Crise helénica de 2014-2015 — entrevistas com economistas gregos

As duas primeiras entrevistas deste dossiê foram realizadas antes da terceira volta das presidenciais a 29 de dezembro de 2014, em que o candidato único Stavros Dimas apresentado pelo governo de Antonis Samaras não conseguiu ser eleito no Parlamento com o mínimo de 180 votos dos deputados, e da consequente dissolução do Parlamento e convocação de eleições legislativas antecipadas para 25 de janeiro, que viriam a ser ganhas pelo Syriza que formou governo de coligação, em que Yanis Varoufakis foi chamado para ministro das Finanças e Euclid Tsakalotos para porta-voz dos assuntos económicos.

Por Jorge Nascimento Rodrigues
© JNR 2014, 2015

Entrevista 1: Yanis Varoufakis
Realizada a 10 de dezembro. Versão original publicada na edição diária digital do semanário português EXPRESSO.

«Merkel, Draghi e Juncker traíram o governo grego»

O governo de coligação conservador-socialista em Atenas joga o tudo ou nada agora em dezembro, diz-nos o académico grego Yanis Varoufakis. Berlim, BCE e Comissão Europeia empurraram o primeiro-ministro Antonis Samaras para uma jogada desesperada. Um movimento de alto risco trouxe, de novo, o pânico financeiro para a ribalta. As expetativas viram-se para a primeira volta das eleições presidenciais no Parlamento grego a 17 de dezembro.

A decisão inesperada, e desesperada, na segunda-feira (8 de dezembro) do governo grego antecipar no Parlamento a primeira volta das eleições presidenciais para 17 de dezembro provocou no dia seguinte uma onda de choque nos mercados financeiros. A crise política regressou em pleno à Grécia e o risco político disparou face à alta probabilidade de uma alteração profunda no xadrez parlamentar caso tenham de vir a realizar-se eleições legislativas antecipadas no início de 2015.

A bolsa de Atenas viveu na terça-feira (9 de dezembro) um crash como já não se via desde dezembro de 1987, quase 13% de desvalorização num só dia. A quebra acumulada da capitalização bolsista desde o início do ano já regista 23%, a segunda maior desvalorização à escala mundial depois da Bolsa de Lisboa. Os juros da dívida grega de longo prazo voltaram para níveis acima de 8,6% e o custo de segurar essa dívida contra o risco de incumprimento aproximou-se na quarta-feira de 1000 pontos base, o equivalente a mais de 50% de probabilidade de entrada em bancarrota.

O efeito de contágio nos mercados financeiros, particularmente na Europa, foi assinalável. O índice de pânico financeiro associado ao índice bolsista Eurostoxx 50 saltou de 16 euros no final da semana passada para quase 22 no fecho de ontem. Está ainda distante dom pico de 36 euros atingido no surto de pânico de meados de outubro, mas já entrou numa zona vermelha. O efeito nas bolsas mundiais começou a sentir-se. Elas estão no vermelho há três dias consecutivos. O índice de pânico financeiro em Wall Street, associado ao índice bolsista S&P 500, saltou 24% na quarta-feira, a maior subida diária desde 31 de julho.

Yanis Varoufakis, o académico da Universidade de Atenas, atualmente professor residente na Universidade do Texas em Austin nos Estados Unidos, refere que Berlim, Bruxelas e Frankfurt traíram o governo grego e obrigaram-no a acelerar a crise política. O professor de economia espera que se venha a criar uma “frente dos periféricos”.

O Eurogrupo agitou dia 8 de dezembro um cartão político vermelho a Atenas ao adiar até final de fevereiro uma saída da Grécia do segundo programa de resgate?

Oficialmente, a extensão de dois meses foi apresentada como uma solução política “realista”. Dá tempo para ficar completa a “avaliação do progresso da Grécia”, mas não estende a agonia mais do que o necessário. Na realidade, é uma mensagem clara que Berlim não está interessada em lidar mais com o primeiro ministro grego Samaras até que a situação na Grécia se clarifique.

Em que sentido?

Ou o governo consegue eleger um Presidente da República no quadro do parlamento atual [obtendo os 180 votos necessários para fazer passar o seu candidato Stavros Dimas numa terceiro e última volta], e nesse caso evita eleições legislativas antecipadas, ou vence nas urnas caso as eleições gerais tenham de se realizar por impossibilidade de eleger um presidente. A extensão dos dois meses [dada pelo Eurogrupo] termina exatamente quando um novo governo, liderado pelo atual primeiro-ministro Antonis Samaras, ou um outro, liderado pelo líder da Oposição, Alexis Tsipras, terá de estar em funções.

Foi um diktat da chanceler Merkel?

Claramente, Merkel acha que um novo acordo com a Grécia [sobre a forma de saída do programa de resgate] requer um governo novo ou renovado. No fundo, no fundo, o governo alemão sabe que chegou a hora do embate decisivo com o Syriza de Tsipras. É tão simples quanto isso.

A decisão do governo grego de antecipar as eleições presidenciais é uma jogada de tudo ou nada?

