Fórum anual da Reserva Federal: Bernanke faz balanço de política monetária anti-crise

Acto I: Recorrer a políticas monetárias não convencionais é um imperativo dos bancos centrais

“Parece-me claro, baseado nesta experiência, que tais políticas [não convencionais] podem ser eficazes e que, na sua ausência, a recessão de 2007 a 2009 teria sido mais profunda e a atual retoma seria ainda mais lenta do que atualmente está a ocorrer”, afirmou Beb Bernanke, presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed), no discurso de abertura do fórum daquele banco central em Jackson Hole, que decorre desde sexta-feira.

Os analistas esperavam “sinais” concretos do que a Fed poderá decidir na sua próxima reunião de 13 de setembro. Mas neste encontro de reflexão anual naquela estância de veraneio turístico no estado do Wyoming, Ben Bernanke resolveu alinhar os efeitos positivos da sua política anticrise e argumentar, contra os críticos, que as medidas “não convencionais” usualmente designadas por “alívio quantitativo” resultaram.

A expressão, em inglês, dá pelo nome de quantitative easing e é mais conhecida pelo seu acrónimo QE. Até à data houve dois programas desse tipo, um que começou em finais de 2008 (depois do pico da crise financeira) e se estendeu até 2010, e outro entre o final de 2010 e meados de 2011.

Considera-se que o quantitive easing foi primeiro tentado pelo Banco do Japão. A expressão 量的金融緩和 (ryōteki kin’yū kanwa) foi usada, pela primeira vez, numa publicação daquele banco central reclamando a sua adopção em março de 2001.

No caso dos EUA, durante esta crise iniciada em 2007, a Fed comprou um montante predefinido em valor de títulos do Tesouro nas mãos de investidores que haviam considerado esses títulos como “valores seguros”, libertando, assim, liquidez para os investidores poderem optar por investir em outros ativos que poderão ter repercussão positiva na economia real.

Cábula para Mário Draghi

A dança sobre se a Fed lança ou não um terceiro programa desse tipo – um QE 3 – vai continuar nos comentários dos analistas e a incerteza manter-se-á entre os investidores financeiros. Certamente até 13 de setembro e, segundo muitos, até depois das eleições presidenciais norte-americanas, cujo resultado é incerto.

Mas uma coisa é certa – Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu, suspendeu a sua ida a Jackson Hole, mas Bernanke fez-lhe um favor. Defendeu que os bancos centrais, mesmo quando já não dispõem de muita margem de manobra nas medidas convencionais de política monetária, na manipulação das taxas de juro de referência, podem e devem deitar mão de medidas “não convencionais”, que têm riscos e custos, mas que são indispensáveis para lidar contra grandes recessões.

Draghi não esteve presente no fórum do seu colega e deixou o seu recado político contra os “extremos” num artigo publicado no jornal alemão Die Zeit na semana passada. Mas Jens Weidemann, o presidente do Bundesbank (o banco central alemão), e principal opositor do italiano no conselho de governadores do BCE, ouviu, de viva voz, o discurso de Bernanke intitulado “Política Monetária desde o começo da crise”.

Os resultados macroeconómicos positivos das políticas monetárias da Fed, disse Bernanke, elevaram em cerca de 3% o produto e ajudaram a criar mais dois milhões de empregos nos Estados Unidos (ver Acto II).

Políticas sem precedentes históricos

O uso de políticas monetárias “não convencionais” durante uma grande crise financeira e económica é uma estreia histórica, recorda Bernanke. Não tem precedentes. Pelo que os banqueiros centrais estão a “aprender fazendo”, diz ainda. Segundo os teóricos monetaristas, durante a Grande Depressão de 1929 a 1938, nem mesmo durante os anos de “determinação rooseveltiana”, ao longo do primeiro mandato do presidente Franklin Delano Roosevelt, se enveredou pela heterodoxia.

Por isso, Bernanke, que, como académico, foi um estudioso desse período, não deixou de citar James Tobin, que sugeriu em 1965 que um programa de compras de títulos de longo prazo em larga escala (uma outra forma de falar do “alívio quantitativo”) poderia ter ajudado a América a sair da Grande Depressão. Bernanke cita também um dos seus gurus, Milton Friedman, o papa do monetarismo, que argumentou em 2000 que o Banco do Japão, depois de uma década de crise, deveria ter aplicado tal tipo de medidas para debelar a deflação profunda de que ficou prisioneiro.

O próprio Bernanke, quando ainda não era presidente da Fed, falou da “determinação rooseveltiana” e aconselhou o Japão a “experimentar, a fazer, em suma, tudo o que seja necessário para colocar em marcha, de novo, o país”. O que motivou a piada recente do Nobel Paul Krugman escrita no seu mais recente livro “Acabai com esta crise já!”: “infelizmente, Bernanke, enquanto presidente da Reserva Federal, não seguiu o conselho do professor Bernanke [enquanto professor da Universidade de Princeton]”.

