Efeméride: 80 anos da Grande Depressão

Há 80 anos o mundo viveu o início da maior Depressão mundial do capitalismo moderno em tempo de paz, excluindo, por isso, a Grande Depressão de 1945 e 1946. Wall Street era sacudida durante onze dias por uma derrocada financeira que se iniciaria num sábado, a 19 de Outubro, e se arrastaria por mais 149 dias de negociação só terminando a 8 de Julho de 1932, com uma quebra de capitalização bolsista de quase 90%.

A riqueza mundial cairia nos três anos seguintes ao crash de Outubro de 1929 mais de 6% ao ano e o comércio internacional sofreria os maiores recuos de sempre da história da globalização capitalista depois da Revolução Industrial – em média, de 1930 a 1932, caiu quase 1/3 ao ano.

A mão inglesa

Tudo começou em Inglaterra em Setembro de 1929 com a falência de um grande grupo financeiro global liderado por Clarence Charles Hatry, que seria preso na sequência de um jantar no Hotel Charing Cross, em Londres, e com a decisão do Banco de Inglaterra, liderado pelo governador Montagu Norman, de subir, unilateralmente, a taxa de juro de referência para 6,5%, na tentativa de segurar o papel central da City londrina como pólo de atracção mundial de capitais.

O efeito destes dois acontecimentos foi uma fragilização muito forte da Wall Street nova-iorquina que em meados de Outubro começaria a manifestar nervosismo até que o pânico dominou a partir da célebre quinta-feira negra de 24 de Outubro e depois com as maiores quedas diárias, até então, do índice Dow Jones na segunda e terça-feiras negras de 28 e 29 de Outubro.

A crise financeira despoletada em Wall Street, mas congeminada em Londres, segundo vários historiadores económicos da época, rapidamente se tornou global.

Contudo, o pior ano desta Grande Depressão não ocorreria logo após o choque de 1929. A dificuldade da Reserva Federal (o banco central americano) em ser eficaz até 1932 (apesar de ter injectado na última semana de Outubro de 1929 um aumento de 10% na massa monetária!) e a inabilidade política da Presidência americana (o republicano Herbert Hoover, entre Março de 1929 a Março de 1933) conjugou-se com novo golpe estratégico dado em Londres, num domingo, em 20 de Setembro de 1931, com o abandono do padrão ouro pela libra esterlina, o que iniciou um processo de desintegração do sistema financeiro mundial.

O desastre económico concentrou-se em 1932, quer nos Estados Unidos como à escala global. Agrava-se a quebra do comércio internacional (exportações mundiais caem 29% em 1931 e 32% em 1932). O ano de 1932 é, de facto, o mais negro do PIB americano (quebra de 13%, a maior de sempre nos EUA) e no número de suicídios (17,4 por 100 mil habitantes) em grande parte dos Estados Unidos, com particular destaque para Nova Iorque (21,3). A 8 de Julho de 1932, o Dow Jones Industrial Average atinge, finalmente, o seu ponto mais baixo na crise. O índice havia caído 89,2% desde o pico em 3 de Setembro de 1929 e o PIB mundial contrairia 6,6%, o maior de sempre em tempo de paz.

Em 3 de Março de 1933 Hoover termina o mandato e no dia seguinte entra para a presidência o democrata Franklin D. Roosevelt, que ganhara as eleições em 1932 e escapara a uma tentativa de assassinato um mês antes. Pelo final daquele dia de posse, o número de bancos americanos falidos somava 5504. A herança que o novo presidente recebe não poderia ser pior.

Polémica sobre as causas

As causas da Grande Depressão dos anos 1930 continuam envoltas em polémica. O gatilho da crise financeira teria sido a grande especulação dos anos anteriores e do próprio ano de 1929 particularmente em Wall Street, como o narrou John Kenneth Galbraith no seu clássico sobre este acontecimento, intitulado Crash 1929 (edição em português pela GestãoPlus, 2009; versão em inglês aqui), que, durante anos, levou os quiosques de aeroporto a torcer o nariz à venda de um livro que dava ideia de um monumental acidente aéreo.

Como este economista disse, o capitalismo vivia, naqueles anos vinte, num “mundo de faz-de-conta”, que, mais tarde ou mais cedo, sofreria uma derrocada. Entre 1920 e 1929, a capitalização bolsista em Wall Street multiplicou por cinco, refere Robert Shiller e George Akerlof em Animal Spirits, uma obra publicada este ano.

“O que não era historicamente nada de novo”, frisa Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, em This Time is Different, um livro acabado de publicar. O padrão histórico deste tipo de crises financeiras engendradas por especulação bolsista e imobiliária alimentada por excesso de crédito é conhecido e cíclico.

O frenesim de crédito nos EUA geraria um montante de dívida privada que subiu nos anos 1920 a 184% do PIB americano, sublinha J.-A. Lesourd e C. Gérard, dois historiadores económicos franceses, que recordam sobre os anos 1920 um vício financista, que reconheceremos facilmente nos anos 2000: gerou-se “uma predilecção das empresas por operações de Bolsa, frequentemente artificiais, particularmente intensas nos EUA”. A economia real vivia mais virada para a especulação do que para a produção, ironizam os dois autores de uma História Económica dos séculos XIX e XX.

O que difere na apreciação das crises financeiras é verificar se ocorre uma projecção global (à escala planetária) ou apenas restrita a um grupo de países ou região específica. A Grande Depressão dos anos 1930 acabaria por ser uma crise global, sublinham Reinhart e Rogoff no livro referido. Tal como sucedera com a iniciada pelo pânico financeiro de 1907 (que geraria em 1908 uma quebra de 3,6% do PIB mundial e uma diminuição do comércio internacional de 6%) e agora pelo pânico de 2008.