Penso que Samaras foi traído por Berlim e por Frankfurt [alusão ao Banco Central Europeu cuja sede fica nesta cidade alemã]. Samaras vinha prometendo ao eleitorado grego uma “saída limpa” do resgate pelo final deste ano. Ele fez tal promessa aos gregos porque lhe foi prometida a tal “saída limpa”. A estratégia inicial do governo grego era simples: esperar até fevereiro, quando a eleição do Presidente da República teria de ser realizada, anunciar a tal “saída limpa” com grande pompa, e colocar o eleitorado grego perante um dilema: um voto em nós para sairmos imediatamente do pesadelo do resgate, ou um voto no Syriza que será um voto no conflito com a União Europeia que acabará numa saída da Grécia do euro e no caos. Nós ou o dilúvio, tão simples quanto isso.

O que esvaziou essa estratégia?

A promessa de Berlim foi retirada há umas semanas. Samaras sentiu-se traído e os seus próprios deputados e os meios de comunicação que lhe são favoráveis voltaram-se contra ele. Viu-se confrontado com uma escolha difícil. Ou deixar andar e correr o risco de diariamente perder o controlo sobre o seu próprio governo, até que a eleição presidencial se desenrolasse normalmente em fevereiro, uma votação que ele sabe que perderia, empurrando-o para eleições gerais que perderia. Ou avançar já, numa última tentativa para aterrorizar os eleitores. Optou pela segunda opção.

Haveria uma terceira via, ou o governo grego está completamente ensanduichado entre a troika e a Oposição parlamentar e popular?

O movimento que Samaras fez esta semana foi desesperado. Ele nunca equacionou o outro caminho alternativo – o de dizer claramente à Alemanha e a Bruxelas que já chega. Acabar com a grande mentira de que a Grécia está a caminho da retoma e que escapará a uma nova bancarrota, se umas quantas mais reformas e mais um pouco de austeridade for para a frente.

É elevada a probabilidade de eleições legislativas antecipadas?

Politicamente, não há grande possibilidade de que o candidato Dimas consiga os 180 votos necessários na terceira, e última, volta. Mas há outros fatores nos quais joga Samaras. Quase todos, ou a maioria, dos deputados independentes e alguns de dois pequenos partidos de oposição, o Dimar (esquerda democrática, que integrou a coligação liderada por Samaras, mas saiu em junho de 2013) e o Anel (Gregos Independentes, de direita, mas anti-austeridade), não têm grandes hipóteses de ser reeleitos no caso de eleições legislativas antecipadas. Por isso têm todo o interesse em votar Dimas e prolongar a sua carreira parlamentar – e os benefícios associados – por um ano ou mais, até novas eleições que normalmente seriam em junho de 2016. São a única esperança de Samaras.

O crash da bolsa esta semana e o contágio no mercado da dívida soberana são os primeiros sinais de pânico na comunidade de investidores financeiros?

Sim. Aqueles que julgaram que a chanceler Merkel daria o presente a Samaras de uma “saída limpa” antes da eleição presidencial ficaram, agora, em choque. Mas, é claro, que o dinheiro inteligente já tinha abandonado o barco em outubro …

Os juros da dívida vão, de novo, disparar e a probabilidade de uma bancarrota regressar?

As yields das obrigações gregas e o índice da Bolsa de Atenas pouco contam enquanto um novo acordo estiver a ser negociado entre a Grécia e Bruxelas. Se não estiver a ir ao mercado colocar dívida, não interessa a que nível estão as yields no mercado secundário. E, quanto à Bolsa, devemos é estar interessados em saber se as cotações refletem verdadeiros valores – ou se não estamos face a bolhas alimentadas pelo governo e pelo BCE.

O que importa, então?

A prioridade da Grécia deveria ser renegociar o memorando com a União Europeia, aceitando, no entretanto, algum tumulto no mercados monetários, como um preço que tem de ser pago para escapar à fase atual de “prolongar e fingir” para uma etapa genuína de estabilização e crescimento.

E o contágio?

Se isso significar, durante as nossas negociações, que as yields da dívida de Portugal, Espanha e Itália sobem, tanto melhor.

Melhor?

Porque Lisboa, Madrid e Roma serão forçadas a participar criativamente nessas negociações, formando uma frente dos periféricos, de modo a criar uma nova arquitetura da zona euro, que acabe com a asfixia de nações com orgulho em nome de regras fúteis, inexequíveis e misantrópicas.

Poderá vir a surgir um governo estável?

Acredito que sim. A democracia tem sempre os seus caminhos e deve-se respeitar a vontade dos eleitores. Eles são, afinal, os últimos árbitros. Não é o BCE.

Um governo eventual liderado pelo Syriza rejeitará a “oferta” de uma saída do resgate com uma linha de crédito cautelar?

O Syriza, no meu entender, se for governo, deverá rejeitar qualquer euro de novos empréstimos até que o sector público e privado se torne solvente. A tragédia da Grécia – e de Portugal – não é que nos emprestaram muito pouco. É que nos emprestaram demasiado de modo a atirar esse dinheiro para um buraco negro.

De que modo um governo eventual do Syriza poderá realizar compromissos com Bruxelas para evitar volatilidade dos mercados financeiros e risco elevado de incumprimento da dívida?

De muitas maneiras. De qualquer modo, creio que o Syriza não fará compromissos sobre um ponto. O de conseguir um acordo que levante o véu da depressão sobre a economia, a sociedade e gente inocente que está a sofrer indignamente por nenhuma razão justificável.