Aos que exigem ainda mais da política monetária, como Krugman, o presidente da Fed recorda que esta não pode substituir-se a “uma política económica mais ampla”, da responsabilidade dos governantes, e “em particular não pode neutralizar os riscos orçamentais e financeiros”. O que não impede que, cada vez mais, os políticos e os analistas vejam os bancos centrais e as políticas monetárias “não convencionais” como a salvação e a única política de último recurso em campo, referiu, recentemente, William White, economista canadiano chefe do Departamento Económico da OCDE e um dos críticos das políticas dos bancos centrais durante o período da “bolha” especulativa quando era economista-chefe do Banco de Pagamentos Internacionais.

Acto II: O balanço macroeconómico: +3% no produto e + 2 milhões de empregos

O presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed) disse ontem no fórum anual de reflexão reunido em Jackson Hole que a política monetária de resposta à crise que seguiu desde 2008 teve efeitos positivos no plano financeiro e na economia real.

Face ao desenrolar da grande crise financeira iniciada em 2007, a Fed, já chefiada por Ben Bernanke (desde 2006), começou por agressivamente usar as armas “convencionais”, cortando a taxa de referência dos juros (Federal funds rate) de 5,75% em agosto de 2007 para 2% na Primavera de 2008 e chegando a um limiar excecionalmente baixo em dezembro de 2008 ao instituir uma banda entre 0% e 0,25%, que permanece até hoje.

Aruação que, segundo as comunicações das reuniões mensais da Fed, poderá estender-se “pelo menos até tarde em 2014″ – o que dá um horizonte de ainda mais dois anos a uma política excecional de emprestar dinheiro aos bancos quase de borla, a juros perto de 0% em termos nominais (já que, em termos reais, tal nível de juros é francamente negativo, tendo em conta uma inflação média que poderá rondar, este ano, os 2% em termos anuais).

“Alívio” de crédito somou 2,75 biliões de dólares

No entanto, a Fed não se ficou pelo arsenal convencional. Colocou em campo a sua própria bazuca, os programas de “alívio quantitativo” (quantitative easing na designação em inglês, acrónimo QE) de compra massiva de títulos de longo prazo. O primeiro QE rondou 1,75 biliões de dólares em duas vagas, e o QE 2 somou mais 600 mil milhões. No verão de 2011 lançou um outro tipo de programa designado por “Operação Twist” que dura até final deste ano e que envolverá mais 400 mil milhões. Ou seja 2,75 biliões de dólares, mais de 18% do PIB anual dos Estados Unidos.

Ben Bernanke alega, com números, que as medidas “não convencionais” deram resultados positivos. Primeiro do que tudo fazendo baixar as yields dos títulos do Tesouro de longo prazo. O efeito cumulativo terá sido de “80 a 120 pontos base na yields dos títulos do Tesouro a 10 anos”, refere, o que considera “muito significativo”.

Olhando para o curso descendente das yields destes títulos, verificamos que, no mercado secundário, caíram de 4,5% em agosto de 2007 (quando os primeiros sinais de crise surgiram), para 3,8% em agosto de 2008, 3,45% em agosto de 2009 (já depois de lançado o QE1), 2,46% em agosto de 2010, 2,176% em agosto de 2011 (depois de lançado o QE2) e 1,548%, no fecho de agosto de 2012, um nível historicamente muito baixo que revela que estes títulos são considerados pelos investidores valores seguros, mesmo remunerando pouco.

Dois milhões de empregos criados

Bernanke considera, ainda, que o efeito no mercado bolsista foi muito importante, tendo travado em março de 2009 o crash. No plano da economia “real”, o presidente da Fed alega que “até 2012, as duas primeiras rodadas de compras em larga escala de títulos de longo prazo podem ter elevado o nível do produto em cerca de 3% e aumentado o emprego privado em mais de dois milhões de empregos, em relação ao que poderia ter acontecido”, se tais medidas não tivessem sido tomadas.

Acrescenta, ainda, que “até julho [deste ano], a taxa de desemprego caiu do seu pico cíclico de 10% para 8,3% e que a folha de salários aumentou em 4 milhões de empregos desde o seu ponto mais baixo”.

Alega ainda que os efeitos deflacionários não ocorreram no índice de preços e que o fantasma do efeito inflacionista (abrindo a porta a uma espiral hiperinflacionista) agitado pelos críticos que o acusam de “planeamento central da economia” também não se verificou. A inflação nos EUA continua em torno dos 2%.

Ben Bernanke refere que efeitos próximos foram encontrados para o mesmo tipo de programa levado a cabo pelo Banco de Inglaterra. O QE no Reino Unido teria tido um efeito real de 1,5% a 2% no produto. O efeito inflacionista teria sido apenas de 0,75% a 1,5%.

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