A via sueca para enfrentar a crise financeira dos anos 1990

Face à crise de 1991 a 1993, o governo de Estocolmo não empurrou o lixo financeiro para debaixo do tapete. Mas mais do que a nacionalização (que apenas atingiu 1/10 do sistema), foi a determinação política e a desvalorização da coroa que permitiram a retoma, diz-nos Peter Englund, que foi membro do Comité sueco encarregado de analisar as causas da crise, ironicamente um comité que nunca conseguiu elaborar um relatório final de consenso.

Confrontados com a surpresa de uma crise aguda entre finais de 1990 e 1993, depois de um ‘El Dorado’ de vários anos, os suecos reagiram rápido e em profundidade, recorda Peter Englund, de 59 anos, professor do Departamento de Finanças da Escola de Economia de Estocolmo, então membro do comité do governo para a análise das causas da crise bancária (chamado de bankkriskommittén), e que é hoje secretário do Comité do Prémio em Ciências Económicas em memória de Alfred Nobel (vulgarmente designado por Nobel da Economia).

“As medidas que o governo tomou então foram mais abrangentes do que as que estão a ser tomadas actualmente. Deu uma garantia para todas as obrigações dos bancos (e não só aos depósitos), mas excluiu o caso das acções”, diz-nos Englund que acrescenta que “efectivamente limpou-se a mesa, enquanto, por exemplo, no caso dos japoneses naquela década, fez-se tudo para esconder o mais possível o lixo por baixo do pano”. Um dos princípios políticos que norteou aquele período crítico foi assim expresso por Englund no seu trabalho de referência sobre o balanço da gestão da crise sueca publicado na ‘Oxford Review of Economic Policy’ (vol.15, nº3, 1999): “O princípio orientador foi salvar o sistema financeiro com um mínimo de transferência de riqueza para os accionistas originais [dos bancos privados]”. Um princípio de transparência fundamental.

A acção do governo de Carl Bildt (1991-1994, partido liberal conservador moderado) evitou o colapso do sistema financeiro sueco sobretudo em Setembro de 1992, quando faliu o mais pequeno dos bancos privados, o Gota, introduzindo na linguagem da crise a expressão do ‘risco sistémico’. O Gota acabaria por ser comprado simbolicamente pelo governo por uma coroa e seria integrado no Nordbanken, maioritariamente dominado pelo Estado. O governo criou uma agência politica e financeiramente independente para acompanhar a intervenção (a Bankstodsnamnden) e dois bad banks para onde foi transferido o ‘lixo’ financeiro, o Securum lidando com os activos do Nordbanken e o Retrieva para lidar com os do Gota.

Ameaça de nacionalização

Muita gente interpretou a eficácia desta acção rápida devido ao uso da arma da nacionalização do sistema financeiro – da “socialização” do capital financeiro, como se ouviu durante a actual crise iniciada em 2007. Mas isso é um mito: “A nacionalização do sistema financeiro foi muito limitada. Na realidade, foi de 1/10 do total do sistema bancário. Provavelmente a chave política da nossa acção foi a ‘ameaça’ de nacionalização se os accionistas privados não avançassem com novo capital – o que, no final, fizeram de diversas formas”.

Mas Englund acha que o aspecto crítico que abriu as portas à retoma foi a desvalorização da coroa sueca. Admite que o governo poderia tê-lo feito mais cedo. Em 1994, o produto sueco voltou ao crescimento. A média de crescimento anual até 2007 situou-se nos 3,2%.

No entanto, há que ter cuidado com as comparações: Englund acha que os contextos são diferentes se compararmos a crise sueca de então e a actual crise global. Não só obviamente pela dimensão, mas pela fase em que se encontra o ciclo capitalista, então num período de crescimento, e hoje embrulhado em “problemas estruturais importantes que vão para além da crise financeira”. Entre eles, a crise do sector automóvel e de todo o cluster a ele ligado: “A crise dessa indústria rebentaria de qualquer forma, mas provavelmente veio mais cedo e com mais força do que seria suposto acontecer”, sublinha o nosso interlocutor.

Uma das primeiras filhas da financeirização

A crise sueca do princípio dos anos 1990 foi uma das primeiras filhas da financeirização extrema das economias ocidentais desenvolvidas desde os anos 1980, da convergência da desregulação dos mercados de crédito com uma política macroeconómica pró-cíclica alimentando nomeadamente uma ‘bolha’ imobiliária e um mercado bolsista (que atingiu um pico em meados de Agosto de 1989, depois de um disparo de 42% desde o início desse ano) naquele país nórdico.

O sobreaquecimento sueco subitamente rebentou devido a uma combinação de factores, uns puramente locais e outros externos. Gerou-se uma crise bancária de que derivou uma contracção brutal do crédito à economia real, a que se juntou o afundamento do sector imobiliário (50% entre 1991 e 1992) e, depois, uma crise de divisas (na sequência da crise no mecanismo europeu de taxas de câmbio no Verão de 1992 com o abandono do Reino Unido e da Itália). O PIB sueco caiu, em termos reais, mais de 5% no período 1991-1993 (inferior, no entanto, à crise actual em que já quebrou mais de 6% entre 2008 e o primeiro semestre de 2009).

O salvamento do naufrágio económico sueco custou, então, aos contribuintes em despesas directas em valores líquidos cerca de 2,1% do PIB (que compara com os salvamentos actuais, segundo um estudo recente do FMI: abaixo dos casos dos Estados Unidos, 4,8%, da China 4,4%,  da Alemanha 3,4% e do Japão 2,2%; mas superior ao Reino Unido 1,5% e à França 1,3%).

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