A Grécia poderá sair do euro em 2015?

Seria um desastre ser forçada a sair. Quer para a Grécia, quer para o euro, e mesmo para a Europa em geral. Não há qualquer necessidade de que isso aconteça. Se a zona euro não consegue sobreviver intata a um governo eleito democraticamente que quer por um ponto final ao sofrimento do seu povo, então tenho dúvidas que seja viável sequer uma União Europeia.

Entrevista 2: Euclid Tsakalotos

“Grécia não vai sair do euro”
Realizada a 26 de dezembro. Versão original publicada na edição diária digital do semanário português EXPRESSO.

A probabilidade da Grécia sair de membro da zona euro é baixa, diz Euclid Tsakalotos, o conselheiro económico do Syriza, o principal partido de Oposição, que poderá ser o vencedor de eventuais eleições legislativas antecipadas no início de 2015. Tsakalotos é professor de Economia na Universidade Nacional de Atenas e deputado pelo Syriza. Está na expetativa – tal como os mercados financeiros – sobre a terceira volta das eleições presidenciais na próxima segunda-feira (29 de dezembro).

Segunda-feira é um dia “D” para a Grécia. Pelas 10h30-11h (hora de Lisboa) de 29 de dezembro já se saberá se os gregos vão ser chamados a votar em eleições gerais no início de 2015, ou se o governo de coligação conservador-socialista se aguenta até final do mandato ou até eleições gerais antecipadas prometidas para o final do próximo ano pelo primeiro-ministro Antonis Samaras. “Na segunda-feira todos ficaremos a saber se o Parlamento elegerá um novo Presidente da República. Se não, o que é o mais provável, haverá eleições no final de janeiro ou na primeira semana de fevereiro de 2015, onde o Syriza certamente será o partido mais votado”, refere-nos Euclid Tsakalotos, professor de Economia na Universidade Nacional de Atenas e deputado pelo Syriza.

O economista admite que a dinâmica eleitoral pode dar a maioria absoluta no Parlamento a este partido de esquerda (151 lugares em 300), tendo em conta o bónus de 50 deputados para o partido mais votado, prémio de que usufruiu Samaras, o líder da Nova Democracia, nas eleições de 2012 e que lhe permitiu formar um governo de coligação com os socialistas do PASOK. Uma maioria absoluta do Syriza sem coligação significaria uma captação esmagadora do voto útil num eleitorado fortemente radicalizado. Outros analistas gregos falam da possibilidade de uma coligação com outras formações de esquerda chefiada por Alexis Tsipras, o mediático líder do Syriza.

A eleição do Presidente da República não é por sufrágio direto na Grécia, mas pelo voto dos deputados. Nas duas voltas já realizadas a 17 e 23 de dezembro, o candidato presidencial único Stavros Dimas, apresentado pelo governo de Samaras, não recolheu o mínimo de 200 votos necessários para ser eleito e ficou aquém dos 180 necessários para passar na próxima segunda-feira. A votação máxima que atingiu na segunda volta foi de 168 votos, fazendo o pleno das duas bancadas que sustentam o governo de coligação e mais 13 votos de independentes que aceitaram a promessa de Samaras de remodelar o governo, integrando independentes, e de convocar eleições legislativas antecipadas para final de 2015, antecipando em seis meses o final da legislatura em junho de 2016.

A crise política aberta pelo governo em Atenas convocando eleições presidenciais antecipadas (de fevereiro de 2015 para dezembro), depois do Eurogrupo fechar a porta a uma “saída limpa” à irlandesa e à portuguesa, agitou, de novo, os juros da dívida grega de longo prazo, a bolsa de Atenas e o risco de bancarrota avaliado pelo mercado dos credit default swaps (seguros financeiros contra a probabilidade de incumprimento da dívida, acrónimo CDS). Os juros das obrigações a 10 anos fecharam em 8,56% no dia 23 de dezembro e o índice ASE da Bolsa de Atenas regista a segunda maior derrocada mundial em 2014 depois do índice RTSI da Bolsa de Moscovo. O preço de segurar a dívida grega está em mais de 1050 pontos base, o equivalente a uma probabilidade de entrada em bancarrota de mais de 55%. Não é tão elevado como o custo dos CDS para a Venezuela que ultrapassa os 3000 pontos base ou para a Ucrânia que está acima de 2000 pontos, mas é mais do dobro do preço para os CDS da dívida russa, que registavam 441 pontos no fecho de quinta-feira.

É realista pensar que Atenas terá um governo estável nos próximos tempos que possa chegar a um acordo com a troika para terminar o 6º exame ao andamento do segundo programa e definir uma saída do resgate em final de fevereiro?

Na segunda-feira todos ficaremos a saber se o Parlamento elegerá um novo Presidente da República. Se não, o que é o mais provável, haverá eleições no final de janeiro ou na primeira semana de fevereiro de 2015, onde o Syriza certamente será o partido mais votado e, na maioria das sondagens, está próximo de obter uma maioria absoluta.

Acha que isso é provável atendendo à fragmentação do espectro partidário?

Teremos de ver qual vai ser a dinâmica da campanha eleitoral e averiguar se o Syriza conseguirá criar um efeito de arrastamento que assegure a maioria absoluta.

O que poderá acontecer à conclusão do 6º exame pela troika?