O elo mais fraco era, de facto, a Wall Street, e, segundo o controverso autor Webster G. Tarpley, a própria onda especulativa americana dos anos 1920 teria sido incentivada pelo governador do Banco de Inglaterra com a conivência do seu amigo Benjamim Strong, do New York Federal Reserve Bank.

Outra interpretação clássica das origens da crise prende-se com o avolumar de uma crise de sobreprodução, provocada pelo duplo crescimento da produção quer nos países desenvolvidos como nos países emergentes de então, alguns deles ainda colónias europeias que iniciaram um processo de industrialização durante a 1ª Guerra Mundial que não parou após o final do conflito. Em Junho de 1929, o índice de produção industrial norte-americano tinha atingido o pico e começado a decair. O mercado bolsista nova-iorquino teria sido um espelho desta crise, com atraso de três meses.

A interpretação menos ortodoxa é a do historiador económico Lee E. Ohanian, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, que, num trabalho recente para o National Bureau of Economic Research dos Estados Unidos, argumenta que o fósforo que incendiou o ambiente depressivo foi a política salarial prosseguida pelo presidente Herbert Hoover que obrigou o sector empresarial americano a manter salários nominais altos com vista a domesticar o alastramento do movimento de sindicalização e a conter a influência ideológica e política do socialismo nos meios laborais.

Esta dinâmica criaria uma distorção paradoxal no mercado laboral de progressiva baixa criação de emprego (e aumento do desemprego de longa duração) e de altos salários nominais na indústria de transformação. Segundo Ohanian, a produção e as horas trabalhadas cairiam 20% por meados de 1930 e cerca de 40% pelo Outono de 1931. O emprego industrial cairia, naquele período, de 30%.

O filme: 11 dias que abalaram o mundo

19 de Outubro (sábado)

Queda de 3% no índice Dow Jones Industrial Average (DJIA) em Wall Street nova-iorquina, depois de uma queda de 2,5% no dia anterior. O DJIA manifestava oscilações desde o pico em 3 de Setembro, mas sem clima de desconfiança no trading floor. Acontecimentos além-Atlântico influenciam negativamente Wall Street. A 20 de Setembro tinha falido na City londrina o poderoso grupo de Clarence Hatry e o Banco de Inglaterra, pouco depois, decide aumentar a taxa de juro de 5,5% para 6,5%, na tentativa de captar fluxos de capital de curto prazo dos Estados Unidos e de França para Londres, que era ainda a capital financeira mundial, ainda que em declínio.

20 de Outubro (domingo)

Jornais de Wall Street fazem manchetes com as quedas de sábado. Desconfiança e pessimismo contagiam, pela primeira vez, investidores.

21 de Outubro (segunda-feira)

Pânico começa a apoderar-se dos investidores. Mas os analistas insistem que é “apenas o sacudir das franjas mais lunáticas” (dizia o guru economista da época Irving Fisher, que arrecadaria o prémio de maior asneira do ano). Queda do DJIA é inferior a 1%.

22 de Outubro (terça-feira)

Recuperação bolsista de 1,7%, aparentemente dando razão à desdramatização.

23 de Outubro (quarta-feira negra)

Mas, logo no dia seguinte, milhares de investidores saem do mercado em debandada, desmentindo os optimistas. Queda do DJIA de 6,3%.

24 de Outubro (quinta-feira negra)

Inicia-se a verdadeira onda de Pânico Financeiro no trading floor de Wall Street. Mudam de mãos 13 milhões de acções a preços ridículos – um recorde para a época. Uma multidão desesperada agrupa-se à porta da Bolsa nova-iorquina. Winston Churchill visita Wall Street e assiste em directo ao pânico. Principais banqueiros de Wall Street reúnem à 1 hora da tarde nos escritórios da J.P. Morgan e decidem “segurar” o mercado, assistindo-se a uma contenção das quedas no final da tarde. O DJIA acaba por cair apenas 2%, muito menos do que no dia anterior, mas descendo, pela primeira vez, abaixo dos 300 pontos.

25 de Outubro (sexta-feira)

Efeito da reunião dos banqueiros melhora médias diárias dos preços das acções. DJIA sobre ligeiramente (0,6%).

26 de Outubro (sábado)

Ligeira queda (0,7%), mas a comunidade financeira sente-se tranquila com a intervenção dos grandes bancos. O The New York Times diz que “sentimento de ansiedade diminuiu”.

27 de Outubro (domingo)

Alguma tranquilidade com o efeito das declarações do presidente Hoover de que a situação estrutural estava “em boa forma e numa base de prosperidade”.

28 de Outubro (segunda-feira negra)

Campanha publicitária matinal das correctoras de Wall Street incentiva investidores a comprar acções “com toda a confiança”. Mas a realidade é outra: o pânico financeiro agrava-se. O investidor não acredita no presidente Hoover nem no marketing. Segunda maior queda percentual diária da história do Dow Jones Industrial Average (DJIA): 13%. (A maior queda diária de sempre foi, posterior, no crash de 19 de Outubro de 1987 com 22,6%). Efeito mundial nos mercados é imediato.

29 de Outubro (terça-feira negra)

Agrava-se o Grande Pânico financeiro. 16 milhões de acções mudam de mãos – novo recorde na época. Queda do DJIA é de 12%. A bolsa americana perdeu 14 mil milhões de dólares nesse dia, quase 5 vezes mais que o orçamento federal dos EUA. Efeito mundial nos mercados é imediato. No dia seguinte (30/10), o DJIA recupera 12% e no final do mês (31/10) sobe mais 6%. Wall Street volta ao crash na reabertura a 4 de Novembro (DJIA cai 6%) até dia 13.

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