Comunidade de informações dos EUA preocupada com gestão da crise na Europa

A Europa é “um caso especial” entre os diversos riscos que podem marcar a evolução da geopolítica e da economia mundial até 2030 e o seu futuro “é muito incerto”. A constatação é do National Intelligence Council (NIC) dos Estados Unidos, que funciona como um conselho de reflexão geoestratégica da Administração em Washington DC. A razão para a preocupação da comunidade dos serviços de informação norte-americana deriva do atual modelo de gestão da crise na Europa que é “insustentável no longo prazo”, o que a leva a dizer que “a Europa é um ator inerentemente imprevisível”.

À atual “atmosfera de crise” na Europa junta-se a fragmentação do seu espaço económico e a volatilidade nos mercados financeiros que podem prosseguir “durante grande parte” do período até 2030. Além do mais, uma das previsões do NIC é que a atual crise sistémica iniciada em 2007 possa durar uma década e a cauda dos seus efeitos nos países desenvolvidos – abrangendo a Europa – se possa estender ainda por mais anos.

O arrastar da crise na Europa, adverte o NIC, tem ainda um impacto negativo no seu papel de estabilizador de crises nas regiões fronteiriças a sul e a leste, empurrando estas regiões para uma maior dependência junto de outras grandes potências emergentes.

Num cenário pessimista, a União Europeia poderá continuar “mas como uma concha vazia à volta de um continente fragmentado”.

O “cisne negro” grego

A falta de capacidade hegemónica dos Estados Unidos torna a resolução da crise mais complicada, tal como aconteceu aquando da Grande Depressão dos anos 1930, em que havia “um vácuo”, com o declínio do poder global britânico e a proliferação de várias grandes potências no jogo.

Um dos eventos de alto risco identificado pelo NIC é uma saída caótica da Grécia do euro, que poderá ter “um estrago colateral oito vezes superior” ao provocado pela declaração de falência do Lehman Brothers em 2008. Esta possibilidade é mesmo encarada pelo NIC como um dos oito “cisnes negros” até 2030.

O declínio do poder global relativo da Europa vai, também, acentuar-se. As sete novas economias emergentes – Bangladesh, Coreia do Sul, Egito, Filipinas, Indonésia, Irão, México, Nigéria, Paquistão, Turquia e Vietname – avaliadas em conjunto, referidas por Jim O’Neill, da Goldman Sachs, no seu último livro (“The Growth Map”), ultrapassarão em poder global a União Europeia cerca de 2030, o que será um choque psicológico tremendo. É uma convergência de eventos nada simpática.

O NIC, criado em 1979, apoia o diretor nacional de informações que reporta diretamente ao presidente na Casa Branca. A par do trabalho classificado que desenvolve, o organismo publica, desde 2000, de quatro em quatro anos, após as eleições presidenciais, um documento de análise de tendências globais, que, este ano, se intitula “Global Trends 2030: Alternative Worlds” e que saiu agora em dezembro. O primeiro relatório foi publicado em 1997, seguindo-se um longo interregno.

O principal autor do relatório e coordenador é Mathew Burrows, atual diretor da Longa Range Analysis Unit do NIC e que foi nos anos 1980 analista da CIA acompanhando a Europa Ocidental. O modelo utilizado pelo relatório é o International Futures Model do Frederick S. Pardee Center for International Futures da Josef Korbel School of International Studies da Universidade de Denver.

Transição com muito nevoeiro

A ideia central do relatório deste ano é que a história atravessa um ponto de articulação crítico, um momento de transição, que pode gerar futuros muito diferentes, tal como em outras épocas, desde o século XIX, em 1815, após a segunda abdicação de Napoleão Bonaparte, e em 1919 e em 1945 após as guerras mundiais, e em 1989 após a queda do Muro de Berlim que gerou um curto momento de “poder unipolar” dos EUA, o período da “superpotência sózinha”.

Para identificar o que marca este período de transição atual “cheio de nevoeiro”, o NIC identifica quatro megatendências, seis mudanças de jogo e alterações tectónicas que poderão ser lidas em detalhe no relatório já referido.

Do exercício saem quatro cenários, dois plausíveis, um mais pessimista (com o recrudescimento de conflitos entre grandes potências, ainda que o risco de uma guerra mundial seja considerado baixo) e outro mais otimista (nomeadamente de cooperação entre os EUA e a China), e dois surpreendentes, um de caos e outro em que os atores não estatais dominam a ribalta.

Com mais ou menos otimismo, há uma megatendência que marca esta transição – uma maior difusão do poder global, com a ausência de uma grande potência hegemónica e o crescimento do poder das redes e das alianças e coligações de estados e outros atores. Os EUA serão a primeira grande potência entre pares, perdem o seu poder hegemónico e podem inclusive correr o risco de esticarem demasiado a sua ação em múltiplas frentes. E a China, que se transformará na primeira economia do mundo, não mostra sinais de querer avançar com uma projeção global que desafie o papel norte-americano de “fornecedor de segurança global” no sistema internacional.

Contudo, o poder global deslocar-se-á para a Ásia e para o Sul, invertendo os efeitos da primeira vaga longa de globalização iniciada pelos portugueses e que conduziria a uma sucessão de potências hegemónicas desde o século XVI centradas a Ocidente e no hemisfério norte. As locomotivas de crescimento mundial vão refletir essa deslocação tectónica. O eixo dos Oceanos Índico e Pacífico tornar-se-á a rota dominante.