Depende. Será concluído pelo atual governo se um presidente for eleito agora. Mas se se vier a formar um governo do Syriza haverá renegociação de todo o pacote. O atual programa falhou. Pensamos que a Grécia precisa de um novo começo.

Em que sentido?

Não faz grande sentido discutir a estratégia macroeconómica e as reformas estruturais se nada for acordado em relação à sustentabilidade da dívida grega.

A sequência do final do segundo programa de resgate vai ser o pedido de linhas cautelares ao Fundo Monetário Internacional e ao Mecanismo Europeu de Estabilidade, ou uma segunda reestruturação de dívida, agora basicamente com o envolvimento dos credores públicos?

Uma linha cautelar não faz sentido, se a dívida não for sustentável. O que é preciso é tornar a dívida sustentável.

E como?

Há várias combinações de intervenções para se conseguir esse objetivo. Mas certamente incluirão corte de cabelo na dívida (haircut), um travão nas políticas de austeridade, e uma iniciativa de investimento pan-europeia.

A probabilidade de saída do euro é alta, média ou baixa em 2015?

Muito baixa, no meu entender.

Porquê?

O Syriza apoia uma solução europeia para um problema europeu. E o problema europeu não tem só a ver com a dívida, mas, também, com a arquitetura financeira e económica que, claramente, não é operacional. Sem mudança, a zona euro está em risco face a diversas forças políticas centrifugas. Não está em risco por parte da esquerda, mas por políticas de austeridade socialmente injustas e economicamente desastrosas.

Entrevista 3: George Pagoulatos

Especulação sobre saída da Grécia do euro deve terminar

Diz George Pagoulatos, professor de Política e Economia Europeia na Universidade de Economia e Finanças de Atenas

Os mercados financeiros estão nervosos com a crise helénica e temem uma saída da Grécia do euro se as eleições a 25 de janeiro forem ganhas pelo partido de Oposição de esquerda Syriza e se um compromisso posterior não for alcançado com a troika. O risco de Grexit (saída da Grécia do euro, em inglês) foi agitado por alguns jornais alemães e a volatilidade regressou aos mercados financeiros europeus. O académico independente George Pagoulatos acha que, no caso de uma vitória do Syriza, apesar do espaço ser extremamente limitado, “não há motivo para que não se alcance um acordo de compromisso”.

O jornal alemão “Die Welt” diz esta segunda-feira que o apoio a uma nova reestruturação da dívida grega ganha terreno em Bruxelas, No domingo, o primeiro-ministro holandês Mark Rutte afirmou em entrevista ao jornal “Nu” que uma saída da Grécia seria um acontecimento “bizarro”. A agência de notícias espanhola EFE adianta que Bruxelas se inclina para adiar o final do programa de resgate por mais seis meses.

A Grécia regressou aos radares dos investidores desde meados de outubro quando o Fundo Monetário Internacional e Bruxelas disseram não a uma “saída limpa” do país do segundo programa de resgate. Essa decisão tirou o tapete à estratégia do governo de coligação conservador-socialista chefiado por Antonis Samaras e levou à subida dos juros da dívida a 10 anos, primeiro acima do limiar vermelho dos 7% e depois provocando um disparo até 10%, após convocação das eleições presidenciais antecipadas em dezembro. O candidato único presidencial, apresentado pelo governo e apoiado por Bruxelas, perdeu nas três voltas de votações realizadas no Parlamento helénico, o que obrigou à convocação de eleições legislativas antecipadas para 25 de janeiro.

O risco de bancarrota do país supera hoje os 60% e a rentabilidade anual da dívida obrigacionista grega é negativa, o único caso na zona euro. Em agosto, os juros da dívida grega haviam descido até 5,475%, um mínimo desde dezembro de 2009. Segundo as duas últimas sondagens da Kapa para o jornal “To Vima” e da ALCO para o jornal “Proto Thema”, o Syriza continuava a liderar nas intenções de voto, com 2,6 a 3,2 pontos percentuais de avanço em relação à Nova Democracia, o partido que lidera a atual coligação. Samaras ganhou as eleições de junho de 2012 por 2,6 pontos percentuais em relação ao Syriza.

George Pagoulatos é professor de Política e Economia Europeia no Departamento de Estudos Económicos Internacionais e Europeus, na Universidade de Economia e Negócios de Atenas. É, também, professor visitante no Colégio da Europa, em Bruges, na Bélgica. Em 2011-2012 foi Assessor Sénior e Diretor de Estratégia dos primeiros-ministros Lucas Papademos [primeiro-ministro tecnocrata de um governo provisório entre novembro de 2011 e maio de 2012] e Panayiotis Pikrammenos [primeiro-ministro interino entre maio e junho de 2012]. É formado em Direito pela Universidade de Atenas e doutorado em Política pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, onde foi professor. O seu livro “A Nova Economia Política da Grécia: Estado, Finanças e Crescimento do pós-guerra à UEM”, publicado em 2003, ganhou, então, o prémio da Academia de Atenas para melhor livro de Economia.

Há razão para os mercados financeiros estarem assim tão nervosos com a crise grega?

Os mercados estão nervosos porque há uma grande incerteza sobre o dia seguinte às eleições. Os mercados financeiros continuam a olhar a Grécia através das lentes da periferia da Zona Euro, uma periferia que continuam a considerar como uma fonte de grande risco para a estabilidade do Euro.

