Efeméride: centenário de Drucker

Faria um século a 19 de Novembro, se fosse vivo, Peter Ferdinand Drucker (1909-2005), o vienense que se transformou no guru dos gurus da gestão ao longo de 70 anos de vida nos Estados Unidos. Faleceu há quatro anos, a uma semana de fazer 96 anos.

Modesto na sua postura, até ao fim, até falecer em sua casa, em Claremont, na solarenga Califórnia do Sul, sempre recusou o título de “pai” do management, de fundador da popularização das práticas da gestão empresarial e das organizações (incluindo as do Estado e da iniciativa da sociedade civil).

Sempre se recusou a encarar o management como uma doutrina e muito menos como um catálogo de fastfood – na última entrevista que concedeu ao Expresso, já tinha 92 anos, sublinhou: “O management é uma prática, tal como a medicina e o direito. Na realidade, sem prática, o académico não pode contribuir para a gestão”.

O The Drucker Institute da Claremont Graduate University levou a cabo entre 2 e 8 de Novembro uma semana de comemoração do centenário, uma iniciativa que terminará em Viena de Áustria com o 1º Drucker Global Forum nos dias 19 e 20 próximos, numa organização da Drucker Society of Austria patrocinada pelo presidente da câmara de Viena.

A revista americana de gestão Harvard Business Review dedica-lhe a capa da edição de Novembro, onde a professora da Harvard Business School, Rosabeth Moss Kanter, a mais destacada teórica do management num mundo esmagadoramente masculino, tenta revelar o que diria Peter hoje.

Ele nasceu ainda na capital imperial austro-húngara (este império desintegrar-se-ia no final da Iª Guerra Mundial, tinha Peter nove anos), onde privou, ainda miúdo, com convivas frequentes da casa de seus pais, ilustres vienenses como Sigmund Freud (que não o convencia) e Joseph Schumpeter (em que se inspirou e que sempre admirou).

Os ziguezagues da vida levaram-no como imigrante qualificado até aos Estados Unidos onde iniciou uma carreira múltipla, de jornalista, colunista, consultor, autor marcante na área da gestão (29 obras, sem contar as antologias), inclusive romancista (dois livros publicados nos anos 1980), professor em part-time, apaixonado pela arte e cultura japonesas e frequent flyer para a Terra do Sol Nascente, onde tinha uma legião de fãs mais fiel do que nos próprios EUA ou na sua Europa natal.

Economista, não obrigado!

Nunca lhe agradou a Economia, o que deve ter sido motivado por ter apanhado algum enfado ao ouvir as palestras do seminário de Keynes aos fins-de-semana em Cambridge, quando Drucker viveu em Inglaterra nos anos 1930, fugido da Alemanha. Na verdade era doutorado em Direito Internacional pela Universidade de Frankfurt, mas, ironia da vida, ganhou dinheiro em part-time quando chegou à América leccionando Economia. Na verdade, só lhe foi atribuído o título de “professor de gestão” nos anos 1950 quando ingressou na Universidade de Nova Iorque.

Ele sempre se considerou mais um falador sobre História: “Do que realmente falo é de História”, disse ele uma vez numa longa entrevista para a revista Executive Digest, realizada em sua casa, com um almoço de lasanha pelo meio num restaurante de que era habitué.

Peter Drucker começou a ser publicado em Portugal em 1986 com um dos seus livros marcantes, ‘Inovação e Gestão’ (gestão era, neste caso, uma tradução aproximada para um palavrão difícil de dizer em português, empreendedorismo). Concedeu várias entrevistas ao Expresso e à Executive Digest ao longo de vários anos que podem ser lidas aqui ou na compilação no livro biográfico ‘Peter Drucker: O essencial sobre a vida e a obra do homem que inventou a gestão’, publicado no ano da sua morte.

Frases inspiradoras

Há algumas frases proferidas por Drucker nas entrevistas referidas que podem servir de fecho desta nota de efeméride:

-“O estado normal das coisas nunca foi outro senão o da turbulência – o contrário é que é excepção”

- “É evidente que, mais tarde ou mais cedo, o rebentamento é inevitável. Todas as bolas de sabão acabam por rebentar, por isso o risco é tremendo”

- “A primeira grande medida (de inovação) é abandonar organizadamente o passado”

- “O inovador minimiza os riscos, não os maximiza. O inovador não se orienta para o risco, mas para a oportunidade”

- “Só se marca realmente a diferença quando significamos diferença de facto na vida das pessoas. Ouvi-o de Schumpeter, dias antes de ele falecer. Nunca me esqueci desta (última) conversa”

Drucker rapidamente em 10 “dicas”

. O Estado deve concentrar-se nas suas funções de soberania nucleares; a iniciativa privada empreendedora e o empreendedorismo da sociedade civil (as organizações sem fins lucrativos, de voluntariado) devem ocupar o resto do tecido económico e social

. Keynes, o teórico, está totalmente ultrapassado e reprovado pela realidade; Keynes, o metodólogo, é mais importante do que nunca. A forma de Keynes olhar para a economia – sobretudo os seus pontos de vista sobre os fins e os objectivos de uma política económica – terão de nos guiar ainda hoje

. Schumpeter deixou várias mensagens: o desequilíbrio é o estado normal de saúde de uma economia; não há lucro a não ser rendas monopolistas, excepto o lucro do inovador, e esse é de curta duração; o que chamamos de lucro é custo do capital

. Auto-regule-se para evitar a hiper-regulamentação governamental que acabará sempre por preencher o défice

. Colaboração, e não coordenação, é a tarefa central da gestão e do gestor

. Os trabalhadores do conhecimento devem ser motivados e não controlados

. O futuro está sempre presente nas tendências que já estão debaixo dos seus pés; o problema é que poucos sabem observá-las e ainda menos conseguem tirar proveito das oportunidades que se criam

. Concentre-se, sempre, onde os outros não vão ou não estão; descubra e ocupe o seu nicho

. Nunca inove para o futuro, isso é oratória romântica; inove para o presente

. A inovação nunca sai como a planeámos; é o mercado, os clientes, que dita(m) o sucesso naquilo que nem sequer nos passava pela cabeça

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