Ecos de Chipre — Três entrevistas no calor da crise cipriota de março de 2013.

Parte I
ENTREVISTA COM PETIA TANOVA (Frederick University)

«Na Zona Euro há europeus de segunda classe»

O Eurogrupo quer destruir deliberadamente a economia cipriota, diz Petia Tanova, diretora do Departamento de Economia, Finanças e Contabilidade da Frederick University, de Chipre.
Jorge Nascimento Rodrigues
25 de março de 2013

“Há um objetivo claro de uma destruição deliberada do sector competitivo chave da economia cipriota”, a pretexto de que é uma “economia de casino” e um local de “lavagem de dinheiro sujo” russo, afirma a economista e professora Petia Tanova, diretora do Departamento de Economia, Finanças e Contabilidade da Frederick University, um universidade privada de Chipre. Uma avaliação do impacto do pacote da troika aponta para uma recessão de 20% até 2017. O controlo de capitais está em vigor num membro do espaço da moeda única e os cipriotas não podem levantar mais de 120 euros diário nos multibancos do Banco de Chipre e do Laiki.

Petia brinca com o ministro francês Moscovici que clamou ontem que a economia de casino cipriota estava falida: “Os casinos foram abolidos em Chipre, ainda há muitos na parte ocupada pelos turcos. Mas o senhor Moscovici está a dar-nos uma ideia. Talvez abrir casinos possa compensar o emagrecimento do sector financeiro. Especializar no jogo talvez seja uma alternativa e esperemos que o ministro francês venha cá jogar”.

Apesar do presidente do Eurogrupo. Jeroen Dijsselbloem ter avisado Luxemburgo e Malta para mudarem antes de se verem em sarilhos, Petia Tanova acha que o próximo paciente onde o “modelo de resgate cipriota” vai ser aplicado é a Eslovénia, apesar de ali o sector bancário ser muito mais pequeno e a necessidade de recapitalização deverá limitar-se a mil milhões de euros. Outro caso que poderá estar na linha de mira é a Estónia que entra para a zona euro em janeiro de 2014 e que é outra das plataformas financeiras de capitais russos. Neste país báltico, os depósitos de não residente totalizam 60% do total, quase o dobro do que ocorria em Chipre no início deste ano.

P:Porque razão Chipre pediu um resgate a Bruxelas em junho do ano passado?
R:Sobretudo devido aos desequilíbrios financeiros. A que se juntou uma situação política particular com o governo a perder apoio popular desde meados de 2011 devido à destruição da central elétrica e Zygi na sequência de uma explosão perto da base naval e eleições presidenciais dentro de oito meses. Nessas circunstâncias, nenhum governo se lançaria em reformas radicais.

P: Que tipo de reformas teriam sido necessárias já no ano passado?
R: Sem dúvida reduzir o enorme sector público, cancelar alguns dos benefícios injustificáveis dos funcionários públicos, proceder ao aumento de impostos às empresas, e lançar a privatização das posições do estado em empresas públicas e semi-públicas. No sector do funcionalismo público, o governo defendia uma abordagem passo a passo. Quanto às privatizações, se as tivessem feito na altura, teriam gerado alguns milhares de milhões. Agora, vão vender ao desbarato. O argumento, na altura, era que as empresas a privatizar, no sector das telecomunicações e na energia, eram altamente lucrativas.

P: O processo de negociação com Bruxelas arrastou-se ao longo de nove meses por eleitoralismo da parte do anterior governo comunista?
R: O governo estava relutante, de facto, por causa das eleições presidenciais no horizonte. Só algumas medidas foram para a frente. Aliás, algumas medidas começaram a ser introduzidas desde 2011, deve recordar-se. A taxa normal do IVA subiu de 15% para 17% e depois para 18%, ainda que deixando intactas as taxas de 5% e 10% e mesmo alguns produtos isentos. O IRS para os contribuintes com mais de 60 mil euros por ano subiu de 30% para 35%. Na realidade, o governo anterior realizou algumas alterações, dentro da filosofia de deslocar o fardo da crise das famílias mais necessitadas para as mais ricas. No próprio sector público, congelaram os salários.