Há risco de contágio?

Esse risco é certamente menor do que em 2010 [resgate da Grécia em maio], ou mesmo em 2012 [quando se realizaram em maio e junho duas rondas de eleições legislativas]. Há agora proteções, instituições (como o Mecanismo Europeu de Estabilidade e elementos de uma união bancária) e políticas monetárias (como o programa OMT anunciado pelo Banco Central Europeu em setembro de 2012, etc.) que não existiam.

Podemos estar tranquilos?

Essas novas proteções não são, no entanto, plenamente suficientes para evitar que uma crise se espalhe. Num mundo pós-Lehman Brothers seria uma tolice supor que o risco de contágio pode ser totalmente contido, especialmente em uma união monetária com uma tão profunda interdependência económica e financeira.

O partido de oposição Syriza tem mesmo condições de vencer as próximas eleições gerais a 25 de janeiro, ou a Nova Democracia vai conseguir ganhar novamente, mesmo que por margem curta como ao fim de duas eleições sucessivas em 2012?

Todas as sondagens de opinião disponíveis apontam para uma forte probabilidade de uma vitória do Syriza.

Devido à fragmentação política para além dos dois maiores partidos que bipolarizam 50 a 60% das intenções de voto dos eleitores gregos, mesmo que o Syriza ganhe as próximas eleições por margem pequena, é possível um governo de coligação estável?

Se o Syriza não obtiver maioria absoluta no Parlamento – uma situação que tem uma probabilidade significativa -, então terá que formar uma coligação governamental ou contar com o voto de tolerância dos outros pequenos partidos. Um governo de coligação com qualquer um dos partidos de centro-esquerda parece-me possível – seja o Potami (O Rio), o PASOK, ou o novo partido criado por George Papandreou [ex-líder do PASOK e ex-primeiro-ministro], o Movimento dos Socialistas Democratas. Por outro lado, uma coligação ou o apoio do partido dos Gregos Independentes, de carácter populista – que, no entanto, desta vez, poderá não conseguir sequer votação para entrar no novo Parlamento -, ou do Partido Comunista ortodoxo (KKE) não garantiria estabilidade governativa.

Qual seria a sua recomendação?

Se o Syriza não obtiver maioria absoluta, considero uma coligação com um partido de centro-esquerda como a possibilidade mais provável e mais desejável.

Um governo do Syriza tem espaço para acabar com a austeridade e renegociar a dívida grega?

O espaço é extremamente limitado. Mas não há motivo para que não se alcance um acordo de compromisso.

Em que sentido?

Um acordo em que se altere o perfil da dívida pública, reduzindo o seu valor liquido presente, e que aponte para a implementação de reformas estruturais, garantindo disciplina fiscal, mesmo que com alguma flexibilidade em relação à meta de excedente primário. Eu acho que deve ser alcançado um acordo nesse sentido.

Como é que as entidades europeias (Eurogrupo, Comissão, BCE) devem lidar com a nova situação na Grécia após as eleições?

Acredito que as entidades europeias têm todos os motivos e mais um para se oporem a quaisquer ações unilaterais por parte do novo governo da Grécia. Mas eu não acredito que ocorram ações unilaterais. É óbvio que um país que tem recebido tão extensa assistência financeira deve respeitar alguma condicionalidade.

A troco de quê?

Os parceiros e os credores da União Europeia devem ter em mente que a economia grega implementou uma das consolidações orçamentais mais rápidas da história. O ajuste foi enorme, e todas as organizações internacionais reconhecem a Grécia entre os líderes mundiais em termos de alcance das reformas, embora a derrapagem tenha sido pronunciada. Sem dúvida que mais mudanças de longo prazo devem ser implementadas para modernizar a economia e a política gregas.

Que tipo de mudanças?

É preciso ter em conta que a sociedade grega está esgotada com a intensidade da austeridade, com um desemprego em níveis intoleráveis e com as taxas de pobreza a subirem. Deve continuar a haver, por isso, uma ênfase renovada no aumento da produtividade, em reformas pelo lado da oferta, mas também é necessária uma ênfase no combate à pobreza, no reforço do investimento social, e no alívio da dívida pública.

A avaliação da troika, que deveria ter sido concluída em agosto do ano passado, terminará no final de fevereiro?

Não creio.

O seguimento do segundo resgate vai ter linhas cautelares do Fundo Monetário Internacional e do Mecanismo Europeu de Estabilidade, ou vai ser necessária uma segunda reestruturação da dívida com um envolvimento, agora, dos credores oficiais?

A primeira solução será necessária já no curto prazo. Mas algum alívio da dívida será indispensável e inevitável no longo prazo.

Como é que o BCE, nas suas próximas reuniões de 22 de janeiro e 5 de março, pode ajudar a Grécia?

Um programa de QE [quantitative easing, de flexibilização quantitativa] vai criar um ambiente mais propício para lidar com as tendências deflacionárias na zona euro. A deflação ou a inflação baixa estão a provocar ajustamentos extremamente dolorosos na periferia do euro. Estão a aumentar o peso real da dívida, pública e privada, em direção a níveis insustentáveis.

