Bloco de Notas sobre a China: I – O dragão da inflação coloca o governo à beira de ataque de nervos

“Os preços estão loucos”, ouve-se na rua em Beijing. Um cacho de uvas ou de bananas comprado numa modesta frutaria de esquina ou num vendedor ambulante custa mais do que em Lisboa. Segundo o Ministério do Comércio, 18 produtos agrícolas em 36 cidades principais viram os preços crescer 62,4% nos primeiros dez dias de novembro em relação a igual período do ano passado em toda a China, e não só na capital.

Descendo a produtos específicos, o preço das batatas subiu 85% entre janeiro e junho, o do açúcar subiu 100% desde o início do ano, o do alho e da pimenta multiplicou por 10 até maio. O gasóleo também subiu em outubro aproximando-se de 90 cêntimos por litro em muitas regiões do país.

700% nos produtos medicinais

Outro terreno de especulação é o dos produtos medicinais tradicionais chineses – outra área crítica para a população. Segundo a Associação do setor, 84% dos 600 produtos tradicionais no mercado sofreram uma hiperinflação de 700% nos últimos doze meses. O caso do ginseng é um dos mais referidos.

O chinês comum, que ganha entre 100 (salário mínimo oficial) a 660 euros (salário médio) por mês nas regiões metropolitanas, tem inclusive uma expressão para este disparo dos preços: zhàng jià. Zhàng (aumento) foi mesmo eleito pelos cibernautas chineses, numa animada sondagem recente, como o caráter do ano.

Esta quase hiperinflação localizada ao cabaz agrícola fica submersa no índice geral de preços que, em outubro, terá subido 4,4% em relação ao mesmo mês do ano passado, o que leva já os editorialistas dos jornais chineses a interrogarem-se sobre a aderência do índice oficial à realidade. Por exemplo, em Beijing, em outubro, o índice de preços específico para as camadas mais pobres, tendo em conta o “cabaz de arroz e de vegetais” que usam mensalmente, já está nos 5,6% em relação ao mesmo mês do ano passado. Os analistas chineses vaticinam que o disparo vai continuar no 1º semestre de 2011, assinalando que a inflação importada (via commodities) irá aumentar ainda mais.

O valor da inflação atingido de 4,4% em Outubro é o mais elevado nos últimos dois anos, mas ainda está longe dos 13,2% em 1993 e dos 8,5% em abril de 2008, o pico mais recente.

Esta situação fez agitar, na semana passada, o Conselho de Estado (o governo central), um complexo murado umas centenas de metros acima da Cidade Proibida e da Praça de Tiananmen. Discutiram-se intervenções administrativas para tabelamento nos preços e fiscalização nos circuitos de distribuição, mas os próprios analistas chineses duvidam da sua eficácia para arrefecer a situação. Os debates nos fóruns dos media impressos são acalorados.

Os cereais, óleo vegetal, açúcar e algodão estão na mira, e os próprios Ministérios usarão leilões das reservas estratégicas para pressionar em baixa os preços. Na semana passada realizou-se um primeiro leilão de 200 mil toneladas de açúcar pelo Ministério do Comércio para a indústria alimentar. Entretanto o diário do Partido Comunista da China pediu ao governo central para aumentar o número de commodities com reservas estratégicas obrigatórias.

O setor financeiro sombra (que, também, existe na China, e é pujante)

Entretanto, o Banco Central da China (Banco Popular da China) não só tem vindo a aumentar as exigências de reservas bancárias, como o fez, agora, pela quinta vez este ano, subindo mais 50 pontos base (pb), mas também tem mexido nos juros (subindo o custo dos empréstimos), o que fez, este ano, pela primeira vez, desde há três anos, subindo 25 pontos base. A taxa diretora de juros para empréstimos está, ainda, em 2,5% ao ano, menos de metade da remuneração dos depósitos. O aumento referido de 50 pb nas exigências de reservas bancárias equivale a retirar do circuito de empréstimos cerca de 40 mil milhões de euros.

