China: Um ano do boi de alto risco

O novo ano lunar chinês estará sob o signo do boi e incluirá as comemorações da fundação da República comunista por Mao em Outubro de 1949, mas 2009 poderá ser tudo menos pachorrento e calmo, e o signo poderá virar zangado.

“O novo ano tem todo o potencial para ser o mais complicado, economicamente, depois da crise asiática de 1997”, diz-nos David Shambaugh, professor de ciência política e relações internacionais, director do Programa sobre a China na Universidade de George Washington, em Washington, e foi editor do prestigiado jornal científico ‘The China Quaterly’.

A desaceleração da taxa de crescimento ao longo de 2008 foi sintomática: 10,6% no primeiro trimestre, 10,1% no segundo, 9% no terceiro e abruptamente uma descida para 5-6% no último trimestre. “Se esta tendência se mantiver – e há todas as razões para o crer – não creio que a economia chinesa cresça de acordo com as previsões que têm sido divulgadas. Poderá crescer 1 ou 2 por cento, ou até estagnar”, afirma-nos, por seu lado, o analista Gordon Chang, que foi advogado de negócios em Hong Kong e Xangai, e que se tornou mediático depois da publicação de um livro polémico, O Próximo Colapso da China.

Os efeitos deste plano inclinado já se fariam sentir: deverão haver uns 200 milhões de desempregados nas ruas, 9 milhões de trabalhadores migrantes devem ter regressado às suas zonas rurais já este ano, um milhão e meio de licenciados não encontrou emprego à altura dos diplomas; as reservas em divisas estrangeiras deverão ter baixado entre 10 a 20 mil milhões no último trimestre de 2008; o investimento directo estrangeiro caiu de 1/3 desde o Verão passado; e muitos investidores fizeram sair os seus capitais em direcção a Hong Kong.

Chang, cujo pai era da província chinesa de Jiangsu (que fica a norte de Xangai), descarta, por isso, como ainda “optimistas” os prognósticos do Banco Mundial que fala de um abrandamento para a ordem dos 7,5% ou de Dominique Strauss-Kahn, o presidente do Fundo Monetário Internacional, que aponta um patamar de 5-6% para o crescimento chinês.

O esgotamento do modelo dual

Uma aterragem perigosa deste tipo vai significar o primeiro ano sério de crise do modelo exportador chinês, que transformou aquele país num dos mais abertos do mundo (38% do PIB depende da exportação, um ponto percentual mais do que a abertura ao exterior portuguesa) e o mais rico em liquidez (detém as maiores reservas em divisas estrangeiras; o dobro do Japão e mais do triplo das da União Europeia).

Chang não acredita numa mudança rápida deste modelo, nomeadamente com o disparo do consumo interno, apesar do crescimento da classe média – as estimativas falam de 150 milhões de chineses com um poder de compra equivalente ao PIB de Espanha ou do México. “Sem dúvida que a China acabará por ter uma economia de consumo, mas não chegará lá a tempo de poder tirar a economia do actual arrefecimento. Isso requer mais de uma década”, sublinha-nos. “Aliás, os gastos de consumo são apenas 35% da economia e têm vindo a emagrecer, depois de representar 50% em 2005”, remata numa entrevista que pode ser consultada em inglês.

Chang é, também, crítico do outro braço do modelo dual ensaiado pela China – “a economia do cimento”. A ideia de estímulos orçamentais na China está muito enviesada para as obras, dentro da convicção do seu efeito multiplicador. Mas a realidade, por vezes, é de um absurdo caricato: “Nesta minha última visita, no Verão, à terra do meu pai ficámos num magnífico hotel de 18 andares, novinho em folha…onde, virtualmente, eu e a minha mulher parecíamos ser os únicos clientes. Havia, também, um palácio de ópera para abrir. Este cimento todo poderá não alterar grande coisa no essencial no longo prazo”.

Os efeitos do pacote público de 4 biliões de yuans (416 mil milhões de euros, 8% do PIB chinês em paridade de poder de compra) previsto para minorar os efeitos da crise “só deverão começar a sentir-se em 2010”.

Mas estes desafios são vistos, pelo contrário, por Shambaugh como “uma bênção disfarçada”. E explica-se: “Este choque oferece a possibilidade de recalibrar e reajustar a economia. É algo em que o primeiro-ministro Wen Jiabao tem vindo a insistir desde há vários meses”.

Paralisia ou adaptação

A superação do esgotamento deste modelo implicaria, agora, passos em frente na política de reformas, algo irónico no ano em que passarão 20 anos sobre o massacre de Tiananmen de 1989. “Mas isso não acontecerá no quadro do actual sistema político. Mais reformas ameaçariam o poder do Partido Comunista”, diz Gordon Chang, que, também, não acredita que a China possa preencher os desejos ocidentais de uma maior intervenção na resolução da crise internacional através do G20. “A China vai ter demasiados problemas internos com que se entreter. As expectativas ocidentais são muito excessivas”, conclui.

Em contraste, para David Shambaugh, a actual crise não será catastrófica para o poder: “Já lidaram com situações muito piores no passado e o governo dispõe hoje de ferramentas económicas, sociais, políticas e de segurança”. Aliás, ele publicou em 2008 o polémico China’s Communist Party: Atrophy & Adaptation, onde salienta precisamente a capacidade de resiliência, adaptação e relativa longevidade do partido único que governa a China desde 1949.

O peso político da Chimerica

O cordão umbilical comercial e financeiro entre a China e os Estados Unidos é tão óbvio que Niall Ferguson, um historiador económico americano da Universidade de Harvard, já baptizou esta relação de «Chimerica». Uma realidade dramaticamente mais importante, no curto prazo, do que a «Chindia» (China + Índia) que outros analistas referem com entusiasmo.