A Bloomberg revelou na semana passada que os técnicos do BCE apresentaram cenários de compra de títulos soberanos no valor de € 500 mil milhões, mas unicamente se tiverem notação de investimento. Numa opção só com notação de triplo A, mas noutra modalidade incluindo a compra de dívida até rating BBB-. Neste quadro, títulos da Grécia e Portugal ficariam de fora. Deste modo, um QE poderá não servir de nada para a Grécia…

Uma política de flexibilização quantitativa por parte do BCE, a meu ver, desempenharia um papel positivo para enfrentar esses problemas, como já disse. Embora, provavelmente, não seja suficiente.

O que falta?

Teria de incluir obrigações com notação de não-investimento emitidas pelos governos grego e português.

Uma sondagem da ARD-Deutschlandtrend diz que 61% dos alemães favorecem uma saída da Grécia do euro se o país não respeitar os termos do resgate. Revela, ainda, que 68% dos alemães rejeitam um “corte de cabelo” na dívida grega, com apenas 28% a favor. Pelo contrário, uma sondagem na Grécia da GPO para a Mega TV publicada na semana passada constatou que 52,6% dos gregos acreditam que, no caso de as negociações entrarem em rota de colisão, os credores da Zona Euro acabarão por ceder às exigências gregas de alívio da dívida. Qual dos dois lados está mais próximo do que poderá acontecer?

É claro que uma Grexit seria ruim para a Zona Euro e para a Alemanha, e ainda pior para a Grécia. Não precisamos de chegar a esse ponto, a meu ver. A Grécia tem de prosseguir a reforma da sua economia e respeitar as regras orçamentais da União Económica e Monetária (UEM). Mas o enquadramento da UEM também precisa de se tornar mais inteligente e mais amigável do crescimento. É também evidente que o stock da dívida pública representa um enorme fardo para a economia grega. A meu ver, existem maneiras de reduzir substancialmente o peso da dívida por meio da redução do valor liquido presente, como já referi, sem passar o custo para os contribuintes dos países credores da Zona Euro. Quanto mais cedo forem encontradas soluções realistas, mais cedo poderá haver um regresso ao crescimento sustentável.

Em suma, em sua opinião, uma Grexit tem alta, média ou baixa probabilidade em 2015?

Muito baixa probabilidade. Afinal, depois de um ajustamento doloroso como o que tivemos, a especulação sobre uma Grexit deve acabar uma vez por todas.

Os resultados das eleições gregas poderão vir a ter um impacto “sistémico” na zona euro e um “efeito de contágio” noutras eleições previstas para este ano na Europa?

Se o Syriza formar governo, abre-se um precedente e serão procuradas semelhanças noutras eleições na zona do euro, especialmente as que vão ocorrer na periferia. Mas esse contágio, também representa um risco, para a forma como um governo do Syriza vai ser tratado pelos parceiros na zona euro, interessados em impedir uma maior radicalização dos eleitorados noutros países.

Entrevista 4: Nick Malkoutzis

Grécia. Um governo do Syriza “precisa de se aguentar” até agosto
25 de Janeiro 2015

Um novo governo em Atenas liderado por Alexis Tsipras, se se formar, vai ter de passar pelos pingos da chuva e a troika terá de ajustar as metas orçamentais, considera Nick Malkoutzis, editor-adjunto da edição em língua inglesa do diário grego “Kathimerini”.

Uma saída da Grécia do sistema do euro – o que os analistas têm designado desde o início de 2012 pela abreviatura em inglês Grexit, uma contração de Greece e exit – é, por ora, uma probabilidade baixa. Para não se concretizar nos próximos meses exige que Atenas e a troika cheguem a um compromisso, diz ao Expresso Nick Malkoutzis, editor-adjunto da edição em língua inglesa do diário grego “Kathimerini”.

Malkoutzis que é, também, fundador do site independente MacroPolis, acha que, se sair um governo chefiado por Alexis Tsipras, líder do Syriza, das eleições legislativas antecipadas deste domingo, ele vai ter de sobreviver até agosto obtendo um compromisso com a troika.

A troika pode dar as suas contrapartidas: estender, de novo, o final do programa de resgate por mais seis meses, com o Banco Central Europeu (BCE) a manter a linha de liquidez para os bancos helénicos, rever a meta excessiva do excedente orçamental primário (para menos de metade, segundo alguns analistas) e aliviar o serviço da dívida pública grega.

No calendário de responsabilidades está assinalado cerca de 4 mil milhões de euros de amortização e juros, incluindo uma parte substancial ao Fundo Monetário Internacional (FMI), em fevereiro e março, e cerca de 13 mil milhões de euros em julho e agosto de nova amortização ao FMI e de amortização ao BCE e bancos centrais do Eurosistema que detêm títulos de dívida grega que vencem, segundo o apuramento realizado pelo “Kathimerini”.

Curiosamente, segundo o Eurobarómetro, perto de 60% dos gregos acham que o euro é bom para o país, enquanto em Espanha, Portugal e Itália a adesão é muito menor. Apenas na Irlanda o apoio é superior.

Se o Syriza liderar um novo governo tem condições de mudar a perceção “de crédito negativo” que a Standard & Poor’s lhe colou na semana passada?
Um governo do Syriza terá de passar por uns primeiros meses difíceis. Se chegar a agosto conseguindo algum tipo de compromisso, então creio que poderá ter algo em que se sustentar.