Esta difusão do poder implica inclusive linhas de fratura no seio do G7 (as sete economias mais desenvolvidas) e dos BRIC (grupo das quatro principais economias emergentes) e a afirmação de novos atores regionais, como as sete economias emergentes de que fala a Goldman Sachs ou as nações a despontar de que fala o diretor da Morgan Stanley Ruchir Sharma no seu livro “Breakout Nations”. A realidade vai ficar muito mais multifacetada e complexa. A instabilidade regional e o aumento dos riscos de conflito também. Analistas russos ouvidos pelo NIC falam inclusive de uma situação não só multipolar, como multi-civilizacional.

Outra megatendência é a alteração da natureza do poder, com o aumento do que o NIC designa como poder individual fruto das novas tecnologias, nomeadamente de pequenos grupos, atores não estatais e redes, e o disparo do peso das classes médias. Vão surgir 2 mil milhões de novos consumidores, sobretudo a partir das classes médias das economias emergentes. Uma oportunidade económica gigante no consumo e também no aumento da urbanização e da suburbanização (incluindo o que se designa como urbanização rural) arrastando o crescimento do negócio de infraestruturas e do imobiliário, que “poderão igualar grosso modo todo o volume de construção até à data na história mundial”. Oportunidade, também, na gestão da escassez de recursos críticos, como alimentação, água potável e energia.

MEGATENDÊNCIAS & MUDANÇAS TECTÓNICAS

# Nenhum país será hegemónico à escala da política mundial. O poder mundial estará mais difuso. A multipolaridade económica e geopolítica dominará. O segredo é saber gerir alianças e coligações de uma multitude de estados e atores não estatais. O soft power (centrado nos valores, na política, na diplomacia, nas realizações sociais e culturais) vai desempenhar um papel crescente face aos limites do hard power (poder militar, económico e tecnológico). O risco de guerras mundiais como na primeira metade do século XX é, no entanto, baixo.

# O poder global vai sofrer uma deslocação para a Ásia e o Sul. Os países não-membros da OCDE ultrapassarão o poder global dos membros da OCDE em 2030, segundo o novo índice de poder elaborado pelo National Intelligence Council.

# A distribuição global do poder em 2030, na base de 11 indicadores, terá uma hierarquia no topo: cerca de 20% do poder global nos EUA; 15% na China; 7,5% na Índia; 5% no Japão; perto de 5% no Reino Unido; a França, Alemanha e Rússia terão cada uma 3%. Esta distribuição de poder poderá gerar hegemonistas regionais e por zonas de influência na Ásia (China e Índia) e na Eurásia (Rússia).

# Um cenário pessimista poderá implicar um “vácuo” de poder global num curto espaço de tempo.

# A China vai transformar-se na primeira economia do mundo e no principal ator no comércio internacional, passando a ser o principal parceiro comercial de muitos países.

# Os EUA são “uma enorme incerteza”. O momento “unipolar” depois do fim da Guerra Fria acabou e a Pax Americana – desde 1945 – está rapidamente a fechar-se. O mais provável é tornar-se uma primeira grande potência entre pares. Os EUA têm três pontos fracos nesta transição: educação pré-universitária; custos da saúde; défices orçamentais. Pode incorrer num risco de esticar demasiado a sua ação em diversas frentes. O ponto fraco atual do défice energético poderá ser resolvido.

# A Europa é “um caso especial”. O atual modelo de gestão da crise é “insustentável no longo prazo”. À atual “atmosfera de crise” junta-se fragmentação e volatilidade nos mercados financeiros que podem prosseguir “durante grande parte” do período até 2030. O declínio do poder global relativo da Europa vai acentuar-se. As sete novas economias emergentes ultrapassarão em poder global a União Europeia, o que será um choque psicológico tremendo.

# A crise sistémica atual pode durar uma década e os seus efeitos negativos ainda mais anos nos países desenvolvidos gerando situações “desestabilizadoras”. Há riscos acrescidos de afirmação de estratégias mercantilistas e protecionistas “infetando a economia global”.

# Vai haver um disparo da dimensão das classes médias, nomeadamente nas economias emergentes. Vão surgir 2 mil milhões de novos consumidores. Uma oportunidade económica gigante.

# Poderá ocorrer uma escassez de capitais à escala global. Em 2030, haverá um défice de 800 mil milhões a 2,4 biliões de dólares entre os capitais disponíveis e a procura. Haverá uma forte pressão sobre os juros de longo prazo e maiores dificuldades no financiamento do investimento.

# Os novos modelos de avaliação do índice de “poder global” relativo das diversas grandes potências colocam a ultrapassagem dos EUA pela China uma a duas décadas mais para diante do que o previsto nos modelos tradicionais que apontava para 2030 como o momento de viragem. O que cria alguma margem de manobra. O mesmo para a Europa que só será ultrapassada pela China em 2035, em vez de já em 2015. O novo índice de poder global abarca mais de uma dezena de indicadores para além dos tradicionais como PIB, população, tecnologia, gastos em defesa, disponibilidade de armas nucleares e peso no comércio internacional.

# Os EUA dispõem de uma janela de oportunidade nestas duas próximas décadas no campo da energia se explorarem com êxito o petróleo e gás de xisto (shale) que poderá garantir a autossuficiência e transformar o país num grande exportador a partir de 2020, abalando o papel da OPEP e da Rússia. O que reforçará o seu poder global.

# Ainda que o peso de doutrinas ideológicas fortes – como o liberalismo, o comunismo e o fascismo – não esteja no horizonte, há pequenas mudanças político-psicossociais que marcam os comportamentos ainda que podendo não ser classificadas no chapéu da ideologia.

# Metade da população mundial viverá em áreas com stresse severo em recursos de água potável. A inflação nos bens alimentares poderá alimentar disrupções sociais. Alguns países exportadores controlarão as exportações agrícolas, o que só agravará a inflação e a escassez.

# O envelhecimento populacional associado à crise da dívida e à sustentabilidade do sistema de bem-estar social torna particularmente vulneráveis a Europa e o Japão.

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