Ensaios sobre a Crise II: O regresso do Mestre da Macroeconomia

John Maynard Keynes (1883-1946) continua ainda hoje a dividir corações entre a classe dos economistas e dos políticos. Morreu há sessenta e três anos com um ataque cardíaco fulminante, o terceiro. Seria expectável que as suas cinzas não regressassem da sua casa de campo em Tilton, no Sussex inglês, para atormentar, de novo, o pensamento liberal em economia que dominou a academia e os decisores políticos nos últimos trinta anos.

Subitamente, o pensamento dominante desabou com um abalo que começou com o que era julgado ser apenas uma crisezita do subprime e terminou num pânico financeiro global e numa quebra do produto mundial e do comércio internacional como não havia memória, precisamente, desde os tempos de Keynes.

Como reza um dos seus mais famosos ditos, os decisores “são geralmente escravos de algum economista defunto”.

Robert Skidelsky, de 70 anos, o seu biógrafo inglês, garante-nos numa entrevista (ver aqui original em inglês) que “O mestre regressou” – o título do seu mais recente livro sobre este economista que marcou politica e teoricamente a primeira metade do século XX. The Return of the Master foi publicado pela editora Penguin Allen Lane, no Reino Unido, em Setembro de 2009. O curioso em Skidelsky é que, politicamente, ele foi fundador do Partido Social-Democrata inglês, que se viria a juntar e mesmo a fundir, mais tarde, com os liberais, e passou, depois, alguns anos pelas próprias fileiras conservadoras, de onde foi corrido como dissidente.

O americano Paul Krugman, o mediático Nobel da Economia de 2008, ao fazer a recensão do livro de Skidelsky, exclamou: “Estamos a viver a segunda Era Keynesiana”. Krugman crê que a janela de oportunidade do keynesianismo se entreabriu, fruto da prática dos governantes, até mesmo liberais e conservadores,  contra a Grande Repressão e de alguma desorientação nas fileiras do pensamento liberal em economia. Robert Lucas, um acérrimo inimigo do keynesianismo, diria ironicamente: “Todos somos keynesianos na toca da raposa”.

Skidelsky concorda que estamos a viver “um segundo round” neste ringue da teoria económica, tendo escrito recentemente na sua coluna “Contra a Corrente”: “A Escola de Chicago está mais do que nunca vulnerável, e bem o mereceu. Mas o ataque a esta corrente nunca será eficaz se os keynesianos actuais – como Krugman – não souberem retirar as implicações da incerteza na teoria económica”, um ponto capital no pensamento original de Keynes, a que voltaremos mais adiante.

A principal herança

O regresso de Keynes não se faz sem chocar o pensamento dominante, como sempre foi seu timbre, na academia e na sua vida pessoal e social em Cambridge ou em Londres, ou nas suas idas a Nova Iorque nos anos 1940, passando por Lisboa. “Se Keynes fosse vivo, provavelmente estaria de acordo com os críticos da financeirização extrema da economia”, refere-nos Skidelsky, retorquindo sobre o que seria, a seu ver, o impacto mais actual do seu pensamento.

O que pode parecer um paradoxo – Maynard, como era conhecido entre os mais íntimos, sempre foi um bon vivant, um viciado numa boa partida de bridge regada com champanhe, e sobretudo um especulador em bolsas, commodities e divisas. Amassou uma fortuna nessas andanças (e, também, perdeu somas consideráveis nos crashes da época, como em 1929) e deu de ganhar às instituições de que era curador ou à companhia de seguros de que era presidente. Com os frutos dessas euforias “irracionais” dos mercados financiou os seus círculos de boémia, os seus hóbis culturais, a sua bailarina-mulher e o seu vício pelo coleccionismo de arte e ‘velharias’ literárias.