Os analistas interrogam-se como é que é possível simultaneamente acabar com a austeridade e ater-se às regras atuais do euro e às metas nominais do memorando do resgate?
A troika tem de ajustar as suas metas orçamentais para a Grécia. De momento, a Grécia tem de conseguir um excedente orçamental primário [sem contar juros da dívida] de mais de 4,5 por cento do PIB no próximo ano. Isso é uma tarefa muito exigente. Se essa meta puder ser reduzida e se houver um acordo sobre a dívida, bem como maior liquidez para as empresas, então haverá uma base para se avançar.

A Grexit tem probabilidade alta, média ou baixa?
De momento, é baixa.

Em que condições extremas pode ocorrer?
Se um governo do Syriza se emaranhar em problemas ao longo dos próximos meses e não conseguir chegar a um acordo com a troika, então, o BCE poderá, de seguida, cortar a liquidez aos bancos gregos e forçar Atenas a um compromisso ou a abandonar o euro.

A dívida grega é realmente sustentável, apesar de se elevar a 175% do PIB, como argumentou recentemente o economista italiano Bini Smaghi, ex-membro do conselho executivo do BCE, no “Financial Times”?
Há uma série de coisas que podem ser feitas a respeito da dívida, mas não é possível dizer-se que é sustentável no nível atual. Só se poderá dizer isso quando houver um acordo sobre a mitigação do serviço da dívida. E, por agora, quanto a isso, não existe mais do que uma ideia.

Vai ser possível concluir no final de fevereiro o exame pela troika que está parado desde agosto? Ou há a necessidade de estender o programa por mais seis meses, uma hipótese que se diz ir ser discutida na segunda-feira no Eurogrupo?
A meu ver há necessidade de estender o programa. Recorde-se que mesmo o governo cessante – supostamente mais cooperativo com a troika e mais experiente em negociações – não foi capaz de concluir essa revisão entre setembro e dezembro. O problema agora vai ser outro: como é que o Syriza vai pedir uma extensão quando ao mesmo tempo pretende acabar com o resgate?

O novo programa de compra alargada de ativos do BCE, incluindo agora dívida pública, vai ser útil à Grécia a partir de julho, quando amortizar obrigações que o BCE adquiriu ao abrigo do programa SMP de 2010/2012?
A curto prazo, a meu ver, o QE [acrónimo para quantitative easing] do BCE vai ter um impacto mínimo. Há uma questão mais abrangente que é saber como essa liquidez extra vai ser usada. Por agora, os políticos gregos não apresentam planos convincentes.

Entrevista 5: Manos Giakoumis

O FMI vai ser poupado a uma reestruturação de dívida, diz Manos Giakoumis, analista-chefe do site grego Macropolis
Final de Janeiro 2015

A Grécia vai enfrentar em 2015 responsabilidades de 15,3 mil milhões de euros em pagamentos dos empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e em amortizações de linhas de obrigações que estão na carteira do Banco Central Europeu (BCE). O Syriza, o partido líder da nova coligação governamental em Atenas, já declarou honrar os pagamentos em fevereiro e março ao FMI num montante de 2,1 mil milhões de euros e que a dívida ao Fundo está fora de qualquer plano de reestruturação.

A nova equipa de Finanças do governo de Alexis Tsipras, chefiada pelo académico Yanis Varoufakis, terá de obter do Eurogrupo (reunião dos ministros das Finanças da zona euro) já a 16 de fevereiro a extensão do programa para que decorram negociações sobre o fecho do programa de resgate e para que se estabeleçam as bases para uma sustentabilidade da dívida grega, um dos pontos centrais do programa do Syriza.

Manos Giakoumis, analista-chefe do site grego MacroPolis, de análise política e económica, refere que o Syriza se comprometeu com orçamentos equilibrados (sem contar os juros da dívida) e que a maior parte da comunidade de investidores gregos considera indispensável uma reestruturação de uma dívida que subiu a 175% do PIB. Benoît Coeuré, membro do conselho executivo do BCE disse logo no início desta semana que não é possível legalmente qualquer corte no valor das obrigações que o banco central detêm em carteira. Pelo que ficam em aberto outras soluções para lidar com os 6,7 mil milhões de euros que o BCE reclama em junho e agosto.

Recorde-se que a dívida pública grega soma 321,7 mil milhões de euros, em que 78% é o que se designa de “dívida oficial” num montante de 254,6 mil milhões de euros, dívida por via de empréstimos bilaterais, dos fundos de resgate europeus e existente na carteira de obrigações gregas no BCE. Os credores privados, sobretudo bancos gregos e estrangeiros, detêm apenas 38,7 mil milhões de euros em obrigações. Perto de 15 mil milhões de euros é dívida em bilhetes do Tesouro, de muito curto prazo.

A consolidação orçamental realizada até agora durante a aplicação do plano de resgate é sólida?
Grande parte da consolidação orçamental até agora foi baseada em cortes de custos – principalmente salários e pensões – e aumento de impostos. Tendo em conta que novos aumentos de impostos e cortes salariais foram descartados, os principais desafios daqui para diante centram-se principalmente na melhoria da cobrança de receitas, no alargamento da base tributária e no combate à evasão fiscal, bem como na racionalização do sector público. Isto significa que qualquer quebra de receitas ou aumento injustificado de despesas pesará sempre no resultado orçamental.