P: Os bancos estavam numa situação de pré-bancarrota?
R: Sim, sem dúvida. Aliás, ninguém contesta isso. O problema derivou de duas situações – o crédito mal parado a famílias e empresas e a exposição à dívida grega. Mas a razão principal foi a exposição à Grécia. A reestruturação bancária poderia ser menos dolorosa se não tivesse havido essa corrida a ter dívida grega nos portfólios dos maiores bancos, sobretudo os dois maiores, o Banco de Chipre e o Laiki (Banco Popular), de que tanto se fala agora. Mas alguns bancos não entraram nessa exposição à Grécia. Nem todos caíram nessa tentação.

P: Porquê a tentação?
R: Com a crise grega, as yields das obrigações gregas dispararam e a ganância dos bancos cipriotas foi enorme, adquirindo essa dívida de risco. O Bank of Cyprus e o banco Laiki investiram 5 mil milhões de euros nessa altura! Um fator adicional foi o apelo do governo de então a que Chipre “ajudasse a mãe Grécia”. Uns meses depois, em 2012, ocorreu a reestruturação de dívida grega na mão dos privados – algo que Bruxelas dizia que nunca aconteceria, como toda a gente se lembra – e o corte-de-cabelo (hair cut) nos credores da dívida foi duro. O resultado foram perdas para estes bancos cipriotas de 4 mil milhões de euros. O banco Laiki ficou literalmente em bancarrota e foi necessário o recurso à linha de emergência de assistência de liquidez (conhecida pela sigla ELA) fornecida pelo banco central local com consentimento do Banco Central Europeu.

P: Um dos argumentos que foi avançado para os moldes do resgate imposto pelo Eurogrupo foi sintetizado pela chanceler alemã Merkel quando disse que o “modelo de negócio” estava morto, o que foi completado ontem pelo ministro das Finanças francês Moscovici dizendo que Chipre era uma “economia de casino” em bancarrota…
R: Aparentemente a chanceler quer destruir o sector financeiro cipriota. A razão é a alegada lavagem de dinheiro sujo dos oligarcas russos sendo o Chipre o terceiro investidor na Rússia, bem como o facto do sector financeiro ser 8 vezes o PIB, o que estaria muito acima da média europeia, que ronda as 3 vezes. Mas então o que acontece ao Luxemburgo que tem um rácio de 20 vezes e é o primeiro investidor na Rússia? Os cidadãos de Chipre são europeus de segunda? Inclusive qual é a evidência da lavagem de dinheiro? Segundo a OCDE, Chipre está em 7º lugar entre os 17 membros da zona euro em cumprimento de regras contra lavagem de dinheiro. A Alemanha está em 16º! Que arrogância. É claro que deve haver casos de lavagem de dinheiro, mas isso é um problema jurídico, não de risco sistémico. Há um objetivo claro de uma destruição deliberada do sector competitivo chave da economia cipriota. Quanto ao senhor Moscovici, devo recordar-lhe que os casinos foram abolidos em Chipre, mas ainda há muitos na parte ocupada pelos turcos. Mas o senhor Moscovici está a dar-nos uma ideia. Talvez abrir casinos possa compensar o emagrecimento do sector financeiro. Especializar no jogo talvez seja uma alternativa e esperemos que o ministro francês venha cá jogar.

P: Chipre teria tido outra opção para desenvolver outro “modelo de negócio”?
R: Não. Um dos resultados da invasão turca foi que as indústrias transformadoras e extrativas ficaram nas zonas ocupadas. Inclusive as melhores estâncias de turismo ficam no lado ocupado. Chipre, depois da invasão turca em 1974, teve de recomeçar das cinzas. Conseguiu atrair capital do Médio Oriente, sobretudo do Líbano, em virtude da turbulência política naquela região. Desenvolvemos qualificações elevadas no sector financeiro. A pujança do sector financeiro arrastou outros sectores da economia, como a construção, o imobliário e o turismo. Depois, foi a autorização de estabelecimento de empresas internacionais em offshore, o que atraiu capitais russos depois da implosão da URSS, mas não só. A faturação triangular tornou-se uma especialidade, tal como em outros centros financeiros.

