As lições da estagno-deflação do Japão
O filme da deflação e de uma economia no pára-arranca no Império do Sol Nascente desde meados de 1994 pode ter sido a antecipação do que está a acontecer no Ocidente.
O maior erro, dizem os especialistas ouvidos pela Janelanaweb, foi a decisão política de tornar o país no mais endividado do mundo entre os desenvolvidos. Esse passivo é hoje o principal impedimento a uma estratégia de crescimento.
Micro-ensaio
Os últimos quinze anos do Japão foram “uma espécie de ensaio numa escala nacional do que hoje se vive à escala global nos países desenvolvidos”, diz-nos Franklin Allen, de 53 anos, professor de finanças da Wharton School da Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia, e professor visitante na Universidade de Tóquio.
O termo mais comum que se associou à doença nipónica foi o de deflação, ou seja baixa continuada dos preços no consumo, a ponto de o índice de 2007 estar ao nível de 1993. Este caso de deflação é único à escala mundial desde a IIª Guerra Mundial, segundo Yasushi Okada, do Instituto de Investigação Social Económico (ESRI) de Tóquio, um «think tank» ligado ao gabinete do primeiro-ministro japonês.
Há divergências entre o número oficial e outras estimativas – o governo de Tóquio fala de uma quebra de 0,1% ao ano desde 1999 e Okada e outros especialistas de 1% anual em média desde que este vírus atacou a economia japonesa no terceiro trimestre de 1994.
Mesmo neste patamar mais elevado de deflação anual, os analistas consideram-na ainda “suave” – o problema é que foi gradual, arrastada no tempo, conjugando-se com uma rigidez da taxa real dos salários. Essa convergência arrasou os lucros e o reinvestimento. O resultado foi um pára-arranca de longo prazo.
A queda do ‘tigre do Pacífico’
A taxa de crescimento nunca mais regressou aos 3%, dos anos 1980. A economia desacelerou a pique em 1992 e 1993, uma situação que Akio Morita, o líder da Sony, avisou num discurso que ficaria conhecido como o «choque Morita», e que tivemos a oportunidade de reportar em directo no livro A Quarta Vaga (Edição dos autores, 1993).
O mais célebre ‘tigre do Pacífico’ caía do pedestal. Depois da recessão de 1998/1999, o Japão esteve praticamente estagnado em 2000 e 2001, tendo depois ziguezagueado até à data, sempre abaixo dos 3%.
Por seu lado, Claudio Morana, economista italiano da Faculdade de Economia da Universidade de Piemonte Oriental, em Novara, de 39 anos, autor de um estudo sobre o caso japonês, acha que houve uma convergência de factores que conduziram a esta longa doença japonesa. Sem dúvida que houve “políticas falhadas”, diz. Exemplos: em relação ao crédito malparado; a tentação de subsidiar sectores ineficientes e em declínio; e o próprio ‘tempo de aprendizagem na reacção’ a um problema novo.
Ele considera, no entanto, que a crise de crédito “foi um elemento muito mais relevante”. Foi decisivo o impacto negativo na economia real deste aperto na concessão de crédito por parte dos bancos japoneses. Por isso, acha que a deflação não é a questão central, apesar de ser hoje muito falada.
Em paralelo, a bolsa japonesa deu um trambolhão de quase 80% desde o máximo em Dezembro de 1989 e a ‘bolha’ imobiliária desfez-se—os preços caíram 75% desde o pico em 1991. “O choque foi brutal”, sublinha Allen. O resultado: 1,1 pontos percentuais foi quanto a taxa de crescimento do PIB japonês perdeu anualmente entre 1995 e 2003 por efeito da deflação.
Apesar das injecções monetárias e de taxas de juro do Banco do Japão abaixo de 1% desde finais de 1995 (estiveram no mínimo histórico de 0,1% entre final de 2001 e meados de 2006; hoje estão em 0,3%), a economia nipónica foi apanhada no que Paul Krugman apelidou, num artigo em 1998, de armadilha da liquidez. O Nobel referia que era um fenómeno “temporário”, só que a duração desse período tanto podia ser “três anos como 20”.
Dívida – um elefante na loja de porcelanas
O problema central do Japão parece ser a sua enorme dívida, quase 7000 biliões de dólares (767000 biliões de ienes). Ela quadruplicou desde 1991 (a portuguesa triplicou no mesmo período). É a maior do mundo em termos absolutos (os EUA ficam em segundo lugar com 5000 biliões) e a recordista em relação ao PIB do país no universo da OCDE — 165% em 2007 (como termo de comparação, a americana era ainda de 36% e a portuguesa de cerca de 70% nesse ano; a segunda maior era a italiana com 117%).
Os analistas dizem que é como um elefante numa loja de porcelanas. Qualquer passo em falso e é um desastre.
Se há uma lição central a tirar de toda este filme japonês, diz, por seu lado, Allen, é “evitar um sobreendividamento”. Esta condicionante torna tudo o resto difícil. Dificuldades de implementação de reformas no estado e sociedade japonesas, pressão dos lóbis despesistas instalados, instabilidade política contribuíram para essa perversão do ‘keynesianismo’ de crise.
Se o modelo se repete à escala global, alerta o professor de finanças, poderemos ter uma situação caótica no horizonte. Só em 2008 os Estados Unidos devem ter-se endividado 30% do seu PIB, uma situação só comparável ao esforço anual americano durante a 2ª Guerra Mundial. Os últimos números da dívida americana apontam para 10,6 biliões de dólares (triliões na designação anglo-saxónica), 70% do PIB americano estimado para 2008.
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