Mas tinha uma noção das proporções – a financeirização, que vinha crescendo desde os anos 1860, e que já provocara uma crise global em 1907 e 1908, tinha ele vinte e poucos anos, distorcia a dinâmica da economia capitalista. O filme repetira-se, depois, no final de 1929 com efeitos dramáticos de 1930 a 1933. O Mestre via essa financeirização como transformando a economia numa coutada de caçadores de rendas financeiras, o que os franceses chamavam de sistema rentier, uma “espécie” a quem o economista herético americano Thorstein Veblen (1857- 1929), que morreria antes do crash de Outubro de 1929, recomendava a eutanásia, como Keynes bem recordou, num dos seus momentos de maior ira – recorda-nos, hoje, com ironia, Skidelsky.

As duas mortes de Keynes

Keynes morreria em 1946, sem ter tido hipótese de ser galardoado com o Nobel da Economia (que só se iniciaria em 1968), depois de uma longa carreira como funcionário público (incluindo Director do Banco de Inglaterra, o banco central, e membro do Departamento do Tesouro, o equivalente ao nosso Ministério das Finanças), como perito em diplomacia económica (tendo participado na Conferência de Versalhes depois do final da 1ª Guerra Mundial e nos anos 1940 nas célebres negociações de Bretton-Woods), e como professor em Cambridge, onde os seus seminários de fim-de-semana ficaram célebres.

Morreria pela segunda vez nos anos 1970 – agora doutrinariamente. A revolução dos anti-keynesianos, iniciada na Escola de Chicago, na América, ridicularizou o mestre inglês, deitou para o caixote do lixo coisas “estranhas” como a ideia de que a economia era dominada pela incerteza e pelo desequilíbrio, alimentada pelas pulsões humanas que denominou de animal spirits e não por um arquétipo idealista, abstracto, de agente económico “racional”. Ainda por cima Keynes havia reabilitado o maldito Thomas Malthus, numa chapada dada aos fãs de David Ricardo.

Inclusive muitos dos seguidores de Keynes se renderam à nova economia formalista e empurraram o keynesianismo – ou pelo menos, a sua vulgata – para uma grande convergência com os inimigos teóricos do Mestre. Alguns deles seriam premiados com o Nobel. “Bastardos”, lhes chamou, com raiva, Joan Robinson (1903-1983), uma das discípulas, mais aguerridas, de Keynes em Cambridge, uma das mulheres mais proeminentes na Economia, que era, também, do círculo dos seus amigos. Aliás, com Virginia Woolf, a grande animadora do grupo intelectual rebelde e boémio de Bloomsbury em Londres, e com a bailarina russa sua mulher, Lydia Lopokova, a jovem Joan era um dos marcos femininos de então no espaço privado keynesiano muito marcado também pelos amigos íntimos. Muita gente lamenta, hoje, que Robinson nunca tenha recebido o Nobel de Economia – teria sido a primeira mulher, muito antes de Elinor Ostrom, este ano. Mas Joan Violet teve alguns pecadilhos, como o seu interesse pela revolução maoista desde o final dos anos 1950, depois das suas visitas à China.

Incerteza não é o mesmo que risco

Precisámos de mais de trinta anos, para reaprendermos, com dor, os marcos fundamentais do verdadeiro pensamento keynesiano, recorda Skidelsly, que os resume em três pilares (ver Caixa).

Mas há um pilar que o lorde inglês faz sobressair na discussão actual entre o keynesianismo e o pensamento liberal em economia: a questão da incerteza, que distingue do risco. “Muitas vezes estamos a falar de gestão de risco, quando deveríamos falar de gestão da incerteza”, se quisermos ser fiéis a Keynes, disse-nos Skidelsky.

Do seu ponto de vista, a maior contribuição de Keynes para a teoria económica foi a ênfase “na precariedade extrema da base de conhecimento” (nas próprias palavras do mestre) de que cada um de nós dispõe.