P: Como funciona a faturação triangular?
R: Um exemplo, russo. Uma multinacional russa tem várias empresas subsidiárias. A sucursal A extrai petróleo na Sibéria e exporta-o para a firma B em Amsterdão, na Holanda. O serviço de contabilidade é operado por uma firma C em Chipre, onde na faturação se coloca um valor acrescentado elevado. O lucro é gerado em Chipre, onde se aplica um IRC de apenas 10% (mais baixo, por ora, do que o da Irlanda). Grande parte do lucro é transferido para a Rússia, o que conta como investimento direto cipriota no estrangeiro. É assim que aparece Chipre como terceiro investidor estrangeiro na Rússia. O primeiro como já referi é o Luxemburgo, com um esquema não muito diferente.

P: A decisão do Eurogrupo arrisca-se a ter um impacto devastador na economia cipriota?
R: Sim. O sector financeiro é a nossa vantagem competitiva, como já referi. Representa 9,2% do PIB. Chipre exporta serviços financeiros. No conjunto, o sector de serviços financeiros, a construção e o imobiliário e o comércio por grosso e a retalho perfazem mais de 50% do seu PIB. O impacto até 2017 é calculado numa recessão de 20%. De imediato, a economia vai ter de funcionar, no mínimo, com menos 30% de massa monetária que está congelada e em risco de nunca ser recuperada, calcula o meu colega John Violaris. O que vai acontecer é que esse dinheiro vai voar para outros centros financeiros como a Suíça, o Reino Unido e outros. O que era “sujo” aqui, deixa de ser noutros lados de primeira classe. O problema é que Chipre foi apanhado no meio de um fogo cruzado entre grandes potências.

P: O Chipre não tem recursos energéticos – o famoso gás natural – e um bom posicionamento estratégico no Mediterrâneo que lhe permita manobrar geopoliticamente?
R: Sobre os recursos energéticos, há que ter em conta que a Turquia exige ter uma palavra a dizer. O anterior presidente tinha anunciado que uma parte das receitas do gás também beneficiaria os cipriotas turcos. Quanto aos britânicos que têm duas bases militares na parte da República cipriota deveriam pagar uma renda pelo uso das bases militares mas nunca o fizeram. Inclusive, aquando dos acontecimentos de 1974, os primeiros bombardeamentos sobre aldeias cipriotas foram feitos pelos britânicos e não pelos turcos.

P: Os russos discutiram inclusive, agora, o assunto de Chipre com os britânicos…
R: Recorde-se que o ministro das Finanças cipriota esteve em Moscovo mas não tinha grande coisa para negociar. Ele estava impreparado. Vladimir Putin nunca se encontraria com um ministro para um assunto de alto nível; teria de ser o presidente cipriota. E não se poderia limitar a uma oferta para uma companhia de pesquisa de gás, pois a Turquia – que ocupa parte da ilha – tem objeções e o problema tornar-se-ia geopolítico. Putin teve, depois, uma conversa com o primeiro-ministro britânico David Cameron, em que Chipre esteve na agenda. O Conselho de Segurança Nacional russo teve também uma reunião em que Chipre foi o tema.

P: A Turquia poderá tirar proveito desta situação de crise?
R: Temo que a Turquia poderá ganhar bastante, inclusive o reconhecimento da ocupação do território cipriota como um estado independente. A situação está muito complexa. Não me lembro de nenhuma altura em que os interesses estratégicos da Alemanha na região tenham diferido dos interesses turcos. A agravar, ainda, o facto do presidente Obama ter ido a Israel lançar pontes entre o estado hebreu e a Turquia. Chipre é uma pequena peça neste jogo.

P: A seguir a Chipre quem poderá estar na calha para aplicação do novo “modelo de resgate cipriota” como lhe chamou hoje o presidente do Eurogrupo?
R: Temo pela Eslovénia, que pode ser o próximo membro da zona euro a pedir “assistência”.

