Ensaios sobre a crise I: A morte do efeito multiplicador da dívida

Um gráfico sofre o efeito do aumento do endividamento no crescimento dos Estados Unidos está a percorrer a blogosfera dos economistas e analistas financeiros americanos como um vírus de computador. A linha em plano inclinado desde os anos 1960 está a gerar uma polémica sobre o futuro do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) americano, ainda mais acesa do que as discussões sobre o que motivou a actual Grande Recessão e de como sair dela.

A imagem é óbvia: por cada dólar de endividamento total (doméstico e externo, público e privado) desde os anos 1960 o efeito sobre o aumento do crescimento americano foi diminuindo consistentemente ao longo de quatro décadas, até que, com esta grande crise, a oscilação foi verdadeiramente selvagem, e o efeito passou mesmo ao terreno negativo, de um modo totalmente abrupto – a pique – no terceiro trimestre de 2009. Por cada dólar tomado de empréstimo o efeito é uma perda de 40 cêntimos.

Fase de saturação

Em termos técnicos, o analista e activista Nathan Martin, autor de ‘Financial Freedom’ e editor do blogue Economic Edge, e o gestor financeiro de portfólios Christopher Rupe, editor do blogue The Financial Minority Report, produziram esta curva com base em dados oficiais, demonstrando a diminuição da produtividade marginal do endividamento na economia americana e alertando para a entrada da superpotência num terreno de risco que designaram por “fase de transição de saturação da dívida”. Inclusive este comportamento tendencial não sofreu alterações com as variações de taxa de juro que ocorreram ao longo daquelas décadas.

Nathan é claro, na entrevista que nos concedeu e que pode ser lida aqui (em inglês): “No momento em que o terreno de saturação é atingido, adicionar mais endividamento – quer privado, quer público – conduz a um output negativo e a mais desemprego. É, por isso, que as crises desde há algum tempo passaram a não criar emprego líquido, dando origem ao que no jargão chamamos de retoma sem criação líquida de emprego (jobless recovery)”.

Mesmo que a curva do efeito da dívida sobre o PIB regresse ao terreno positivo, depois da crise arrumar as malas e partir, “o seu comportamento seguirá o padrão já verificado: um pico mais baixo do que o anterior, com uma quebra ainda mais acentuada do que no ciclo anterior”. O que isto significa para a sociedade americana é que “uma cada vez maior percentagem do esforço produtivo irá para pagar o serviço de dívida e os juros”.

O que, colateralmente, vem colocar em questão o papel do célebre multiplicador «keynesiano». Foi um pupilo de Keynes, o jovem Richard Kahn, a que muitos atribuem a própria co-autoria da ‘Teoria Geral’, a obra-prima do célebre economista inglês, que formalizou em Junho de 1931 a ideia de um processo “multiplicador”, em um artigo publicado no The Economic Journal inglês (“The Relation of Home Investment to Unemployment”). O que o jovem fez foi modelizar os efeitos positivos, em cadeia, que um aumento nos gastos orçamentais teria sobre a economia real, nomeadamente um aumento de emprego. No entanto, Kahn apontara no trabalho académico algumas limitações que poderiam ocorrer com esse mecanismo.

Efeito exponencial

Nathan Martin não risca do mapa esse conceito de multiplicador, mas refere que o contexto actual nos países desenvolvidos – nomeadamente devido à tal curva decrescente que referimos – é distinto da época. “Keynes advogava o défice orçamental durante os períodos recessivos do ciclo, mas também falava de poupança durante o período de crescimento. É claro que isto foi totalmente distorcido para o lema de gaste mais do que tem nos maus períodos e gaste ainda mais durante os bons tempos. Este vício dos ‘estímulos’ para curar dívida com mais dívida leva a uma função exponencial. O papel do multiplicador deixa de ser linear – como no tempo de Keynes – e passa a ser exponencial”, diz Nathan, que acrescenta: “os modelos que usamos para analisar as nossas economias não têm em conta este fenómeno”.

O economista refere ainda que este perfil de comportamento do efeito multiplicador do endividamento pode ser “extrapolado” para o conjunto dos países desenvolvidos. “Ainda não o fizemos devido à dificuldade de comparar números”, conclui.