Há risco de reversão dessa consolidação?
Embora haja sempre um risco de derrapagem, é bastante difícil haver uma reversão. A menos que haja uma mudança negativa significativa nas políticas implementadas, quer nas receitas quer nas várias frentes de despesa orçamental. O Syriza comprometeu-se com orçamentos equilibrados, a nível primário (sem incluir os juros da dívida). Mas temos de esperar pelo detalhe das políticas do novo governo para avaliar o seu impacto orçamental.

O imperativo para uma reestruturação e/ou reescalonamento da dívida pública grega é devido aos objetivos excessivos, politica e socialmente inaceitáveis sem crescimento adequado, de um excedente primário orçamental cada vez mais elevado, como é o caso da meta de 4,5 por cento do PIB em 2016, quase o dobro do previsto para 2014?
O Syriza, bem como a maior parte da comunidade de investidores, refere que a reestruturação da dívida grega é necessária pois um nível de dívida de 175% do PIB é visto como insustentável. As decisões do Eurogrupo, no sentido da dívida grega se tornar sustentável, pressupõem que aquele rácio cairá para 124% em 2020 e substancialmente abaixo de 110% em 2022. Isso exige um crescimento significativamente alto do PIB e excedentes primários orçamentais por um período prolongado, algo que não é de facto possível nas circunstâncias atuais.

Que medidas pode propor ao Eurogrupo a nova equipa das Finanças chefiada por Yanis Varoufakis?
Há uma série de alternativas no sentido da flexibilização da dívida que poderiam ser adotadas com benefícios a curto e longo prazo. No entanto, requerem decisões políticas, principalmente por parte dos parceiros da Grécia na União Europeia, bem como compromissos do governo grego. Em qualquer caso, a sustentabilidade da dívida é uma questão chave para o Fundo Monetário Internacional, enquanto a Grécia estiver sob um programa dessa instituição, o que decorrerá até ao primeiro trimestre de 2016.

A economista e consultora Miranda Xafa, ex-membro da direção do FMI, sugeriu esta semana uma troca de dívida (swap) em relação a uma parte dos empréstimos do Fundo à Grécia e à carteira de obrigações detida pelo Banco Central Europeu (BCE) fruto do programa SMP de 2010 a 2012, o que permitiria substituir por dívida ao Mecanismo Europeu de Estabilidade e com prazo muito longo. É um caminho?
Há um conjunto de opções sobre a mesa, incluindo swaps de dívida semelhantes para os próprios empréstimos europeus. Temos de aguardar pela proposta oficial do novo governo.

A nova equipa das Finanças vai convencer o Eurogrupo a 16 de fevereiro a conceder uma nova extensão do programa de resgate com vista a concluir o exame que se arrasta desde agosto passado?
O Syriza declarou oficialmente que não tem a intenção de concluir a revisão da troika que está pendente, uma vez que não concorda com as políticas do programa de resgate atual. No entanto, dado que “estar num programa” é um pré-requisito colocado por Mario Draghi para o programa de compra alargada de dívida, bem como para outros instrumentos de financiamento do BCE, eu não descartaria uma extensão do programa até ao final de junho. Essa nova extensão necessita, naturalmente, da aprovação do Eurogrupo, provavelmente na próxima reunião a 16 de fevereiro.

O programa do FMI vai terminar apenas no primeiro trimestre de 2016. É ainda um longo caminho. Como é que o novo governo vai lidar com o Fundo liderado por Christine Lagarde?
Responsáveis do Syriza têm esclarecido que o novo governo vai honrar os pagamentos ao FMI no valor de 2,1 mil milhões de euros já em fevereiro e março. As mesmas fontes também sublinham que os empréstimos do FMI não serão incluídos no corte de cabelo (hair cut) da dívida que o Syriza tem como objetivo propor. O alívio de dívida concentra-se nos empréstimos europeus (52,9 mil milhões de euros de empréstimos bilaterais e 141,8 mil milhões de euros de empréstimos do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira).

O Tesouro grego tem recursos para cumprir os 10 pagamentos ao FMI ao longo do ano e amortizar as obrigações na carteira do BCE em julho e agosto?
O financiamento a curto prazo que o governo precisa até ao final de março pode ser coberto pelas atuais reservas de caixa, ou seja pelas reservas de caixa de órgãos governamentais e pelas emissões extraordinárias de bilhetes do Tesouro.

Mas essas emissões de curtíssimo prazo não chegaram a um teto?
Sim, o anterior governo atingiu o limite de 15 mil milhões de euros em emissões de bilhetes do Tesouro. Por isso, é necessária uma aprovação da troika para um montante incremental. Para além de março, o Syriza afirma que há também outros instrumentos de financiamento para cobrir as necessidades do segundo trimestre, mas não deverão ser suficientes para cobrir julho e agosto, para essas amortizações de 6,7 mil milhões de euros em obrigações. O catalisador fundamental vai ser a evolução da arrecadação de receitas, o que irá determinar se o novo governo vai ter de ser obrigado a tapar algum potencial buraco.

Leave a Reply

You can use these XHTML tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <blockquote cite=""> <code> <em> <strong>