Parte II
ENTREVISTA COM HARRY TZIMITRAS (PRIO, Nicósia)

«Chipre vai estar no centro do conflito entre Europa e Rússia»

O governo cipriota não tinha outra alternativa senão aceitar o resgate, mas a sua posição na geografia do gás natural vai torná-lo alvo de uma disputa entre potências, diz Harry Tzimitras, da PRIO em Nicósia.
Jorge Nascimento Rodrigues
25 de março de 2013

A crise bancária cipriota veio trazer Chipre para a ribalta de um conflito geopolítico mais vasto no Mediterrâneo Oriental, afirma Harry Tzimitras, diretor do centro cipriota do Peace Research Institute Oslo (PRIO). Até certo ponto, Chipre tornou-se uma região de embate entre Bruxelas e Moscovo, ainda que a Rússia tenha declinado, por ora, não colocar em perigo as suas relações com a Alemanha, apesar da primeira reacção do primeiro-ministro russo Dmitri Medvédev ao pacote aprovado na reunião do Eurogrupo desta madrugada ter sido violenta considerando que a troika estava a “roubar o roubado”.

Recorde-se que Moscovo, na semana passada, resolveu não aceitar as propostas do ministro das Finanças cipriota em relação a uma alternativa de resgate a Nicósia, não deixando ao governo do presidente cipriota Nicos Anastasiades outra alternativa senão negociar com a troika, no quadro por ela imposto. “Rússia, a outra única alternativa, mostrou-se relutante em resgatar Chipre por uma série de razões políticas e económicas. O que deixou o governo de Nicósia sem alternativas realistas. O acordo de resgate com o Eurogrupo, e o Memorando de Entendimento que se vai seguir até meados de abril, por mais duros que sejam, evitaram um perigo bem real de bancarrota imediata, deixando os cipriotas confrontados com aceitar o menor dos males”, sublinha o professor de Direito Internacional e Relações Internacionais.

Uma bênção e um problema

As reservas de gás natural no sul da ilha surgem como um área económica que poderá trazer a Nicósia uma renda externa interessante, que equilibre a reestruturação do papel de plataforma financeira offshore que Chipre tem tido, e permita a retoma económica, depois um impacto recessivo de 20% até 2017, em virtude das medidas que o resgate de Bruxelas implica.

Algumas estimativas apontam para que as reservas de gás offshore na zona económica exclusiva possam representar 40% das necessidades de fornecimento de gás natural da União Europeia e a Factiva/Dow Jones avaliou o seu valor em 400 mil milhões de euros se a viabilidade comercial for comprovada. Na realidade, apenas um bloco, o Bloco 12, foi descoberto até à data e licenciado à Noble Energy, baseada em Houston. O Bloco 12 dispõe, apenas, de 13% das reservas estimadas naquela zona. Outras licenças foram concedidas à Total francesa e a uma joint venture entre a Eni italiana e Korea Gas. Ao todo seis blocos que poderão conter cerca de 70% das reservas da área. Estas reservas fazem fronteira com as águas territoriais de Israel onde foram descobertas duas reservas offshore, com o equivalente a 40% das estimativas para o total de reservas cipriotas. Também a Síria e Líbano descobriram reservas na mesma plataforma mediterrânica.

Para Tzimitras, Chipre é uma economia de serviços e, por isso, “terá sempre opções limitadas”. “Uma reestruturação do sistema financeiro, bem como o repensar das premissas em que a economia se tem baseado, tornou-se urgente”, diz, para sublinhar que “a outra via que está aberta é o gás natural, onde pode haver um raio de esperança no futuro a médio prazo”. Mas avisa que “é matéria que tem de ser tratada com cuidado, ainda que rapidamente”.

A razão para o “cuidado” deriva dos múltiplos interesses que se chocam no campo energético naquela região. “As perspectivas para o petróleo e o gás natural no Mediterrâneo Oriental têm um claro potencial de tornar a região, de novo, numa plataforma de confronto entre o Leste e o Oeste na Europa, em paralelo com os desenvolvimentos no Médio Oriente”, afirma o especialista. “Chipre como um país da região e com uma quota parte na exploração do gás natural, vai estar também no centro dos acontecimentos”, acrescenta.
Solução equilibrada para evitar confronto

Harry Tzimitras é partidário da procura de uma solução equilibrada: “Um equilíbrio delicado é indispensável para assegurar a cooperação e não o confronto”, conclui, para evitar tornar os países daquela região, incluindo as ilhas estratégicas, em zonas de confronto entre grandes potências.
No caso específico do Chipre, para além da reclamação da Turquia – que ocupa uma parte da ilha desde 1974 e que em 2011 enviou barcos de guerra para impedir as perfurações – em obter, também, proveitos daquelas reservas, estão os interesses russos – e em particular da Gazprom – e israelitas. A Noble Energy pretende ainda este ano iniciar perfurações no Bloco 12, o que pode “aquecer” aquelas águas.
O Reino Unido dispõe de duas bases militares e a Rússia já manifestou interesse em poder dispor de facilidades portuárias para a sua marinha de guerra, como alternativa ao uso atual de um porto naval na Síria.