Entretanto, o regulador bancário exigiu, em julho, a todos os trusts financeiros (que funcionam como fundos de alto risco, captando dinheiro de empresas e de plutocratas) chineses a realização de testes de stresse para avaliar o risco de exposição à especulação imobiliária. Os investidores imobiliários têm usado, crescentemente, os produtos financeiros destes trusts como forma de contornar as restrições bancárias a empréstimos para a construção. Só no primeiro semestre deste ano, o recurso a estes produtos financeiros foi já 69% superior ao movimento de todo o ano passado.

A especulação, neste setor, é muito elevada: dentro dos três primeiros anéis da área metropolitana de Beijing, um pequeno apartamento de 75 metros quadrados pode custar mais de €315 mil. O rácio do preço em relação ao rendimento é de 22 em Shenzhen (no sul, junto a Hong Kong) e de 18 em Beijing, valores muito superiores aos do auge da bolha imobiliária em 2006-2007 em São Francisco, a cidade de especulação mais alta nos Estados Unidos, que, então, apresentava um rácio de 11.

Enxugar-se com o chuveiro a funcionar

A liquidez no sistema atingiu níveis inimagináveis. A massa monetária (M2) é hoje 7 vezes superior a 1998. Desde janeiro de 2008 aumentou 64% e desde o início deste ano já subiu 12%. Mesmo com uma taxa de crescimento do produto interno bruto de dois dígitos, esta inundação de dinheiro é muito superior ao aumento da economia real que tem andado entre 9 e 10% ao ano. “O que as autoridades chinesas estão a fazer é tentar apanhar uma longa cauda do problema, mas é o mesmo que estar a tentar enxugar-se com uma tolha quando o chuveiro continua a funcionar. A única saída é fechar mesmo a torneira ”, disse ao Expresso Patrick Chovanec, professor de economia na Universidade de Tsinghua, em Biejing, em entrevista abaixo publicada.

Uma parte desta inundação advém do “dinheiro quente” que vem do exterior devido a fluxos de capital (muitos deles através de esquemas complexos) e do excedente da balança comercial e da troca rápida de dólares, euros ou outras divisas por moeda local (dada a expectativa de que o renminbi se valorizará, o que significará que cada dólar ou euro valerá menos, no futuro, em moeda chinesa). As autoridades chinesas culpam, agora, a Reserva Federal americana de ir incendiar ainda mais estes fluxos de “dinheiro quente” em virtude da sua nova rodada de política de “quantitative easing” (alívio quantitativo) que deverá influir claramente na bolsa chinesa, aquecendo-a.

O medo de que a China seja “a próxima grande bolha” foi expresso publicamente por Yiping Huang, do Centro para a Investigação Macroeconómica da Universidade de Beijing. No entanto, para Patrick Chovanec, “apontar o dedo ao dinheiro quente é uma desculpa”. O que as autoridades chinesas têm de fazer é “sair da indexação em relação ao dólar”.

Entrevista a Patrick Chovanec
«Os chineses estão a ignorar o problema central – a inflação monetária»

P: A política de dinheiro barato e de injeção massiva de liquidez seguida pela China está a chegar a um ponto de exaustão? O que é o governo central poderá fazer para evitar que o “vulcão” – como lhe chamou – expluda?
R: Deixe-me, primeiro, pegar na segunda parte da sua questão. Quando a China compra dólares – ou outras divisas – para manter a taxa de câmbio fixa, emite renminbis em troca. Em consequência, a oferta de moeda interna aumenta. Isso só não aconteceria se a China praticasse uma política monetária restritiva para compensar esta infusão – e não o fez nos últimos dois anos. Até pode aumentar os requisitos quanto ao rácio das reservas dos bancos e tentar com uma esfregona limpar parte desse excesso de liquidez, como o fez antes do pacote de estímulos de 2009. Mas é como tentar apanhar uma longa cauda do problema. É o mesmo que estar a tentar enxugar-se com uma tolha quando o chuveiro continua a funcionar. A única saída é fechar mesmo a torneira.

