keynes que via neste sistema de rendas “uma fase transitória do capitalismo”, a realidade tem sido madrasta. “Os Estados Unidos e a Europa prosseguiram teimosamente uma política de bolhas”, diz Hudson, que prepara um livro precisamente com o título ‘A Economia Fictícia’. A dívida disparou a tal ponto que deixou de ter qualquer suporte realista para o seu pagamento futuro – a pirâmide de derivados está avaliada em 500 biliões de dólares, quase 8 vezes o valor anual em dólares da economia mundial.

Alimentou-se essa euforia com “uma matemática de plástico”, diz o historiador económico. A chamada criatividade financeira das instituições da Wall Street, da City londrina e de outros locais do mundo serviu para desenvolver até ao extremo um sistema de rendas, baseado na obtenção de rendimentos sobre operações financeiras em pirâmide. O resultado de uma tal acumulação de excessos só poderia ser o que ocorreu com o «crash» de 2007/2008, com uma volatilidade jamais vista nas bolsas, e com uma crise profunda na economia real, a maior desde os anos 1980. Por isso, Hudson é de opinião que esta crise tem problemas “estruturais” e que é a pior do pós-guerra. Em suma, como diz Hudson, “tal economia beneficiou alguns à custa de espalhar um risco incalculável por toda a economia e o geral da população”.

O historiador teme que a Europa esteja numa situação mais complicada do que os Estados Unidos, em virtude da bomba financeira ao retardador que tem nas economias do Leste e devido às suas reservas em divisas estrangeiras (em terceiro lugar, depois da China e do Japão) estarem em dólares (555 mil milhões).

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