Parte III
ENTREVISTA COM NATALIA LAZAREVA (Empresária russa)

«Chipre não sai do euro porque tem medo da reação da Turquia»

A sugestão de Paul Krugman desta semana de uma saída imediata do euro não domina o sentimento cipriota porque a situação da ilha é geopoliticamente muito complexa, diz a empresária russa Natália Lazareva, com negócios em Chipre.
Jorge Nascimento Rodrigues
28 de março de 2013

A crise cipriota não é só um problema de dinheiro russo em depósitos, é um problema geopolítico muito complicado, diz Natália Lazareva, 55 anos, doutorada em Economia pela Universidade Lomonosov de Moscovo, e empresária russa em Chipre e na Rússia que vive num vaivém entre Nicósia e Moscovo.

A posição da Rússia no xadrez da crise cipriota continua a alimentar o debate. O argumento alemão é que o Chipre tem um “modelo de negócio” que faliu e muita gente na Europa continental fala de que se trata de um offshore para “lavagem de dinheiro” russo e para reinvestimento, depois, “limpo” na Rússia.

O motivo para atacar, agora, este “mal”, depois de Chipre estar desde 2007 na moeda única, foi a dimensão desmedida do sector bancário cipriota. No entanto, Chipre é o terceiro investidor externo na Rússia, depois do Luxemburgo (que, também, é membro da zona euro) e do Reino Unido, e o sector bancário luxemburguês é três vezes superior ao cipriota em relação ao PIB.

No entanto, o papel central de Chipre é na localização de holdings mais do que apenas em termos de depósitos. Nos anos 1990, Chipre foi o primeiro país europeu a assinar tratados com a Rússia para evitar dupla tributação. Luxemburgo, Suíça e Holanda, que, também, são plataformas financeiras para a Rússia, só o fizeram mais tarde.

P: Por que razão a Rússia não deu a mão ao ministro Michalis Sarris na semana passada e o mandou de volta de mãos a abanar para Nicósia?
R: A crise cipriota é bem complicada. Não há respostas fáceis. Não é só um problema de dinheiro russo. Primeiro, não é apenas uma questão de economia “distorcida”.

P: Não é uma crise de um “modelo de negócio” que faliu como disse a chanceler alemã Merkel e repetem os principais responsáveis do Eurogrupo?
R: Chipre não pode ser avaliada apenas na base de alguns princípios macroeconómicos. O mesmo, aliás, se aplica a economias da zona euro, como o Luxemburgo ou a Irlanda, ou outros centros financeiros, como Malta.

P:Mas, sendo o “grande irmão” ortodoxo e Chipre local de investimento financeiro russo, Moscovo não deveria ter sido mais amigável?
R: Bom, Chipre é um membro da zona euro. Não seria politicamente correto que a Rússia interferisse diretamente nos assuntos “internos” da zona euro, sem consultar a União Europeia. Em terceiro lugar, a Alemanha tem manifestado uma posição sobre Chipre em voz alta. A chanceler Merkel opôs-se à visita de Sarris a Moscovo. Nos últimos 20 anos, a Alemanha foi considerada um parceiro estratégico da Rússia. Mas, agora, parece que isso já é passado.

P: O tema da “lavagem de dinheiro” é um espinho nesse relacionamento?
R: Pois, parece que, agora, o dinheiro russo em Chipre é uma preocupação especial da chanceler Merkel. A tese da “lavagem de dinheiro” foi a primeira reclamação da Alemanha sobre Chipre.

P:E não é verdade?
R: É um rumor muito comum entre os homens de negócio russos que as principais “lavandarias” estão na Alemanha e na Suíça.