A nossa ignorância força-nos, como investidores, como empresários, como profissionais a basear as nossas decisões em ideias preconcebidas e em impulsos, por vezes de inovação, de ruptura, mas também inclusive de imitação, onde o pensamento de grupo (groupthinking, segundo Roland Benabou, num trabalho de 2008 sobre o seu papel nos mercados) impera. Animal spirits lhe chamou Keynes – o que motivaria um livro recente dos economistas americanos “comportamentalistas” George A. Akerlof e Robert J. Shiller.

E Keynes, provavelmente para surpresa de muitos leitores, não considerava essa pulsão como responsável por comportamentos “irracionais”. Ele nunca achou que os “agentes económicos” (para usar uma categoria do economês) actuavam como tontos. “Ele pensava o racional como ‘razoável’. Em geral, os seres humanos actuam com razoabilidade – obviamente tendo em conta o que as circunstâncias permitem. Nestas circunstâncias se inclui a irredutível incerteza. Actuar impulsionado pelo animal spirits era, para Keynes, algo racional face ao desconhecido, à incerteza”, sublinha-nos Skidelsky.

A redescoberta da dimensão geopolítica

As divergências no pensamento económico têm sido o prato forte da recordação de Keynes durante o pico desta recessão. A polémica entre Keynes e Hayek nos anos 1930, ainda em Inglaterra, entre fazer intervir ou não a política orçamental (o que levantava os temores de “socialização” da política macroeconómica, um risco que o pensamento anti-totalitário temia) e a política monetária (Hayek era pela sua neutralidade), é o que tem despertado, junto dos especialistas em história, maior interesse actual.

Mas há uma outra dimensão de Keynes que a emergência do G20 e o colapso de alguma herança dos acordos de Bretton Woods dos anos 1940, trouxeram à tona. É um aspecto esquecido da dimensão da vida e da obra do economista – o seu envolvimento na geopolítica, o ter sido protagonista dos confrontos geopolíticos do seu tempo, desde a primeira à quarta década do século XX.

“Ele era mais um pensador político e histórico. Podemos vê-lo, logo desde início da sua carreira literária, com a obra de 1919 intitulada Consequências Económicas da Paz, no caso era a Paz de Versalhes, após o final da 1ª Guerra Mundial”, diz-nos Colin Danby, da Universidade de Washginton. “Mas isso não encaixa muito bem na gaveta da economia como é geralmente entendida”, acrescenta. Keynes, então, avisou que a forma como a Alemanha derrotada estava a ser tratada pelos vencedores da 1ª Guerra Mundial produziria maus resultados – a realidade dar-lhe-ia razão década e meia depois, com o ascenso do totalitarismo nazi naquele país e o rebentar de nova Guerra Mundial. Esse aviso levou-o a afastar-se do lugar de representante oficial do Tesouro inglês nas negociações. O livro foi traduzido em 11 línguas (o que deu um retorno financeiro apreciável), mas os líderes das potências ganhadoras não lhe ligaram nem um segundo.

Keynes voltaria à diplomacia económica nos anos 1940, durante a 2ª Guerra Mundial. Ele negociou em 1941 um empréstimo americano à Inglaterra a troco do uso de bases inglesas estratégicas espalhadas pelo mundo. A primeira visita à terra do Tio Sam, em Maio de 1941, teria o Estoril como ponto de passagem de Keynes e da sua bailarina. Seguir-se-iam mais cinco viagens transatlânticas até 1946. O segundo ataque cardíaco da sua vida surpreendê-lo-ia numas escadas no Mount Washington Hotel em que decorriam as negociações de Bretton Woods em 1944, onde ele apresentou o que viria a ficar conhecido como “Plano Keynes”.

A ideia do economista inglês era criar uma nova divisa internacional, que apelidou de ‘bancor’, que se tornaria referência, substituindo o colapso da libra esterlina e evitando a transformação do dólar (apoiado no ouro) em centro da nova ordem monetária. Apesar do prestígio de Keynes e dos sorrisos trocados com os americanos, o plano alternativo de Harry Dexter White, assistente especial do Secretário do Tesouro americano, ganharia a parada.