P: Mas essa injeção massiva é sustentável?
R: Alguns economistas, que eu até respeito, dizem que um pouco de inflação não é necessariamente uma má coisa. Mas eu tendo a pensar que brincar com a inflação é como brincar com o fogo. Eu até poderia concordar com eles se a oferta de moeda crescesse a uma taxa ligeiramente mais elevada do que a economia real. Mas não é o caso – a expansão monetária é absolutamente fenomenal. Os seus efeitos inflacionários têm estado disfarçados por um facto importante – esse dinheiro tem ido para um boom de investimento do que para o consumo. Ou seja, provocou, no início, uma inflação em ativos mais do que em produtos de consumo.

P: E isso enganou os governantes?
R: De facto, a inflação de ativos é uma coisa mesmo engraçada. Quando o preço do pão duplica, parece que alcançar os objetivos vai ficar difícil. Mas quando o preço dos condomínios de luxo duplica, parece que os investidores inteligentes ficam mais ricos. Isto empurrou os decisores políticos chineses para um estado de segurança falso. Ora o que me assusta agora é que uma boa parte da própria inflação nos ativos ainda não se repercutiu no índice de preços geral.

P: A culpa desta situação explosiva nos preços é só do tal “dinheiro quente” que vem de fora?
R: Se a China quer contra-atacar isso, a solução é fácil, a meu ver, pelo menos em princípio – saiam do peg, e se quiserem moderar a apreciação do renminbi abram a balança de capitais de modo a que as empresas chinesas e as próprias pessoas possam investir mais livremente lá fora. Apontar o dedo ao “dinheiro quente” é uma desculpa.

P: Estamos a assistir, em alguns casos, a situações de verdadeira hiperinflação. Já há gente nas regiões de fronteira com Hong Kong que prefere ir às compras lá. Com o chinês pobre a ganhar menos de 100 euros por mês e o salário médio menos de 600 euros, corre-se o risco de uma crise social?
R: O governo chinês está muito ciente de que chegou ao poder em 1949 em parte devido à hiperinflação que campeou depois da guerra, e quase perdeu controlo da situação em 1989 devido a um enorme descontentamento face à inflação. Por isso, calculo que se movimentará de um modo muito determinado.

P: E será eficaz?
R: Infelizmente, a meu ver, as medidas que anunciou até agora focalizam-se sobretudo no controlo dos preços e em tentar regular a procura e a oferta nos bens alimentares. Creio que estão a ignorar o problema central subjacente – que é a inflação monetária. Mais dinheiro procurando o mesmo montante de bens. Não sei, sinceramente, se o governo está a falar do controlo de preços como uma solução real, ou apenas a dizer ao público que estão a fazer alguma coisa. É claro que o controlo dos preços não resolverá os problemas e apenas criará novos problemas.

P: Fala de que há mais dinheiro do que bens no mercado, mas entramos nos centros comerciais e vemos mais empregados do que clientes, lojas literalmente às moscas, e mesmo em espaços mais populares junto da classe média, como o Ikea, pessoas a dormir no mobiliário exposto do que a fazer compras. Não é um paradoxo?
R: É algo que eu ainda tento perceber.

P: Como é que avalia as recentes medidas para o sistema bancário dentro da linha de “arrefecer” a bolha?
R: Aumentar o rácio de reservas é uma medida no sentido certo, porque atua nos empréstimos e na criação de moeda. Mas não será de grande utilidade se cada vez mais liquidez continuar a ser injetada no sistema em virtude do mecanismo de peg. O Banco Central tenta esterilizar as suas compras de reservas cambiais estrangeiras, mas não é uma solução de longo prazo.

Patrick Chovanec é americano e professor associado na Escola de Economia e Gestão da Universidade de Tsinghua, em Beijing, onde leciona o Programa Internacional de MBA. É licenciado pela Universidade de Princeton e tirou um MBA em Finanças na Wharton School da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Acumula mais de 20 anos de conhecimento detalhado da China.

A versão original da entrevista foi publicada em inglês e para este artigo em português foi adaptada.

One Response to “Bloco de Notas sobre a China: I – O dragão da inflação coloca o governo à beira de ataque de nervos”

  1. Não entendo o que o comentário tem a ver com o artigo.
    cumprimentos
    jorge

Leave a Reply

You can use these XHTML tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <blockquote cite=""> <code> <em> <strong>