P:Então o que é Chipre para os russos?
R: É sobretudo um local para poupanças da classe média russa e para a domiciliação de empresas. Os tais muito ricos russos têm o seu dinheiro na Suíça e na Alemanha, sim, na Alemanha.
Falou de domiciliação de empresas como uma das estratégias dos empresários russos, em que consiste?
Chipre é uma plataforma muito importante para o investimento na Rússia. O aspeto mais importante não são os depósitos em que se tem centrado a atenção. Mas a legislação cipriota. É, por essa razão, que as empresas russas se domiciliam em Chipre, sobretudo as holdings, onde os homens de negócios têm os seus ativos.

P: Vão retirar as holdings de Chipre?
R: Não penso que o façam. Quanto aos depósitos, com estas medidas determinadas pelo Eurogrupo, os russos vão abrir contas noutros lados, na Suíça, no Reino Unido, nos países Bálticos, até em Hong Kong. Mas as holdings ficarão em Chipre. Repito, não são os bancos que são atraentes, mas a lei cipriota que é a vantagem para as holdings e para os negócios de reinvestimento na Rússia.

P: Ou seja, a Rússia é cautelosa sobre o assunto, apesar das críticas muito duras feitas à decisão do Eurogrupo?
R: Com todas as componentes que a Rússia tem de ter em conta, isso obriga-a a ser muito cautelosa no assunto. Mas a Rússia elaborou o seu próprio plano de alternativa a um resgate a Chipre. Em caso de necessidade.

P: Como reagiram os russos em relação ao novo “template” de resgate definido pelo Eurogrupo?
R: Há um aspeto fundamental, de substância, de conteúdo, já que o tal imposto sobre dinheiro privado é a transgressão de fundamentos da moderna civilização ocidental – é um ataque à propriedade privada. É a legitimação da erosão do direito de propriedade privada. Isto vai ter consequências dramáticas em termos sociais e políticos. Pode mudar o mundo. Quem vai ganhar com isso? De certeza, que não será a União Europeia. O próprio governo russo, como o disse o primeiro-ministro Medvedev, tem dinheiro público nos bancos cipriotas em reestruturação. Um confisco de 30 ou 40% é uma perda direta para o orçamento russo. Para as empresas russas a trabalhar em Chipre será muito mau.

P:O outro tema quente é o do gás natural. Chipre, nesse ponto, é geoeconomicamente importante para a Rússia?
R: Esse tema é ainda mais complexo do que a própria crise cipriota. A posição da Rússia tem muitos aspetos. Primeiro, por causa da Turquia, que é um importante parceiro, e porque o Mar Negro e os estreitos podem tornar-se um mar fechado se Ancara assim o quiser. Por outro lado, o gás cipriota pode alterar dramaticamente o mercado de gás mundial.

P: Isso será benéfico para a Rússia, ou não?
R: Tenho dúvidas que seja benéfico.

P: Chipre, com toda essa posição geopolítica e geoeconómica tão complexa, e apesar de ser uma economia tão pequena, tornou-se numa zona de embate geopolítico na Europa?
R: Temo que sim. Pode ser um gatilho para a geopolítica. Vemos sobre a pequena ilha interesses tão diferentes, e até tão dissonantes: União Europeia, com a Alemanha a ter de ser encarada em separado, Turquia, Rússia, Reino Unido, Israel, até Estados Unidos. Alguns interesses aproximam-se, mas outros são totalmente contraditórios.

P: Chipre deveria sair do euro como recomendou o Nobel da Economia Paul Krugman?
R: O que trava os cipriotas de irem nessa direção é o medo da Turquia. De outro modo, seria o sentimento dominante.

ANEXO

Pacote de resgate aprovado pelo Eurogrupo em 25 de março de 2013

. A troika emprestará a Chipre até €10 mil milhões, mas nenhuma tranche desse montante poderá ser usada na reestruturação da banca cipriota cuja recapitalização e reconfiguração será financiada por acionistas, detentores de títulos e depositantes com depósitos acima de €100 mil (o que se designa por bail in)

. O pacote inicial previsto em junho de 2012, quando Chipre solicitou o resgate a Bruxelas, era de €17 mil milhões, incluindo a reestruturação bancária. O FMI exigiu, agora, que o teto de endividamento público em 2020 seja de 100% do PIB, pelo que €7 mil milhões ficaram a cargo de uma “contribuição” interna cipriota