Keynes, na ponta final da vida, era vencido pela geopolítica, pelo declínio inexorável do Império de Sua Majestade e pelo triunfo do Século Americano. Os americanos dar-lhe-iam de presente final uma última humilhação: Keynes reclamaria uma dádiva americana à Inglaterra de 6 mil milhões de dólares, como assistência à economia inglesa devastada pela guerra. O novo presidente americano, Harry Truman, aprovaria, apenas, um empréstimo, e não uma dádiva, de pouco mais de metade. E a contrapartida era o golpe final no Império Britânico: Washington exigia que a zona do esterlino (onde estava, por exemplo, o Portugal da ditadura salazarista) se abrisse de par em par ao comércio de terceiros.

Sessenta e cinco anos depois, os críticos do dólar como divisa internacional recordam a proposta visionária de Keynes. Até mesmo os líderes do banco central chinês o recordam hoje, ironizando contra os americanos. Keynes regressou, também, neste segundo round, a este ringue geopolítico. Veremos se ganha.

Veja se é um keynesiano

Os três pilares do pensamento do Mestre

1-      O futuro é incerto, não é apenas arriscado. O mercado é intrinsecamente instável. Esta incerteza é o fundamento das flutuações, das ‘bolhas’ e dos pânicos do capitalismo.

2-      As economias abaladas por estes choques, se deixadas em roda livre, entregues a si mesmas, poderão permanecer em situações de depressão prolongada com todas as consequências conhecidas (incluindo um desemprego trágico). Por isso, é indispensável uma política monetária, que não pode ser (nem nunca é) neutra, e uma política orçamental para estes tempos “anormais” (uma palavra usada cirurgicamente por Keynes). Acrescentava, ainda, que a manipulação das taxas de juro não era suficiente para derrotar as crises.

3-      As manias do capitalismo financeiro desenvolveram um sistema rentier que é tudo menos “um caminho para um mundo civilizado”.

Perfil do autor

Robert Skidelsky

É professor emérito de Economia Política, na Universidade de Warwick, em Inglaterra. Tornou-se internacionalmente uma referência com a sua trilogia sobre Keynes, publicada em 1983, 1992 e 2000, que foi muito premiada, e que continua a ser hoje a obra-chave para a compreensão da vida e obra do economista de Cambridge. O curioso em Skidelsky é que ele nunca tirou curso algum de Economia, considera-se mais um historiador. O seu encontro literário com Keynes deu-se em 1978 e a sua paixão pela obra e a vida do pensador e boémio levaram-no a arrendar por vinte anos a própria casa de campo em Tilton do Mestre. Deixou-a em 2006. Foi-lhe atribuído o titulo de Lorde. Passou, de raspão, pela política, como fundador do Partido Social-Democrata inglês nos anos 1980, criado como reacção ao esquerdismo do Partido Trabalhista. O PSD acabaria por se fundir com o Partido Liberal. Skidelsky, em fim de militância política, juntou-se, por algum tempo, aos conservadores. Tornou-se porta-voz da Oposição dos conservadores na Câmara dos Lordes, primeiro para os assuntos da Cultura e depois para as Finanças. Opôs-se ao bombardeamento da Jugoslávia pela NATO, o que lhe valeu o ódio conservador. Abandonou a política em 2001.Desde 2003 que é director não-executivo de um fundo, o Janus Capital, e, desde o ano passado, também da Sistema, a gigante das telecomunicações russas. É director da Escola de Estudos Políticos em Moscovo e presidente do Center for Global Studies, nos EUA. Escreve uma coluna mensal intitulada, apropriadamente, “Contra a Corrente”. Este mês, a abrir o novo ano, publica na Random House A World by Itself: A History of the British Iles, uma história breve do Reino Unido durante o século vinte. Tem em preparação um livro sobre globalização.

Versão original publicada na Revista portuguesa EXAME na edição de Janeiro de 2010. (c) Jorge Nascimento Rodrigues, 2010.

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