“Comparar com 1929 é um erro”

“A Grande Depressão de 1929 é o ‘modelo’ errado de comparação para a actual crise de crédito global!”, exclama o historiador económico Scott Reynolds Nelson, contra a opinião corrente entre analistas e políticos. Este professor do departamento de História no Colégio de William & Mary, na Virginia, nos Estados Unidos, afirma que temos de recuar ainda mais no tempo, até ao final do século XIX, para redescobrir uma outra Grande Depressão gerada por causas similares à actual que se iniciou em 2007.

O regresso aconselhado na História leva-nos quase para um século e meio atrás, algo do qual não há a menor memória histórica hoje em dia.

Scott Nelson recorda a Grande Depressão entre Outubro de 1873 e Março de 1879, a maior de sempre registada nos tempos modernos, de agonia durante 65 meses, que, três anos depois, seria seguida pela crise de 1882/1885. No conjunto desta dupla assinatura, foram quase nove anos de parto de uma nova ordem económica com a transição de “uma produção baseada nas artes e ofícios para uma assente nos fluxos” e em que se assistiu ao nascimento “das economias de escala guiadas por uma concentração e consolidação jamais vista”, surgindo os novos barões da indústria americana como Andrew Carnegie, o rei do aço, e John D. Rockefeller, o rei do petróleo, frisa-nos o historiador.

No plano simbólico, a depressão ocorreu no meio de uma “invasão americana” de produtos agro-industriais por toda a Europa, e particularmente na Inglaterra, a superpotência da altura, que devastaram o complexo cerealífero da Europa Central e que levaram o Reino Unido a tornar-se dependente das importações alimentares dos Estados Unidos, país que começou a amealhar excedentes na balança comercial. A que se associou uma consequência geoeconómica perturbadora, acrescenta o historiador: “uma mudança do centro de gravidade do crédito mundial da Europa para os Estados Unidos”.

Scott publicou um artigo na The Chronicle Review sobre esta comparação com 1873 que teve um efeito inesperado na comunidade académica e financeira, e que pode ser lido aqui.

Semelhanças chocantes

A depressão começada no último trimestre de 1873 teve raízes financeiras como a actual. Rebentou “num contexto com padrões similares que tornam óbvia a comparação”, recorda-nos Scott. Basta recordar duas das traves mestras: uma ‘bolha’ imobiliária sem paralelo em França e nos dois novos impérios emergentes, a Prússia e a Áustria-Hungria, e um disparo inacreditável (para a época) de veículos financeiros ‘tóxicos’ inventados para o financiamento do boom ferroviário americano que eram difíceis de avaliar no seu real valor, mas que eram publicitados nos jornais em grandes parangonas como o caminho mais rápido para um retorno financeiro apetecível para quem os incluísse no seu portefólio de investimentos. “Estes produtos eram negociados por todo o mundo e inclusive 2/3 destes títulos estavam nas mãos de estrangeiros”, adianta o nosso interlocutor.

O primeiro sinal de fim de festa foi o crash da bolsa de Viena de Áustria em Maio de 1873. E, a dado momento, todo o esquema financeiro global rebentou: o evento do tipo Lehman Brothers da época foi o estoiro da casa financeira de Filadélfia, uma das líderes da euforia ferroviária americana, a Jay Cooke & Company, na ‘quinta-feira negra’ de 18 de Setembro de 1873. “Subitamente verificava-se, na rua, que muitos activos financeiros eram imaginários e portanto tóxicos. A crise de crédito contagiou toda a actividade económica e seguiu-se um crash bolsista”, sublinha o historiador, que prepara para 2010 o lançamento de um novo livro intitulado ‘Crash: An Uncommon History of America’s Financial Panics’.

Em horas, nomes fortes da Wall Street nova-iorquina caíram no meio do pânico geral e de uma vã corrida à liquidez. O governo americano anunciou comprar 10 milhões de dólares daquele ‘lixo tóxico’, mas o efeito, surpreendentemente, foi a continuação da queda bolsista, e a 20 de Setembro a New York Stock Exchange teve de suspender a negociação pela primeira vez na sua história. Entretanto, o governo americano, sob pressão dos barões da indústria (Cornelius Vanderbilt, Henry Clews e outros) que se haviam reunido com o presidente Ulysses Grant (presidente entre 1869 e 1877) num hotel da 5ª Avenida nova-iorquina, havia comprado 13 milhões de dólares de títulos aflitos e esgotara a sua capacidade de injecção financeira. A crise de crédito subsistiu e destrui uma boa parte do tecido económico americano nos meses seguintes. Em algumas grandes cidades americanas, o desempregou chegou aos 25% da população activa.

A via de ‘saída’ da tormenta, aparentemente, teve, então, dois desenvolvimentos: os principais bancos de Nova Iorque formaram um Clearing House Committee, que acabou por ser um caminho para a reconstrução dos mercados de crédito; e o presidente americano rejeitou em 1874 uma lei do Congresso insistindo na impressão de mais dólares para inundar os mercados e acabou por pressionar os legisladores no sentido de se indexar o dólar ao ouro em 1875. De qualquer modo, a recessão duraria, ainda, mais quatro anos e a América seria sacudida por um movimento grevista sem precedentes e por intervenções repressivas do governo, nomeadamente já na vigência do novo presidente americano Rutherford Hayes (1877-1881), contra os ferroviários. No Verão de 1878 a bolsa recomeçou a animar-se e o investimento nos caminhos-de-ferro regressou no ano seguinte.

Esta recessão foi baptizada como a 1ª Grande Depressão da economia capitalista saída das revoluções industriais – foi muito mais longa do que a posterior de 1929/1933.

Uma outra história em 1929

Tornou-se hoje moda falar da crise de 1929/1933, que é usada para todo o tipo de comparações em termos de evolução da contracção da produção, do comércio internacional ou da evolução da derrocada bolsista. Usa-se 1929, também, como referência para políticas públicas que não teriam sido logo postas em marcha, mas sim tardiamente adoptadas.

Contudo, no plano das causas, a Grande Depressão iniciada em 1929 foi gerada por uma crise capitalista clássica de sobreprodução (excesso de oferta de bens que não encontravam suficiente procura) e num contexto de altas taxas aduaneiras com um proteccionismo elevado, dois aspectos que não ocorreram nos anos 1870, nem agora, refere o historiador. “Só por volta de 1931, a crise de sobreprodução se tornou então uma crise bancária. Foi um processo bem distinto”, acentua Scott Nelson. No plano político, com repercussões financeiras globais, como cedo avisou o economista inglês John Maynard Keynes em ‘As Consequências Económicas da Paz’ (escrito em 1919), o acelerador de 1929 foi um fardo excessivo de indemnizações de guerra a pagar pela Alemanha imperial então derrotada na 1ª Guerra Mundial, que conduziram a um período de hiperinflação e de bancarrota (a famosa República de Weimar de 1921 a 1923) naquele país e a um efeito devastador nas reservas de ouro inglesas.

Face à diferença entre estas duas grandes depressões – iniciadas em 1873 e 1929 – é de admitir que as lições de política económica e financeira para combater as suas causas sejam, por isso, necessariamente distintas.

One Response to ““Comparar com 1929 é um erro””

  1. Li muito sobre a crise financeira global e este é o primeiro artigo que encontro que faz tal tipo de comparação, inclusive muito bem fundamentada. Eu o reproduzi no The Blogger. Um abraço e sucesso!!!

    Luis Hipolito @ The Blogger
    Administrador/Blogueiro
    Feira de Santana/Bahia/Brasil

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