Os dados falam por si: segundo a Comissão chinesa de Reforma e Desenvolvimento Nacional, a China fechará o ano de 2008 com um excedente comercial recorde de 280 mil milhões de dólares que equivalerá, na outra face da moeda, a um défice gigante (provavelmente uns 60% do excedente chinês) no seu principal parceiro comercial, os EUA. Este excedente chinês decuplicou desde 2003. Isso fez aumentar as reservas em divisas estrangeiras num valor de 415 mil milhões de dólares. As previsões é que aumentem em 2009 mais 177 mil milhões, um número muito mais baixo, mas mesmo assim elevado.

Como compensação, Beijing é o maior financiador do cliente americano, detendo 21% da divida nacional dos Estados Unidos na mão de estrangeiros, à frente dos japoneses desde Setembro de 2008. Se lhe juntarmos a sua posição em outros títulos americanos, a China deverá deter 10% de toda a dívida pública americana (incluindo a detida por entidades nacionais dos EUA).

Deste modo, qualquer decisão financeira da China em relação aos Estados Unidos será sempre política e não estritamente técnica em termos económicos.

Um primeiro passo político experimental foi, agora, noticiado – o Banco Central chinês vai lançar um projecto piloto em que o dólar americano vai deixar de ser a divisa obrigatória de transacções sendo substituída pelo yuan em trocas entre a província de Guangdong (Cantão) e a região do Delta do Rio Yangtsé (que banha o sul da província de Jiangsu e a região de Xangai) com as regiões administrativas especiais de Hong Kong e Macau. Também os exportadores na Região autónoma de Guangxi e na Província de Hunan poderão usar a moeda chinesa nas trocas com países membros da ASEAN.

ENTREVISTA – CONVIDADO ESPECIAL

Michael Pettis, professor de Finanças na Escola de Gestão de Guanghua, Universidade de Beijing

«Beijing tem de evitar a tentação de 1930»

Recordando Keynes: “Compete ao país com maiores excedentes comerciais liderar com inteligência a mudança.”

A principal lição de geoeconomia da crise dos anos 1930 é paradoxal: os países que tiveram de fazer ajustamentos mais dolorosos foram os que detinham uma vantagem comercial, recorda Michael Pettis, um americano especialista em Finanças actualmente professor em Beijing e que dirige o blogue China Financial Markets.

De um momento para o outro, estes casos de excelência no comércio internacional tornaram-se vítimas do seu próprio êxito. Viram-se a braços com uma crise de superprodução e um retraimento brutal em relação ao consumo excessivo dos seus clientes nos ‘loucos anos 1920’. O pior erro político nessas circunstâncias foi não reconhecer este desequilíbrio insustentável e tentar, através do proteccionismo – adoptando políticas de desvalorização competitiva para fomentar exportações e levantando barreiras às importações –, “exportar” a crise para os clientes. O que gerou uma reacção proteccionista em cadeia – o comércio internacional contrairia em 70% entre 1930 e 1933. A crise internacional agravou-se ainda mais e agiu como um «boomerang» nos países excedentários.

Ironicamente foi isso que aconteceu nos anos 1930 com os Estados Unidos que tinham excedentes comerciais gigantes em relação aos seus clientes ricos da Europa. Na presidência de Herbert Hoover (1929-1933), o Congresso aprovou, em 1930, uma lei proteccionista que ficou conhecida como “Smoot-Hawley“. E a nova presidência de Franklin Delano Roosevelt (1933-1945) não corrigiu o tiro. Os EUA continuaram a ter durante a década (com excepção apenas de 1936) excedentes comerciais na ordem de 19% das exportações, mas o resultado foram duas depressões quase seguidas que se estenderam até meados de 1938.

Papéis trocados

O paradoxo é que isso poderá acontecer hoje entre a China superavitária e os EUA ultra-deficitários que acabam de sair de uma ‘bebedeira’ consumista e de duas ‘bolhas’ financeiras. “Os papéis foram trocados”, diz-nos Pettis, que publicou, recentemente, um artigo na revista Newsweek sugestivamente intitulado ‘What China Can Learn from 1929’.

“A tentação chinesa para uma política do tipo Smoot-Hawley com cores chinesas será desastrosa para o comércio mundial e sobretudo para a própria China”, sublinha. O debate entre as duas linhas está aceso dentro do aparelho de poder chinês e 2009 será o ano decisivo em que se verá em que sentido evoluirá a política de Beijing.

O desafio da gestão deste problema é colossal: “Lembremo-nos que a superprodução chinesa actual é, grosso modo, idêntica, em termos de PIB, à superprodução dos anos 1930 nos EUA. Mas o peso do PIB americano da altura (em paridade de poder de compra) no PIB mundial era mais do dobro do peso actual do PIB chinês. A China vai ter de suportar um ajustamento muito maior”, conclui Pettis. E, se tivermos em conta o conselho do inglês John Maynard Keynes, durante a crise dos anos 1930, compete ao país com maiores excedentes comerciais liderar com inteligência a mudança.

One Response to “China: Um ano do boi de alto risco”

  1. Vamos supor que o músico que agora escreve morasse na Europa e tivesse um débito para com o ilustre articulista de mil euros. Questões culturais atormentariam o músico todas as noites, enquanto a dívida não fosse liquidada. Mas subitamente, me vejo como devedor de um grupo de articulistas em mais de dez mil euros… Ora, nesse caso, questões culturais atormentariam os articulistas enquanto o músico não lhes liquidasse a dívida.
    Esse é o dílema do mundo pós-moderno: A dívida é impagável nos dois sentidos: Tanto no sentido lato quanto no sentido figurado:
    tanto nos faz rir quanto chorar…
    MarcFlav

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