. Um Memorando de Entendimento (MoU) entre Chipre e a troika deverá estar concluído em meados de abril. A primeira tranche do resgate poderá ser desembolsada em maio. Nesse MoU deverá constar a subida do IRC de 10% para 12,5% e do imposto sobre rendimentos de 20% para 25%, bem como o plano de privatizações

. O empréstimo da parte europeia, que se estima em €9 mil milhões, deverá ser realizado através de uma linha de assistência financeira do Mecanismo Europeu de Estabilidade (conhecido pela sigla ESM, em inglês)

. A reestruturação da banca cipriota abrange apenas os dois principais bancos, o Banco de Chipre e o Laiki (Banco Popular), e visa reduzir, até 2018, o peso do sector financeiro na economia cipriota de 8 vezes o PIB para a média europeia de 3,5.O resto do sistema bancário cipriota não é afetado por estas medidas

. O Laiki, o segundo maior banco do país, que, desde 2011, já era detido em 87% pelo Estado, é liquidado, sendo dividido num “mau banco” (bad bank, que recolhe os ativos tóxicos e os depósitos acima de €100 mil) e num “bom banco”, com os ativos não tóxicos e os depósitos até €100 mil, que transitarão para o Banco de Chipre

. O Banco de Chipre será recapitalizado através de um hair cut sobre os depósitos acima de €100 mil e de perdas a assumir pelos acionistas e credores de modo a garantir um rácio de capital de 9%. Os depositantes abrangidos e os fundos de pensões receberão em troca ações do banco, passando a acionistas forçados da instituição.

. Não foi ainda definido o valor do corte-de-cabelo nos depósitos não garantidos. O ministro das Finanças num dia falou de “30% ou menos” e no dia seguinte de “até 40%” no caso dos 19 mil depositantes no Banco de Chipre envolvendo €8 mil milhões. No caso do defunto Laiki as perdas podem chegar aos 80% de um montante de €3,2 mil milhões, segundo estimativas do Banco Central. O corte abrange tanto depósitos de particulares como de empresas e inclui as carteiras de títulos associadas a essas contas. O corte sobre depósitos de empresas é considerado como a medida que poderá ter o impacto mais negativo sobre a economia local

.O Banco de Chipre assumirá a dívida do Laiki relativa à injeção de liquidez de emergência (conhecida pela sigla ELA) pelo banco central cipriota, uma dívida que monta a 9,1 mil milhões de euros, mas o banco central de Chipre assegurará novas linhas de liquidez

. O Banco do Pireu grego comprará as sucursais dos bancos cipriotas (nomeadamente do Banco de Chipre, do Laiki e do Banco Helénico) na Grécia, o que deverá fazer baixar o peso do sector financeiro cipriota de 8 para 6 vezes o PIB cipriota

. O governo cipriota prosseguirá as negociações com Moscovo no que respeita à renegociação dos juros e das maturidades do empréstimo de €2,5 mil milhões concedido em 2011 e com vencimento para 2016

. Controlo de capitais foi estabelecido temporariamente sobre todo o sistema financeiro da ilha durante sete dias. Segundo o governo será de “curta duração” e “gradualmente aliviado”. O ministro das Finanças disse que haverá exceções, pelo que será aplicado banco a banco. Na realidade, temporariamente, o euro em curso na ilha é uma divisa não convertível

. De acordo com as previsões da Société Génerale, o impacto negativo do pacote da troika na economia de Chipre implicará uma contração de 20% do PIB até 2017

. O facto novo em termos de doutrina de resgates e de provável impacto mais duradouro foi a imposição de perdas a acionistas, credores, e também a depositantes. Provavelmente o “template cipriota”, vai passar a ser a regra. Foi isso que o presidente do Eurogrupo afirmou no dia 25 de março ao Financial Times e à Reuters, o que provocou um vendaval de indignação que levou Jeroen Dijsselbloem a recuar em relação às declarações originais e a dar o dito por não dito. Mas a imposição de perdas a acionistas e credores é, aliás, a base de trabalho de uma proposta de diretiva apresentada pela Comissão Europeia, em Junho de 2012. Isso mesmo foi referido na terça-feira por uma porta-voz do executivo comunitário, que recordou que, de acordo com a proposta em causa, “não se exclui que os depósitos superiores a 100 mil euros possam ser elegíveis” no quadro de um resgate. Chipre terá servido de cobaia

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