Um casamento cada vez mais sólido

O declínio da produtividade marginal do endividamento “casou-se” com uma outra tendência na economia americana – o abaixamento da taxa média anual de crescimento do PIB ao longo das últimas quatro décadas. “Essa correlação é absolutamente verídica. Mas é até muito pior do que as estatísticas oficiais mostram. As estatísticas provenientes dos organismos oficiais têm sofrido tantas ‘massagens’ que simplesmente não reflectem a realidade”, diz Nathan Martin.

Foram os professores americanos John Bellamy Foster e Fred Magdoff, responsáveis pela revista Monthly Review, que apresentaram, no ano passado, a demonstração dessa doença que atacou o PIB dos EUA – de uma média anual de crescimento de 4,4% na década de 1960, para 3,3% nos anos 1970, 3,1% nos anos 1980 e 1990 (mesmo com a revolução financeira e a bolha tecnológica), para menos de 2% entre 2000 e 2009 (se não incluirmos o período da Grande Recessão recente, a média entre 2000 e 2007 foi de 2,6%).

Mais recentemente, verificou-se um outro dado preocupante nos Estados Unidos: as retomas do crescimento económico anteriores em “média” eram mais robustas do que se está, agora, a verificar. Segundo o blogue Angrybear, o crescimento do PIB em termos reais foi de 2,7% agora, enquanto a média das retomas desde 1950 foi de 4,3%, com uma variação de 6,8% em 1958 para 1,5% em 1991.

É a dívida, estúpido!

Esse é o lema do blogue de Nathan Martin que tem dedicado a sua investigação ao problema nos Estados Unidos.

Para o leitor poder ficar com uma radiografia rápida, é possível fazer um resumo dos principais – e chocantes – indicadores:

– A dívida externa total no mundo é já de 98% do PIB mundial; em 31 de Dezembro de 2009 somava 56,9 biliões de dólares (triliões, na designação anglo-saxónica) face a um PIB mundial em 2009 de 58,07 biliões;

– A dívida externa dos 30 países ricos do grupo OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) é 79% da dívida externa mundial;

– Os quatro BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) emergentes representam apenas 2,1% da dívida externa mundial; os quatro “cavaleiros” da dívida do Terceiro Mundo nos anos 1980 (Argentina, Brasil, México e Venezuela) detém, hoje, apenas 0,95% da dívida externa mundial;

– A dívida externa da União Europeia representa 61,5% da dívida externa mundial e a Zona Euro detém 44%;

– Os Estados Unidos têm uma dívida externa que é 23,6% da dívida externa mundial;

– Os seis países com o maior endividamento em relação ao PIB são: Irlanda (1005%); Holanda (470%); Reino Unido (416%), Suíça (269%), Bélgica (266%); Portugal (225%). A média da União Europeia é de 216% e os EUA têm um rácio de 93%;

– A situação dos cinco PIIGS (designação humorística pejorativa para o grupo mais frágil da zona euro) que têm estado em foco na recente crise de risco de default é a seguinte: Portugal com uma dívida externa total de 231% do PIB; Irlanda com 1009%; Grécia com 164%; Espanha com 160%; e Itália com 115%;

– O mundo desenvolvido sofre de uma “maldição da dívida” que se vai estender por décadas: 15 países ricos vão levar mais de dez anos a conseguir fazer regressar o seu nível de dívida pública a 60% do PIB, segundo o indicador de “stresse da dívida” criado pela escola de negócios suíça IMD; para 2010, a estimativa de demora na resolução era de 74 anos para o Japão, 50 anos para Itália, 27 para Portugal, 25 para a Bélgica, 23 para os Estados Unidos, 21 para a Islândia, 20 para a Grécia, 19 para a França e 18 para a Alemanha e Reino Unido; no grupo de 17 países considerados pelo indicador 10 pertencem à zona euro e 12 à União Europeia.

Fontes: World FactBook 2010 e IMD Debt Stress Test 2010

One Response to “Ensaios sobre a crise I: A morte do efeito multiplicador da dívida”

  1. […] quatro números a reter: – a dívida externa da União Europeia (UE) representa 61,5% da dívida externa mundial; – a dívida externa da Zona Euro detém 44% da dívida externa mundial; – em 2010, a União […]

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